terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Espumas Flutuantes - OS TRÊS AMORES

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

OS TRÊS AMORES  

 Minh’alma é como a fronte sonhadora 
 Do louco bardo, que Ferrara chora... 
 Sou Tasso!... a primavera de teus risos 
 De minha vida as solidões enflora... 
 Longe de ti eu bebo os teus perfumes, 
 Sigo na terra de teu passo os lumes... 
 — Tu és Eleonora... 

II 
 Meu coração desmaia pensativo, 
 Cismando em tua rosa predileta. 
 Sou teu pálido amante vaporoso, 
 Sou teu Romeu... teu lânguido poeta!... 
 Sonho-te às vezes virgem... seminua... 
 Roubo-te um casto beijo à luz da lua... 
 — E tu és Julieta... 

III 
 Na volúpia das noites andaluzas 
 O sangue ardente em minhas veias rola... 
 Sou D. Juan!... Donzelas amorosas, 
 Vós conheceis-me os trenos na viola! 
 Sobre o leito do amor teu seio brilha... 
 Eu morro, se desfaço-te a mantilha...  
Tu és — Júlia, a Espanhola!...

Recife, setembro de 1866 


O FANTASMA E A CANÇÃO

Orgulho! desce os olhos dos céus sobre 
 ti mesmo; e vê como os nomes mais poderosos 
 vão se refugiar numa canção. 
 Byron 

— Quem bate? —“A noite é sombria!” 
 — Quem bate? — “É rijo o tufão!... 
 Não ouvis? a ventania 
 Ladra à lua como um cão.” 
 — Quem bate? — “O nome qu’importa? 
 Chamo-me dor... abre a porta! 
 Chamo-me frio... abre o lar! 
 Dá-me pão... chamo-me fome! 
 Necessidade “é o meu nome!” 
 — Mendigo! podes passar! 

“Mulher, se eu falar, prometes 
 A porta abrir-me?” — Talvez. 
 — “Olha... Nas cãs deste velho 
 Verás fanados lauréis. 
 Há no meu crânio enrugado 
 O fundo sulco traçado 
 Pela c’roa imperial. 
 Foragido, errante espectro, 
 Meu cajado — já foi cetro! 
 Meus trapos — manto real!”

— Senhor, minha casa é pobre... 
 Ide bater a um solar! 
 — “De lá venho... O rei fantasma 
 Baniram do próprio lar. 
 Nas largas escadarias, 
 Nas vetustas galerias, 
 Os pajens e as cortesãs, 
 Cantavam!... Reinava a orgia!... 
 Festa! Festa! E ninguém via 
 O rei coberto de cãs!” 

— Fantasma! Aos grandes que tombam, 
 É palácio o mausoléu! 
 — “Silêncio! De longe eu venho... 
 Também meu túmulo morreu.  
O sec’lo — traça que medra 
 Nos livros feitos de pedra — 
 Rói o mármore, cruel. 
 O tempo — Átila terrível Q
uebra co'a pata invisível 
 Sarcófago e capitel. 

“Desgraça então para o espectro, 
 Quer seja Homero ou Solon, 
 Se, medindo a treva imensa 
 Vai bater ao Panteon... 
 O motim — Nero profano — 
 No ventre da cova insano 
 Mergulha os dedos cruéis. 
 Da guerra nos paroxismos 
 Se abismam mesmo os abismos 
 E o morto morre outra vez! 

“Então, nas sombras infindas, 
 S’e esbarram em confusão 
 Os fantasmas sem abrigo 
 Nem no espaço, nem no chão... 
 As almas angustiadas, 
 Como águias desaninhadas, 
 Gemendo voam no ar. 
 E enchem de vagos lamentos 
 As vagas negras dos ventos, 
 Os ventos do negro mar!

“Bati a todas as portas 
 Nem uma só me acolheu!...” 
 — Entra! — Uma voz argentina 
 Dentro do lar respondeu. 
 — Entra, pois! Sombra exilada, 
 Entra! O verso — é uma pousada 
 Aos reis que perdidos vão. 
 A estrofe — é a púrpura extrema, 
 Último trono — é o poema! 
 Último asilo — a Canção!... 

Bahia, 13 de dezembro de 1869

continua pag 16...
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Prólogo / Hebreia Laço de fita / Mocidade e Morte / Os três amores / 
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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