quinta-feira, 19 de março de 2026

Espumas Flutuantes - Poesia e Mendicidade

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

POESIA E MENDICIDADE
No álbum da Ex.ma Sr.a d. Maria Justina 
 Proença Pereira Peixoto 
 
I

Senhora! A poesia outrora era a Estrangeira, 
 Pálida, aventureira, errante a viajar, 
 Batendo em duas portas — ao grito das procelas — 
 Ao céu — pedindo estrelas, à terra — um pobre lar! 

Visão — de áureos lauréis — porém de manto esquálido, 
 Mulher — de lábio pálido — e olhar — cheio de luz. 
 Seus passos nos espinhos em sangue se assinalam... 
 E os astros lhe resvalam — à flor dos ombros nus...

II

Olhai! O sol descamba... A tarde harmoniosa 
 Envolve luminosa a Grécia em frouxo véu. 
 Na estrada ao som da vaga, ao suspirar do vento, 
 De um marco poeirento um velho então se ergueu. 

Ergueu-se tateando... é cego... o cego anseia... 
 Porém o que tateia aquela augusta mão?... 
 Talvez busca pegar o sol, que lento expira!... 
 Fado cruel..., mentira!... Homero pede pão! 

III

Mas ai! volvei, Senhora, os vossos belos olhos 
 Daquele mar de abrolhos, a um novo quadro! olhai! 
 Do vasto salão gótico eu ergo o reposteiro... 
 O lar é hospitaleiro... Entrai, Senhora, entrai!  

Estamos na média idade. Arnês, gládio, armadura 
 Servem de compostura à sala vasta e chã. 
 A um lado um galgo esvelto ameiga e acaricia 
 A mão suave, esguia — a loura castelã. 

Vai o banquete em meio... O bardo se alevanta 
 Pega da lira... canta... uma canção de amor... 
 Ouvi-o! Para ouvi-lo a estrela pensativa 
 Alonga pela ogiva um raio de langor! 

Dos ramos do carvalho a brisa se debruça... 
 Na sala alguém soluça... (amor, ou languidez?) 
 Súbito a nota extrema anseia, treme, rola... 
 Alguém pede uma esmola... Senhora, não olheis!... 

Assim nos tempos idos a musa canta e pede... 
 Gênio e mendigo... vede!... o abismo de irrisões! 
 Tasso implora um olhar! Vai Ossian mendicante... 
 Caminha roto o Dante! e pede pão Camões.

IV

Bem sei, Senhora, que ao talento agora 
 Surgiu a aurora de uma luz amena. 
 Hoje há salário pra qualquer trabalho, 
 Cinzel, ou malho, ferramenta ou pena! 

 Melhor que o Rei sabe pagar o pobre 
 Melhor que o nobre — protetor verdugo —! 
 Foi surdo um trono... à maior glória vossa... 
 Abre-se a choça aos “Miseráveis” de Hugo. 

 Porém não sei se é por costume antigo, 
 Que inda é mendigo do cantor o gênio. 
 Mudem-se os panos do cenário a esmo 
 O vulto é o mesmo... num melhor proscênio... 

V

Hoje o Poeta — caminheiro errante, 
 Que tem saudades de um país melhor. 
 Pede uma pérola — à maré montante, 
 Do seio às vagas — pede — um outro amor. 

 Alma sedenta de ideal na terra 
 Busca apagar aquela sede atroz! 
 Pede a harmonia divinal, que encerra 
 Do ninho o chilro... da tormenta a voz! 

 E o rir da folha, o sussurrar da fala,  
Trenos da estrela no amoroso estio, 
 Voz que dos poros o Universo exala 
 Do céu, da gruta, do alcantil, do rio!

Pede aos pequenos, desde o verme ao tojo, 
 Ao fraco, ao forte... — preces, gritos, uivos... 
 Pede das águias o possante arrojo, 
 Para encontrar os meteoros ruivos. 

 Pede à mulher que seja boa e linda 
 — Vestal de um tipo que o ideal revela... 
 Pois ser formosa é ser melhor ainda... S
e és boa — és luz... mas se és formosa — estrela... 

 E pede à sombra, pra aljôfar de orvalhos 
 A fronte azul da solidão noturna, 
 E pede às auras, pra afagar os galhos. 
 E pede ao lírio, pra enfeitar a furna. 

 Pede ao olhar a maciez suave 
 Que tem o arminho e o edredom macio, 
 O aveludado da penugem d’ave, 
 Que afaga as plumas no palmar sombrio. 

...................................................................................

E quando encontra sobre a terra ingrata 
 Um reverbero do clarão celeste, 
 — Alma formada de uma essência grata, 
 Que a lua — doura, e que um perfume veste; 

 Um rir, que nasce como o broto em maio, 
 Mostrando seivas de bondade infinda, 
 Fronte que guarda — a claridade e o raio, 
 — Virtude e graça — o ser bondosa e linda... 

 Então, Senhora, sob tanto encanto 
 Pede o Poeta (que não tem renome) 
 — Versos — à brisa pra vos dar um canto... 
 Raios ao sol — pra vos traçar o nome!... 

 Bahia, 26 de janeiro de 1870


HINO AO SONO

Ó sono! ó noivo pálido 
 Das noites perfumosas,  
Que um chão de nebulosas 
 Trilhas pela amplidão! 
 Em vez de verdes pâmpanos, 
 Na branca fronte enrolas 
 As lânguidas papoulas, 
 Que agita a viração. 

Nas horas solitárias, 
 Em que vagueia a lua, 
 E lava a planta nua 
 Na onda azul do mar, 
 Com um dedo sobre os lábios 
 No voo silencioso, 
 Vejo-te cauteloso 
 No espaço viajar! 

Deus do infeliz, do mísero! 
 Consolação do aflito! 
 Descanso do precito, 
 Que sonha a vida em ti! 
 Quando a cidade tétrica 
 De angústias e dor não geme... 
 É tua mão que espreme 
 A dormideira ali. 

Em tua branca túnica 
 Envolves meio mundo... 
 É teu seio fecundo. 
 De sonhos e visões, 
 Dos templos aos prostíbulos, 
 Desde o tugúrio ao Paço, 
 Tu lanças lá do espaço 
 Punhados de ilusões!... 

Da vida o sumo rúbido, 
 Do hatchiz a essência 
 O ópio, que a indolência 
 Derrama em nosso ser, 
 Não valem, gênio mágico, 
 Teu seio, onde repousa 
 A placidez da lousa 
 E o gozo do viver... 

Ó sono! Unge-me as pálpebras... 
 Entorna o esquecimento 
 Na luz do pensamento, 
 Que abrasa o crânio meu. 
 Como o pastor da Arcádia, 
 Que uma ave errante aninha...
Minh’alma é uma andorinha... 
 Abre-lhe o seio teu. 

Tu, que fechaste as pétalas 
 Do lírio, que pendia, 
 Chorando a luz do dia 
 E os raios do arrebol, 
 Também fecha-me as pálpebras... 
 Sem Ela o que é a vida?... 
 Eu sou a flor pendida 
 Que espera a luz do sol.

O leite das eufórbias 
 Pra mim não é veneno... 
 Ouve-me, ó Deus sereno! 
 Ó Deus consolador! 
 Com teu divino bálsamo 
 Cala-me a ansiedade! 
 Mata-me esta saudade. 
 Apaga-me esta dor. 

Mas quando, ao brilho rútilo 
 Do dia deslumbrante, 
 Vires a minha amante 
 Que volve para mim, 
 Então ergue-me súbito... 
 É minha aurora linda... 
 Meu anjo... mais ainda... 
 É minha amante enfim! 

Ó sono! Ó Deus noctívago! 
 Doce influência amiga! 
 Gênio que a Grécia antiga 
 Chamava de Morfeu 
 Ouve!... E se minha súplicas 
 Em breve realizares... 
 Voto nos teus altares 
 Minha lira de Orfeu!... 

 São Paulo, 12 de julho de 1868

continua pag 42...
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O “Adeus” de Teresa / A Maciel Pinheiro / Pedro Ivo / Oitavas de Napoleão / Adormecida / Poesia e Mendicidade /     
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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