Simone de Beauvoir
02. A Experiência Vivida
O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR
SlMONE DE BEAUVOIR
SEGUNDA PARTE
SITUAÇÃO
______________________________________________________
CAPÍTULO III
A VIDA SOCIAL
continuando...
E em outro de seus livros, Le Toutounier, Colette evocou esse reverso da vida das mulheres. Três irmãs infelizes
ou inquietas era seus amores reúnem-se todas as noites ao redor
de um velho sofá de sua infância; aí se relaxam, ruminando
as preocupações do dia, degustando os prazeres fugidios de uma
refeição bem preparada, de um bom sono, de um banho quente,
de uma crise de lágrimas; não se falam quase, mas cada uma
cria para as outras uma espécie de ninho; e tudo o que ocorre
entre elas é verdadeiro.
Para certas mulheres essa intimidade frívola, cálida é mais
preciosa do que a pompa séria das relações com os homens. É
em outra mulher que a narcisista encontra, como no tempo de
sua adolescência, um duplo privilegiado; é em seus olhos atentos
e competentes que poderá admirar o vestido bem cortado, o
interior requintado. Para além do casamento, a amiga íntima
permanece uma testemunha de escol: pode também continuar a
apresentar-se como um objeto desejável, desejado. Em quase
toda moça, dissemos, há tendências homossexuais: os amplexos
muitas vezes inábeis do marido não as dissipam; daí essa doçura
sensual que a mulher conhece junto de suas semelhantes e que
não tem equivalência entre os homens normais. Entre as duas
amigas, o apego sensual pode sublimar-se em sentimentalismo
exaltado, ou se traduzir por carícias difusas ou precisas. Seus
amplexos podem também não passar de um jogo que ocupa seus
lazeres — é o caso das mulheres de harém, cuja principal preocupação consiste em matar o tempo — e que podem assumir
uma importância capital.
Entretanto, é raro que a cumplicidade feminina chegue a uma
verdadeira amizade; as mulheres sentem-se mais espontaneamente solidárias do que os homens, mas no seio dessa solidariedade não é uma para a outra que se superam; juntas, voltam-se para
o mundo masculino, cujos valores cada qual busca açambarcar
para si. Suas relações não se constroem sobre sua singularidade,
mas são imediatamente vividas em sua generalidade e, com isso,
introduz-se, desde logo, um elemento de hostilidade. Natacha
(cf. Tolstói, Guerra e Paz), que adorava as mulheres de sua
família porque lhes podia exibir os partos, entretanto tinha
ciúmes delas: em cada uma podia encarnar-se a mulher aos
olhos de Pierre. 0 entendimento das mulheres entre si provém do
fato de que se identificam umas às outras: mas por isso mesmo
cada uma contesta a companheira. Uma dona de casa tem
com a criada relações muito mais íntimas do que um homem
— a não ser que seja pederasta — com seu criado ou seu motorista; trocam confidências, são cúmplices por vezes; mas há também
entre elas uma rivalidade hostil, pois a patroa, embora livrando-se do fardo da execução do trabalho, quer ter a responsabilidade
dele e o mérito; ela quer imaginar-se insubstituível, indispensável.
"Basta não estar presente para que tudo vá mal." Ela tenta asperamente surpreender a criada em falta; se esta desempenha bem
demais suas tarefas, a outra não pode mais conhecer o orgulho
de ser a única. Da mesma maneira irrita-se sistematicamente
contra as preceptoras, governantas, amas, pajens que se ocupam
de sua progênie, contra os pais e as amigas que a auxiliam; dá
como pretexto o fato de que não respeitam "sua vontade", que
não se conduzem de acordo com "suas ideias"; na verdade, não
tem nem vontade nem ideias particulares; o que a agasta, ao
contrário, é que outras desempenhem suas funções exatamente
da maneira como ela o faria. Aí se encontra uma das fontes
principais de todas as discussões familiares e domésticas que
envenenam a vida do lar: a mulher exige tanto mais asperamente
ser a soberana quanto não tem nenhum meio de fazer com que
lhe reconheçam os méritos pessoais. Mas é principalmente no terreno do coquetismo e do amor que cada uma vê na outra uma
inimiga; assinalei essa rivalidade nas moças; pois perpetua-se
muitas vezes durante a vida toda. Vimos que o ideal da elegante, da mundana, é uma valorização absoluta; ela sofre por
não sentir uma auréola em volta da cabeça; é-lhe odioso perceber o mais tênue halo noutra fronte; todos os sufrágios que outra
recolhe lhe são roubados; e em que consiste um absoluto que
não seja único? Uma amante sincera contenta-se com ser glorificada num coração; não inveja os êxitos superficiais de suas
amigas mas sente-se em perigo no seu próprio amor. Na verdade, o tema da mulher enganada pela sua melhor amiga não é
apenas um lugar-comum literário; quanto mais duas mulheres
são amigas, mais perigosa se torna sua dualidade. A confidente
é convidada a ver através dos olhos da apaixonada, a sentir
com seu coração, com sua carne: é atraída pelo amante, fascinada pelo homem que seduz a amiga; acredita-se suficientemente protegida pela sua lealdade para não temer os próprios
sentimentos; agasta-se também com desempenhar somente um
papel inessencial: logo estará prestes a ceder, a oferecer-se. Prudentes, muitas mulheres, quando amam, evitam "as amigas íntimas". Essa ambivalência quase não permite às mulheres que
confiem em seus sentimentos recíprocos. A sombra do macho
lhes pesa sempre fortemente; mesmo quando não falam dele
pode-se lhes aplicar o verso de St.-John Perse:
E o sol não é nomeado, mas sua presença está entre nós¹.
[1] Et le soleir n'est pas nommé, mais sa présence est parmi nous.
Juntas vingam-se dele, armam-lhe armadilhas, amaldiçoam--no, insultam-no: mas esperam-no. Enquanto estagnam no gineceu, banham-se na contingência, no insulto e no tédio; esses limbos retiveram um pouco do calor do seio materno: mas são limbos. A mulher só se detém neles com prazer sob a condição de esperar emergir sem demora. Assim só se compraz na umidade morna do quarto de banho imaginando o salão iluminado em que logo entrará. As mulheres são companheiras de cativeiro, umas das outras, ajudam-se a suportar a prisão e até a preparar a fuga: mas o libertador virá do mundo masculino.
Para a grande maioria das mulheres, este mundo conserva seu
brilho depois do casamento; só o marido perde seu prestígio; a
mulher descobre que a pura essência de homem nele se degradou.
Contudo o homem continua sendo a verdade do universo, a autoridade suprema, a maravilhosa aventura, o senhor, o olhar, a
presa, a salvação, o prazer; encarna ainda a transcendência, é a
resposta a todas as perguntas. E a mais leal das esposas nunca
consente em renunciar inteiramente a ele para se encerrar na
morna companhia de um indivíduo contingente. Sua infância
deixou-lhe a necessidade imperiosa de um guia; quando o marido
malogra no desempenho desse papel, ela volta-se para outro
homem. Às vezes o pai, um irmão, um tio, um parente, um velho amigo conservou seu antigo prestígio: nele é que ela se
apoiará. Há duas categorias de homens cuja profissão os destina a tornarem-se confidentes e mentores: os padres e os médicos. Os primeiros têm a grande vantagem de não cobrar as
consultas; o confessionário entrega-os sem defesa à tagarelice
das devotas; fogem o quanto possível das "ratas de sacristia", das
"rãs de água benta", mas seu dever é orientar as ovelhas pelo
caminho da moral, dever tanto mais urgente quanto maior importância social e política têm as mulheres, pois a Igreja se esforça
por fazer delas seu instrumento. O "diretor de consciência" dita
à penitente suas opiniões políticas, manda em seu voto; e muitos
maridos se irritam ao vê-lo imiscuir-se em sua vida conjugai:
a ele é que cabe definir as práticas que são lícitas ou ilícitas
no segredo da alcova; ele se interessa pela educação dos filhos,
aconselha a mulher no que concerne ao conjunto das condutas
com o marido. E aquela que sempre saudou no homem um deus,
ajoelha-se delicada aos pés do macho que é o substituto terrestre
de Deus. O médico defende-se melhor pelo fato de reclamar
emolumentos; e pode fechar a porta às clientes por demais
indiscretas; mas são alvo de perseguições mais precisas, mais
obstinadas; três quartos dos homens que as erotômanas perseguem
são médicos; pôr-se nua diante de um homem representa para
muitas mulheres um grande prazer exibicionista.
Conheço algumas mulheres, diz Stekel, que encontram sua única satisfação em ser examinadas por um médico que lhes é simpático. Ê particularmente entre as solteironas que se encontra grande número de doentes que vão ver o médico para serem examinadas "cuidadosamente" por causa de fluxos de sangue sem importância ou de uma per turbação qualquer. Outras sofrem da fobia do câncer ou das infecções (nos W. C.) e tais fobias são um pretexto para se fazerem examinar.
Stekel cita, entre outros, os dois casos seguintes:
Uma solteirona, B. V., de 43 anos, rica, vai ao médico uma vez por mês, depois das regras, exigindo um exame muito cuidadoso porque acredita que algo não vai bem. Muda todos os meses de médico e representa todas as vezes a mesma comédia. O médico pede-lhe que se dispa e se deite sobre a mesa ou o sofá. Ela recusa, dizendo que é muito pudica, que não pode fazer semelhante coisa, que é antinatural. O médico insiste, persuade-a docemente, ela despe-se afinal, explicando que é virgem e que ele não deve machucá-la. Ele promete-lhe fazer um toque retal. Muitas vezes o orgasmo ocorre logo no início do exame; repete-se, mais intenso, durante o toque retal. Ela apresenta-se sempre sob um nome falso e paga imediatamente... Confessa que agiu com a esperança de ser violentada por um médico.
Mme L. M., 38 anos, casada, diz-me ser completamente insensível com o marido. Acaba de se fazer analisar. Depois de apenas duas sessões, confessa ter um amante. Mas ele não consegue fazê-la alcançar o orgasmo. Só o alcançava fazendo-se examinar por um ginecologista. (O pai era ginecologista!) Depois de aproximadamente duas ou três sessões, ela se sentiu na necessidade de ir a um médico para solicitar um exame. De tempos em tempos, pedia um tratamento e eram seus momentos mais felizes. Da última vez, um ginecologista fizera-lhe longa massagem por causa de uma pretensa queda da matriz. Cada massagem acarretara vários orgasmos. Ela explica sua paixão por esses exames pelo primeiro toque que provocara o primeiro orgasmo de sua vida.
A mulher imagina facilmente que o homem a quem se exibiu ficou impressionado com seu encanto físico ou a beleza de sua alma e assim se persuade, nos casos patológicos, de que é amada por um padre ou um médico. Mesmo normal, tem a impressão de que entre ela e ele existe um laço sutil; compraz-se em uma obediência respeitosa; por vezes, aliás, nisso encontra uma segurança que a ajuda a aceitar a vida.
Há mulheres, entretanto, que não se contentam com alicerçar a existência numa autoridade moral; têm também necessidade de exaltação romântica no seio dessa existência. Se não querem nem enganar nem abandonar o marido, recorrem à mesma manobra que a moça assustada com os machos de carne e osso: entregam-se a paixões imaginárias. Stekel (Mulher Fria) dá-nos vários exemplos:
Uma mulher casada, muito decente, da melhor sociedade, queixa-se de seu estado nervoso e de depressões. Uma noite, na ópera, dá-se conta de que está loucamente apaixonada pelo tenor. Sente-se profundamente agitada ao ouvi-lo. Torna-se uma admiradora fervorosa do cantor. Não perde nenhuma representação, compra a fotografia dele, sonha com ele, manda-lhe flores com esta dedicatória; "De uma desconhecida reconhecida". Resolve mesmo escrever-lhe uma carta (assinada igualmente por uma "desconhecida"). Mas permanece longe dele. Apresenta-se uma oportunidade de travar conhecimento com o cantor. Sabe de imediato que não irá. Não quer conhecê-lo de perto. Não precisa de sua presença. É feliz amando com entusiasmo e permanecendo uma esposa fiel.
Uma senhora entregava-se ao culto de Kainz, ator muito célebre em Viena. Instalara em seu apartamento um quarto de Kainz com numerosas fotografias do grande artista. Em um canto, havia uma biblioteca de Kainz. Tudo o que pudera colecionar: livros, brochuras ou jornais falando de seu herói, era cuidadosamente conservado assim como urna coleção de programas de teatro, de estreias ou de jubileus de Kainz. O tabernáculo era uma fotografia assinada pelo grande artista, Quando seu ídolo morreu, a mulher pôs luto durante um ano e empreendeu longas viagens para ouvir conferências sobre Kainz. O culto de Kainz imunizara seu erotismo e sua sensualidade.
Todos recordam com que lágrimas foi recebida a notícia da morte de Rodolfo Valentino. Tanto mulheres casadas como moças rendem culto a heróis de cinema. São, amiúde, as imagens deles que evocam em seus prazeres solitários ou quando, em seus amplexos conjugais, apelam para fantasmas; estes ressuscitam também muitas vezes sob a figura de um avô, um irmão, um professor etc, alguma recordação infantil.
continua página 305...
_______________
Leia também:
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Vida Social (4)
______________________
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
"O que é uma mulher?"
Nenhum comentário:
Postar um comentário