sexta-feira, 13 de março de 2026

Espumas Flutuantes - Adormecida

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

ADORMECIDA
Ses longs cheveux épars la couvrent sonie entière. 
 La croix de son collier repose dans sa main, 
 Comme pour témoigner qu’elle a fait sa prière. 
 Et qu’elle va la faire en s’éveillant demain. 
 Alfred de Musset 
 
Uma noite, eu me lembro... Ela dormia 
 Numa rede encostada molemente... 
 Quase aberto o roupão.... solto o cabelo 
 E o pé descalço do tapete rente.

‘Stava aberta a janela. Um cheiro agreste 
 Exalavam as silvas da campina... 
 E ao longe, num pedaço do horizonte, 
 Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados, 
 Indiscretos entravam pela sala, 
 E de leve oscilando ao tom das auras, 
 Iam na face trêmulos — beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago 
 Mesmo em sonhos a moça estremecia... 
 Quando ela serenava... a flor beijava-a... 
 Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia... 

Dir-se-ia que naquele doce instante 
 Brincavam duas cândidas crianças... 
 A brisa, que agitava as folhas verdes, 
 Fazia-lhe ondear as negras tranças! 

E o ramo ora chegava ora afastava-se... 
 Mas quando a via despeitada a meio, 
 Pra não zangá-la... sacudia alegre 
 Uma chuva de pétalas no seio... 

Eu, fitando esta cena, repetia 
 Naquela noite lânguida e sentida: 
 “Ó flor! — tu és a virgem das campinas! 
 “Virgem! — tu és a flor de minha vida!...” 
 São Paulo, novembro de 1868 




JESUÍTAS
Século XVIII 
Ó mes frères, je viens vous apporter mon Dieu, 
 Je viens vous apporter ma tête! 
Chátiments — Victor Hugo

Quando o vento da Fé soprava Europa, 
 Como o tufão, que impele ao ar a tropa 
 Das águias, que pousavam no alcantil; 
 Do zimbório de Roma — a ventania 
 O bando dos Apost’los sacudia 
 Aos cerros do Brasil.

Tempos idos! Extintos luzimentos! 
 O pó da catequese aos quatro ventos 
 Revoava nos céus... 
 Floria após na Índia, ou na Tartária, 
 No Mississipi, no Peru, na Arábia 
 Uma palmeira — Deus! — 

O navio Maltês, do Lácio a vela, 
 A lusa nau, as quinas de Castela, 
 Do Holandês a galé 
 Levavam sem saber ao mundo inteiro 
 Os vândalos sublimes do cordeiro, 
 Os átilas da fé.  

Onde ia aquela nau? — Ao Oriente. 
 A outra? — Ao Polo. A outra? — Ao Ocidente. 
 Outra? — Ao Norte. Outra? — Ao Sul. 
 E o que buscava? A foca além do polo; 
 O âmbar, o cravo do indiano solo, 
 Mulheres em ’Stambul.

Ouro — na Austrália; pedras — em Misora!... 
 “Mentira!” respondia em voz canora 
 O filho de Jesus... 
 “Pescadores!... nós vamos no mar fundo 
 “Pescar almas pra o Cristo em todo o mundo, 
 “Com um anzol — a cruz —!” 

Homens de ferro! Mal na vaga fria 
 Colombo ou Gama um trilho descobria 
 Do mar nos escarcéus, 
 Um padre atravessava os equadores, 
 Dizendo: “Gênios!... sois os batedores 
 Da matilha de Deus.” 

Depois as solidões surpresas viam 
 Esses homens inermes, que surgiam 
 Pela primeira vez. 
 E a onça recuando s’esgueirava 
 Julgando o crucifixo... alguma clava 
 Invencível talvez! 

O martírio, o deserto, o cardo, o espinho, 
 A pedra, a serpe do sertão maninho, 
 A fome, o frio, a dor, 
 Os insetos, os rios, as lianas, 
 Chuvas, miasmas, setas e savanas, 
 Horror e mais horror...  

Nada turbava aquelas frontes calmas, 
 Nada curvava aquelas grandes almas 
 Voltadas pra amplidão... 
 No entanto eles só tinham na jornada 
 Por couraça — a sotaina esfarrapada... 
 E uma cruz — por bordão. 

Um dia a taba do Tupi selvagem 
 Tocava alarma... embaixo da folhagem 
 Rangera estranho pé... 
 O caboc’lo da rede ao chão saltava, 
 A seta ervada o arco recurvava... 
 Estrugia o boré.

E o tacape brandindo, a tribo fera 
 De um tigre ou de um jaguar ficava à espera 
 Com gesto ameaçador... 
 Surgia então no meio do terreiro 
 O padre calmo, santo, sobranceiro, 
 O Piaga do amor.

Quantas vezes então sobre a fogueira, 
 Aos estalos sombrios da madeira, 
 Entre o fumo e a luz... 
 A voz do mártir murmurava ungida 
 “Irmãos! Eu vim trazer-vos — minha vida... 
 Vim trazer-vos — Jesus!”

Grandes homens! Apóstolos heroicos!... 
 Eles diziam mais do que os estoicos: 
 “Dor, — tu és um prazer! 
 “Grelha, — és um leito! Brasa, — és uma gema! 
 “Cravo, — és um cetro! Chama, — um diadema 
 “Ó morte, — és o viver!”   

Outras vezes no eterno itinerário 
 O sol, que vira um dia no Calvário 
 Do Cristo a santa cruz, 
 Enfiava de vir achar nos Andes 
 A mesma cruz, abrindo os braços grandes 
 Aos índios rubros, nus.

Eram eles que o verbo de Messias 
 Pregavam desde o vale às serranias, 
 Do Polo ao Equador... 
 E o Niágara ia contar aos mares... 
 E o Chimboraço arremessava aos ares 
 O nome do Senhor!... 
 São Paulo, 1868  

continua pag 38...
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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