Livro 1
Do Entendimento
Parte 1
Das ideias, sua origem, composição,
conexão, abstração, etc.
Seção V
Das relações
A palavra relação emprega-se correntemente em dois
sentidos bem diferentes um do outro: quer para designar
aquela qualidade pela qual duas ideias são ligadas entre si na
imaginação, e uma introduz a outra da maneira explicada
acima; quer para designar aquela circunstância particular pela
qual consideramos adequado comparar duas ideias, mesmo
quando elas estão unidas arbitrariamente na fantasia. Na
linguagem corrente é sempre no primeiro destes sentidos
que empregamos a palavra relação; e é apenas em filosofia
que o ampliamos de modo a designar qualquer objeto
particular de comparação, independentemente dum princípio de conexão. Assim, os filósofos concordarão que a
distância é uma verdadeira relação, visto que adquirimos
uma ideia dela comparando dois objetos; mas numa
expressão corrente dizemos que nada pode estar mais distante
do que tais ou tais coisas, nada pode ter menos relação, como se
houvesse incompatibilidade entre distância e relação.
Poderá talvez considerar-se tarefa infinda enumerar
todas as qualidades que permitem estabelecer urna comparação entre objetos e produzem as ideias de relação
filosófica. Mas se as considerarmos atentamente, notaremos facilmente que podem reduzir-se a sete títulos principais,
os quais podem considerar-se a fonte de todas as relações filosóficas. 1. O primeiro é a semelhança: é esta uma relação sem a qual nenhuma relação filosófica pode existir, visto que os objetos não admitirão comparação a não ser que tenham algum grau de semelhança. Contudo, embora a semelhança seja necessária a toda a relação filosófica, não se segue daí que produza sempre uma conexão ou associação de ideias. Quando uma qualidade se torna muito geral, e é comum a um grande número de indivíduos, não dirige a mente a nenhum deles diretamente mas, apresentando simultaneamente uma escolha demasiado grande, impede assim a imaginação de se fixar em qualquer objeto singular.
2. A identidade pode considerar-se uma segunda espécie de relação. Tomo aqui esta relação enquanto aplicada no seu sentido mais estrito a objetos constantes e imutáveis, sem examinar a natureza e o fundamento da identidade pessoal, o que terá lugar mais tarde. De todas as relações a mais universal é a da identidade, pois é comum a todos os seres cuja existência tem alguma duração.
3. Depois da identidade, as relações mais universais e
compreensivas são as de espaço e tempo, que estão na origem
de um número infinito de comparações, tais como distante,
contíguo, por cima, por baixo, antes, depois, etc.
4. Todos os objetos que admitem a quantidade ou o
número podem comparar-se quanto a este aspecto, o que
é outra fértil fonte de relações.
5.
Quando dois objetos quaisquer possuem em
comum a mesma qualidade, os graus em que eles a possuem
formam uma quinta espécie de relação. Assim, de dois
objetos, ambos pesados, um pode ter mais ou menos peso
do que o outro. Duas cores, que são da mesma espécie,
podem contudo ter cambiantes diferentes e, sob esse aspecto,
admitem comparação.
6. A relação de contrariedade pode à primeira vista ser
considerada uma excepção à regra de que nenhuma relação
de qualquer espécie pode existir sem algum grau de semelhança.
Mas consideremos que não há outro exemplo de duas ideias
contrárias entre si, além das ideias de existência e não-existência, as quais são manifestamente semelhantes, pois ambas
implicam uma ideia de objeto; embora a segunda exclua
o objeto de todos os tempos e lugares, em que se supõe
que ele não existe.
7. Quanto a todos os outros objetos, como o fogo e
a água, o calor e o frio, apenas se descobre que são contrários pela experiência e pela contrariedade das suas causas
ou efeitos, sendo esta relação de causa e efeito uma sétima
relação filosófica, bem como uma relação natural. A semelhança que esta relação implica será explicada mais tarde.
Poderia naturalmente esperar-se que eu acrescentasse
às outras relações a diferença; mas considero-a mais como
uma negação de relação do que como algo de real ou positivo. Há duas espécies de diferença, conforme se opõe à
identidade ou à semelhança. A primeira chama-se diferença de número, e a segunda de gênero.
continua na página 50...
______________
Prefácio / Introdução /
Livro 1: Do Entendimento Parte 1
___________________
4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro
Tradução do texto inglês intitulado
Tradução do texto inglês intitulado
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume,
segundo a edição da Oxford University Press,
Oxford, 1888
Nenhum comentário:
Postar um comentário