quarta-feira, 6 de maio de 2026

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 1: Seção V)

Da origem das nossas ideias

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 1
Das ideias, sua origem, composição, 
conexão, abstração, etc.

Seção V
Das relações

     A palavra relação emprega-se correntemente em dois sentidos bem diferentes um do outro: quer para designar aquela qualidade pela qual duas ideias são ligadas entre si na imaginação, e uma introduz a outra da maneira explicada acima; quer para designar aquela circunstância particular pela qual consideramos adequado comparar duas ideias, mesmo quando elas estão unidas arbitrariamente na fantasia. Na linguagem corrente é sempre no primeiro destes sentidos que empregamos a palavra relação; e é apenas em filosofia que o ampliamos de modo a designar qualquer objeto particular de comparação, independentemente dum princípio de conexão. Assim, os filósofos concordarão que a distância é uma verdadeira relação, visto que adquirimos uma ideia dela comparando dois objetos; mas numa expressão corrente dizemos que nada pode estar mais distante do que tais ou tais coisas, nada pode ter menos relação, como se houvesse incompatibilidade entre distância e relação.  
     Poderá talvez considerar-se tarefa infinda enumerar todas as qualidades que permitem estabelecer urna comparação entre objetos e produzem as ideias de relação filosófica. Mas se as considerarmos atentamente, notaremos facilmente que podem reduzir-se a sete títulos principais, os quais podem considerar-se a fonte de todas as relações filosóficas.

1. O primeiro é a semelhança: é esta uma relação sem a qual nenhuma relação filosófica pode existir, visto que os objetos não admitirão comparação a não ser que tenham algum grau de semelhança. Contudo, embora a semelhança seja necessária a toda a relação filosófica, não se segue daí que produza sempre uma conexão ou associação de ideias. Quando uma qualidade se torna muito geral, e é comum a um grande número de indivíduos, não dirige a mente a nenhum deles diretamente mas, apresentando simultaneamente uma escolha demasiado grande, impede assim a imaginação de se fixar em qualquer objeto singular. 
2. A identidade pode considerar-se uma segunda espécie de relação. Tomo aqui esta relação enquanto aplicada no seu sentido mais estrito a objetos constantes e imutáveis, sem examinar a natureza e o fundamento da identidade pessoal, o que terá lugar mais tarde. De todas as relações a mais universal é a da identidade, pois é comum a todos os seres cuja existência tem alguma duração. 
3. Depois da identidade, as relações mais universais e compreensivas são as de espaço e tempo, que estão na origem de um número infinito de comparações, tais como distante, contíguo, por cima, por baixo, antes, depois, etc. 
4. Todos os objetos que admitem a quantidade ou o número podem comparar-se quanto a este aspecto, o que é outra fértil fonte de relações. 
5. Quando dois objetos quaisquer possuem em comum a mesma qualidade, os graus em que eles a possuem formam uma quinta espécie de relação. Assim, de dois objetos, ambos pesados, um pode ter mais ou menos peso do que o outro. Duas cores, que são da mesma espécie, podem contudo ter cambiantes diferentes e, sob esse aspecto, admitem comparação. 
6. A relação de contrariedade pode à primeira vista ser considerada uma excepção à regra de que nenhuma relação de qualquer espécie pode existir sem algum grau de semelhança. Mas consideremos que não há outro exemplo de duas ideias contrárias entre si, além das ideias de existência e não-existência, as quais são manifestamente semelhantes, pois ambas implicam uma ideia de objeto; embora a segunda exclua o objeto de todos os tempos e lugares, em que se supõe que ele não existe. 
7. Quanto a todos os outros objetos, como o fogo e a água, o calor e o frio, apenas se descobre que são contrários pela experiência e pela contrariedade das suas causas ou efeitos, sendo esta relação de causa e efeito uma sétima relação filosófica, bem como uma relação natural. A semelhança que esta relação implica será explicada mais tarde. 

     Poderia naturalmente esperar-se que eu acrescentasse às outras relações a diferença; mas considero-a mais como uma negação de relação do que como algo de real ou positivo. Há duas espécies de diferença, conforme se opõe à identidade ou à semelhança. A primeira chama-se diferença de número, e a segunda de gênero.

continua na página 50...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888

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