sábado, 21 de fevereiro de 2026

Espumas Flutuantes - Pedro Ivo

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

PEDRO IVO 
 Sonhava nesta geração bastarda 
 Glórias e liberdade!... 
 ..................................................... 
 Era um leão sangrento, que rugia,
Da glória nos clarins se embriagava, 
 E vossa gente pálida recuava, 
 Quando ele aparecia. 
 Álvares de Azevedo 

 Rebramam os ventos... 
Da negra tormenta 
 Nos montes de nuvens galopa o corcel... 
 Relincha — troveja... galgando no espaço 
 Mil raios desperta co'as patas revel. 

 É noite de horrores... nas grunas celestes, 
 Nas naves etéreas o vento gemeu... 
 E os astros fugiram, qual bando de garças 
 Das águas revoltas do lago do céu. 

 E a terra é medonha... As árvores nuas 
 Espectros semelham fincados de pé, 
 Com os braços de múmias, que os ventos retorcem, 
 Tremendo a esse grito, que estranho lhes é. 

 Desperta o infinito... Co’a boca entreaberta 
 Respira a borrasca do largo pulmão. 
 Ao longe o oceano sacode as espáduas 
 — Encelado novo calcado no chão. 

 É noite de horrores... Por ínvio caminho 
 Um vulto sombrio sozinho passou, 
 Co’a noite no peito, co’a noite no busto 
 Subiu pelo monte, — nas cimas parou. 

 Cabelos esparsos ao sopro dos ventos, 
 Olhar desvairado, sinistro, fatal, 
 Diríeis estátua roçando nas nuvens, 
 Pra qual a montanha se fez pedestal. 

 Rugia a procela — nem ele escutava!... 
 Mil raios choviam — nem ele os fitou! 
 Com a destra apontando bem longe a cidade, 
 Após largo tempo sombrio falou!... 

II 
 Dorme, cidade maldita, 
 Teu sono de escravidão!... 
 Dorme, vestal da pureza, 
 Sobre os coxins do Sultão!... 
 Dorme, filha da Geórgia 
 Prostituta em negra orgia 
 Sê hoje Lucrécia Bórgia  
Da desonra no balcão!...

Dormir?!... Não! Que a infame grita 
 Lá se alevanta fatal... 
 Corre o champagne e a desonra 
 Na orgia descomunal... 
 Na fronte já tens o laço... 
 Cadeia de ouro no braço, 
 De pérolas um baraço, 
 — Adornos da saturnal! 

 Louca!... Nem sabe que as luzes, 
 Que acendeu pra as saturnais, 
 São do enterro de seus brios 
 Tristes círios funerais... 
 Que o seu grito de alegria 
 É o estertor da agonia, 
 A que responde a ironia 
 Do riso de Satanás!... 

 Morreste... E ao teu saimento 
 Dobra a procela no céu. 
 E os astros — olhar dos mortos — 
 A mão da noite escondeu. 
 Vê!... Do raio mostra a lampa 
 Mão de espectro, que destampa 
 Com dedos de ossos a campa, 
 Onde a glória adormeceu. 

 E erguem-se as lápidas frias, 
 Saltam bradando os heróis: 
 “Quem ousa da eternidade 
 Roubar-nos o sono a nós?” 
 Responde o espectro: A desgraça! 
 Que a realeza, que passa, 
 Com o sangue da vossa raça, 
 Cospe o lodo sobre vós!...” 

 Fugi, fantasmas augustos! 
 Caveiras que coram mais, 
 Do que essas faces vermelhas 
 Dos infames párias!... 
 Fugi do solo maldito... 
 Embuçai-vos no infinito!... 
 E eu por detrás do granito 
 Dos montes ocidentais... 

 Eu também fujo... Eu fugindo!!... 
 Mentira desses vilões!  
Não foge a nuvem trevosa 
 Quando em asas de tufões, 
 Sobe dos céus à esplanada, 
 Para tomar emprestada 
 De raios uma outra espada, 
 À luz das constelações!... 

 Como o tigre na caverna 
 Afia as garras no chão, 
 Como em Elba amola a espada 
 Nas pedras — Napoleão, 
 Tal eu — vaga encapelada, 
 Recuo de uma passada, 
 Pra levar de derribada 
 Rochedos, reis, multidões...! 

III 
 “Pernambuco! Um dia eu vi-te 
 Dormindo imenso ao luar, 
 Com os olhos quase cerrados, 
 Com os lábios — quase a falar... 
 Do braço o clarim suspenso, 
 — O punho no sabre extenso 
 De pedra — recife imenso, 
 Que rasga o peito do mar... 

 E eu disse: Silêncio, ventos! 
 Cala a boca, furacão! 
 No sonho daquele sono 
 Perpassa a Revolução! 
 Este olhar que não se move 
 Stá fito em — Oitenta e nove — 
 Lê Homero — escuta Jove... 
 — Robespierre — Dantão. 

 Naquele crânio entra em ondas 
 O verbo de Mirabeau... 
 Pernambuco sonha a escada, 
 Que também sonhou Jacó... 
 Cisma a República alçada, 
 E pega os copos da espada, 
 Enquanto em su’alma brada: 
 “Somos irmãos, Vergniaud.” 

 Então repeti ao povo: 
 — Desperta do sono teu! 
 Sansão — derroca as colunas! 
 Quebra os ferros — Prometeu! 
 Vesúvio curvo — não pares,  
Ígnea coma solta aos ares, 
 Em lavas inunda os mares, 
 Mergulha o gládio no céu. 

 República!... Voo ousado 
 Do homem feito condor! 
 Raio de aurora inda oculta, 
 Que beija a fronte ao Tabor! 
 Deus! Por que enquanto que o monte 
 Bebe a luz desse horizonte, 
 Deixas vagar tanta fronte, 
 No vale envolto em negror?!... 


Inda me lembro... Era, há pouco, 
 A luta!... Horror!... Confusão!... 
 A morte voa rugindo 
 Da garganta do canhão!... 
 O bravo a fileira cerra!... 
 Em sangue ensopa-se a terra!... 
 E o fumo — o corvo da guerra — 
 Com as asas cobre a amplidão... 

 Cheguei!... Como nuvens tontas, 
 Ao bater no monte — além, 
 Topam, rasgam-se, recuam... 
 Tais a meus pés vi também 
 Hostes mil na luta inglória... 
 ... Da pirâmide da glória 
 São degraus... Marcha a vitória, 
 Porque este braço a sustém. 

 Foi uma luta de bravos, 
 Como a luta do jaguar. 
 De sangue enrubesce a terra, 
 — De fogo enrubesce o ar!... 
 ... Oh!... mas quem faz que eu não vença? 
 — O acaso... — avalanche imensa, 
 Da mão do Eterno suspensa, 
 Que a ideia esmaga ao tombar!... 

 Não importa! A liberdade 
 É como a hidra, o Anteu. 
 Se no chão rola sem forças, 
 Mais forte do chão se ergueu... 
 São os seus ossos sangrentos 
 Gládios terríveis, sedentos... 
 E da cinza solta aos ventos 
 Mais um Graco apareceu!...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 
 Dorme, cidade maldita! 
 Teu sono de escravidão! 
 Porém no vasto sacrário 
 Do templo do coração, 
 Ateia o lume das lampas, 
 Talvez que um dia dos pampas 
 Eu surgindo quebre as campas, 
 Onde te colam no chão. 

 Adeus! Vou por ti maldito 
 Vagar nos ermos pauis. 
 Tu ficas morta, na sombra, 
 Sem vida, sem fé, sem luz!... 
 Mas quando o povo acordado 
 Te erguer do tredo valado, 
 Virá livre, grande, ousado, 
 De pranto banhar-me a cruz!...

IV 
 Assim falara o vulto errante e negro, 
 Como a estátua sombria do revés. 
 Uiva o tufão nas dobras de seu manto, 
 Como um cão do senhor ulula aos pés... 

 Inda um momento esteve solitário 
 Da tempestade semelhante ao deus, 
 Trocando frases com os trovões no espaço 
 Raios com os astros nos sombrios céus... 

 Depois sumiu-se dentre as brumas densas 
 Da negra noite — de su’alma irmã... 
 E longe... longe... no horizonte imenso 
 Ressonava a cidade cortesã!... 

 Vai!... Do sertão esperam-te as Termópilas 
 A liberdade inda pulula ali... 
 Lá não vão vermes perseguir as águias, 
 Não vão escravos perseguir a ti! 
 
Vai!... Que o teu manto de mil balas roto 
 É uma bandeira, que não tem rival. 
 — Desse suor é que Deus faz os astros... 
 Tens uma espada, que não foi punhal. 

 Vai, tu que vestes do bandido as roupas, 
 Mas não te cobres de uma vil libré 
 Se te renega teu país ingrato 
 O mundo, a glória tua pátria é!...
.............................................................. 

 V 
 E foi-se... E inda hoje nas horas errantes, 
 Que os cedros farfalham, que ruge o tufão, 
 E os lábios da noite murmuram nas selvas 
 E a onça vagueia no vasto sertão. 

 Se passa o tropeiro nas ermas devesas, 
 Caminha medroso, figura-lhe ouvir 
 O infrene galope d’Espectro soberbo, 
 Com um grito de glória na boca a rugir. 

 Que importa se o túm’lo ninguém lhe conhece? 
 Nem tem epitáfio, nem leito, nem cruz?... 
 Seu túmulo é o peito do vasto universo, 
 Do espaço — por cúpula — as conchas azuis!... 

 ... Mas contam que um dia rolara o oceano 
 Seu corpo na praia, que a vida lhe deu... 
 Enquanto que a glória rolava sua alma 
 Nas margens da história, na areia do céu!... 

 Recife, maio de 1865

continua pag 32...
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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