quarta-feira, 6 de maio de 2026

Cinema: O Padre e a Moça

"Ninguém prende aqueles dois"


Em uma cidade de Minas Gerais, a chegada de um jovem padre causa uma agitação no ambiente conservador do lugar, agravada pela atração que este padre sente por uma moça. Mariana era filha de um garimpeiro arruinado que aos dez anos de idade foi dada por seu pai a Fortunato para que ele a criasse. O comerciante tomou Mariana por amante quando ela se tornou moça e queria se casar com ela mas o padre Antônio negou. Depois do enterro do vigário, o novo padre aceita realizar o casamento mas fica relutante ao saber que Mariana o deseja e que ele também a quer. Esta história de amor proibido se transforma em paixão desenfreada.





Direção:
Joaquim Pedro de Andrade

Roteiristas:
Joaquim Pedro de Andrade
Carlos Drummond de Andrade


Produção de 1966

Elenco:
Helena Ignez como Mariana
Paulo José como Padre
Mário Lago como Fortunato
Fauzi Arap como Vitorino
Rosa Sandrini

Crítica:
“O Padre e a Moça” (1966) é um filme sobre o interior. O ponto central da trama se dá no conflito gerado pelo desejo, e Joaquim consegue utilizar do cenário estabelecido desde os minutos iniciais para potencializar esse conflito. Numa cidadezinha pequena no interior de Minas Gerais onde todos os moradores se conhecem, as casas são abertas e as figuras religiosas desempenham um papel de grande destaque na comunidade, a chegada do novo padre e o surgimento de uma relação íntima com uma das moradoras bagunça a dinâmica local. Para continuar lendo a crítica do filme clique AQUI.



O PADRE, A MOÇA
Carlos Drummond de Andrade
Lição das Coisas. Editora José Olympio, março de 1962

1.
O padre furtou a moça, fugiu
Pedras caem no padre, deslizam
A moça grudou no padre, vira sombra,
aragem matinal soprando no padre.
Ninguém prende aqueles dois,
Aquele um
         Negro amor de rendas brancas.
Lá vai o padre,
atravessa o Piauí, lá vai o padre,
bispos correm atrás, lá vai o padre,
lá vai o padre lá vai o padre lá vai o padre,
diabo em forma de gente, sagrado.

Na capela ficou a ausência do padre
E celebra a missa dentro do arcaz.
Longe o padre vai celebrando vai cantando
todo amor é o amor e ninguém sabe
onde Deus acaba e recomeça.

2.
Forças volantes atacam o padre, quem disse
que exércitos vencem o padre? Patrulhas
rendem-se
O helicóptero
desenha no ar o triângulo santíssimo,
o padre recebe bênçãos animais, ternos relâmpagos
douram a face da moça.
E no alto da serra
O padre
entre as cordas da chuva
o padre
no arcano da moça
o padre.

Vamos cercá-los, gente, em Goiás
Quem sabe se em Pernambuco?
Desceu o Tocantins, foi visto em Macapá Corumbá Jaraguá Pelotas
em pé no caminho da BR 15 com seu rosário
na mão
        lá vai
e a moça vai dentro dele, é reza de padre.

Ai que não podemos
contra vossos poderes
guerrear
ai que não ousamos
contra vossos mistérios
debater
ai que de todo não sentimos
contra vosso pecado
contra vosso pecado

Perdoai-nos, padre, porque vos perseguimos.

3.
E o padre não perdoa: lá vai
levando o Cristo e o Crime no alforje
e deixa marcas de sola de poeira.
Chagas se fecham, tocando-as,
filhos resultam de ventre estéril
mudos e árvores falam
tudo é testemunho
Só um anjo de asas secas, voando de Crateús,
senta-se à beira-estrada e chora
porque Deus tomou o partido do padre.

Em cem léguas de sertão
é tudo estalar de joelhos
      no chão
é tudo implorar ao padre
que não leve outras meninas
para seu negro destino
ou que leve tão leve
que ninguém lhes sinta falta,
amortalhadas, dispersas
na escureza da batina.

Quem tem sua filha moça
padece muito vexame;
contempla-se numa poça
de fel em cerca de arame.

Mas se foi Deus quem mandou?
        Anhos imolados

não por sete alvas espadas
mas por um dardo do céu:
que se libere esta presa
à sublime natureza
de Deus com fome de moça.
Padre, levai nossas filhas!

O vosso amor, padre, queima
como fogo de coivara
não saberia queimar.
E o padre, sem se render
ao ofertório das virgens,
lá vai, coisa preta no ar.

Onde pousa o padre
é Amor-de-Padre
onde bebe o padre
é Beijo-de-Padre
onde dorme o padre
é Noite-de-Padre
mil lugares-padre
ungem o Brasil
mapa vela acesa.

4.
Mas o padre entristece. Tudo engoiva
em redor. Não, Deus é astúcia,
e para maior pena, maior pompa.
Deus é espinho. E está fincado
No ponto mais suave deste amor.

Se toda a natureza vem a bodas,
e os homens se prosternam,
e a lei perde o sumo, o padre sabe
o que não sabemos nunca, o padre esgota
o amor humano.

A moça beija a febre do seu rosto.
há um gládio brilhando na alta nuvem
que eram só carneirinhos há um instante.
– Padre, me roubaste a donzelice
ou fui eu que te dei o que era dável?

Não fui eu quem te amei como se ama
Aquilo que é sublime e vem trazer-me,
        rendido,
o que eu não merecia mas amava?
Padre, sou teu pecado, tua angústia?
Tua alma se escraviza à tua escrava?
És meu prisioneiro, estás fechado
em meu cofre de gozo e de extermínio,
e queres liberar-te? Padre, fala!
ou antes, cala. Padre, não me digas
que no teu peito amor guerreia amor,
e que não escolheste para sempre.

Para ler a poesia completa, clique AQUI.


Assista ao filme e depois venha aqui...




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