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domingo, 20 de setembro de 2026

Odisseia: Parte II (Canto VI.b - Odisseu chega à Feácia)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu na Ilha de Calipso e na Feácia¹ 
Canto VI

Odisseu chega à Feácia

    “Atena aparece em sonho para Nausícaa, filha de Alcínoo, e manda-a ir lavar suas roupas no rio, pois seu casamento está próximo. Ela faz o que é pedido. Depois, ela brinca com suas servas. Odisseu ouvindo-as, acorda. Pedindo a Nausícaa, recebe alimento e vestimentas, seguindo-a, então, até a cidade.” (Scholie P Q V)
continuando...

pois os meus olhos jamais contemplaram tão nobre vergôntea 
entre quaisquer dos mortais; reverente me deixa tua vista. 
Uma só vez coisa igual contemplei: junto às aras de Apolo, 
na ilha de Dela, rebento viçoso de esbelta palmeira. 
Fora, também, até lá, acompanhado de séquito grande, 
numa viagem que fonte de acerbo sofrer me seria. 
Da mesma forma fiquei muito tempo enlevado em mirá-la, 
pois uma planta como essa jamais pela terra nascera. 
Dessa maneira te admiro, mulher, extasiado, mas temo 
ir abraçar-te os joelhos, conquanto por males premido.

Ontem, após vinte dias, salvei-me do mar cor de vinho. 
Todo esse tempo, trouxeram-me as ondas e as atras procelas 
desde a ilha Ogígia. Afinal, arrojou-me um demônio a estas plagas, 
para sofrer, porventura, mais dores. Não creio que estejam 
para acabar-se, que os deuses, por certo, outros males me aprestam. 
Por isso tudo, senhora, te imploro piedade; primeiro 
que a ninguém mais te suplico na angústia, porque não conheço 
dos habitantes nenhum, que demoram por estas paragens. 
Mostra onde fica a cidade e um pedaço de pano me cede 
para cobrir-me, se acaso o trouxeste envolvendo tua roupa.

Deem-te os deuses obter quantos bens no mais íntimo almejas, 
casa e marido, assim como com ele viver em concórdia 
sem semelhante, pois nada é mais grato, nem mais de almejar-se, 
do que marido e mulher governarem, acordes, a casa, 
em comunhão de vontades. Com isso os imigos se irritam, 
mas os amigos exultam; ao máximo os dois rejubilam.” 
Diz-lhe Nausícaa, de cândidos braços, então, em resposta: 
“Não me parece que sejas estulto nem mau, estrangeiro. 
O próprio Olímpico Zeus dá variados presentes aos homens, 
a todos eles, os bons e os ruins, como o peito lhe pede.

Deu-te, também, a tua parte; ora cumpre sofrer com paciência. 
Visto, porém, teres vindo à cidade e país que habitamos, 
necessitado de roupa não hás de ficar por mais tempo, 
nem do restante que os pobres costumam pedir aos estranhos. 
Hei de mostrar-te a cidade e dizer qual o nome do povo. 
São os Feácios os que na cidade e na terra demoram. 
Enquanto a mim, sou nascida de Alcínoo, de peito magnânimo, 
que entre os Feácios impera e detém o governo e o comando.” 
   Disse; e às escravas de tranças bem-feitas ordena, em seguida: 
“Ora detende-vos, servas. Fugis só à vista de um homem? 

Ou presumis que ele vem para nós com malévolo intento? 
Nunca nasceu nenhum homem, que espere alcançar longa vida, 
nem há de haver, que chegasse aos Feácios e à terra em que moram, 
para algum dano causar-lhes, pois todos são caros aos deuses. 
Nós a de parte moramos de todos, no mar cheio de ondas, 
últimos seres humanos, sem termos contato com outros. 
Este, porém, que nos chega, é estrangeiro infeliz e vagante, de quem 
nos cumpre cuidar. Vêm de Zeus poderoso os mendigos 
e os estrangeiros; embora pequenas, são gratas as dádivas. 
Ora, criadas, ao hóspede dai alimento e bebida,

e ide banhá-lo no rio, em lugar protegido dos ventos.” 
   A essas palavras as servas detêm-se e entre si se encorajam. 
Para lugar abrigado, no rio, Odisseu conduziram, 
como Nausícaa o ordenara, de Alcínoo magnânimo filha. 
Para vestir-se puseram-lhe ao lado uma túnica e um manto, 
e um frasco de ouro no qual óleo havia, com que se esfregasse, 
e na corrente do rio o invitaram, depois, a banhar-se. 
Mas o divino Odisseu às criadas falou deste modo: 
   “Ora afastai-vos um pouco, que eu mesmo a salsugem marinha 
quero dos ombros tirar e esfregar-me, em seguida, com óleo,

pois o meu corpo, há bem tempo, carece de tantos desvelos. 
É-me impossível banhar-me na vossa presença; envergonho-me 
de desnudar-me na frente de moças de tranças bem-feitas.” 
   Disse; afastaram-se as servas e foram contá-lo à donzela. 
Lava-se, entanto, Odisseu na corrente, tirando da pele 
toda a salsugem deposta no dorso e nas largas espáduas, 
e dos cabelos a espuma empastada do mar infecundo. 
Quando acabou de banhar-se e esfregar todo o corpo com óleo, 
na roupa envolve-se que lhe a donzela pudica cedera. 
Fê-lo ficar a nascida de Zeus, de olhos glaucos, Atena

muito mais digno de ver e mais forte, caindo-lhe os cachos 
em caracóis, da cabeça, tal como os da flor do jacinto. 
Do mesmo modo que artista perito derrama na prata 
lâminas de ouro, discíp’lo que fora de Hefesto e de Palas 
em variados misteres, e faz admiráveis trabalhos: 
Palas, assim, na cabeça e nos ombros infunde-lhe graça. 
Este, afastando-se, foi assentar-se na praia marinha, 
resplandecente de graça e beleza. Admirou-o a donzela, 
e dirigindo-se às servas de tranças bem-feitas lhes disse: 
   “Ora atendei ao que digo, criadas de cândidos braços.

Não é, decerto, contrário à vontade dos deuses, que habitam 
o vasto Olimpo, ter vindo este herói aos deiformes Feácios. 
Logo a princípio, em verdade, indivíduo vulgar pareceu-me; 
mas vejo-o agora tal como um dos deuses, que moram no Olimpo. 
Se me coubesse por sorte alcançar um marido como este 
e lhe agradasse ficar aqui mesmo e entre nós ter morada! 
Ora, criadas, ao hóspede dai alimento e bebida.”¹
   Obedientes, as servas fizeram como ela ordenara, 
pondo bebida e alimentos ao lado do nobre guerreiro. 
Com avidez o divino e sofrido varão come e bebe,

pois muitos dias havia que estava em jejum doloroso. 
Outro artifício concebe Nausícaa de cândidos braços: 
manda dobrar toda a roupa e depô-la no carro bem-feito, 
fez que no jugo pusessem as mulas robustas, e sobe, 
por sua vez, concitando Odisseu da maneira seguinte: 
   “Hóspede, agora me segue à cidade; desejo mostrar-te 
onde reside meu pai valoroso. Verás lá reunidos 
em sua casa os mais nobres senhores do povo Feácio. 
Desta maneira procede; insensato não creio que sejas: 
enquanto apenas cortamos por campos lavrados por homens,

segue de perto as donzelas e as mulas robustas e o carro, 
com passo rápido; eu própria hei de à frente o caminho mostrar-te. 
Alcançaremos depois a cidade e seus muros altivos; 
ancoradouro aprazível em cada um dos lados ostenta; 
é pouco larga a passagem entre eles; no seco se encontram 
as naus simétricas, tendo cada uma um tendal ajustado. 
A ágora vê-se, também, junto ao templo de linhas perfeitas 
do deus Posido, construída com blocos cravados no solo. 
Só com os pertences das naves escuras os homens se ocupam, 
cordas e todo o velame, e também de falcar belos remos,

pois os Feácios, de fato, não cuidam de aljavas nem de arcos, 
mas só de mastros e remos e naves de linhas simétricas; 
isso para eles é festa, e vogar pelo mar pardacento. 
Quero evitar comentários do povo; não vá censurar-me, 
com ironia, um qualquer; insolentes não faltam na terra. 
Pode bem ser que encontremos um desses, que diga, maldoso: 
‘Quem será esse estrangeiro, que segue a Nausícaa, tão belo 
e de tal porte? Onde o achou? Com certeza o escolheu para esposo. 
É, porventura, transviado varão, que ela traz de um navio, 
desses de terras longínquas, pois perto de nós ninguém mora,

ou qualquer deus que baixasse do Olimpo, atendendo
a seus rogos, a quem constante suplica; ora sempre ao seu lado vai tê-lo. 
Foi bem melhor que ela própria quisesse buscar o consorte 
em terra estranha, uma vez que despreza os rapazes Feácios. 
Muitos a têm pretendido, entre os filhos mais nobres da terra.’ 
Isto, sem dúvida alguma, dirão, para minha vergonha. 
Mas eu, também, censurara donzela que assim procedesse, 
que à revelia dos que lhe são caros, dos pais ainda vivos, 
aparecesse entre os homens, sem ter ainda as núpcias firmado. 
Ora, estrangeiro, concede-me toda a atenção, porque possas

logo alcançar de meu pai companheiros, que à pátria te levem. 
Perto da estrada hás de ver o magnífico bosque de Atena, 
de negros álamos, onde há uma fonte; é cercado de um prado. 
Nesse lugar tem meu pai um florido jardim, seu terreno, 
que da cidade se encontra a distância somente de grito. 
Senta-te e espera, até vires que tempo tivemos bastante 
de penetrar na cidade e alcançar de meu pai o palácio. 
Mas, logo que presumires que a casa tenhamos chegado, 
podes, então, dirigir-te à cidade dos homens Feácios, 
onde te cumpre indagar da morada de Alcínoo guerreiro.

Ela é mui fácil de ser conhecida; até ingênua criança 
te indicará, pois nenhuma das casas dos outros Feácios 
tem semelhança com essa em que mora o magnânimo Alcínoo. 
Logo porém, que tiveres entrado na casa e no pátio, 
corta através dos salões, porque o posto alcançar logo possas 
de minha mãe, que se encontra sentada à lareira, fiando 
lã cor de púrpura ao brilho do fogo, espetác’lo admirável. 
Tem por encosto a coluna; por trás as criadas se encontram. 
Junto a essa mesma coluna se vê de meu pai a poltrona, 
onde costuma sentar-se, qual deus, a libar com bom vinho.

Não te detenhas aí, mas procura abraçar os joelhos 
de nossa mãe, porque possas rever o teu dia da volta 
sem mais demora, ainda mesmo que te aches mui longe da pátria. 
Caso te escute e em seu peito propícia se mostre à tua sorte, 
podes a esp’rança afagar de rever os amigos, e a casa 
bem-construída voltar, assim como ao torrão de nascença.” 
   Tendo assim dito, espertou com o brilhante chicote a parelha 
de fortes mulas, que céleres deixam o curso do rio, 
a percorrer o caminho, ora a trote, ora a passos medidos. 
Mui cautelosa, as dirige Nausícaa, estalando o chicote,

para que as servas, bem como Odisseu, para trás não ficassem. 
Punha-se o sol, quando todos o célebre bosque alcançaram 
à deusa Atena sagrado, onde o divo Odisseu se deteve, 
que logo faz suas preces à filha de Zeus poderoso: 
   “Ouve-me agora, ó donzela invencível, de Zeus proveniente! 
Dá-me atenção, já que dantes embalde te envicei meus gemidos, 
quando me fez naufragar o deus forte, que sacode a terra. 
Faze que os Feácios de mim se apiedem e amigos se mostrem.” 
   Dessa maneira suplica Odisseu. Ouve-o Palas Atena, 
mas não se atreve a visível ficar, porque ao tio paterno

teme, em verdade, o qual sempre e veemente se mostra indignado 
contra o deiforme Odisseu, té que à pátria não fosse chegado.²

continua página 755...
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Prelúdio
Parte I
Parte II
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto VI.a / Canto VI.b /                        
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] Este trecho marca o instante em que Nausícaa, já tocada pela presença de Odisseu, deixa de vê‑lo como um náufrago desconhecido e passa a reconhecê‑lo como alguém digno de admiração — talvez até de afeto. É uma virada emocional delicada e decisiva na Odisseia.
     A mudança de percepção: do “vulgar” ao “quase divino”
Nausícaa confessa às servas que, à primeira vista, Odisseu lhe pareceu um homem comum, até rude. Mas agora, após ouvir sua fala e observar sua postura, ela o vê “como um dos deuses que moram no Olimpo”. Essa mudança é essencial: revela a sensibilidade da jovem; mostra o poder da palavra de Odisseu; prepara o terreno para a hospitalidade feácia. Odisseu, mesmo exausto, nu, coberto de sal e sofrimento, consegue irradiar dignidade — e Nausícaa percebe isso.
     O desejo velado: “Se me coubesse por sorte alcançar um marido como este…”
Este é um dos momentos mais humanos e belos do canto: Nausícaa imagina Odisseu como marido.
Não é uma declaração explícita de amor, mas um suspiro de possibilidade, típico da juventude e da delicadeza da personagem. Homero constrói Nausícaa como uma figura de pureza e graça, e aqui ela se permite sonhar — ainda que discretamente. Esse detalhe é fundamental para compreender: a ternura da cena; a abertura emocional da jovem; o contraste entre o mundo doméstico feácio e a dureza das aventuras de Odisseu.
     Hospitalidade: alimento e bebida ao hóspede
Depois de expressar sua admiração, Nausícaa dá instruções às servas: “Ora, criadas, ao hóspede dai alimento e bebida.” Esse gesto é mais que cortesia — é xenia, a hospitalidade sagrada que rege o mundo grego. Nausícaa assume o papel de anfitriã, mesmo sendo jovem, mostrando: liderança; generosidade; senso de dever; respeito às normas divinas. Atena, que guiou tudo desde o sonho, vê sua influência florescer aqui.
     Por que este trecho é tão importante na narrativa?
- Humaniza Nausícaa, ela não é apenas princesa: é uma jovem que sente, imagina, admira.
- Eleva Odisseu, mesmo em seu estado mais vulnerável, ele inspira respeito e encanto.
- Marca o início da hospitalidade feácia, sem este gesto, Odisseu não chegaria ao palácio de Alcínoo.
- Mistura o épico ao lírico, a cena tem um tom quase pastoral, suave, luminoso.
- Cria tensão narrativa, há um brilho de romance possível — mas o destino de Odisseu é Ítaca.

[2] Este trecho conclui de maneira magistral o episódio do encontro entre Nausícaa e Odisseu, e prepara a transição para a chegada do herói ao palácio dos Feácios. A cena é cheia de simbolismo, delicadeza narrativa e intervenção divina.
     A partida da carruagem e o cuidado de Nausícaa
Nausícaa conduz a parelha de mulas com habilidade e cautela: alterna trote e passos medidos; mantém as servas e Odisseu próximos; age como guia e protetora. Esse detalhe reforça o caráter da jovem: ela é responsável, atenta, graciosa, e já exerce uma liderança natural entre as companheiras.
     O bosque de Atena: o ponto de transição
Ao pôr do sol, o grupo chega ao bosque sagrado de Atena. Ali, Odisseu se detém — e isso é significativo: ele respeita o espaço divino; reconhece a presença e a influência da deusa; prepara-se para entrar em um novo ciclo de sua jornada. O bosque funciona como limiar narrativo: é o ponto entre o sofrimento do naufrágio e a esperança da hospitalidade feácia.
     A prece de Odisseu: humildade e consciência divina
Odisseu ora à “donzela invencível”, Atena, pedindo: que os Feácios se mostrem piedosos; que o recebam como amigo; que sua sorte finalmente mude. Ele lembra que antes já havia clamado à deusa “embalde”, quando Poseidon o fez naufragar. Essa lembrança reforça a tensão entre as divindades: Atena o protege, mas Poseidon o persegue, e Odisseu está preso entre essas forças.
     Atena ouve — mas não aparece
Este é um dos detalhes mais sutis e importantes do canto: Atena escuta a prece, mas não ousa aparecer visivelmente. Por quê? Porque ela teme a ira de Poseidon, seu tio, que está furioso com Odisseu desde a cegueira de Polifemo. A deusa, portanto: age nos bastidores; protege sem se mostrar; guia sem intervir abertamente. É uma forma de intervenção discreta, típica da Odisseia, onde os deuses moldam o destino com delicadeza, não com estrondo.
Por que este trecho é tão importante?
- Marca o fim da fase de desamparo de Odisseu. Ele está prestes a entrar no mundo acolhedor dos Feácios.
- Mostra a maturidade de Nausícaa. Ela conduz, protege, organiza — e abre caminho para a hospitalidade. 
- Revela a relação complexa entre Atena e Poseidon. A deusa ajuda, mas com cautela, respeitando a hierarquia divina.
- Prepara o clima para o encontro com Alcínoo e Arete. odisseu está espiritualmente pronto para pedir auxílio.
- Mistura o épico ao sagrado. A narrativa passa do cotidiano (mulheres, mulas, roupas) ao divino (bosque, prece, intervenção).


Odisseia, de Homero - Canto 6 - Odisseu na Ilha dos Feácio


Odisseia: Parte II (Canto VI.a - Odisseu chega à Feácia)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu na Ilha de Calipso e na Feácia¹ 
Canto VI

Odisseu chega à Feácia

    “Atena aparece em sonho para Nausícaa, filha de Alcínoo, e manda-a ir lavar suas roupas no rio, pois seu casamento está próximo. Ela faz o que é pedido. Depois, ela brinca com suas servas. Odisseu ouvindo-as, acorda. Pedindo a Nausícaa, recebe alimento e vestimentas, seguindo-a, então, até a cidade.” (Scholie P Q V)


   Dessa maneira o divino e sofrido Odisseu repousava, 
pelo cansaço vencido e também pelo sono. Mas Palas 
se dirigiu para a terra e cidade dos homens Feácios, 
que em tempos idos moravam nas vastas planícies da Hipéria, 
junto dos homens Ciclopes, soberbos acima de todos, 
que lhes os bens depredavam por serem de muito mais força. 
Desse lugar conduziu-os Nausítoo de forma divina 
para o terreno da Esquéria, afastado dos homens industres. 
Fez circundar a cidade com muros, construir belas casas,

bem como templos aos deuses. O campo entre o povo divide. 
Mas, pela Parca apanhado, já havia descido para o Hades; 
era de Alcínoo o poder, que dos deuses obtinha conselhos. 
A de olhos glaucos, Atena, dirige-se para sua casa, 
a refletir como a volta do herói Odisseu aprestasse. 
Já pelo quarto de bela feitura penetra, onde encontra 
uma donzela a dormir, parecendo, no aspecto gracioso, 
deusa imortal: é Nausícaa, de Alcínoo magnânimo filha. 
Junto duas servas dormiam, das Graças irmãs favoritas, 
de cada lado da porta brilhante, que estava fechada.

Voa, qual sopro do vento, até o leito em que estava a donzela, 
fica-lhe junto à cabeça e lhe diz as seguintes palavras 
sob a aparência da filha do célebre nauta Dimante, 
que a mesma idade contava e Nausícaa entre as mais distinguia. 
A de olhos glaucos, Atena, lhe disse, sob essa aparência: 
   “Como, Nausícaa, tua mãe te gerou descuidada a tal ponto? 
Sem nenhum trato abandonas, assim, teus vestidos brilhantes? 
Próximo é o dia de teu casamento, em que é força te ornares 
com belas roupas; estas, também, ofertares ao cortejo. 
Disso virá receberes do povo os mais altos encômios

e sobremodo alegrar-se teu pai e a consorte pudica. 
Eia! Apressemo-nos logo a lavar, mal que a Aurora desponte. 
Quero ir contigo a ajudar-te, a fim que possas tudo depressa 
determinar, porque inupta não hás de ficar muito tempo. 
Já requestada por moços distintos amiúde tens sido 
entre os Feácios, a que por nobreza de origem pertences. 
Vamos! Exorta teu pai, antes mesmo que a Aurora apareça, 
porque te apreste a carruagem e as mulas de cascos possantes 
para que os cintos e peplos e as belas cobertas te levem. 
Muito mais próprio é que vás desse modo, que a pé pela estrada.

Os lavadoiros se encontram mui longe daqui da cidade.”¹ 
   A de olhos glaucos, Atena, afastou-se ao falar tais palavras, 
e retornou para o Olimpo, onde a sede, é sabido, se encontra, 
sempre tranquila, dos deuses. Por ventos jamais é abalada, 
nem por tormentas de chuva ou por neve; escampado, infinito, 
o éter por cima se estende, impregnado de luz irradiante. 
Todos os dias ali passam ledos os deuses beatos, 
para onde Atena retorna, depois de falar à donzela.
Logo que a Aurora de trono dourado surgiu no horizonte, 
do sono a jovem desperta. Admirou-se Nausícaa do sonho,

e aos genitores resolve contá-lo; à procura vai deles. 
Ambos despertos já estavam na sala interior do palácio. 
Junto do lar a mãe fiava, por servas prestantes cercada, 
lã cor de púrpura; ao pai a donzela encontrou justamente 
quando a soleira transpunha da porta para ir ao conselho 
dos altos príncipes Feácios, que o haviam, de pouco, chamado. 
Ao pai querido achegando-se, diz-lhe as seguintes palavras: 
   “Caro paizinho, seria possível o carro aprestares, 
alto e de rodas bem-feitas, a fim de que as roupas luzentes 
possa levar para o rio, que sujas bastante se encontram?

Fica-te muito mais próprio, com vestes bem limpas no corpo, 
entre os primeiros sentares-te, quando reunido o conselho. 
Meus cinco manos diletos também no palácio demoram: 
dois, já casados; os outros restantes, no viço da idade. 
Estes, só querem vestir-se com roupa lavada de pouco, 
sempre que vão para os bailes. É a mim que está afeto isso tudo.” 
   Disse, evitando, desta arte, por pejo, falar em noivado 
ao pai querido, que tudo compreende e lhe diz, em resposta: 
   “Nem te recuso essas mulas, ó filha, nem nada que peças. 
Vai que os criados o carro bonito irão logo aprontar-te,

alto e de rodas bem-feitas, provido, também, de capota.” 
   Tendo  isso dito, deu ordens aos servos, que logo obedecem. 
Do lado externo da casa aprontaram o carro de mulas, 
de boas rodas, e as mulas puseram no jugo e atrelaram. 
Sai dum dos quartos a serva trazendo os brilhantes vestidos, 
para depô-los em ordem, na caixa do carro polido, 
enquanto a mãe num cabaz gulodices gostosas dispunha, 
das mais variadas, além de manjares, enchendo de vinho 
odre de pele de cabra; a donzela subiu para o carro. 
Fez que levasse, também, óleo líquido num frasco de ouro

para com as servas ungir-se, depois que do banho saíssem. 
Toma das rédeas brilhantes Nausícaa e, também, do chicote, 
para que as mulas pudesse espertar, que arrancaram ruidosas, 
a galopar velozmente, levando a donzela e os vestidos, 
mas não sozinha, que a pé outras servas ao lado a seguiam. 
   Quando chegaram, por fim, ao lindíssimo curso do rio — 
lá se encontravam as fontes perenes, com água bastante, 
bela de ver e capaz de branquear até a roupa mais suja — 
foi nessa altura que as mulas tiraram do jugo do carro 
e as impeliram, depois, para a margem do rio revolto,

a fim de a grama gostosa pastarem. Do carro, no entanto, 
tomam as roupas nos braços e as levam para a água profunda, 
calcam-nas logo nos tanques, porfiando em perícia elas todas. 
Logo que as peças lavaram, limpando-as de todas as nódoas, 
em fila ao longo da praia estenderam-nas, por onde os seixos 
são pelas ondas lavados, que vêm contra a costa quebrar-se. 
Banho, depois, tomam todas, passando óleo puro no corpo, 
para, em seguida, almoçar junto à margem do rio elevada, 
onde ficaram à espera que o Sol toda a roupa secasse. 
Quando se acharam, porém, satisfeitas, Nausícaa e suas servas

de si lançaram os véus, entregando-se ao jogo da bola. 
Guia Nausícaa, de braços bonitos, as outras na dança. 
Ártemis dessa maneira costuma vagar pelos montes, 
quer no Taígeto longo, quer mesmo no próprio Erimanto, 
a deleitar-se na caça de cervos ou céleres gamos. 
Ninfas agrestes a seguem, as filhas de Zeus poderoso, 
a divertirem-se; no íntimo Leto também rejubila, 
e entre as demais sobressai, destacando-se a fronte e a cabeça; 
fácil será conhecê-la, conquanto as demais sejam belas: 
do mesmo modo salienta-se a casta donzela entre as servas.

Quando, porém, já pensava em voltar para casa de novo 
e pôr as mulas no carro e dobrar as esplêndidas roupas, 
a de olhos glaucos, Atena, concebe outro plano engenhoso 
para Odisseu acordar e ver logo a formosa donzela, 
que deveria levá-lo à cidade dos homens Feácios. 
Joga a princesa para uma das suas criadas a bola, 
sem que, porém, acertasse, indo a bola cair na corrente. 
Todas em grita prorrompem; desperta o divino guerreiro, 
senta-se e logo no espírito e no coração excogita: 
   “Pobre de mim! A que terra cheguei? Quais os homens que a habitam?

São, porventura, selvagens violentos, que as leis desconheçam, 
ou de estrangeiros amigos, e afeitos ao culto dos deuses? 
Como de moças, soou-me aos ouvidos um grito estridente, 
provavelmente de ninfas, que moram nos picos dos montes, 
pelas nascentes dos rios, ou mesmo nos prados ervosos. 
Eis-me, por certo, chegado ao convívio de gentes que falam. 
Vamos! Eu próprio hei de logo a verdade saber com meus olhos.” 
   Tendo isso dito, saiu de entre os ramos o divo guerreiro; 
quebra com mãos poderosas um galho da espessa floresta, 
cheio de folhas vivazes, a fim de esconder as vergonhas.

Como leão montanhês avançou, que, na força confiado, 
marcha, sem que possam ventos nem chuva detê-lo; cintilas 
lançam-lhe os olhos; no rasto se atira de bois e de ovelhas, 
ou mesmo corças silvestres; a fome a avançar o compele 
contra rebanhos e, até, a exp’rimentar-se em curral bem fechado: 
dessa maneira Odisseu se resolve a avançar para as moças 
de belas tranças, pesar de estar nu; era força fazê-lo. 
Desfigurado aparece-lhes pela salsugem marinha. 
Elas, com susto, correram de um lado para outro, até a margem. 
Somente a filha de Alcínoo ficou, pois lhe Atena infundira

grande coragem no peito, tirando-lhe o medo dos membros. 
Ante Odisseu se detém, enquanto ele reflete, indeciso, 
se, suplicante, os joelhos da bela menina abarcasse, 
ou, como estava, de longe a implorasse com termos melífluos, 
para mostrar-lhe a cidade e, também, qualquer roupa ceder-lhe. 
Tendo assim, pois, refletido, afinal pareceu-lhe mais certo 
de onde se achava, de longe, afetuosa linguagem falar-lhe, 
não fosse a jovem zangar-se, ao querer abraçar-lhe os joelhos. 
Por isso tudo, dá início ao discurso afetuoso e pensado: 
   “Os joelhos ora te abraço, senhora; és mortal ou divina?

Se uma das deusas tu fores, daquelas que o céu vasto habitam, 
é a Ártemis, principalmente, de Zeus poderoso nascida, 
que te comparo, na forma elegante e elevada estatura. 
Mas, se pertences à raça dos homens que vivem na terra,
julgo três vezes feliz ser teu pai e sua nobre consorte, 
três vezes, sim, teus irmãos. Quanto deve no peito estuar-lhes 
o coração, por tua causa, movido de pura alegria, 
ao contemplarem nos bailes criatura de tanta esbelteza! 
Mas, sobre todos, feliz no mais íntimo aquele que a casa 
vier a levar-te depois que exceler-se nos dotes da noiva,²

continua página 748...
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Parte I
Parte II
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto VI.a / Canto VI.b /                        
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] A cena que você trouxe é um dos momentos mais delicados e encantadores da Odisseia: Atena, disfarçada, aparece a Nausícaa em sonho para incentivá‑la a ir lavar as roupas — ação que, no desenrolar do poema, levará ao encontro decisivo entre a jovem feácia e Odisseu.
     O sonho de Nausícaa: quando a deusa prepara o destino
- A deusa não surge em sua forma divina, mas disfarçada como uma amiga da jovem. Isso é típico da Odisseia: Atena age de modo sutil, doméstico, quase íntimo, moldando os acontecimentos sem violência.
- Ela repreende Nausícaa com doçura: A jovem está descuidada com seus vestidos; o casamento se aproxima; e é preciso preparar roupas bonitas para si e para o cortejo.
Esse detalhe é essencial: o casamento é o horizonte natural da vida de Nausícaa, e Atena usa esse tema para motivá‑la.
     Na cultura grega antiga, lavar e preparar roupas não é apenas tarefa doméstica: é um rito de passagem, ligado à maturidade, à honra familiar e à apresentação pública da mulher.
     Atena lembra que: o povo a louvará se ela se mostrar bem preparada; seus pais ficarão felizes; ela já é cortejada por jovens feácios. Ou seja, Nausícaa está entrando na idade adulta — e Atena a conduz nesse processo.
     A instrução prática da deusa
Atena orienta Nausícaa a: pedir ao pai a carruagem e as mulas; levar cintos, peplos e cobertas; ir aos lavadoiros, que ficam longe da cidade. Essa parte é quase prosaica, mas é justamente o que torna o episódio tão belo: o divino se mistura ao cotidiano. Atena não fala de batalhas, profecias ou monstros — fala de roupas, mulas e caminhos. E é essa simplicidade que abre espaço para o encontro com Odisseu.
     Por que este trecho é tão importante na narrativa?
- É o início da virada da sorte de Odisseu, sem Nausícaa indo aos lavadoiros, ele não encontraria abrigo entre os feácios.
- Mostra o cuidado de Atena, a deusa age como guia, protetora e estrategista, preparando o terreno para o herói.
- Constrói Nausícaa como personagem, ela não é apenas uma princesa: é uma jovem à beira da vida adulta, sensível, responsável e graciosa.
- Mistura o doméstico ao épico, a Odisseia é um poema que valoriza o cotidiano — e este episódio é exemplar.

[2] Este trecho é um outro dos momentos belos e delicados da Odisseia: o encontro entre Odisseu e Nausícaa, quando o herói, recém‑naufragado, precisa decidir como abordar a jovem princesa sem assustá‑la. É uma cena de extrema sensibilidade narrativa, e Homero trabalha aqui com nuances psicológicas raras na épica antiga.
     Odisseu diante de Nausícaa: hesitação, respeito e estratégia
Odisseu “reflete, indeciso” sobre como se aproximar:
- Agarra os joelhos da jovem? Esse gesto é o símbolo máximo da súplica na cultura grega — mas também é íntimo demais para uma moça solteira.
- Ou fala de longe, com doçura? Isso preservaria a dignidade da jovem e evitaria que ela se assustasse.
A escolha de Odisseu revela sua inteligência emocional: ele sabe que, sendo um desconhecido, nu, sujo e recém‑saído do mar, qualquer aproximação brusca poderia ser interpretada como ameaça.
     A decisão: falar de longe, com palavras melífluas. O herói opta por manter distância e usar a linguagem como ponte. Esse é um traço essencial de Odisseu: ele vence pela palavra antes de vencer pela força. Ele teme que Nausícaa se zangue se ele tocar seus joelhos — e essa preocupação mostra respeito, autocontrole e consciência social.
     O discurso: elogio, reverência e estratégia narrativa. Odisseu inicia sua fala com uma pergunta que mistura reverência e admiração: “És mortal ou divina?” Ele compara Nausícaa a Ártemis, deusa da juventude e da pureza — uma imagem que ressalta a beleza e a postura da jovem. 
Se ela for humana, Odisseu declara: 
- feliz o pai, que gerou tal filha;
- feliz a mãe, que a criou;
- felizes os irmãos, que a veem brilhar nos bailes;
- feliz sobretudo o futuro marido, que a levará para casa.
Esse elogio é mais que cortesia: é uma estratégia retórica perfeita.
Odisseu: exalta Nausícaa sem ultrapassar limites; mostra respeito à família; insinua que reconhece sua posição social; cria empatia e confiança. É o tipo de discurso que abre portas — e, de fato, abrirá.
     Por que este trecho é tão importante?
- Marca o início da salvação de Odisseu. Sem Nausícaa, ele não chegaria ao palácio de Alcínoo nem retornaria a Ítaca.
- Mostra o domínio absoluto de Odisseu sobre a palavra. Ele lê a situação, adapta o tom, escolhe a distância, molda o discurso.
- Constrói Nausícaa como figura luminosa. Ela é pura, graciosa, acolhedora — e sua presença traz um sopro de serenidade ao poema.
- Mistura o épico ao lírico. A cena é quase um encontro pastoral, suave, humano, em contraste com a violência da Ilíada.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Odisseia: Parte II (Canto V.c)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu na Ilha de Calipso e na Feácia¹ 
Canto V

A Caverna de Calipso e a balsa de Ulisses

    “Formando uma segunda assembleia dos deuses, Zeus envia Hermes para Calipso mandando libertar Odisseu. Ela faz o que é ordenado. No décimo oitavo dia, Posido o vê e, se irritando, desfaz a balsa. Mas Ino lhe entrega o seu véu com ordem de o devolver assim que chegar à terra. Depois de muito sofrimento, salvo, chega à terra dos Feácios.” (Scholie P Q V)


continuando...

inumeráveis jogavam, em torno do morto Pelida. 
Honras funéreas teria e aos Aqueus minha fama espalharam. 
Ora é razão que pereça por modo assim mísero e escuro.” 
   Disse, no ponto em que uma onda mui grande se lança, de cima, 
terrivelmente, contra ele, abalando-lhe os paus da jangada, 
para atirá-lo bem longe, obrigando-o a soltar, desse modo, 
das mãos o leme. Partiu-se-lhe o mastro no meio, forçado 
por turbilhão tempestuoso de ventos num vórtice unidos. 
Longe nas ondas é a vela jogada com a verga ainda presa. 
Por muito tempo Odisseu submergido ficou, sem que do ímpeto

da onda pudesse livrar-se e surdir novamente à flor da água, 
pois lhe pesavam as vestes que a ninfa Calipso lhe dera, 
té que, por fim, veio à tona, expelindo da boca a salgada 
água amargosa, que em fio lhe escorre, também, da cabeça. 
Não se esqueceu da jangada, conquanto se achasse extenuado; 
mas, pelas ondas abrindo caminho, agarrou-se-lhe presto, 
sobe e se assenta no meio, escapando, com isso, da Morte. 
Ei-la jogada de um lado para outro por ondas enormes. 
Tal como Bóreas, soprando na vasta planície, os espinhos 
leva do cardo, que em número grande entre si se amontoam:

dessa maneira, no pélago os ventos a atiram sem rumo, 
ora por Noto lançada até Bóreas, que adiante a levasse, 
ora deixada por Euro ao capricho da sanha de Zéfiro.  
   Mas Leucoteia o avistou, a nascida de Cadmo com o nome 
de Ino, de pés bem-moldados, que voz de mortal já possuíra, 
e ora nas ondas do mar participa das honras dos deuses. 
Vendo Odisseu padecer à mercê da corrente, apiedou-se; 
qual mergulhão que surdisse das águas, à tona ela emerge, 
na bem-trançada jangada se assenta e o consola desta arte: 
   “Qual o motivo de estar contra ti tão zangado o que os muros

térreos sacode e que tanto te oprime com males sem conta? 
Não poderá aniquilar-te, apesar de que muito o deseje. 
Presta atenção ao que digo, não creio que o senso te falte: 
despe essas vestes e deixa a jangada ao sabor, tão somente, 
dos próprios ventos; a nado, depois, vê se à terra feácia 
podes chegar, onde o Fado te apresta encontrar salvamento. 
Toma este véu imortal e o traspassa por baixo do peito. 
Dessa maneira não temas nenhum sofrimento nem Morte. 
Mas, depois que com tuas mãos alcançar conseguires a terra, 
tira-o de novo e nas ondas escuras do mar o projeta,

longe da praia, mantendo em tudo isso teu rosto virado.” 
   Essas palavras, o véu entregando-lhe, a deusa lhe disse, 
para, em seguida, atirar-se de novo nas ondas marinhas, 
qual mergulhão. Pelas ondas escuras foi logo escondida. 
Mas fica em dúvida ainda Odisseu, o guerreiro solerte; 
vendo-se em tanta aflição, ao magnânimo espírito fala: 
   “Pobre de mim, tenho muito receio de que outra cilada 
queira um dos deuses fazer-me, mandando que largue a jangada. 
De forma alguma dar-lhe-ei atenção, pois mui longe dos olhos 
vejo o lugar em que disse haveria encontrar salvamento.

Antes farei doutro modo, que mais vantajoso parece: 
por quanto tempo no engaste ficarem as tábuas seguras, 
continuarei na jangada, a sofrer até o fim os trabalhos; 
mas, depois que pelas ondas divinas for toda desfeita, 
hei de nadar, pois não sei de outro plano de mais eficiência.” 
   No coração e no espírito dessa maneira reflete. 
Fez surgir logo Posido, que a terra sacode, uma vaga 
cheia de grandes perigos, que se arca e sobre ele desaba. 
Bem como vento impetuoso, que monte de palha desmancha, 
para levá-lo em remoinho de um lado para outro desfeito:

dessa maneira o mar forte os pranchões espalhou. Odisseu 
monta num deles, tal como se fosse cavalo de pista. 
Despe-se logo das roupas que a ninfa Calipso lhe dera, 
para que o véu imortal, apressado, no peito cingisse. 
Prono se lança no meio das ondas, os braços abrindo 
para nadar. Viu-o o deus que os pilares da terra sacode; 
move, zangado, a cabeça, e consigo comenta o seguinte: 
   “Voga, desta arte, no mar, continuando a sofrer tantos males, 
té que consigas chegar a indivíduos de Zeus descendentes. 
Mas, quero crer que nunca hás de queixar-te por falta de dores.

Tendo isso dito, os cavalos de crina formosa fustiga 
e se dirige para Egas, lugar de sua bela morada. 
   Palas, a filha de Zeus, outro plano engenhoso concebe: 
faz ela própria obstruir os caminhos de todos os ventos, 
tendo ordenado a eles todos que fossem dormir sossegados. 
Somente Bóreas ligeiro deixou, porque as ondas abrisse, 
té que aos Feácios, amantes do remo, chegasse o guerreiro 
filho de Zeus, e da Morte e do negro Destino escapasse. 
   Dessa maneira flutuou duas noites e dias nas ondas 
encapeladas, a ver muitas vezes a Morte ante os olhos

Mas, quando a Aurora, de tranças bem-feitas, mais um fez que viesse, 
eis que de súbito o vento se aplaca e tranquila se estende 
a calmaria. Com vista aguçada distingue o guerreiro, 
do alto de uma onda maior, que bem perto já a terra se achava. 
Bem como filhos que à vista do pai muito alegres se mostram, 
que por doença jazera a sofrer muitas dores atrozes, 
por longo tempo abatido, que nume funesto persegue, 
alegremente se vê pelos deuses liberto das dores: 
dessa maneira Odisseu se alegrou, quando viu terra e matas, 
pondo-se ansioso a nadar, porque a terra com os pés alcançasse.

Mas, ao chegar a distância de grito, somente, da praia, 
bem claro ouviu o barulho do mar ao quebrar-se nas pedras; 
ondas enormes troavam de encontro à aridez do terreno, 
com fragor grande, espalhando-se em tudo alva espuma salgada. 
Portos, enseadas e abrigos em parte nenhuma se viam, 
mas promontórios talhados na pedra, alcantis e rochedos. 
O coração de Odisseu se abalou, fraquejaram-lhe os joelhos. 
Vendo-se em tanta aflição, ao magnânimo espírito fala: 
   “Pobre de mim! Já que Zeus me concede ver terra tão perto, 
sem que o pensasse, e consigo vencer a voragem do abismo,

não vejo meio nenhum de livrar-me do mar pardacento. 
Tudo é cercado de pedras a prumo, e em redor vêm quebrar-se 
ondas ruidosas, que molham as rochas erguidas e nuas. 
A água é profunda demais, sem que ponto ofereça onde eu possa 
firmar os pés para, alfim, conseguir escapar dos perigos. 
Muito receio que uma onda me apanhe ao tentar sair da água 
e contra as pedras me atire. Será todo o esforço baldado. 
Mas, se, nadando, costear ainda um pouco, até ver se é possível 
porto abrigado encontrar, ou lugar de viável aclive, 
temo que mais uma vez a voragem das ondas me trague,

 e para o oceano piscoso me arraste por entre gemidos, 
ou que demônio potente do mar contra mim um dos monstros 
faça atirar-se, dos muitos que a ilustre Anfitrite alimenta. 
Sei quanto se acha zangado comigo o que a terra sacode.”¹ 
   No coração e no espírito dessa maneira reflete. 
Eis que uma vaga maior o lançou contra os duros recifes; 
e lacerara, sem dúvida, a pele, ou quebrara ali os ossos, 
se a de olhos glaucos, Atena, o expediente não lhe sugerisse 
de contra a rocha atirar-se, abarcando-a com as mãos resistentes, 
onde gemendo ficou, até que a vaga potente passasse.

Dessa maneira escapou; mas, ao vir, novamente, em refluxo, 
fere-o com força, atirando-o bem longe, no meio das ondas. 
Bem como o polvo, quando é do escond’rijo com força arrancado, 
traz nas ventosas um número grande de pedras pequenas: 
dessa maneira nas pedras a pele das mãos do guerreiro 
se lacerou, ficando ele coberto pela onda gigante. 
E, contra o próprio Destino, teria o infeliz perecido, 
se inspiração não lhe desse a donzela de Zeus de olhos glaucos. 
Tendo emergido das ondas, que se iam quebrar contra a terra, 
nada ao comprido da costa, a espiar para ver se podia

porto abrigado encontrar, ou terreno de viável aclive. 
À embocadura, porém, ao chegar de uma bela corrente 
o nadador, o lugar pareceu-lhe o mais próprio de todos, 
por não ter pedras e estar resguardado da fúria dos ventos. 
Reconheceu que era um rio, e a seguinte oração lhe dirige: 
   “Quem quer que sejas, atende-me, ó deus a quem muitos invocam! 
Venho fugindo do mar, das ameaças do divo Posido. 
São veneráveis, até para os deuses eternos, os homens, 
quando errabundos suplicam, tal como eu agora, que chego 
à tua corrente, depois de sofrer, e teus joelhos enlaço.

Tem compaixão, que eu também necessito de amparo nesta hora.” 
   Disse; a corrente ele susta de pronto, detendo suas ondas; 
junto do herói fez as águas tornarem-se calmas, salvando-o 
na embocadura do rio. Extenuado de tanta labuta 
nas ondas bravas, vergaram-lhe as pernas e os braços robustos. 
Intumescera-lhe a pele do corpo; da boca e narinas 
água abundante escorria; no solo prostrou-se, sem fala, 
quase de todo privado de fôlego pelo cansaço. 
Quando lhe vieram de novo os sentidos e a vida preciosa, 
o véu sagrado, que a deusa lhe dera, desprende depressa,

para lançá-lo, em seguida, no rio que ao mar se dirige. 
Uma onda grande o levou na corrente, de modo que logo 
Ino nas mãos o recebe. Afinal, libertado do rio, 
entra um juncal e se deita, beijando o terreno fecundo.² 
Vendo-se em tanta aflição, ao magnânimo espírito fala: 
   “Quão infeliz, ai de mim! Que me falta passar de mais grave? 
Se toda a noite afanosa passar aqui perto do rio, 
temo que a geada funesta e, também, a umidade do orvalho, 
pós o desmaio, consigam vencer este pouco de vida. 
Do rio cedo começa a soprar vento frio e cortante.

Mas, se subir o barranco e me for para a mata sombrosa, 
para dormir entre os ramos espessos, se o frio e o cansaço 
me abandonarem e o sono agradável de mim apossar-se, 
temo que venha também a ser presa e repasto das feras.” 
   Como tais coisas pensasse, afinal pareceu-lhe prudente 
ir para a mata. Encontrou-a, de fato, não longe do rio, 
em parte em torno visível. Debaixo duma árvore pôs-se, 
dupla, porém, tendo só uma raiz: zambujeiro e oliveira. 
Não conseguia vará-las o vento que traz umidade, 
nem com seus raios brilhantes o Sol o local clareava,

nem mesmo a chuva até lá penetrava, por tal modo unidas 
e entrelaçadas cresceram as árvores onde o guerreiro 
fora acolher-se. Arranjou, muito às pressas, com as mãos uma cama 
larga, pois tanta abundância de folhas havia no solo, 
que de coberta chegara, talvez, para dois ou três homens, 
quando no inverno, por mais rigoroso que entrado ele fosse. 
Vendo-a formada, o paciente e preclaro Odisseu alegrou-se 
e, bem no meio deitando-se, cobre-se todo com folhas. 
Tal como alguém, quando esconde um tição sob a cinza anegrada, 
na ponta extrema do campo, onde mora sem gente por perto

para não ter que ir buscar noutra parte a semente do fogo: 
dessa maneira Odisseu se escondeu entre as folhas. Atena 
deita-lhe sono nos olhos, porque libertado se visse, 
com o cerrar-se das pálpebras, logo dos graves trabalhos. 

continua página 743...
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Prelúdio
Parte I
Parte II
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto VI.a /                      
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] Odisseu, à beira do naufrágio, reflete sobre sua situação. Este é um dos momentos mais intensos do Canto V da Odisseia, pois revela o conflito interior do herói diante da morte iminente.
     Análise do monólogo de Odisseu diante da tempestade
1. Contexto narrativo - Odisseu está sendo perseguido por Posídon, que desencadeou uma tempestade devastadora. Sua balsa já foi destruída, e ele luta para sobreviver no mar. Neste momento, ele avista terra — mas não uma salvação imediata. O trecho registra seu monólogo interior, um recurso literário que Homero usa para revelar a mente do herói.
2. A estrutura emocional do monólogo
     Odisseu passa por três estados psicológicos:
a) Esperança inicial - Ele reconhece que Zeus permitiu que ele chegasse perto da terra: “Já que Zeus me concede ver terra tão perto…” Essa esperança é breve, quase irônica: ele vê a salvação, mas não pode alcançá-la.
b) Desespero racional - a costa é rochedo vertical, impossível de escalar; as ondas quebram violentamente contra as pedras; não há ponto de apoio para os pés; qualquer tentativa de aproximação pode resultar em morte. Ele não se entrega ao pânico: ele pensa, calcula, pondera.
c) Medo profundo - Ele teme: ser lançado contra as rochas; ser tragado novamente pelo mar; ser atacado por monstros marinhos (“dos muitos que Anfitrite alimenta”). Aqui surge o medo mítico: o mar não é apenas natureza, mas um reino habitado por forças hostis.
3. A inteligência de Odisseu como marca do herói
     Este trecho é exemplar da característica mais importante de Odisseu: a metis, a astúcia, a inteligência prática. Mesmo em desespero, ele: avalia o terreno; considera alternativas; prevê riscos; calcula probalidades. 
     Odisseu não é um guerreiro impulsivo: é um pensador, alguém que sobrevive porque pensa.
4. A presença do destino e da hostilidade divina
     O herói reconhece que Posídon está por trás de tudo: “Sei quanto se acha zangado comigo o que a terra sacode.” Essa consciência reforça dois temas centrais da Odisseia:
a) O conflito entre homem e deus - Odisseu não luta apenas contra o mar, mas contra a vontade de Posídon.
b) A inevitabilidade do sofrimento - Mesmo próximo da salvação, o herói ainda precisa enfrentar o último obstáculo. O retorno nunca é simples; o destino exige esforço extremo.
5. A paisagem como símbolo
     A costa descrita por Odisseu é mais do que cenário: é símbolo. Rochas verticais → obstáculos intransponíveis; Ondas violentas → forças caóticas da natureza e dos deuses; Mar profundo → perigo absoluto, ausência de controle; Monstros marinhos → o desconhecido, o medo primordial.
     A paisagem reflete o estado interior do herói: tudo é hostil, tudo ameaça sua vida.
6. A técnica narrativa de Homero
     Homero usa aqui:
a) Monólogo interior - Revela o pensamento íntimo do herói, criando empatia e tensão.
b) Realismo descritivo - A descrição do mar é precisa, física, concreta — quase documental.
c) Suspense - O leitor sabe que Odisseu deve sobreviver (o Fado o garante), mas não sabe como.
d) Humanização do herói - Odisseu não é invencível: ele teme, sofre, hesita.
7. Dimensão simbólica
     O trecho representa:
- A luta do homem contra forças superiores
- A fragilidade humana diante da natureza
- A persistência da esperança mesmo no limite da morte
- A inteligência como arma contra o caos
     Odisseu é o arquétipo do ser humano que enfrenta o mundo com coragem e pensamento.
8. Conclusão interpretativa
     Este monólogo é um dos momentos mais humanos da Odisseia. Odisseu, sozinho no mar, sem barco, sem ajuda, sem armas, enfrenta a morte com: medo, lucidez, reflexão, e uma vontade inquebrantável de sobreviver. Ele não é salvo pela força, mas pela razão — e pela capacidade de manter a calma diante do impossível. É um retrato poderoso da condição humana: mesmo cercado de perigos, o herói pensa, escolhe, luta — e continua.

[2] Análise do trecho: a súplica ao deus do rio e o resgate final
1. Contexto narrativo
     Odisseu acaba de sobreviver ao ataque de Posídon. Sua balsa foi destruída, ele quase morreu contra as rochas, e só conseguiu escapar graças ao véu de Ínô-Leucótea. Agora, à deriva, ele avista a foz de um rio — o primeiro lugar onde a água não o destrói, mas pode acolhê-lo. Este é o momento em que o herói passa da luta desesperada para a súplica ritual.
2. A súplica ao deus fluvial: humildade e sacralidade
     Odisseu não sabe qual deus habita o rio, mas isso não importa: ele reconhece que toda força natural possui um poder divino. “Quem quer que sejas, atende-me, ó deus a quem muitos invocam!” 
     Aqui vemos:
a) Humildade absoluta - O herói, que já enfrentou ciclopes, tempestades e monstros, agora se curva diante de um deus local.
b) Reconhecimento da sacralidade da natureza - Rios, montanhas, mares — tudo é habitado por divindades. Odisseu sabe que só sobreviverá se respeitar esse mundo.
c) A condição do suplicante - Ele se apresenta como alguém que “enlaça os joelhos” do deus — gesto ritual de súplica.
d) A ética da hospitalidade divina - “São veneráveis, até para os deuses eternos, os homens, quando errabundos suplicam…” 
     Odisseu apela para uma lei universal: o suplicante deve ser protegido, mesmo pelos deuses.
3. A resposta imediata do deus do rio
     O rio “susta de pronto” sua corrente e “torna as águas calmas”. Isso revela:
a) A eficácia da súplica - Odisseu é um homem que sabe falar aos deuses. Sua relação com o divino é baseada em respeito e inteligência.
b) A oposição ao caos de Posídon - O mar é destruição; o rio é acolhimento. Odisseu passa do domínio hostil de Posídon para o domínio benevolente de outra divindade.
c) A intervenção divina como parte do destino - O Fado exige que Odisseu sobreviva. O deus do rio cumpre essa função.
4. A exaustão física do herói
     Homero descreve Odisseu com realismo impressionante: pernas e braços vergados, pele intumescida, água saindo da boca e narinas, prostrado no solo, quase sem fôlego. Essa descrição:
a) Humaniza profundamente o herói - Ele não é invencível: é um homem no limite da morte.
b) Reforça a violência da tempestade - Posídon quase o destruiu completamente.
c) Cria contraste com a salvação - Quanto maior o sofrimento, maior o impacto da proteção divina.
5. O gesto ritual: devolver o véu
     Quando recupera os sentidos, Odisseu: “desprende depressa o véu sagrado… e o lança no rio.” Esse gesto é essencial: 
a) Cumpre a instrução de Ínô-Leucótea - Ela ordenou que o véu fosse devolvido ao mar.
b) Marca o fim da proteção sobrenatural - O véu era um objeto mágico. Ao devolvê-lo, Odisseu volta ao mundo humano.
c) Simboliza gratidão e respeito - Ele não retém o objeto divino para proveito próprio.
6. A recepção do véu por Ínô
     “Uma onda grande o levou… de modo que logo Ino nas mãos o recebe.” Isso reforça: a presença contínua da deusa, a ordem cósmica sendo respeitada, a relação harmoniosa entre Odisseu e o mundo divino.
7. O beijo da terra: símbolo máximo do retorno à vida
     “entra um juncal e se deita, beijando o terreno fecundo.” Este é um dos gestos mais belos da Odisseia.
a) O beijo da terra é gratidão pela sobrevivência - Depois de quase morrer no mar, tocar a terra é tocar a vida.
b) A terra é o oposto do mar - Mar = caos, morte, imprevisibilidade; Terra = estabilidade, acolhimento, futuro
c) É o primeiro passo rumo à Feácia - Odisseu finalmente alcança o espaço que o conduzirá de volta a Ítaca.
8. Conclusão interpretativa
     Este trecho é um dos mais simbólicos do Canto V. Ele representa:
- a vitória da vida sobre a morte,
- a força da súplica e da humildade,
- a benevolência dos deuses menores,
- a passagem do caos para a ordem,
- o renascimento do herói após o sofrimento extremo.
     Odisseu, ao beijar a terra, não apenas agradece por sobreviver: ele reafirma sua ligação com o mundo humano, com a mortalidade e com o destino que o conduz de volta ao lar.


Odisseia, de Homero - Canto 5 - Calipso liberta Odisseu



Odisseia: Parte II (Canto V.b)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu na Ilha de Calipso e na Feácia¹ 
Canto V

A Caverna de Calipso e a balsa de Ulisses

    “Formando uma segunda assembleia dos deuses, Zeus envia Hermes para Calipso mandando libertar Odisseu. Ela faz o que é ordenado. No décimo oitavo dia, Posido o vê e, se irritando, desfaz a balsa. Mas Ino lhe entrega o seu véu com ordem de o devolver assim que chegar à terra. Depois de muito sofrimento, salvo, chega à terra dos Feácios.” (Scholie P Q V)


continuando...

logo depois de sabida a mensagem que Zeus lhe mandara. 
Foi encontrá-lo assentado na praia. Corria-lhe a doce 
vida num pranto contínuo, que os olhos jamais se enxugavam, 
a suspirar pela volta, que a ninfa não mais lhe era grata. 
Era bem certo que à noite, forçado, dormia na gruta, 
participando, entediado, do leito da ninfa ardorosa. 
Mas todo o dia passava nos altos rochedos da praia, 
a alma desfeita em suspiros sentidos, e prantos, e dores. 
Lágrimas, pois, a verter, contemplava o infecundo oceano. 
Tendo-se a ele chegado, lhe disse a preclara das deusas:

“Basta, infeliz, de chorar. Não consumas, assim, a existência; 
sinto-me, agora, inclinada a deixar-te partir novamente. 
Vamos! Apresta uma grande jangada, lavrando com bronze 
troncos bem grossos. Estrado, depois, elevado lhe fixa, 
para que possa levar-te através do brumoso oceano. 
Água, e alimentos, e vinho vermelho hei de eu mesma trazer-te, 
em grande cópia, que possam livrar-te da fome na viagem. 
Vestes dar-te-ei; hei de ventos ponteiros mandar-te, igualmente, 
a fim que possas voltar para a pátria sem mais sofrimentos, 
caso o consintam os deuses que moram no céu estrelado,

que no pensar, não somente, nas próprias ações me superam.” 
   Estremeceu o divino e paciente Odisseu a tais vozes; 
pôs-se, em seguida, a falar, e lhe disse as palavras aladas: 
   “Outros desígnios, ó deusa, meditas, que não meu retorno, 
quando me ordenas cruzar em jangada o infinito das águas 
cheio de grandes perigos, que os próprios navios velozes 
jamais conseguem vencer, sem que Zeus lhes envie bons ventos. 
Nunca entrarei em jangada, se for contra tua vontade, 
a menos que te resolvas, ó deusa, a fazer juramento 
de que não tens intenção de outros males, agora, causar-me.”

Isso disse ele. Calipso sorriu-se, a divina entre as deusas; 
acariciou-o com a mão e, falando, lhe disse o seguinte: 
   “És, em verdade, um manhoso, que nunca vãmente excogita! 
Cheio de astúcia refletes e sabes dizer o que pensas. 
Pois tome a Terra ciência, bem como o Céu vasto de cima e 
a água do Estige, que se precipita — esta é a jura mais alta 
e mais terrível de todos os deuses bem-aventurados — 
de que não tenho intenção de outros males, agora, causar-te. 
Mas o que penso e proponho fazeres é como se eu própria 
me propusesse, se acaso me visse em igual conjuntura.

Equitativa é minha alma e à justiça inclinada; no peito 
não se me aninha um espírito férreo, senão compassivo.” 
   Tendo isso a deusa preclara enunciado, se pôs a guiá-lo 
rapidamente. Odisseu segue os passos da deusa donosa. 
Ambos, Calipso e o mortal, logo à côncava gruta chegaram, 
indo sentar-se Odisseu na poltrona em que há pouco estivera 
Hermes. A ninfa Calipso lhe serve variados manjares, 
de que comer e beber, de que os homens mortais se alimentam. 
Logo em seguida defronte do divo Odisseu foi sentar-se; 
Néctar e ambrósia na frente dos dois as criadas puseram.

Ambos as mãos estendiam, visando a alcançar as viandas. 
Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado, 
pôs-se a falar, em seguida, Calipso preclara e divina: 
   “Filho de Laertes, de origem divina, Odisseu engenhoso, 
é, então, verdade que queres voltar para a pátria querida, 
sem mais delongas? Pois parte feliz, apesar do que sinto. 
Mas se pudesses saber o que o Fado te tem reservado 
de sofrimentos, primeiro que alcances a terra nativa, 
escolherias comigo ficar e guardar esta casa, 
como tornar-te imortal, apesar das saudades que sentes

longe da esposa, por causa de quem de contínuo suspiras. 
Mas me envaideço de em nada inferior ser à tua consorte, 
nem nas feições nem no porte, que aos seres mortais não compete 
vir disputar com os eternos na forma perfeita e na altura.” 
   Disse-lhe o muito solerte Odisseu o seguinte, em resposta: 
“Lusa potente, não queiras com isso agastar-te; conheço 
perfeitamente que a minha querida e prudente Penélope 
é de menor aparência e feições menos belas que as tuas. 
Ela é uma simples mortal; tu, eterna, a velhice não temes. 
Mas, apesar de tudo isso, consumo-me todos os dias

para que à pátria retorne e reveja o meu dia da volta. 
Mesmo que em meio do mar cor de vinho algum deus me atingisse, 
meu coração resistente isso tudo, decerto, sofrera. 
Já suportei muitas dores, passei numerosos trabalhos, 
tanto no mar que na guerra; que venham, por isso, mais esses.” 
   Disse, no tempo em que o Sol se deitou, vindo a noite em seguida. 
Para o interior ambos eles se foram da gruta escavada; 
dão-se aos deleites do amor, e bem juntos um do outro se ficam. 
   Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina, 
sem mais demora, Odisseu veste a túnica e o manto veloso.

Ela, Calipso, se adorna com peplo bem grande e luzente, 
belo de ver e mui fino, que aperta no corpo com um cinto 
de ouro e lavrado; por último, o véu na cabeça coloca. 
Passa a pensar na maneira de como Odisseu retornasse. 
Dá-lhe uma grande bipene de bronze, de fácil manejo, 
com duplo bordo cortante, na qual ajustara um mui belo 
cabo tirado de pau de oliveira e bem fixo no furo. 
Dá-lhe, depois, uma enxó bem-lavrada, e lhe serve de guia 
ao ponto da ilha postremo, onde espessa floresta crescera, 
com muitos choupos e amieiros e abetos, que o céu atingiam,

todos sem seiva e já secos, que leves no mar o levassem. 
Tendo-lhe o ponto mostrado em que as árvores grandes cresciam, 
para o palácio retorna a preclara e divina Calipso. 
Troncos derruba Odisseu; facilmente o trabalho arremata. 
Vinte, por tudo, abateu, e com o bronze dos galhos os limpa; 
mui habilmente os lavrou, as distâncias tomando com fio. 
Trados lhe trouxe, entrementes, a deusa preclara Calipso. 
Todos, com eles, furou, ajustando, depois, uns aos outros, 
encavilhando-os de jeito e travessas metendo a martelo. 
Quanto experiente armador, que constrói um navio de carga,

largo e espaçoso, lhe tira a medida da parte do fundo: 
tanto em largura a jangada media do herói astucioso. 
Põe-lhe, depois, um jirau, sustentando-o com vigas bastantes, 
para, por fim, concluir a armadura com troncos ao longo. 
Mastro, também, levantou, adaptando-lhe no alto uma verga. 
Leme aprontou e ajustou-lhe, porque fosse fácil guiá-la. 
Para das ondas ficar protegida, em redor reforçou-a 
com bem-trançados cipós, pondo o lastro com muita madeira. 
Pano de linho lhe trouxe, entretanto, a divina Calipso, 
para que a vela aprestasse. Com arte soube ele cortá-la,

nela prendendo, por fim, as adriças, escotas e braços. 
Com alavanca a jangada arrastou para as ondas sagradas. 
   No quarto dia o trabalho ficou concluído a contento, 
e no seguinte a divina Calipso mandou que se fosse 
da ilha, depois de o banhar e prover de vestidos odoros. 
Pôs na jangada dois odres, um de água, bem grande, e um
de vinho de cor escura. Num saco de couro depôs, de igual modo, 
muitos manjares de fino sabor e variada feitura. 
Fez que soprasse, em seguida, um bom vento propício e agradável, 
ao qual as velas o divo Odisseu satisfeito desfralda.

Sempre sentado, o timão dirigia com arte e destreza, 
sem ter as pálpebras nunca de sono pesadas, as Plêiades 
a contemplar e o Boeiro, que tarde costuma deitar-se, 
bem como a Ursa, também pelo nome de Carro chamada, 
que gira sempre num ponto e não deixa de a Orião ter em vista, 
e que entre todas é a única que não se banha no Oceano, 
pois fora expressa recomendação da divina Calipso 
que ele tivesse à sinistra este signo durante o percurso. 
Dessa maneira singrou pelo dorso no mar dezessete 
dias; mas no outro surgiram os montes escuros da terra

onde os Feácios demoram, bem próximo donde ele estava, 
que parecia um escudo deixado no oceano brumoso. 
   Eis que Posidon, de volta dos homens Etíopes, o enxerga, 
dos altos montes dos povos Solimos. De pronto o percebe, 
que pelo mar navegava. Ainda mais se exaspera com isso; 
move indignado a cabeça e a si próprio dirige a palavra: 
   “Oh! Por sem dúvida os deuses por modo diverso acordaram 
sobre Odisseu, quando estive em visita entre as gentes Etíopes. 
Vejo-o bem perto da terra Feácia, onde é força que escape 
do laço extremo do Fado que sobre ele pesa sinistro.

Penso, porém, que ainda posso causar-lhe outra série de males.”² 
   Tendo isso dito, congloba os bulcões, deixa o mar agitado 
com o tridente. Suscita, depois, tempestade violenta 
dos ventos todos e em nuvens envolve cinzentas a terra 
conjuntamente com o mar. Baixa a Noite do céu entrementes. 
Euro mais Noto se chocam, e Zéfiro desagradável, 
bem como Bóreas, que do éter provém, portador de ondas grandes. 
O coração de Odisseu se abalou, fraquejaram-lhe os joelhos. 
Vendo-se em tanta aflição, ao magnânimo espírito fala: 
   “Quão infeliz! Ai de mim! Que me falta passar de mais grave? 

Pois bem receio que a deusa tivesse a verdade anunciado, 
quando falou dos trabalhos que na água eu passar deveria 
antes de a pátria alcançar. Ora tudo, de acordo, se cumpre. 
Com quantas nuvens esconde ora o céu Zeus Olímpico! As ondas 
como levanta, também, suscitando furiosos remoinhos 
dos ventos todos! É força que a Morte imatura me colha. 
Três, quatro vezes felizes os Dânaos que lá na planície 
da grande Troia morreram, por simples amor aos Atridas! 
Bem preferira cumprir o Destino e morrer ali mesmo, 
naquele dia em que os Teucros, visando-me lanças aêneas

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Prelúdio
Parte I
Parte II
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c /                    
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] Esta parte da Odisseia marca a transição decisiva entre o sofrimento solitário de Odisseu e sua reintegração ao mundo humano. Aqui, Homero reúne três núcleos narrativos:
- O cativeiro de Odisseu na ilha de Calipso
- O naufrágio e a chegada à terra dos Feácios
- A acolhida na casa do rei Alcínoo, onde Odisseu finalmente narra suas aventuras.
     É o momento em que o herói deixa de ser apenas personagem das histórias dos outros (como na Telemaquia) e volta a ser protagonista de sua própria narrativa.
Canto V
- Odisseu está preso há sete anos na ilha de Ogígia, retido pela ninfa Calipso, que lhe oferece imortalidade se ele aceitar ficar com ela.
- Os deuses decidem que é hora de libertá-lo; Hermes leva a ordem a Calipso.
- O herói constrói uma balsa e parte, mas Posídon, ainda irado pelo episódio com Polifemo, provoca uma tempestade.
- Odisseu sobrevive por pouco e é lançado ao mar, agarrado a pedaços da embarcação.
[2] Uma análise do trecho em que Posídon avista Odisseu a caminho da terra dos Feácios e decide atacá‑lo novamente. Este é um dos momentos mais tensos do Canto V da Odisseia, pois revela o conflito direto entre o deus e o herói.
* Contexto narrativo
     Posídon estava ausente — visitava os Etíopes — quando os deuses decidiram libertar Odisseu da ilha de Calipso. Ao retornar, vê o herói navegando em direção à Feácia, muito próximo de escapar definitivamente de seu ódio. Esse detalhe é crucial: Posídon não participou da decisão divina e, portanto, age movido por ressentimento e pela sensação de ter sido excluído.
* A visão de Odisseu e o aumento da fúria
     Ao avistar Odisseu “dos altos montes dos povos Solimos”, Posídon:
- Reconhece o herói imediatamente
- Percebe que ele está prestes a escapar
- Sente sua ira aumentar (“ainda mais se exaspera com isso”)
     A reação é instantânea e emocional. Posídon não é um deus racional: ele é impulsivo, vingativo e orgulhoso.
* A fala de Posídon: ressentimento e desafio
     Posídon diz: "Oh! Por sem dúvida os deuses por modo diverso acordaram sobre Odisseu, quando estive em visita entre as gentes Etíopes.” Aqui ele expressa:
- Ressentimento contra os outros deuses (Ele se sente traído: enquanto estava longe, os outros decidiram favorecer Odisseu.)
- Consciência do destino do herói 
     Posídon sabe que Odisseu está “perto da terra Feácia”, onde o Fado exige que ele escape.
     Isso é importante: Posídon reconhece que o destino de Odisseu é voltar para casa. Mas, mesmo assim, ele tenta atrasar ou dificultar esse retorno.
- A vontade de causar mais sofrimento
     “Penso, porém, que ainda posso causar-lhe outra série de males.” Essa frase revela a essência do conflito: Posídon não pode impedir o destino, mas pode prolongar o sofrimento.
* O tema do conflito entre destino e vontade divina
     Este trecho é exemplar da tensão central da Odisseia:
- O destino (Moira) determina que Odisseu deve voltar a Ítaca.
- Posídon, porém, tenta constantemente atrasar esse retorno.
     Posídon não é capaz de anular o Fado, mas pode:
- criar tempestades,
- destruir embarcações,
- prolongar o sofrimento do herói.
     Essa tensão entre o inevitável e o contingente é uma marca da poesia épica.
* A psicologia de Posídon
     Posídon é movido por:
a) Orgulho ferido - Odisseu cegou seu filho, Polifemo. Para Posídon, isso é uma afronta pessoal.
b) Desejo de vingança - Ele não quer apenas punir Odisseu: quer que o herói sinta o peso da ira divina.
c) Frustração - Ao ver Odisseu tão perto da salvação, Posídon percebe que sua vingança está ameaçada.
* Função narrativa do episódio
     Este momento cumpre várias funções:
a) Intensifica o drama - Odisseu está quase salvo, mas ainda enfrenta um último ataque.
b) Prepara o naufrágio - Posídon desencadeia a tempestade que destruirá a balsa de Odisseu.
c) Introduz a intervenção de outras divindades - A deusa Ínô-Leucótea aparecerá para ajudar Odisseu, equilibrando a balança contra Posídon.
d) Reforça o papel dos Feácios - Eles são essenciais para o retorno do herói — e Posídon sabe disso.
* Dimensão simbólica
     Posídon representa:
- As forças caóticas do mar
- O sofrimento inevitável da jornada humana
- A resistência do mundo contra o retorno ao lar
     Odisseu, por sua vez, simboliza:
- a perseverança,
- a inteligência,
- a capacidade humana de resistir ao caos.
* Conclusão interpretativa
     Este trecho mostra Posídon em seu momento mais humano: ressentido, frustrado, vingativo. Ele sabe que não pode impedir o destino, mas tenta atrasá-lo — e isso revela a complexidade do mundo divino na Odisseia. O conflito entre Posídon e Odisseu não é apenas físico: é moral, psicológico e simbólico.
     O herói está quase no fim da jornada, mas ainda precisa enfrentar a última tempestade — a última prova antes de ser acolhido pelos Feácios e finalmente retomar sua identidade e seu caminho para Ítaca.