Odisseia
Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu na Ilha de Calipso e na Feácia¹
Canto VIII
Recepção de Odisseu pelos Feácios
“Faz-se uma assembleia dos Feácios acerca do estrangeiro e um navio é preparado para enviar Odisseu. Os nobres Feácios jantam na casa de Alcínoo. Depois disso, os Feácios e Odisseu competem com o disco. Então, Demódoco canta primeiro acerca do Adultério de Ares e de Afrodite, depois acerca da entrada do Cavalo de Madeira. Odisseu chora e Alcínoo pergunta por que ele chora, quem ele é e de onde vem.” (Scholie H V)
continuando...
esses Feácios amantes do remo e famosos nos mares,
ante a violência do tiro, pois todas as marcas dos outros
ultrapassou, ao soltar-se do punho. Sob forma de um homem,
Palas Atena coloca o sinal e, falando, lhe disse:
“Hóspede, até mesmo um cego o sinal acertar poderia
só com o tato, porque não se encontra no meio dos outros,
mas muito à frente. Coragem, portanto, que, aqui, já venceste.
Tanto, os Feácios não jogam; jamais poderão superar-te.”
Disse; alegrou-se o divino Odisseu, sofredor de trabalhos,
ao perceber que nos jogos alguém se encontrava ao seu lado.
E, para os Feácios voltando-se, diz, aliviado, o seguinte:
“Vamos, rapazes! Tão longe acertai, pois em breve pretendo
com outro lanço alcançar esse ponto, ou, quiçá, outro adiante.
Quanto aos demais exercícios, quem quer que se atreva a compita,
venha medir-se comigo, já que me irritastes sobejo.
No pugilato, ou na luta, ou nos pés, a nenhum me recuso;
lanço o meu repto a qualquer, excetuando o viril Laodamante.
Hóspede sou em sua casa; quem quer com o amigo medir-se?
Somente um tolo, por certo, e privado de vez do bom senso,
fora da pátria, como eu neste instante, ousará pôr-se em luta
com quem o hospeda, a si mesmo se expondo a funesto perigo.
Quanto aos demais, não recuso ninguém, nem lhe lanço desprezo;
sim, conhecê-los desejo e, também, face a face prová-los.
Não sou bisonho em nenhum desses jogos, que os homens aprovam;
sei manejar, como poucos, o arco lavrado e brunido;
posso acertar em qualquer, que se encontre nas filas cerradas
dos inimigos, embora ao meu lado, também, muitos outros
dos companheiros atirem. Primeiro que todos o atinjo.
Só Filoctetes podia gabar-se de no arco exceder-me,
quando os Aquivos seus arcos usavam nas plagas de Troia.
Forte e prestante me prezo de ser muito mais do que quantos
nos dias de hoje se arrastam no solo e de pão se alimentam.
Quanto aos heróis primitivos, não quero medir-me com eles,
nem o grande Êurito, nado na Ecália, nem mesmo o forte Héracles,
que se mediram no tiro até mesmo com os deuses eternos.
Êurito, o grande, porém, morreu cedo; não viu a velhice
em sua casa, que Apolo, indignado, o privou da existência,
pois lhe lançara, insensato, um cartel para a prova do tiro.
Quanto ao remesso da lança, ultrapasso a baliza do archeiro.
Temo, somente, que possam no curso vencer-me os Feácios;
terrivelmente me sinto abatido das ondas infindas,
visto faltar-me constante o exercício na nave em que estive
todo esse tempo; cansados e frouxos os músculos sinto.”¹
Isso disse ele; os presentes calados e quedos ficaram;
somente Alcínoo lhe disse, em respostas, as seguintes palavras:
“Hóspede, as tuas palavras em nada nos causam desgosto.
Queres mostrar-nos, sem dúvida, qual o valor que te é próprio,
mui justamente zangado por veres que alguém te magoa
nos nossos jogos. Ninguém, que costume falar com prudência,
o teu falar, estrangeiro, tachar poderia de nulo.
Ora atenção me concede que possas as minhas palavras
a outros heróis transmitir, quando em casa estiveres de novo
banqueteando-te ao lado da esposa querida e dos filhos,
e te lembrares de nossos primores, de tudo o que viste,
tal como Zeus cultivar nos permite de tempos avitos.
No pugilato não nos distinguimos, nem mesmo na luta,
mas na carreira veloz e em navios de rápido curso.
Sempre prezamos o toque da cítara, a dança e os banquetes,
vestes poder variar, banhos quentes e leito macio.
Eia, Feácios, que vos distinguis no compasso das danças,
dai logo início a elas todas, que o hóspede aos seus anuncie,
quando à sua pátria voltar, a que ponto aos demais superamos,
não só no remo, senão na carreira, na dança e no canto.
Tragam, também, sem demora a Demódoco sua harpa sonora,
que, porventura, se encontra num canto qualquer do palácio.”
Tais as palavras de Alcínoo deiforme. Entrementes, o arauto
corre a buscar no interior do palácio o cavado instrumento.
Nove juízes preclaros, também, se levantam agora,
entre os do povo, que tudo dispõem segundo os preceitos.
Plano o terreno da dança deixaram o livre do povo.
Plano o terreno da dança deixaram o livre do povo.
Já pelo arauto trazido, chegava o instrumento canoro,
para o cantor; a seguir, até o meio Demódoco avança;
cercam-no jovens em flor, sabedores dos passos da dança.
Batem com os pés sobre solo divino. Odisseu admirava
no coração bem-formado as pancadas dos pés, bem-ritmadas.
Toma o cantor do instrumento e começa a cantar os amores
de Ares, o deus poderoso, e Afrodite do belo diadema,
e como dentro da casa de Hefesto consegue a ela unir-se
às escondidas. Presentes lhe dá, té que o leito enxovalha
do soberano. Mas Hélio foi pronto em trazer a notícia,
pois tudo vira de longe e os amores dos dois presenciara.
Logo que soube a notícia pungente, atirou-se o ferreiro
para a oficina, a volver dentro da alma um conceito sinistro.
Põe sobre o cepo a bigorna tamanha, e cadeias apresta
tão infrangíveis quão fortes, a fim de que os dois fossem presos.
Mal concluiu a armadilha, lembrado colérico de Ares,
foi para o quarto, onde armado se achava o seu leito querido;
põe as cadeias em círc’lo, a apanhar a armação por completo,
outras, também, penduradas do teto e a cair para o solo,
tal como teia de aranha, que nunca ninguém percebesse,
nem mesmo os deuses beatos, com tanto artifício as urdira.
Logo que a rede invisível à volta do leito distende,
finge que vai para Lemno, cidade de bela estrutura,
que mais prezava entre quantas na face da terra existiam.
Mas não vigiava debalde a deidade que traz rédeas de ouro,
Ares, ao ver que já Hefesto, o ferreiro famoso, saíra.
Cheio de ardor, para unir-se à Citereia de bela coroa,
logo procura a morada de Hefesto, o notável ferreiro.
Ela chegara de pouco da casa do pai, o fortíssimo
Cronida, e sentada se achava, quando Ares entrou no quarto.
Com gracioso meneio lhe toma da mão e lhe fala:
“Vamos, querida, ao prazer inefável do leito entregar-nos.
Não se acha em casa o ferreiro; a estas horas se encontra a caminho
do povo Síntio de língua travada, que em Lemno demora.”
Isso falou. De bom grado resolve subir para o leito,
onde ambos, logo, se foram deitar; mas, de súbito, a rede
artificiosa os colheu, por Hefesto astucioso aprestada,
sem que pudessem mover um só membro, ou, sequer, levantar-se.
Força lhes foi concordar que era inútil tentar a fugida.²
Eis que lhes surge na frente a figura do coxo notável,
Eis que lhes surge na frente a figura do coxo notável,
já de retorno da estrada, que a Lemno não tinha chegado.
Hélio de guarda ficara por ele, e contara o ocorrido.
Aproximou-se de casa, a sentir grande angústia no peito;
fica de pé na soleira e, de cólera cheio, rebenta
num grande grito, espantoso, que todos os deuses ouviram:
“Zeus pai! E vós, ó bem-aventuradas deidades eternas,
vinde assistir a espetác’lo que, sobre risível e indigno,
é insuportável. A filha de Zeus, Afrodite, não cessa
de desonrar-me com Ares nocivo, por ver sou coxo.
A Ares nocivo ela tem afeição, por ser belo e bem-feito;
eu, nasci coxo e malfeito; mas culpa não tenho de tanto;
sim, meus dois pais; melhor fora se nunca me houvessem gerado.
Vede esses dois, como dormem, nos laços do amor abraçados,
tendo ao meu leito subido, espetáculo aos olhos odioso.
Mas quero crer que não hão de jazer por mais tempo na cama,
mesmo que se amem muitíssimo; em breve não mais terão gosto
de repousar. Com cadeias e astúcia detidos os tenho,
té que seu pai me devolva os presentes que eu dei, como dote,
quanto paguei pela compra da filha de olhar impudente,
que se, de fato, é bonita, carece, realmente, de pejo.”
Disse; os mais deuses afluíram à casa de sólio de bronze.
Veio Posido que a terra sacode; depois chegou Hermes,
o que traz sorte; e Apolo certeiro, que as setas remessa.
Só se abstiveram as deusas mimosas, que pejo sentiram.
Eis que ao vestíbulo os deuses já chegam, dadores de prendas.
Ao contemplar o artifício, que Hefesto astucioso forjara,
em gargalhada atroante romperam os deuses beatos.
Entanto, um deles aos outros se inclina, e maldoso profere:
“Vício nenhum produz bem; ao veloz vencer pode o moroso;
tal como Hefesto que, embora claudique, alcançou facilmente
Ares, que todos os deuses do Olimpo ultrapassa no curso.
Coxo, de fato, mas hábil; a multa vai o outro pagar-lhe.”
Dessa maneira, em colóquio, entre si tais conceitos diziam.
Disse para Hermes Apolo, nascido Zeus, o seguinte:
“Hermes, ó filho de Zeus, mensageiro e dador de presentes,
desejarias sentir-te enleado nas fortes cadeias,
tendo ao teu lado, deitada no leito, a divina Afrodite?”
Dando-lhe logo a resposta, retruca-lhe o guia brilhante:
“Ó rei Apolo, que longe remessas as setas, prouvera
que tal se desse, com três vezes mais desses elos em torno,
e os deuses todos e as deusas à volta estivésseis olhando,
contanto que me deitasse no leito com a áurea Afrodite.”
Num cascalhar de risadas os deuses eternos rebentam.
Entre eles todos, somente Posido não ria, pedindo
ao fabro Hefesto notável que de Ares os elos tirasse.
E, começando a falar, lhe dirige as palavras aladas:
“Solta-o; prometo, na frente dos deuses, que a soma devida
paga terás dentro em breve, conforme o desejas e é justo.”
Disse-lhe, então, em resposta, o deus coxo e notável artista:
“Ó deus Posido, que a terra sacodes, não mandes tal coisa!
Fraca demais é a palavra, se um grande a um pequeno se empenha.
Como é possível que eu venha a obrigar-te perante os mais deuses,
uma vez que Ares consiga da multa e dos elos livrar-se?”
Disse-lhe, entanto, Posido, que a terra, violento, sacode:
“Mesmo que do ônus da dívida, Hefesto, possa Ares livrar-se,
por não pagá-la, prometo que eu mesmo por ela respondo.”
Disse-lhe, então, em resposta, o deus coxo de braços possantes:
“Não fica bem recusar-me a aceitar o penhor, que apresentas.”
Tendo isso dito, soltou as cadeias a força de Hefesto.
Logo que os dois se sentiram libertos dos fortes liames,
eis que de pé se puseram. Na rota de Trácia atirou-se
Ares, ao passo que a Chipre Afrodite, dos risos amante,
foi, onde em Pafo se encontram seus bosques e altar rescendente.
Logo depois de a banharem e ungirem as Graças com óleo
sacro e perene, tal como se evola do corpo dos deuses,
ricos vestidos lhe vestem, que a vista de todos encanta.
Dessa maneira cantava o notável aedo. Em sua alma
muito folgava Odisseu ao ouvi-lo cantar, assim como
todos os nautas Feácios, que os remos compridos manejam.
Manda o monarca que Alio e o viril Laodamante sozinhos
fossem bailar, pois ninguém poderia com eles medir-se.
Braços estendem sem mora, e da bola bonita e purpúrea
pegam, que Pólibo, o sábio para eles com arte fizera.
Lança-a um dos dois contra as nuvens escuras, enquanto, inclinando-se
bem para trás, consegue o outro apanhá-la ainda em cima, num salto,
antes de haver, de retorno, tocado com os pés no chão duro.
Tendo assim, pois comprovado a perícia no lanço da bola,
passam, então, a bailar sobre a terra fecunda, trocando
vezes sem conta de posto. Rapazes batiam compasso
dentro do campo dos jogos, atroando com os baques a terra.
Vira-se, então, o divino Odisseu para Alcínoo e lhe fala:
“Ó rei Alcínoo, entre todos ilustre e ornamento do povo!
Vangloriaste-te certo, de serdes na dança os mais hábeis.
Eis que o provaste sobejo; pasmado contemplo isso tudo.”
Disse; alegrou-se, com isso, o sagrado poder do alto Alcínoo;
Volta-se para os Feácios, amigos do remo, e lhes fala:
“Ora escutai-me, Feácios, que sois conselheiros e guias;
muito sensato parece-me ser o estrangeiro, que vedes.
Como do estilo, os presentes da hospitalidade aprestemos.
continua página 787...
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b / Canto III.a / Canto III.b /
Canto IV.a / Canto IV.b / Canto IV.c / Canto IV.d /
Parte II
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto VI.a / Canto VI.b /
Canto VII.a / Canto VII.b / Canto VIII.a / Canto VIII.b / Canto VIII.c /
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] Este trecho mostra um momento importante da recepção de Odisseu entre os Feácios. Após ser provocado durante os jogos atléticos, ele finalmente revela parte de sua verdadeira grandeza heroica.
O que acontece na cena: Palas Atena intervém discretamente para encorajar Odisseu. Ela confirma que seu lançamento foi excepcional e lhe devolve a confiança. O herói, que até então procurava manter certa discrição, passa a responder aos desafios dos feácios. Em seguida, Odisseu faz um discurso de afirmação pessoal. Ele:
- desafia os presentes a competirem com ele;
- demonstra orgulho de suas habilidades físicas;
- afirma destacar-se na luta, no pugilato, na corrida e especialmente no arco;
- compara-se a grandes heróis do passado;
- ressalta que não desafiará Laodamante, por ser filho de seu anfitrião, mostrando respeito às leis da hospitalidade.
Caracterização de Odisseu, O trecho revela vários aspectos centrais do personagem:
- Orgulho heroico, Odisseu sente-se ofendido pelas provocações e responde como um herói épico. A honra pessoal é um valor fundamental no mundo homérico.
- Excelência (areté), Ele procura demonstrar sua "areté", isto é, sua excelência e valor. Um herói deve provar seu mérito perante os outros.
- Respeito à hospitalidade (xenia), Mesmo irritado, ele se recusa a competir contra Laodamante. Isso mostra que conhece e respeita as normas sagradas da hospitalidade.
- Prudência, Embora exalte suas capacidades, ele reconhece seu estado físico debilitado após anos de sofrimentos e da recente travessia marítima. Não se apresenta como invencível, mas como alguém temporariamente enfraquecido.
Referências míticas, Odisseu menciona:
- Filoctetes, famoso arqueiro dos gregos em Troia;
- Êurito, lendário arqueiro da Ecália;
- Héracles, o maior dos heróis gregos;
- Apolo, deus associado ao arco.
Essas referências servem para situar Odisseu entre os grandes heróis da tradição mítica.
Função do episódio na narrativa, Esta cena marca uma transição importante. Até aqui, Odisseu aparece sobretudo como um náufrago sofredor. Agora, diante dos feácios, ele começa a reassumir sua identidade de herói extraordinário. É um dos primeiros momentos em que o público e os personagens ao redor voltam a enxergar o verdadeiro rei de Ítaca, famoso por sua força, coragem e habilidade.
Em resumo, o trecho contrapõe dois aspectos fundamentais de Odisseu: o homem exausto pelas provações e o herói grandioso cuja glória ainda permanece intacta.
[2] Este é o célebre episódio do adultério de Ares e Afrodite, cantado por Demódoco no palácio dos Feácios. À primeira vista, parece uma narrativa leve e até cômica, mas possui várias funções importantes dentro da Odisseia.
Resumo do episódio
- Ares, deus da guerra, mantém um relacionamento secreto com Afrodite, esposa de Hefesto.
- Hélio (o Sol), que tudo vê, informa a Hefesto sobre a traição.
- O deus ferreiro não busca vingança pela força. Em vez disso, usa sua inteligência e habilidade técnica.
- Ele fabrica uma rede invisível e inquebrável, prendendo os amantes no próprio leito.
- Fingindo partir para Lemnos, induz Ares a acreditar que o caminho está livre.
- Quando os dois se deitam juntos, ficam presos na armadilha sem qualquer possibilidade de fuga.
O contraste entre força e inteligência, Há uma ironia evidente:
- Ares representa a força física e a impulsividade.
- Hefesto é frequentemente retratado como fisicamente imperfeito, mas extremamente engenhoso.
O episódio mostra uma ideia recorrente da épica grega: a inteligência (mêtis) pode superar a força bruta. É justamente a qualidade que caracteriza Odisseu ao longo de toda a obra.
Relação com Odisseu, Embora a história pareça desligada da narrativa principal, ela dialoga com a situação do herói. Enquanto Odisseu permanece distante de Ítaca, sua esposa Penélope conserva-se fiel. Já Afrodite, casada com Hefesto, trai o marido. O contraste é marcante:
- Ares, deus da guerra, mantém um relacionamento secreto com Afrodite, esposa de Hefesto.
- Hélio (o Sol), que tudo vê, informa a Hefesto sobre a traição.
- O deus ferreiro não busca vingança pela força. Em vez disso, usa sua inteligência e habilidade técnica.
- Ele fabrica uma rede invisível e inquebrável, prendendo os amantes no próprio leito.
- Fingindo partir para Lemnos, induz Ares a acreditar que o caminho está livre.
- Quando os dois se deitam juntos, ficam presos na armadilha sem qualquer possibilidade de fuga.
O contraste entre força e inteligência, Há uma ironia evidente:
- Ares representa a força física e a impulsividade.
- Hefesto é frequentemente retratado como fisicamente imperfeito, mas extremamente engenhoso.
O episódio mostra uma ideia recorrente da épica grega: a inteligência (mêtis) pode superar a força bruta. É justamente a qualidade que caracteriza Odisseu ao longo de toda a obra.
Relação com Odisseu, Embora a história pareça desligada da narrativa principal, ela dialoga com a situação do herói. Enquanto Odisseu permanece distante de Ítaca, sua esposa Penélope conserva-se fiel. Já Afrodite, casada com Hefesto, trai o marido. O contraste é marcante:
| Afrodite | Penélope |
|---|---|
| Trai o marido ausente | Permanece fiel por vinte anos |
| Age movida pelo desejo | Age guiada pela lealdade |
| Coloca a casa em desordem | Preserva a ordem da casa |
O público da Odisseia inevitavelmente compara as duas figuras femininas.
O tema da visibilidade, Outro aspecto importante é o motivo de "quem tudo vê":
- Os amantes acreditam estar ocultos.
- Hélio enxerga tudo.
- Hefesto transforma o segredo em espetáculo público.
Na mentalidade grega, nenhuma ação permanece inteiramente secreta diante dos deuses. A verdade acaba sempre vindo à luz.
Aspecto cômico, Este é um dos raros momentos claramente humorísticos da Odisseia. A comicidade nasce porque:
- um deus guerreiro e poderoso é capturado sem resistência;
- a deusa da beleza fica presa em situação embaraçosa;
- a armadilha é uma espécie de "flagrante divino";
- os amantes percebem tarde demais que foram enganados.
O cantor interrompe temporariamente o clima mais sério da epopeia para oferecer aos ouvintes uma narrativa divertida e conhecida da tradição mitológica.
Um detalhe interessante, O verso em que a rede é comparada a uma teia de aranha é particularmente significativo. Hefesto vence não por violência, mas por um trabalho de artesão minucioso e quase invisível. É uma imagem que antecipa muitas das vitórias de Odisseu, que frequentemente triunfa graças à astúcia, aos disfarces e às armadilhas engenhosas. Em suma, esse canto não é apenas uma história divertida sobre deuses adúlteros. Ele reforça um dos temas centrais da Odisseia: a inteligência estratégica vale mais do que a força e a paixão desenfreada. É uma lição que se aplica tanto a Hefesto quanto ao próprio Odisseu.
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