Odisseia
Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Parte I
A Viagem de Telêmaco
Canto III
Em Pilo
“Telêmaco chega a Pilo junto com Atena na forma de Mentor e encontra os Pílios terminando um sacrifício de touros para Posido. Perguntando sobre seu pai, Nestor expõe alguns dos relatos de Troia. Depois disso, Atena vai embora em forma de pássaro. Nestor oferece um sacrifício a ela e envia Telêmaco para Lacônia junto com seu filho Pisístrato.” (Scholie P S V)
continuando...
para poder dar a Morte a um herói bem mais forte do que ele?
De Argos da Acaia se achava afastado, e talvez por estranhos
homens, errante, de forma que ousou desse modo matá-lo?”
Disse-lhe, então, o Gerênio Nestor, domador de cavalos:
“Toda a verdade, meu filho, do que se passou, vou contar-te.
Com muito tino aventaste como isso se deu realmente:
Se o louro herói Menelau, regressando das plagas troianas,
fosse chegado com tempo de Egisto alcançar ainda vivo,
não lhe teriam, por certo, coberto com terra o cadáver,
mas para as aves e os cães como pasto seria lançado,
longe dos muros jogado, sem que das Aquivas nenhum
pranto por ele vertesse; seu crime foi muito execrável.
Lá nos achávamos todos, às voltas com grandes trabalhos;
ele, folgado, bem no íntimo de Argos, nutriz de ginetes,
com muita lábia e insistência seduz a mulher de Agamémnone.
Ela, de fato, a princípio se nega à proposta impudente,
pois Clitemnestra divina era ornada de bons sentimentos.
Tinha a seu lado um cantor, a quem com muito empenho pedira
lhe defendesse a mulher, ao partir para Troia, Agamémnone.
Quando, porém, a vontade dos deuses a fez submeter-se,
ei-lo que faz conduzir o cantor para uma ilha deserta,
onde o deixou, como presa fatal e repasto das aves.
Para sua casa, depois, a levou, na vontade conformes.
Sobre os altares sagrados dos deuses queimou muitas coxas,
muitas oferendas, também, suspendeu, de tecidos e de ouro,
por ter tal obra acabado, o que nunca em seu peito esperara.
“Já no retorno de Troia o caminho fazíamos juntos
eu mais o Atrida, que afeto recíproco nos afeiçoara.
Mas, quando ao Súnio chegamos, o cabo sagrado de Atenas,
Febo tirou do piloto do rei Menelau a existência;
apropinquando-se dele, com seus brandos raios armado,
quando na mão segurava inda o leme da nau corredora,
Frôntide, filho de Onétor, que a todos os homens vencia
no governar uma nau, té nas ondas e ventos revoltos.
Nesse lugar se deteve, apesar de ansiar pela volta,
para que o sócio ao sepulcro entregasse, com fúnebres honras.
Logo, porém, que partiu, a sulcar pelo mar cor de vinho
nas
naus cavadas, que o monte escarpado Maleia atingira,
célere, eis que o tonante viagem terrível lhe apresta,
Zeus, derramando nas águas estrídulos ventos, e as ondas
intumescendo, quais monstros da altura de enormes montanhas.
Umas das naves, assim dispersadas, a Creta se lançam,
onde os Cidônios habitam, nas margens do Járdano ilustre.
Há, nessa altura, uma pedra talhada e mui lisa, nas ondas,
bem nos extremos de Górtina, a dentro do mar nebuloso.
Noto projeta na ponta da esquerda, do lado de Festo,
grande escarcéu; mas a força é quebrada na pedra pequena.
Para esse ponto vieram, a custo escapando da Morte,
todos os homens; as naus contra escolhos as ondas jogaram.
Cinco, porém, das restantes, de proa de cor anegrada,
pelas correntes e ventos se viram lançadas no Egito.
Por esse modo, reunia muito ouro e vitualhas sem conta,
a pervagar com suas naus por entre homens de estranha linguagem.
Nesse entrementes, Egisto na pátria o delito acabava:
Reina em Micenas, em ouro abundante, durante sete anos,
pós dar a Morte a Agamémnone e o povo forçar à obediência.
Mas no seguinte, por sua desgraça, retorna de Atenas
o ínclito Orestes, e a Egisto matou, o assassino do Atrida,
que, com traiçoeira artimanha, matara seu pai muito ilustre.
Tendo isso feito, aos Argivos apresta, em seguida, um banquete
pelas exéquias da mãe odiosa e de Egisto covarde.
No mesmo dia chegou Menelau, de voz forte na guerra,
tão opulento de bens quanto as naus comportavam de carga.
“Tu também, caro, não vagues mais tempo distante da pátria,
abandonando os haveres, além de em tua casa deixares
homens de tanta arrogância; não vá suceder que devorem
toda a fazenda, e a dividam, ficando-te a viagem frustrada.
Mas aconselho-te e exorto-te a ires à casa do Atrida,
que, há pouco tempo, voltou do comércio de terras estranhas,
donde jamais afagara esperança do dia da volta
quem, desse modo, se visse desviado por tais tempestades
num mar de tanta largura, que as aves, quiçá, não conseguem
atravessá-lo num ano, tão grande e terrível é ele.
Vai em tua nau procurá-lo, seguido de teus companheiros.
Se preferires a via terrestre, cavalos e carro
ao teu dispor aqui tens; poderão os meus filhos levar-te
ao louro Atrida, que mora na terra sagrada de Esparta.
Tu próprio deves pedir-lhe que fale conforme a verdade.
Como sensato varão, não dirá falsidade nenhuma.”
Disse, no tempo em que o Sol se deitou, sucedendo-se as trevas.
A de olhos glaucos, Atena, lhe diz, em resposta, o seguinte:
“Tudo, ó ancião, que contaste, foi dito com senso e justiça.
Mas concluamos; as línguas cortai, misturai logo o vinho,
para cuidar de dormir, em seguida, depois de libarmos
ao deus Posido e às demais divindades; chegado é o momento.
A luz do Sol já baixou para o ocaso; ficar não devemos
por muito tempo na festa dos deuses, mas irmo-nos logo.”
Esse o discurso da filha de Zeus; os demais lhe obedecem.
Fazem vir água e por cima das mãos os arautos a deitam;
té pelas bordas os moços os jarros encheram de vinho,
distribuindo por todos os copos as sacras primícias.
Tendo nas chamas as línguas lançado, de pé libam logo.
Isso, porém, terminado, e depois que à vontade beberam,
ambos, Atena e Telêmaco, em tudo a um dos deuses semelho,
manifestaram vontade de para o navio ir de volta.
Repreendeu-os Nestor, com palavras de amiga censura:
“Zeus nos defenda e, também, as demais divindades eternas,
de abandonardes-me a casa, com o fim de ao navio vos irdes,
como se eu fosse indivíduo privado de bens e de roupa,
sem ter em casa nem mantos, nem cópia de bons cobertores
em que pudesse dormir suavemente e, comigo, meus hóspedes.
Há no palácio, sem dúvida, mantos e belas cobertas.
O de Odisseu caro filho de jeito nenhum sobre as tábuas
pernoitará do navio, enquanto eu estiver ainda vivo,
ou no palácio meus filhos ficarem, depois, como donos,
e receberem quem vier visitá-los em nosso palácio.”
A de olhos glaucos, Atena, lhe diz, em resposta, o seguinte:
“Caro ancião, com prudência falaste; por certo Telêmaco
há de aceitar-te o conselho, por ser esse o alvitre mais justo.
Há de seguir-te, sem dúvida, ao belo palácio em que moras,
para dormir. Eu, porém, para a nau voltarei, de cor negra,
para que os sócios anime e lhes fale e proveja de tudo,
pois tenho orgulho de ser o mais velho no nosso navio.
Por amizade, os demais o acompanharam na viagem; são jovens;
com o generoso Telêmaco todos regulam na idade.
Junto da côncava nau de cor negra a dormir me proponho.
Mas amanhã partirei para a terra dos grandes Caucônios,
para cobrar uma dívida não de valor despiciendo,
nem muito nova. Mas este, uma vez que chegou à tua casa,
manda-o de carro, e que um filho o acompanhe; cavalos lhe cede,
dos mais velozes que tenhas no curso, e de força provados.”
Palas Atena, depois que assim disse, partiu-se depressa,
sob a figura de uma águia. Espantaram-se todos que a viram.
Fica admirado o ancião por ter visto com os olhos aquilo;
toma da mão de Telêmaco e diz-lhe as seguintes palavras:
“Caro, não creio que venhas a ser nem covarde, nem fraco,
pois, desse modo, com tão poucos anos, os deuses te seguem.
Vimos, por certo, um dos deuses que moram no Olimpo altanado,
a Tritogênia gloriosa, nascida de Zeus poderoso,
que distinguia a teu pai muito ilustre no exército Argivo.
Sê-nos propícia, rainha, concede-nos ínclita glória,
não só a mim, mas aos filhos, também, como à esposa pudica.
Hei de imolar-te vitela de um ano, de fronte espaçosa,
nunca domada por homem nenhum, nem vergada no jugo.
Em sacrifício ta oferto, depois de dourar-lhe os dois chifres.”
Isso disse ele na súplica. A deusa o atendeu prontamente.
Guia os demais o Gerênio Nestor, condutor de cavalos,
filhos e genros, que, então, o acompanham ao belo palácio.
Logo que todos chegaram à casa do rei, opulenta,
sentam-se em ordem, assim nas cadeiras, bem como nos tronos.
Manda o Gerênio Nestor misturar na cratera para o hóspede
vinho de doce padar, que há onze anos estava guardado.
A despenseira abriu logo a vasilha, tirando-lhe a faixa.
Feita no copo a mistura e libado, o ancião venerável
ardentemente suplica à nascida de Zeus poderoso.
Isso, porém, terminado, e depois que à vontade beberam,
foram cuidar de dormir, cada um em sua própria morada,
Quanto a Telêmaco, o filho querido do ilustre Itacense,
torna-o a cargo o Gerênio Nestor, domador de cavalos.
Arma-lhe um leito lavrado, debaixo da sala sonora,
tendo ao seu lado Pisístrato, chefe pugnaz de guerreiros,
pois no palácio, dos filhos era este o que moço restava.
Ele, porém, se deitou no interior de sua alta morada,
onde a consorte partilha do leito e colchões, que ajeitara.
Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina,
prestes se ergueu o Gerênio Nestor, condutor de cavalos.
Tendo saído do quarto, se assenta nas pedras polidas
que se encontravam em frente da porta imponente, tão brancas
como brilhantes, porque de óleo untadas. Neleu ali mesmo
dantes sentar-se soía, qual deus imortal nos conselhos.
Mas, pela Parca apanhado, já havia descido para o Hades.
Ora, com o cetro na mão, se assentava Nestor, dos Aquivos
guarda seguro; rodeando-o, vieram juntar-se-lhe os filhos,
que, nesse tempo, do quarto saíam: Equéfrone, Areto,
e Trasimedes, a um deus semelhante, Perseu e Estratio.
Sexto e por último, veio ajuntar-se-lhes o alto Pisístrato.
Estes o divo Telêmaco trazem, que ao lado se assenta.
Diz-lhes, então, o Gerênio Nestor, condutor de cavalos:
“Sem mais delongas, meus filhos queridos, cumpri-me o desejo,
para que obsecre, primeiro que aos outros, o auxílio de Atena,
que no banquete opulento do deus claramente foi vista.
Vá um de vós escolher a vitela no campo; e que venha
logo; convém que o pastor maioral seja o próprio a trazê-la.
Outro dirija-se à nau de cor negra do grande Telêmaco,
para que seus companheiros nos traga, deixando dois deles.
Ordens transmita um terceiro ao ourives Laércio, chamando-o,
a fim de que nos prepare a vitela, dourando-lhe os chifres.
Quanto a vós outros, ficai reunidos; dizei às criadas
que, sem demora, preparem na casa opulenta o banquete
e tragam, logo, cadeiras e lenha, bem como água limpa.”
Disse; apressados, então, lhe obedecem. Do campo a vitela
veio trazida; da nave ligeira e simétrica os sócios
chegam do grande Telêmaco; o ourives, também, logo veio,
tendo nas mãos utensílios de bronze, instrumentos do ofício
que exercitava: martelo, bigorna, e tenazes bem-feitas.
Com essas coisas trabalha. Baixou, também, Palas Atena,
para ao convite assistir. O Gerênio mandou que trouxessem
o ouro preciso, que o artífice, tendo-o mui bem-laminado,
põe da vitela nas aspas, a fim de que a deusa se alegre.
Trazem-na Equéfrone e o divo Estratio segura dos chifres.¹
Água lustral traz Areto, a seguir, em florida bacia,
vindo do quarto, e na esquerda açafate com as molas do estilo.
Para que o golpe pudesse ferir, Trasimedes guerreiro
põe-se de lado, apertando na mão um machado afiado;
vaso sustenta Perseu para o sangue; Nestor, o ginete,
dá, logo, início pela água lustral e o espalhar da farinha,
tendo lançado no fogo os cabelos e a Atena implorado.
Dessa maneira, concluída a oração e a farinha espalhada,
eis que a feriu, do lugar em que estava, o belaz Trasimedes, filho
do velho Nestor; e lhe corta os tendões e o pescoço
com a secure, que as forças lhe tira. O clamor de piedade
logo elevaram as filhas e noras e a esposa pudica
de Nestor, filha mais velha de Clímeno, Eurídice ilustre.
Eles, depois, a sustentam acima do solo espaçoso,
onde Pisístrato logo a degola, o senhor de guerreiros.
Quando saiu todo o sangue mui negro e, dos ossos, a vida,
sem dilação a esquartejam e tiram-lhe os ossos das coxas,
tudo de acordo com os ritos, em dupla camada os envolvem
da própria graxa, jogando por cima pedaços de carne.
Assa-os na lenha o ancião, tendo vinho por cima aspergido;
com garfos de cinco dentes, ao lado, os rapazes o ajudam.
Quando queimadas as coxas e as vísceras todas comidas,
logo o restante retalham e espetos enfiam nas postas
para as assar, segurando nas mãos os espetos agudos.
Mas Policasta formosa, entrementes, banhava a Telêmaco,
filha caçula do velho Nestor, de Neleu descendente.
Tendo-o lavado e, em seguida, esfregado com óleo de oliva,
deita-lhe em torno uma túnica e esplêndido manto por cima.
Ei-lo que sai da banheira, tal como um dos deuses eternos,
indo sentar-se de par com Nestor, o pastor desses povos.
Logo que a carne por fora tostou, dos espetos a tiram;
sentam-se para o banquete; varões diligentes à volta
deles não deixam de o vinho deitar nas douradas crateras.
Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado,
toma a palavra o Gerênio Nestor, condutor de cavalos:
“Meus caros filhos, trazei-me os cavalos de crina formosa
para atrelá-los no carro e seguir seu caminho Telêmaco.”
Isso disse ele; atenção lhe prestaram; cumprindo-lhe as ordens.
Rapidamente, atrelaram no carro os cavalos velozes.
Traz pão e vinho, e os coloca no carro mulher despenseira,
e outros manjares, que comem os reis de divina progênie.
Sobe Telêmaco, então, para o carro magnífico, ao lado
vindo o valente Pisístrato, filho do forte Nelida,
que, tendo ao carro subido, tomou logo as rédeas potentes.
Com chicotada os cavalos esperta, que partem velozes
pela planície, deixando a altanada cidade de Pilo.
O dia inteiro galopam e o jugo, incessantes, sacodem.
E, quando o Sol se deitou e as estradas a sombra cobria,
ei-los chegados a Feras, em frente ao palácio de Diocles,
filho de Ortíloco, que por Alfeu tinha sido gerado.
Lá pernoitaram, tendo ele of’recido hospedal tratamento.
Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina,
tendo atrelado os cavalos, ao carro enfeitado subiram
e para fora os guiaram da porta da sala sonora.
Com chicotada os cavalos esperta, que partem velozes
pela planície, trigo abundante, onde logo a viagem
levam a termo; tal era o vigor dos velozes cavalos.
E, quando o Sol se deitou e as estradas a sombra cobria.
continua página 697...
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b / Canto III.a / Canto III.b /
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
[1] Esse trecho — “O Gerênio mandou que trouxessem o ouro preciso…” — é uma tradução antiga da Ilíada, no episódio em que se prepara um sacrifício ritual para a deusa Atena. Destrinchando o sentido e o contexto para melhor entendimento.
O personagem chamado Gerênio é Nestor, frequentemente chamado “o Gerênio” por ser o ancião de Gerênia. Ele está organizando um ritual de súplica à deusa Atena.
Nestor ordena que tragam ouro puro, material valioso usado para adornar o objeto do sacrifício.
O artífice (o artesão) lamina o ouro e o coloca nas aspas — isto é, nas pontas dos chifres da vitela (novilha).
É um costume ritual: decorar os chifres do animal sacrificial com ouro para honrar a divindade.
Dois jovens — Equéfrone e Estratio — conduzem a vitela, segurando-a pelos chifres já adornados.
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