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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Crônica: Ano Novo

Luis Fernando Veríssimo

Uma crônica sobre o ano de 2012 para 2013..

     Existem muitas superstições sobre a melhor maneira de entrar o Ano-Novo. Na nossa casa, por exemplo, nunca falta um prato de lentilha para ser consumido nos primeiros minutos do ano que começa. Dá sorte. Ouvi dizer que na Espanha, ao soar da meia-noite, deve-se comer uma uva para cada badalada do relógio. Este costume chegou à Bulgária mas, por uma falha na tradução, lá se come um melão para cada batida do relógio, e os hospitais ficam cheios no dia 1º. Na Suíça, comem o relógio.

     Algumas crenças persistem através do tempo, desafiando toda lógica. Se o champanhe aberto à meia-noite não estourar e se tiver alguém na família chamado Edgar, é sinal de que a casa será arrasada por uma manada de elefantes e o champanhe está choco. Na Rússia, depois de brindarem o Ano-Novo com vodca, os convidados devem atirar suas taças contra a parede e depois ficar muito brabos porque não há mais copos na casa e atirar o anfitrião contra a parede. De qualquer maneira, a festa termina cedo.

     Na Índia se a primeira criança que nascer no Ano-Novo tiver bigode, fumar de piteira e pedir para falar urgentemente com o Kofi Anan, é mau sinal. Na Polinésia, em certas tribos primitivas, o guerreiro mais audaz deve levar a virgem mais bonita até a boca do vulcão e atirá-la para a morte, como um sacrifício aos deuses. Mas a encosta do vulcão é comprida, os dois param para descansar um pouco e, quando chegam à boca do vulcão, estabelece-se o paradoxo: se o guerreiro era audaz, a moça não é mais virgem, se a moça ainda é virgem, o guerreiro não era audaz, e o sacrifício sempre fica para o ano que vem. Na Austrália, todos se atiram contra a parede.

     Entrar o Ano-Novo de gravata-borboleta pode comprometer seriamente as relações entre o Oriente e o Ocidente. O primeiro animal que você encontrar na rua no Ano-Novo pode significar uma coisa. Cachorro é sorte. Gato é dinheiro. Rato é saúde. Um bando de hienas é azar, corra. Um cavalo roxo dançando o xaxado na calçada significa que você está bêbado. Vá dormir.

     Em certos lugares, é costume derramar champanhe no decote da mulher ao seu lado, o que lhe trará, a longo prazo, bons negócios, e, a curto prazo, um tapa-olho. Se você estiver num réveillon junto com seu patrão, não esqueça de se colocar estrategicamente para ser o primeiro a abraçá-lo à meia-noite. Dance com a mulher dele. Insista para que ele dance com a sua. Proponha vários brindes. Pule em cima da mesa. Proponha mais brindes. Diga que agora você é quem vai dançar com o patrão e não quer nem saber. Acabe lhe dizendo algumas verdades. Proteste que ninguém precisa segurar você, você está sóbrio, entende? Sóbrio! Só não sabe como uma manada de elefantes roxos invadiu o salão, ou será que a mulher do patrão trouxe a família toda? No dia 1º você não se lembrará de nada. No dia 2, você vai procurar outro emprego. Chato.

     Outro costume é fazer previsões na véspera do Ano-Novo. Pode chover. Alguém, em algum lugar do Brasil, está dizendo: “Boas-entradas nada, eu quero saber onde fica a saída…” E a previsão mais fácil de todas…

– Qual é?

– Amanhã eu vou estar de ressaca!

Enfim, o Ano-Novo já está quase aí e, apesar de muita gente no Brasil telefonar para os parentes no Japão, onde o 2013 chegará mais cedo, querendo saber que tal o ano, como quem pergunta como é que está a água, ninguém sabe como ele será. Farei o possível para entrar nele com o pé direito, mas, quando perceber, ele é que terá entrado em mim, não dará para recuar.

     Só sei uma coisa. Assim que o relógio terminar de bater a meia-noite, comerei meu prato de lentilha para dar sorte. Pedirei outro. E derramarei lentilha no colo, destruindo para sempre A) um bom par de calças e B) minha fé em qualquer tipo de superstição.

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Luis Fernando Veríssimo (1936 - 2025) foi um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor (algumas nem tão bem humoradas, mas sempre nos provocando...), seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas.

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sábado, 27 de dezembro de 2025

Crônica: Equívocos

Luis Fernando Veríssimo


     Uma família de classe média alta. Pai, mulher, um filho de sete anos. É a noite do dia em que o filho fez sete anos. A mãe recolhe os detritos da festa.

     O pai ajuda o filho a guardar os presentes que ganhou dos amigos. Nota que o filho está quieto e sério, mas pensa: "É o cansaço." Afinal ele passou o dia correndo de um lado para o outro, comendo cachorro-quente e sorvete, brincando com os convidados por dentro e por fora da casa. Tem que estar cansado.

- Quanto presente, hein, filho? 
- É. 
- E esta espada. Mas que beleza. Esta eu não tinha visto. 
- Pai... 
- E como pesa! Parece uma espada de verdade. É de metal mesmo. Quem foi que deu? 
- Era sobre isso que eu queria falar com você.

     O pai estranha a seriedade do filho. Nunca o viu assim. Nunca viu nenhum garoto de sete anos sério assim. Solene assim. Coisa estranha... O filho tira a espada da mão do pai. Diz:

- Pai, eu sou Thunder Boy. 
- Thunder Boy? 
- Garoto Trovão. 
- Muito bem, meu filho. Agora vamos pra cama. 
- Espere. Esta espada. Estava escrito. Eu a receberia quando fizesse sete anos.

     O pai se controla para não rir. Pelo menos a leitura de história em quadrinhos está ajudando a gramática do guri. "Eu a receberia..." O guri continua.

- Hoje ela veio. É um sinal. Devo assumir meu destino. A espada passa a um novo Thunder Boy a cada geração. Tem sido assim desde que ela caiu do céu, no vale sagrado de Bem Tael, há sete mil anos, e foi empunhada por Ramil, o primeiro Garoto Trovão.

     O pai está impressionado. Não reconhece a voz do filho. E a gravidade do seu olhar. Está decidido. Vai cortar as histórias em quadrinhos por uns tempos.

- Certo, filho. Mas agora vamos... 
- Vou ter que sair de casa. Quero que você explique à mamãe. Vai ser duro para ela. Conto com você para apoiá-la. Diga que estava escrito. Era o meu destino. 
- Nós nunca mais vamos ver você? - pergunta o pai, resolvendo entrar no jogo do filho enquanto o encaminha, sutilmente, para a cama. 
- Claro que sim. A espada do Thunder Boy está a serviço do bem e da justiça. Enquanto vocês forem pessoas boas e justas poderão contar com a minha ajuda. 
- Ainda bem - diz o pai.

     E não diz mais nada. Porque vê o filho dirigir-se para a janela do seu quarto, e erguer a espada como uma cruz, e gritar para os céus "Ramil!". E ouve um trovão que faz estremecer a casa. E vê a espada iluminar-se e ficar azul. E o seu filho também.

     O pai encontra a mulher na sala. Ela diz:

- Viu só? Trovoada. Vá entender este tempo. 
- Quem foi que deu a espada pra ele? 
- Não foi você? Pensei que tivesse sido você. 
- Tenho uma coisa pra te contar. 
- O que é? 
- Senta, primeiro.

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Luis Fernando Veríssimo (1936 - 2025) foi um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor (algumas nem tão bem humoradas, mas sempre nos provocando...), seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas.

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terça-feira, 25 de novembro de 2025

Crônica: Exigências da vida moderna

Luis Fernando Veríssimo


     Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferro. E uma banana pelo potássio. E também uma laranja pela vitamina C. Uma xícara de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.
     Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água. E uriná-los, o que consome o dobro do tempo.
     Todos os dias deve-se tomar um Yakult pelos lactobacilos (que ninguém sabe bem o que é, mas que aos bilhões, ajudam a digestão).
     Cada dia uma Aspirina, previne infarto.
     Uma taça de vinho tinto também. Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso.
     Um copo de cerveja, para… não lembro bem para o que, mas faz bem.
     O benefício adicional é que se você tomar tudo isso ao mesmo tempo e tiver um derrame, nem vai perceber.
     Todos os dias deve-se comer fibra. Muita, muitíssima fibra. Fibra suficiente para fazer um pulôver.
     Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente.
     E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada. Só para comer, serão cerca de cinco horas do dia… E não esqueça de escovar os dentes depois de comer.
     Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e enquanto tiver dentes, passar fio dental, massagear a gengiva, escovar a língua e bochechar com Plax.
     Melhor, inclusive, ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamento de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia.
     Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia, mais as cinco comendo são vinte e uma. Sobram três, desde que você não pegue trânsito.
     As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia. Menos você, porque todos os dias você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma).
     E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar delas quando eu estiver viajando.
     Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por dia para comparar as informações.
     Ah! E o sexo! Todos os dias, tomando o cuidado de não se cair na rotina. Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução. Isso leva tempo – e nem estou falando de sexo tântrico.
     Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação.
     Na minha conta são 29 horas por dia. A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo!
     Por exemplo, tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes.
     Chame os amigos junto com os seus pais.
     Beba o vinho, coma a maçã e a banana junto com a sua mulher… na sua cama.
     Ainda bem que somos crescidinhos, senão ainda teria um Danoninho e se sobrarem 5 minutos, uma colherada de leite de magnésio.
     Agora tenho que ir.
     É o meio do dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro. E já que vou, levo um jornal… Tchau!
     Viva a vida com bom humor!!!





Edson Valerio

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Luis Fernando Veríssimo (1936 - 2025) foi um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor (algumas nem tão bem humoradas, mas sempre nos provocando...), seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas.

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Exigências da vida moderna / Equívocos

sábado, 22 de novembro de 2025

Crônica: Provocações

Luis Fernando Veríssimo


     “A primeira provocação ele aguentou calado. Na verdade, gritou e esperneou. Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão.

     Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento. Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz.

     Foram lhe provocando por toda a vida.

     Não pode ir a escola porque tinha que ajudar na roça. Tudo bem, gostava da roça. Mas aí lhe tiraram a roça.

     Na cidade, para aonde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era lado. Resistiu a todas. Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar. Ir para um barraco pior. Ficou firme.

     Queria um emprego, só conseguiu um subemprego. Queria casar, conseguiu uma submulher. Tiveram subfilhos. Subnutridos. Para conseguir ajuda, só entrando em fila. E a ajuda não ajudava.

     Estavam lhe provocando.

     Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar pra roça.

     Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era. Parece que a ideia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa.

     Terra era o que não faltava.

     Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera. Amanhã. No próximo ano. No próximo governo. Concluiu que era provocação. Mais uma.

     Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Para valer. Garantida. Se animou. Se mobilizou. Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir. Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação.

     Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim. Talvez amanhã. Talvez no próximo ano… Então protestou.

     Na décima milésima provocação, reagiu. E ouviu espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele:

– Violência, não!”


Provocações 
- Abujamra 
- Luis Fernando Veríssimo




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Luis Fernando Veríssimo (1936 - 2025) foi um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor (algumas nem tão bem humoradas, mas sempre nos provocando...), seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas.

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A metamorfose / Épico / O Lixo / Dois mais dois / Não me acorde / Cuia / Provocações /

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Crônica: Cuia

Luis Fernando Veríssimo


     Lindaura, a recepcionista do analista de Bagé ― segundo ele, “mais prestimosa que mãe de noiva” ―, tem sempre uma chaleira com água quente pronta para o mate. O analista gosta de oferecer chimarrão a seus pacientes e, como ele diz, “charlar passando a cuia, que loucura não tem micróbio”. Um dia entrou um paciente novo no consultório.

Buenas, tchê ― saudou o analista. ― Se abanque no más.

     O moço deitou no divã coberto com um pelego e o analista foi logo lhe alcançando a cuia com erva nova. O moço observou:

― Cuia mais linda.
Cosa mui especial. Me deu meu primeiro paciente. O coronel Macedônio, lá pras banda de Lavras.
― A troco de quê? ― quis saber o moço, chupando a bomba.
Pues tava variando, pensando que era metade homem e metade cavalo. Curei o animal.
Oigalê.
― Ele até que não se importava, pues poupava montaria. A família é que encrencou com a bosta dentro de casa.
A la putcha.

O moço deu outra chupada, depois examinou a cuia com mais cuidado.

― Curtida barbaridade. 
― Também. Mais usada que pronome oblíquo em conversa de professor.
Oigatê.

     E a todas estas o moço não devolvia a cuia. O analista perguntou:

― Mas o que é que lhe traz aqui, índio velho?
― É esta mania que eu tenho, doutor.
Pos desembuche.
― Gosto de roubar as coisas.
― Sim.

     Era cleptomania. O paciente continuou a falar, mas o analista não ouvia mais.
     Estava de olho na sua cuia.

― Passa ― disse o analista.
― Não passa, doutor. Tenho esta mania desde piá.
― Passa a cuia.
― O senhor pode me curar, doutor?
― Primeiro devolve a cuia.

     O moço devolveu.
     Daí para diante, só o analista tomou chimarrão. E cada vez que o paciente estendia o braço para receber a cuia de volta, ganhava um tapa na mão.

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Luis Fernando Veríssimo (1936 - 2025) foi um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor, seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas.

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Mano Lima - sobre o Mate




Causos do Mano Lima




Mano Lima - Cadela Baia 
Programa De Campo E Alma




Cadela Baia | Mano Lima e Grupo Bororé
Composição: Mano Lima.
Programa de Corpo e Alma

A minha doma é na base do ia há há
Deixo que corra à vontade e embalo o corpo pra golpear
Dou-lhe um tirão lá no fundo da invernada
E outro aqui na chegada e nesse já faço esbarrar
Dou-lhe um tirão lá no fundo da invernada
E outro aqui na chegada e nesse já faço esbarrar
Conto com a sorte e com a minha cadela baia
Que às vezes a pobre me ajuda e outras vezes me atrapalha
Eu mesmo pego, eu mesmo encilho, eu mesmo espanto
Depois que solto pra arriba nos arreios eu me garanto
Eu mesmo pego, eu mesmo encilho, eu mesmo espanto
Depois que solto pra arriba nos arreio eu me garanto
Depois que eu boto a curva da perna no arreio
Pode frouxar a minha cadela só que rache pelo meio
A minha cadela sai pegando pelas venta
E eu afirmo na soiteira e abraço nas ferramenta
A minha cadela sai pegando pelas venta
E eu afirmo na soiteira e abraço nas ferramenta
Pra quem não sabe o meu apelido é polvadeira
E desde que eu vim da fronteira dou pau em égua porreada
Meu professor foi o maragato Antenor
Que mora ali no corredor pra diante da encruzilhada
Meu professor foi o maragato Antenor
Que mora ali no corredor pra diante da encruzilhada
Conto com a sorte e com a minha cadela baia
Que às vezes a pobre me ajuda e outras vezes me atrapalha
Eu mesmo pego, eu mesmo encilho, eu mesmo espanto
Depois que solto pra arriba nos arreios eu me garanto
Eu mesmo pego, eu mesmo encilho, eu mesmo espanto
Depois que solto pra arriba nos arreios eu me garanto
Depois que eu boto a curva da perna no arreio
Pode soltar a minha cadela só que rache pelo meio
A minha cadela sai pegando pelas venta
E eu afirmo na soiteira e abraço nas ferramenta
A minha cadela sai pegando pelas venta
E eu afirmo na soiteira e abraço nas ferramenta

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Crônica: Não me acorde

Luis Fernando Veríssimo


     O passado é prologo.

     Certos acontecimentos dão força a essa frase. Transformam tudo que veio antes em preliminar, em mero antecedente. Ou, para usar outro termo literário, em prefácio. Você se dá conta de que tudo que houve até ali, toda uma vida, toda uma história foi simplesmente preparação para aquele certo momento, depois do qual, nada será como era.

     E o passado ganha uma lógica que não tinha. Você passa a entender tudo em retrospecto. Tudo tinha um sentido em que você apenas não percebera, na falta do momento máximo. A vitória do Grêmio, em Tóquio em 83, os anos medíocres, o quase rebaixamento, as finais desperdiçadas, os vexames, as desilusões, tudo era prólogo para ontem.

     Agora ficou claro. Agora ficou lógico.

     O próprio destaque como melhores do mundo, conquistado pelo Barcelona e pelo Ronaldinho, fazia parte da preparação para o nosso 17 de dezembro, que não teria o mesmo gosto épico se o adversário fosse outro. Tudo era armação para aumentar o brilho e o drama do nosso momento máximo. Tudo se encaixava. Ou você pensa que a saída do Pato e do Fernandão foi obra do acaso, esse autor sem imaginação?

O resultado veio sendo construído aos poucos, desde antes da fundação do Internacional. Antes de Pedro Alvares Cabral, antes de Onero e das Pirâmides. E eu sabia que havia uma justificativa histórica para o topete do Gabiru.

Há dias, a leitora Poliana Lopes me lembrou de um texto que eu tinha escrito e esquecido. Ela teve a gentileza de me mandar o texto, e eu peço licença para repeti-lo agora. Era assim:

     Meu caro Colorado. Desculpe esta carta a céu aberto, é por que não sei seu nome nem seu endereço. Na verdade, só vi você na rua de mãos dadas com seu pai e cercado pelos seus irmãos que vestiam a camiseta do Grêmio. Suponho que fossem seu pai e seus irmãos.
     Você estava com a camiseta do Internacional. Quase parei o carro para olhar melhor, mas não era miragem. Você tinha uns quatro ou cinco anos e estava de camiseta vermelha. Seu pai vestia uma camiseta branca exemplarmente neutra, mas posso imaginar como tem sido a sua vida em casa. As provocações, os petelecos, a flauta, o martírio.
     E lá estava você de camiseta vermelha, o antigo escudo orgulhosamente no peito, desafiando todas as provações. Não sei se você sabe que vários colorados da sua geração não aguentaram e trocaram de time. Levaram pais e avós ao desespero, mas não suportaram a pressão do sucesso gremista.
     Você aguentou! Você não sabe, mas é um herói. E fiquei pensando que, quando for a nossa vez de novo, teremos certamente a torcida mais dedicada, fiel, convicta e feliz do Brasil. Porque será a torcida dos que resistiram. Aguente só mais um pouco. Meus respeitos.

     Mas isso tudo também pode ser um sonho.
     Se for, por favor, não me acorde.






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Luis Fernando Veríssimo (1936 - 2025) foi um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor, seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas.

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A metamorfose / Épico / O Lixo / Dois mais dois / Não me acorde / Cuia /


Resenha há 10 anos!
COLEÇÃO LUIS FERNANDO VERISSIMO



Ler Antes de Morrer

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Crônica: Dois mais dois

Luis Fernando Veríssimo


     O Rodrigo não entendia por que precisava aprender matemática, já que a sua minicalculadora faria todas as contas por ele, pelo resto da vida, e então a professora resolveu contar uma história.

     Contou a história do Supercomputador. Um dia disse a professora, todos os computadores do mundo serão unificados num único sistema, e o centro do sistema será em alguma cidade do Japão. Todas as casas do mundo, todos os lugares do mundo terão terminais do Supercomputador. As pessoas usarão o Supercomputador para compras, para recados, para reservas de avião, para consultas sentimentais. Para tudo. Ninguém mais precisará de relógios individuais, de livros ou de calculadoras portáteis. Não precisará mais nem estudar. Tudo que alguém quiser saber sobre qualquer coisa estará na memória do Supercomputador, ao alcance de qualquer um. Em milésimos de segundo a resposta à consulta estará na tela mais próxima. E haverá bilhões de telas espalhadas por onde o homem estiver, desde lavatórios públicos até estações espaciais. Bastará ao homem apertar um botão para ter a informação que quiser.

     Um dia, um garoto perguntará ao pai:

– Pai, quanto é dois mais dois?
– Não pergunte a mim – dirá o pai -, pergunte a Ele.

     E o garoto digitará os botões apropriados e num milésimo de segundo a resposta aparecerá na tela. E então o garoto dirá:

– Como é que sei que a resposta é certa?
– Porque Ele disse que é certa – responderá o pai.
– E se Ele estiver errado?
– Ele nunca erra.
– Mas se estiver?
– Sempre podemos contar nos dedos.
– O quê?
– Contar nos dedos, como faziam os antigos. Levante dois dedos. Agora mais dois. Viu? Um, dois, três, quatro. O computador está certo.
– Mas, pai, e 362 vezes 17? Não dá para contar nos dedos. A não ser reunindo muita gente e usando os dedos das mãos e dos pés. Como saber se a resposta d’Ele está certa? Aí o pai suspirou e disse:
– Jamais saberemos...

     O Rodrigo gostou da história, mas disse que, quando ninguém mais soubesse matemática e não pudesse pôr o Computador à prova, então não faria diferença se o Computador estava certo ou não, já que a sua resposta seria a única disponível e, portanto, a certa, mesmo que estivesse errada, e... Aí foi a vez da professora suspirar.

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Luis Fernando Veríssimo (1936 - 2025) foi um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor, seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas.

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A metamorfose / Épico / O Lixo / Dois mais dois / Não me acorde

domingo, 16 de novembro de 2025

Crônica: O Lixo

Luis Fernando Veríssimo


     Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.

- Bom dia... 
- Bom dia. 
- A senhora é do 610. 
- E o senhor do 612 
- É. 
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente... 
- Pois é... 
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo... 
- O meu quê? 
- O seu lixo. 
- Ah... 
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena... 
- Na verdade sou só eu. 
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata. 
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar... 
- Entendo. 
- A senhora também... 
- Me chame de você. 
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim... 
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra... 
- A senhora... Você não tem família? 
- Tenho, mas não aqui. 
- No Espírito Santo. 
- Como é que você sabe? 
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo. 
- É. Mamãe escreve todas as semanas. 
- Ela é professora? 
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou? 
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora. 
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo. 
- Pois é... 
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado. 
- É. 
- Más notícias? 
- Meu pai. Morreu. 
- Sinto muito. 
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos. 
- Foi por isso que você recomeçou a fumar? 
- Como é que você sabe? 
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo. 
- É verdade. Mas consegui parar outra vez. 
- Eu, graças a Deus, nunca fumei. 
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo... 
- Tranquilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo? 
- Isso você também descobriu no lixo? 
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel. 
- É, chorei bastante, mas já passou. 
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos... 
- É que eu estou com um pouco de coriza. 
- Ah. 
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo. 
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é. 
- Namorada? 
- Não. 
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha. 
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga. 
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte. 
- Você já está analisando o meu lixo! 
- Não posso negar que o seu lixo me interessou. 
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia. 
- Não! Você viu meus poemas? 
- Vi e gostei muito. 
- Mas são muito ruins! 
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados. 
- Se eu soubesse que você ia ler... 
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela? 
- Acho que não. Lixo é domínio público. 
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso? 
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que... 
- Ontem, no seu lixo... 
- O quê? 
- Me enganei, ou eram cascas de camarão? 
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei. 
- Eu adoro camarão. 
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode... 
- Jantar juntos? 
- É. 
- Não quero dar trabalho. 
- Trabalho nenhum. 
- Vai sujar a sua cozinha? 
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
- No seu lixo ou no meu?

VERÍSSIMO, Luís Fernando. O analista de Bagé. RJ: Objetiva. 2002.






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Luis Fernando Veríssimo (1936 - 2025) foi um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor, seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas.

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sábado, 15 de novembro de 2025

Crônica: Épico

Luis Fernando Veríssimo


     O futebol de calçada era com narração, e o próprio jogador fornecia a narração. Jogava e descrevia sua jogada ao mesmo tempo, e nunca deixava de se auto entusiasmar. “Sensacional, senhores ouvintes!” (Naquele tempo os locutores tratavam o público de “senhores ouvintes”).

     “Sensacional! Mata no peito, põe no chão, faz que vai mas não vai, passa por um, por dois... Fáu! Foi fáu do béque! O juiz não deu! O juiz está comprado, senhores ouvintes!”

     Fáu era “foul” e béque era “back”, na língua daquela terra estranha, o passado. E o juiz, claro, era imaginário. Tudo era imaginário no futebol de calçada, a começar pela nossa genialidade. A bola era de borracha, quando não era qualquer coisa remotamente redonda. O bola número cinco oficial de couro ganha no Natal não aparecia na calçada, tá doido? Estragar uma bola de futebol novinha jogando futebol?

     Mas éramos gênios na nossa própria narração.

     “Lá vai ele de novo. Cabeça erguida! Passa a bola e corre para receber de volta... Que lance! O passe não vem! Não lhe devolvem a bola! Assim não dá, senhores ouvintes ... Só ele joga nesse time!”

     A narração dava um toque épico ao futebol. Lembro que na primeira vez em que fui a um campo, acostumado a só ouvir futebol pelo rádio, senti falta de alguma coisa que não sabia o que era. Tudo era maravilhoso, o público, o cheiro de grama, os ídolos que eu conhecia de fotografias desbotadas no jornal ali, em cores vivas... Mas faltava alguma coisa. Faltava uma voz me dizendo que o que eu estava vendo era mais do que estava vendo. Faltava a narrativa heroica. Faltava o Homero.

     Na calçada éramos os nossos próprios heróis e os nossos próprios Homeros.

     “Atenção. Ele olha para o gol. Vai chutar. Lá vai a bomba. O goleiro treme. Ele chuta! A bola toma efeito. Entra pela janela. E lá vem a mãe, senhores ouvintes! A mãe invade o campo. Ele tenta se esquivar. Dá um drible espetacular na mãe. Dois. A mãe pega ele pela orelha. Pela orelha! E o juiz não vê isso!”

     Mesmo se nem tudo merecesse o toque épico.

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Luis Fernando Veríssimo (1936 - 2025) foi um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor, seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas.

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A metamorfose / Épico / O Lixo

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Crônica: A metamorfose

Luis Fernando Veríssimo


     Uma barata acordou um dia e viu que tinha se transformado num ser humano. Começou a mexer suas patas e viu que só tinha quatro, que eram grandes e pesadas e de articulação difícil. Não tinha mais antenas. Quis emitir um som de surpresa e sem querer deu um grunhido. As outras baratas fugiram aterrorizadas para trás do móvel. Ela quis segui-las, mas não coube atrás do móvel. O seu segundo pensamento foi: “Que horror… Preciso acabar com essas baratas…”

     Pensar, para a ex-barata, era uma novidade. Antigamente ela seguia seu instinto. Agora precisava raciocinar. Fez uma espécie de manto com a cortina da sala para cobrir sua nudez. Saiu pela casa e encontrou um armário num quarto, e nele, roupa de baixo e um vestido. Olhou-se no espelho e achou-se bonita. Para uma ex-barata. Maquiou-se. Todas as baratas são iguais, mas as mulheres precisam realçar sua personalidade. Adotou um nome: Vandirene. Mais tarde descobriu que só um nome não bastava. A que classe pertencia?… Tinha educação?…. Referências?… Conseguiu a muito custo um emprego como faxineira. Sua experiência de barata lhe dava acesso a sujeiras mal suspeitadas. Era uma boa faxineira.

     Difícil era ser gente… Precisava comprar comida e o dinheiro não chegava. As baratas se acasalam num roçar de antenas, mas os seres humanos não. Conhecem-se, namoram, brigam, fazem as pazes, resolvem se casar, hesitam. Será que o dinheiro vai dar ? Conseguir casa, móveis, eletrodomésticos, roupa de cama, mesa e banho. Vandirene casou-se, teve filhos. Lutou muito, coitada. Filas no Instituto Nacional de Previdência Social. Pouco leite. O marido desempregado… Finalmente acertou na loteria. Quase quatro milhões ! Entre as baratas ter ou não ter quatro milhões não faz diferença. Mas Vandirene mudou. Empregou o dinheiro. Mudou de bairro. Comprou casa. Passou a vestir bem, a comer bem, a cuidar onde põe o pronome. Subiu de classe. Contratou babás e entrou na Pontifícia Universidade Católica.

     Vandirene acordou um dia e viu que tinha se transformado em barata. Seu penúltimo pensamento humano foi : “Meu Deus!… A casa foi dedetizada há dois dias!…”. Seu último pensamento humano foi para seu dinheiro rendendo na financeira e que o safado do marido, seu herdeiro legal, o usaria. Depois desceu pelo pé da cama e correu para trás de um móvel. Não pensava mais em nada. Era puro instinto. Morreu cinco minutos depois , mas foram os cinco minutos mais felizes de sua vida.

     Kafka não significa nada para as baratas…






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Luis Fernando Veríssimo (1936 - 2025) foi um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor, seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas.

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