quarta-feira, 8 de abril de 2026

De quanta terra um homem precisa? - VII

Liev Tolstói

VII

     EPahóm estava deitado, mas não podia dormir, a pensar na terra. 

“Que bom bocado vou marcar!” — pensava ele. “Faço bem dez léguas por dia; os dias são compridos e, dentro de dez léguas, quanta terra! Vendo a pior ou arrendo-a a camponeses e faço uma herdade na melhor; compro duas juntas e arranjo dois jornaleiros; ponho aí sessenta hectares a campo, o resto a pastagens”. 

     Ficou acordado toda a noite e só dormitou pela madrugada; mal fechava os olhos, teve um sonho; sonhou que estava deitado na tenda e que ouvia fora uma espécie de cacarejo; pôs-se a pensar o que seria e resolveu sair: viu então o chefe dos Baquires a rir-se como um doido, de mãos na barriga; Pahóm aproximou-se e perguntou: 

“De que se está a rir?”

     Mas viu que já não era o chefe: era o negociante que tinha ido a sua casa e lhe falara da terra. Ia Pahóm a perguntar-lhe:

“Está aqui há muito?” quando viu que já não era o negociante: era o camponês que regressava do Volga; nem era o camponês, era o próprio Diabo, com cascos e cornos, sentado, a cacarejar: diante dele estava um homem descalço, deitado no chão, só com umas calças e uma camisa; e Pahóm sonhou que olhava mais atentamente, para ver que homem era aquele ali deitado e via que estava morto e que era ele próprio; acordou cheio de horror. “Que sonho mais estranho!” — pensou ele. Olhou em volta e viu, pela abertura da tenda, que a manhã rompia. “É tempo de os ir acordar; já devíamos estar de abalada”. 

     Levantou-se, acordou o criado, que estava a dormir no carro, e mandou-o aparelhar; depois foi chamar os Baquires:

“Vamos para a estepe medir a terra”. 

     Os Baquires levantaram-se, juntaram-se e o chefe apareceu também; depois, beberam kumiss e ofereceram chá a Pahóm, mas ele não quis esperar mais:

“Se querem ir, vamos; já é tempo”.

Continua na pág 40...
_________________

De quanta terra um homem precisa? - VII /  
_________________
 
Lev Nikoláievitch Tolstói, também conhecido em português como Liev, Leão, Leo ou Leon Tolstói (em russo: Лев Николаевич Толстой.  Nasceu em 9 de setembro de 1828 – Morreu em 20 de novembro de 1910.
Em 23 de setembro de 1862, Tolstói se casou com Sophia Andreevna Behrs, filha de um médico da corte. Eles tiveram 13 filhos, oito dos quais chegaram à vida adulta. De início, o casamento com Sophia foi marcado pela intensidade sexual e insensibilidade emocional. Na véspera de seu casamento, Tolstói entregou a sua noiva seu diário pessoal, que detalhava toda sua intensa vida sexual anterior a seu noivado. Os relatos incluíam o fato de ele ter tido um filho com uma de suas empregadas. Ainda assim, o casamento foi afortunado e proporcionou a Tolstói liberdade e estrutura familiar que o ajudaram a escrever as obras Guerra e Paz e Anna Karenina com Sophia atuando como sua secretária pessoal, editora e gerente financeira. No entanto o casamento foi deteriorando à medida que o estilo de vida e as crenças de Tolstói tornavam-se mais radicais. Por conta de seu estilo de vida, ele rejeitou sua herança, incluindo os direitos autorais de suas obras.
Seus contemporâneos prestaram-lhe diversas homenagens, classificando-o como o maior romancista de sua época.

Nenhum comentário:

Postar um comentário