quinta-feira, 23 de abril de 2026

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 1: Seção III)

Da origem das nossas ideias

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 1
Das ideias, sua origem, composição, 
conexão, abstração, etc.

Seção III
Das ideias da memória e da imaginação


     Constatamos pela experiência que, quando uma impressão esteve presente na mente, volta lá a aparecer sob a forma de ideia, podendo isto acontecer de duas maneiras diferentes: ou ela, no seu novo aparecimento, conserva um grau considerável da vivacidade primitiva, sendo algo intermédio entre impressão e ideia; ou perde totalmente essa vivacidade e é uma ideia perfeita. As faculdades mediante as quais repetimos as nossas impressões de cada uma destas maneiras, chamam-se respectivamente MEMÓRIA e IMA GINAÇÃO. É imediatamente evidente que as ideias da memória são muito mais vivazes e mais fortes do que as da imaginação, e que a primeira destas faculdades pinta os seus objetos com cores mais nítidas do que as empregadas pela segunda. Quando recordamos um acontecimento passado, a ideia dele penetra na mente com força; enquanto que na imaginação a percepção é tênue e apagada e não é sem dificuldade que a mente a pode conservar, por tempo considerável, firme e uniforme. Aqui temos uma diferença sensível entre uma e outra espécie de ideias. Mas este assunto será desenvolvido mais adiante¹.

[1] Parte III, Secção V.

     Outra diferença, não menos evidente, entre estas duas espécies de ideias é a seguinte: embora nem as ideias da memória nem as da imaginação, nem as ideias vivazes nem as tênues possam aparecer na mente enquanto as impressões correspondentes não se anteciparem a preparar-lhes o caminho, contudo a imaginação não fica sujeita à mesma ordem e forma que as impressões originais; pelo contrário, a memória sob este aspecto fica de certo modo presa, sem qualquer poder de variação.     
     É evidente que a memória conserva a forma original na qual se apresentaram os seus objetos e que, sempre que nos afastamos dela, ao recordarmos alguma coisa, tal se deve a qualquer defeito ou imperfeição nessa faculdade. Pode talvez suceder que um historiador, com o fim de proceder mais adequadamente à sua narração, relate um acontecimento antes de outro que na realidade lhe é anterior; mas depois, se for rigoroso, dá-se conta desta desordem e assim repõe a ideia na sua posição correta. É idêntico o caso quando recordamos lugares e pessoas de que anteriormente tomamos conhecimento. O papel principal da memória consiste em reter não as ideias simples, mas sim a ordem e posição delas. Em suma, este princípio apoia-se num número tal de fenômenos correntes e comuns, que podemos dispensar-nos do esforço de insistir mais nele.
     Encontramos a mesma evidência para o nosso segundo princípio, o da liberdade que a imaginação tem para transpor e alterar as suas ideias. As fábulas que encontramos nos poemas e romances põem-no fora de toda a discussão. Nestes a natureza é inteiramente confundida pois só se fala de cavalos com asas, dragões de fogo e gigantes monstruosos. Esta liberdade da fantasia não parecerá estranha, considerando que todas as nossas ideias são copiadas das nossa impressões e que não há duas impressões que sejam perfeitamente inseparáveis. É desnecessário mencionar que isto é uma consequência evidente da divisão das ideias em simples e complexas. Sempre que a imaginação nota diferença entre as ideias, facilmente pode produzir uma separação.

continua na página 43...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Seção I / Seção II / Seção III /   
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888

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