Livro 1
Do Entendimento
Parte 1
Das ideias, sua origem, composição,
conexão, abstração, etc.
Seção III
Das ideias da memória e da imaginação
Constatamos pela experiência que, quando uma impressão esteve presente na mente, volta lá a aparecer sob a
forma de ideia, podendo isto acontecer de duas maneiras
diferentes: ou ela, no seu novo aparecimento, conserva um
grau considerável da vivacidade primitiva, sendo algo intermédio entre impressão e ideia; ou perde totalmente essa
vivacidade e é uma ideia perfeita. As faculdades mediante
as quais repetimos as nossas impressões de cada uma destas
maneiras, chamam-se respectivamente MEMÓRIA e IMA
GINAÇÃO. É imediatamente evidente que as ideias da
memória são muito mais vivazes e mais fortes do que as da
imaginação, e que a primeira destas faculdades pinta os seus
objetos com cores mais nítidas do que as empregadas pela
segunda. Quando recordamos um acontecimento passado,
a ideia dele penetra na mente com força; enquanto que na
imaginação a percepção é tênue e apagada e não é sem
dificuldade que a mente a pode conservar, por tempo considerável, firme e uniforme. Aqui temos uma diferença sensível entre uma e outra espécie de ideias. Mas este assunto
será desenvolvido mais adiante¹.
[1] Parte III, Secção V.
Outra diferença, não menos evidente, entre estas duas
espécies de ideias é a seguinte: embora nem as ideias da
memória nem as da imaginação, nem as ideias vivazes nem
as tênues possam aparecer na mente enquanto as impressões correspondentes não se anteciparem a preparar-lhes o
caminho, contudo a imaginação não fica sujeita à mesma
ordem e forma que as impressões originais; pelo contrário,
a memória sob este aspecto fica de certo modo presa, sem
qualquer poder de variação.
É evidente que a memória conserva a forma original
na qual se apresentaram os seus objetos e que, sempre que
nos afastamos dela, ao recordarmos alguma coisa, tal se deve
a qualquer defeito ou imperfeição nessa faculdade. Pode
talvez suceder que um historiador, com o fim de proceder
mais adequadamente à sua narração, relate um acontecimento antes de outro que na realidade lhe é anterior; mas
depois, se for rigoroso, dá-se conta desta desordem e assim
repõe a ideia na sua posição correta. É idêntico o caso
quando recordamos lugares e pessoas de que anteriormente
tomamos conhecimento. O papel principal da memória
consiste em reter não as ideias simples, mas sim a ordem e
posição delas. Em suma, este princípio apoia-se num número tal de fenômenos correntes e comuns, que podemos
dispensar-nos do esforço de insistir mais nele.
Encontramos a mesma evidência para o nosso segundo
princípio, o da liberdade que a imaginação tem para transpor e
alterar as suas ideias. As fábulas que encontramos nos poemas e romances põem-no fora de toda a discussão. Nestes
a natureza é inteiramente confundida pois só se fala de cavalos com asas, dragões de fogo e gigantes monstruosos. Esta
liberdade da fantasia não parecerá estranha, considerando
que todas as nossas ideias são copiadas das nossa impressões
e que não há duas impressões que sejam perfeitamente inseparáveis. É desnecessário mencionar que isto é uma consequência evidente da divisão das ideias em simples e complexas. Sempre que a imaginação nota diferença entre as
ideias, facilmente pode produzir uma separação.
continua na página 43...
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Prefácio / Introdução /
Livro 1: Do Entendimento Parte 1
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro
Tradução do texto inglês intitulado
Tradução do texto inglês intitulado
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume,
segundo a edição da Oxford University Press,
Oxford, 1888
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