quarta-feira, 8 de abril de 2026

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 1: Seção 1)

Da origem das nossas ideias

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 1
Das ideias, sua origem, composição, 
conexão, abstração, etc.

Seção 1
Da origem das nossas ideias


     Todas as percepções do espírito humano reduzem-se a duas espécies distintas que denominarei impressões e ideias. A diferença entre estas reside nos graus de força e vivacidade com que elas afetam a mente e abrem caminho para o nosso pensamento ou consciência. Às percepções que penetram com mais força e violência, podemos chamar-lhes impressões; e nesta designação incluo todas as nossas sensações, paixões e emoções, quando fazem o seu primeiro aparecimento na alma. Por ideias entendo as imagens tênues das impressões nos nossos pensamentos e raciocínio; assim, por exemplo, todas as percepções despertadas pelo presente discurso, exceptuando apenas as que têm origem na vista e no tato, e o prazer imediato ou o mal-estar que elas podem provocar. Julgo que não será necessário empregar muitas palavras a explicar esta distinção. Cada um de per si facilmente entenderá a diferença entre o sentir e o pensar. Os graus correntes de um e outro distinguem-se com facilidade, embora não seja de excluir a possibilidade de em casos particulares eles se aproximarem muito um do outro. Assim, no sono, na febre, na loucura ou em quaisquer emoções violentas da alma, as nossas ideias podem aproximar-se das nossas impressões; assim como, por outro lado, acontece por vezes que as nossas impressões são tão ténues e fracas que não conseguimos distingui-las das ideias. Mas, não obstante esta grande semelhança nalguns casos, geralmente elas são tão diferentes que ninguém poderá hesitar em colocá-las em categorias distintas e atribuir a cada uma um nome particular para lhes marcar a diferença¹.

[1] Emprego aqui os termos impressão e ideia num sentido diferente do que é usual e espero que me seja permitida esta liberdade. Assim talvez até restitua a palavra ideia ao seu sentido original, do qual Locke a tinha afastado fazendo-a designar todas as nossas percepções. Quanto ao termo impressão, não quereria que julgassem que o emprego para exprimir o modo como as nossas impressões vivas se produzem na alma, mas para designar apenas as próprias percepções, para as quais não existe termo próprio nem em inglês, nem em qualquer outra língua minha conhecida.

     Há outra divisão das nossas percepções, que convirá notar, a qual abrange tanto as impressões como as ideias. É a divisão em simples e complexas. As percepções ou impressões e ideias simples são as que não admitem distinção nem separação. As complexas são o contrário destas, podendo dividir-se em partes. Embora uma cor particular, um sabor e um odor sejam qualidades conjuntamente unidas nesta maçã, é fácil de perceber que não se confundem, mas podem pelo menos distinguir-se umas das outras.
     Tendo, mediante estas divisões, ordenado e organizado os nossos objetos, podemos agora dedicar-nos a estudar mais rigorosamente as suas qualidades e relações. O primeiro aspecto que atrai o meu olhar é a grande semelhança entre as nossas impressões e ideias em todos os pontos, exceto no seu grau de força e vivacidade. Umas parecem ser, de certo modo, reflexos das outras; de tal maneira que todas as percepções do espírito são duplas e aparecem quer como impressões, quer como ideias. Quando fecho os olhos e penso no meu quarto, as ideias que formo são representações exatas das impressões que senti; e não há qualquer particularidade numas que não se encontre nas outras. Passando em revista as minhas outras percepções, encontro sempre a mesma semelhança e representação. As ideias e as impressões parecem corresponder-se sempre. Esta particularidade parece-me notável, e atrai por momentos a minha atenção.
     Um exame mais cuidadoso mostra-me que fui levado longe demais pelas primeiras aparências e que devo empregar a distinção das percepções em simples e complexas, para limitar a asserção geral de que todas as nossas ideias e impressões se assemelham. Noto que muitas das nossas ideias complexas nunca tiveram impressões que lhes correspondessem, e que muitas das nossas impressões complexas jamais são exata mente copiadas em ideias. Posso imaginar uma cidade como a Nova Jerusalém, com ruas pavimentadas de ouro e muros de rubis, embora nunca tenha visto uma cidade assim. Já vi Paris; mas acaso afirmarei que posso formar desta cidade uma ideia tal que represente perfeitamente todas as ruas e casas nas suas proporções reais e exatas?
     Vejo pois que, embora geralmente exista grande semelhança entre as nossas impressões e ideias complexas, contudo não é universalmente verdadeira a regra de que elas são cópias exatas umas das outras. Seguidamente podemos estudar o que se passa com as nossas percepções simples. Após o exame mais rigoroso de que sou capaz, atrevo-me a afirmar que a regra aqui não sofre exceções e que toda a ideia simples tem uma impressão simples que se lhe assemelha; e toda a impressão simples tem uma ideia correspondente. A ideia de vermelho que formamos na escuridão e a impressão que surge aos nossos olhos à luz do sol são diferentes apenas no grau, não na natureza. Que o mesmo se aplique a todas as nossas impressões e ideias simples, não é possível demonstrá-lo por uma enumeração pormenorizada. Neste ponto cada qual pode convencer-se examinando quantas lhe aprouver. Mas se alguém negasse esta semelhança universal, não conheço outro meio de o convencer, senão pedir-lhe que apresente uma impressão simples que não tenha uma ideia correspondente, ou uma ideia simples que não tenha uma impressão correspondente. Se ele não responder a este desafio, como certamente acontecerá, podemos em resultado do seu silêncio e da nossa própria observação estabelecer a nossa conclusão.
     Vemos assim que todas as ideias e impressões simples se assemelham umas às outras; e visto que as complexas se formam a partir delas, podemos afirmar de modo geral que essas duas espécies de percepção se correspondem exatamente. Descoberta esta relação, que não necessita de exame mais longo, sinto curiosidade de encontrar mais algumas das suas qualidades. Examinemo-las no que diz respeito à sua existência, e quais das impressões e ideias são causas e quais são efeitos.
     O exame completo desta questão é o assunto do presente tratado; e portanto contentar-nos-emos aqui com estabelecer uma única proposição geral: que todas as nossas ideias simples no seu primeiro aparecimento derivam das impressões simples que lhes correspondem e que elas representam exatamente.
     Quando procuro fenómenos para provar esta afirmação, encontro-os de duas espécies apenas; mas em cada uma das espécies os fenómenos são óbvios, numerosos e concludentes. Primeiro certifico-me, mediante nova revisão, da asserção por mim feita anteriormente de que toda a im pressão simples é acompanhada por uma ideia correspondente e toda a ideia simples por uma impressão correspondente. Desta conjunção constante de percepções semelhantes concluo imediatamente que existe uma forte conexão entre as nossas impressões e ideias, e que a existência de umas exerce influência considerável sobre a existência das outras. Uma tal conjunção constante, num tão ilimitado número de casos, não pode nunca provir do acaso, provando claramente que há dependência das impressões com relação às ideias, ou das ideias com relação às impressões. Para saber de que lado se encontra esta dependência observo a ordem do seu primeiro aparecimento, e verifico mediante uma experiência constante que as impressões simples precedem sempre as ideias correspondentes, nunca aparecendo na ordem inversa. Para dar a uma criança a ideia da cor escarlate ou alaranjada, do doce ou do amargo, apresento-lhe os objetos ou, por outras palavras, transmito-lhe estas impressões; mas não chego ao absurdo de tentar produzir as impressões despertando as ideias. Ao aparecerem, as nossas ideias não produzem as impressões correspondentes e nós não percebemos qualquer cor, nem temos qualquer sensação pen sando simplesmente nelas. Por outro lado, constatamos que qualquer impressão, seja da mente ou do corpo, é sempre seguida de uma ideia que se lhe assemelha, sendo diferente dela apenas nos graus de força e vivacidade. A conjunção constante das nossas percepções semelhantes é prova convincente de que umas são causas das outras; e esta prioridade das impressões é igualmente prova de que as nossas impressões são as causas das nossas ideias, e não as nossas ideias as causas das nossas impressões.
     Para confirmação disto, examino outro fenômeno claro e convincente: sempre que um acidente qualquer põe obstrução às operações das faculdades que dão origem a certas impressões, como quando alguém é cego ou surdo de nascença, perdem-se não só as impressões, mas ainda as ideias a elas correspondentes, de tal modo que jamais aparecem no espírito os mínimos vestígios de quaisquer delas. E isto não é verdade apenas quando os órgãos da sensação são inteiramente destruídos, mas igualmente quando estes órgãos nunca foram exercitados para originar uma impressão particular. Não podemos formar uma ideia exata do gosto de um ananás, antes de realmente o saborearmos.
     Há contudo um fenômeno em contrário, o qual pode provar não ser absolutamente impossível que certas ideias precedam as impressões correspondentes. Facilmente se concederá, creio eu, que as várias ideias distintas das cores, que entram pelos olhos, ou as dos sons, que são transmitidas pelo ouvido, são realmente diferentes umas das outras, embora ao mesmo tempo semelhantes. Ora, se isto é verdade em relação a cores diferentes, não o deve ser menos em relação a diferentes cambiantes da mesma cor: que cada uma delas produz uma ideia distinta, independente das restantes. Com efeito, se se negasse isto, poder-se-ia, mediante uma transição gradual e contínua de cambiantes, levar insensivelmente uma cor até à cor mais distante dela; e, se não admitirmos diferença entre as intermédias, não poderemos, sem cair no absurdo, rejeitar a identidade das extremas. Imaginemos pois uma pessoa que durante trinta anos gozou de visão e se familiarizou perfeitamente com todas as espécies de cores, exceto, por exemplo, uma determinada cambiante de azul que o acaso jamais lhe proporcionou encontrar. Coloque-se diante dessa pessoa todas as diferentes cambiantes da referida cor, com exceção da tal cambiante, numa transição gradual em ordem descendente da mais escura para a mais clara; é evidente que notará uma lacuna onde falta essa cambiante e sentirá que existe nesse lugar maior distância entre as cores contíguas do que em qualquer outro. E agora pergunto se será possível essa pessoa, usando a sua imaginação, suprir esta deficiência para alcançar a ideia dessa cambiante que os seus sentidos jamais lhe transmitiram? Julgo que poucas pessoas serão de opinião que não é possível, e isto pode servir de prova de que as ideias simples nem sempre derivam das impressões correspondentes; contudo o caso é tão particular e tão singular que quase não vale a pena notá-lo e não merece que, só por causa dele, modifiquemos a nossa máxima geral.
     Mas, além desta exceção, talvez não seja descabido notar aqui que o princípio da prioridade das impressões sobre as ideias deve entender-se com outra limitação, a saber: que assim como as nossas ideias são as imagens das nossas impressões, assim também podemos formar ideias secundárias que são imagens das ideias primárias, conforme resulta deste mesmo raciocínio a respeito delas. Falando com propriedade, isto não é tanto uma exceção à regra como a sua explicação. As ideias produzem as imagens de si mesmas em novas ideias; mas, como se supõe que as primeiras ideias derivam de impressões, continua ainda a ser verdade que todas as nossas ideias simples procedem, mediata ou imediatamente, das impressões que lhes correspondem.
     Este é pois o primeiro princípio que estabeleço na ciência da natureza humana; e não devemos menosprezá-lo em razão da sua aparência de simplicidade. Com efeito, é preciso notar que esta questão da precedência das nossas impressões ou ideias é a mesma que, sob ou trás designações, deu origem a tanto barulho, quando se discutia se existiam ideias inatas, ou se todas as ideias provêm da sensação e da reflexão. Podemos notar que os filósofos, para provar que as ideias de extensão e cor não são inatas, não fazem outra coisa senão mostrar que elas nos são transmitidas pelos sentidos. Para provar que as ideias de paixão e desejo não são inatas, notam que anteriormente experimentamos em nós próprios estas emoções. Ora, se examinarmos cuidadosamente estes argumentos, acharemos que eles não provam outra coisa senão que as ideias são precedidas por outras percepções mais vivas, das quais elas derivam e as quais representam. Espero que a formulação clara desta questão eliminará todas as disputas acerca dela e tornará este princípio mais útil para os nossos raciocínios do que parece ter sido até aqui.

continua na página 42...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Seção 1 /  
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888

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