PRIMEIRA PARTE
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
30. ARTEMIO CRUZ e a segunda morte de EMILIANO ZAPATA
Exatamente um século depois da regulamentação da terra
de Artigas, Emiliano Zapata pôs em prática, em sua
comarca revolucionária do sul do México, uma profunda
reforma agrária.
Cinco anos antes, o ditador Porfirio Díaz havia
celebrado, com grandes festas, o primeiro centenário do
grito de Dolores: os cavalheiros de fraque, México oficial,
ignoravam olimpicamente o México real, cuja miséria
alimentava seus esplendores. Nesta república de párias, os
salários dos trabalhadores não tinham aumentado um
centavo sequer desde o histórico levante do padre Miguel
Hidalgo. Em 1910, pouco mais de 800 latifundiários, muitos
deles estrangeiros, eram donos de quase todo o território
nacional. Eram bon-vivants da cidade, que viviam na capital
ou na Europa, e só raramente visitavam as sedes de seus
latifúndios, onde dormiam entrincheirados atrás de altas
muralhas de pedra escura sustentadas por robustos
contrafortes
[1]. Do outro lado das muralhas, os peões se
amontoavam em quartinhos de adobe. Doze milhões de
pessoas, numa população total de quinze milhões,
dependiam dos salários rurais; as diárias eram pagas, quase
em sua totalidade, nos armazéns das fazendas, traduzidas a
preços de fábula em feijões, farinha, aguardente. O cárcere,
o quartel e a sacristia se encarregavam da luta contra os
defeitos naturais dos índios, que nas palavras de um
membro de uma ilustre família da época, já nasciam
“preguiçosos, borrachos e ladrões”. Atado o trabalhador por
dívidas que se herdavam ou por contrato legal, a escravidão
era o real sistema de trabalho nas plantações de sisal de
Yucatán, nos cultivos de tabaco do Valle Nacional, nos
matos de madeira e frutas de Chiapas e Tabasco, e nas
plantações de seringueiras, café, cana-de-açúcar, tabaco e
frutas de Veracruz, Oaxaca e Morelos. John Kenneth Turner,
escritor norte-americano, denunciou na memória de sua
visita que “os Estados Unidos converteram Porfirio Díaz num
virtual vassalo político, e em consequência tornaram o
México uma colônia escrava”
[2].
Os capitais norte
americanos, direta ou indiretamente, obtinham robustos
benefícios de sua associação com a ditadura. “A norte
americanização do México, da qual Wall Street tanto se
jacta”, dizia Turner, “está sendo executada como se fosse
uma vingança.”
Em 1845, os Estados Unidos tinham anexado os
territórios mexicanos do Texas e da Califórnia, onde
restabeleceram a escravatura em nome da civilização, e na
guerra o México perdeu também os atuais estados norte
americanos Colorado, Arizona, Novo México, Nevada e Utah.
Mais de metade do país. O território roubado equivalia à
atual superfície da Argentina. E diz-se desde então:
“Pobrezinho do México, tão longe de Deus e tão perto dos
Estados Unidos”. O resto de seu território mutilado sofreu
depois a invasão dos investimentos norte-americanos no
cobre, no petróleo, na borracha, no açúcar, no sistema
bancário e nos transportes. A empresa American Cordage
Trust, filial da Standard Oil, em absoluto não estava alheia
ao extermínio dos índios maias e yaquis nas plantações de
sisal iucateques, campos de concentração onde os homens
e as crianças eram comprados e vendidos como animais,
pois esta era a empresa que adquiria mais de metade do
sisal produzido e lhe convinha dispor da fibra a preço mais
em conta. Outras vezes, como descobriu Turner, a
exploração da mão de obra escrava era direta. Um
administrador norte-americano lhe contou que pagava 50
pesos por cabeça pelos lotes de peões recrutados “e os
conservamos enquanto duram (...). Em menos de três
meses enterramos mais da metade”.
[3]
Em 1910, chegou a hora do desquite. O México em
armas se insurgiu contra Porfirio Díaz. Um caudilho do
campo logo encabeçou a revolta do sul: Emiliano Zapata, o
mais puro dos líderes da revolução, o mais leal à causa dos
pobres, o mais fervoroso em sua vontade de redenção
social.
As últimas décadas do século XIX tinham sido tempos
de feroz espoliação das comunidades agrárias de todo o
México; os povoados e as aldeias de Morelos sofreram uma
febril caçada às terras, às águas e aos braços, que as
plantações de cana-de-açúcar devoravam em sua expansão.
As fazendas açucareiras dominavam a vida do estado, e sua
prosperidade tinha feito nascer engenhos modernos,
grandes destilarias e ramais ferroviários para transportar o
produto. Na comunidade de Anenecuilco, onde vivia Zapata,
que a ela se dedicava de corpo e alma, os camponeses
indígenas reivindicavam sete séculos de contínuo trabalho
naquele solo: estavam ali desde antes da chegada de
Hernán Cortez. Os que se queixavam em voz alta eram
levados para os campos de trabalhos forçados de Yucatán.
Como em todo o estado de Morelos, cujas melhores terras
estavam nas mãos de dezessete proprietários, os
trabalhadores viviam muito pior do que os cavalos de polo
que os latifundiários mimavam em seus estábulos de luxo.
Uma lei de 1909 determinou que novas terras fossem
arrebatadas aos seus legítimos donos, e acabou por
incendiar as já incandescentes contradições sociais.
Emiliano Zapata, um ginete de poucas palavras, famoso por
ser o maior domador do estado e unanimemente respeitado
por sua honestidade e sua coragem, tornou-se guerrilheiro.
“Agarrados à cola do cavalo do chefe Zapata”, os homens
do sul formaram rapidamente um exército libertador.
[4]
Caiu Diaz, e Francisco Madero, na garupa da revolução,
chegou ao governo. As promessas de reforma agrária se
dissolveram em seguida numa nebulosa institucional. No dia
de seu casamento, Zapata teve de interromper a festa: o
governo enviara as tropas do general Victoriano Huerta para
esmagá-lo. O herói, segundo os doutores da cidade,
transformava-se em “bandido”. Em novembro de 1911,
Zapata proclamou seu Plano de Ayala, ao mesmo tempo em
que anunciava: “Estou disposto a lutar contra tudo e contra
todos”. O plano propugnava a nacionalização total dos bens
dos inimigos da revolução, a devolução a seus legítimos
proprietários
das
terras
roubadas pela avalanche
latifundiária e a expropriação de uma terça parte das terras
dos fazendeiros restantes. O Plano de Ayala tornou-se um
imã irresistível que atraía milhares e milhares de
camponeses às hostes do caudilho revolucionário. Zapata
denunciava “a infame pretensão” de resumir tudo a uma
simples mudança de pessoas no governo: a revolução não
era feita para isso.
Durou cerca de dez anos a luta. Contra Díaz, contra
Madero, logo contra Huerta, o assassino, e mais tarde
contra Venustiano Carranza. O longo tempo da guerra foi
também um período de contínuas intervenções norte
americanas: os marines se encarregaram de dois
desembarques e vários bombardeios, os agentes
diplomáticos tramaram inúmeras conjuras políticas, e o
embaixador Henry Lane Wilson organizou com êxito o crime
do presidente Madero e de seu vice. Mas as sucessivas
mudanças no poder não alteravam a fúria das agressões
contra Zapata e suas forças, porque elas eram a expressão
não mascarada da luta de classes no fundo da revolução
nacional: o perigo real. Os governos e os jornais clamavam
contra “as hordas vandálicas” do general de Morelos.
Poderosos exércitos foram enviados contra Zapata, um atrás
do outro. Os incêndios, as matanças, a devastação dos
povoados, sempre resultavam inúteis. Homens, mulheres e
crianças morriam fuzilados ou enforcados como “espiões
zapatistas”, e às carnificinas seguiam-se as proclamações
de vitória: a limpeza tinha sido um êxito. Mas em pouco
tempo voltavam a crepitar as fogueiras dos transumantes
acampamentos revolucionários nas montanhas do sul. Em
várias oportunidades as forças de Zapata contra-atacavam
vitoriosamente até os subúrbios da capital. Depois da queda
do regime de Huerta, Emiliano Zapata e Pancho Villa, o
“Átila do Sul” e o “Centauro do Norte”, entraram na cidade
do México a passo de vencedores e por um fugaz período
compartilharam o poder. Em fins de 1914, abriu-se um
breve ciclo de paz que permitiu a Zapata pôr em prática, em
Morelos, uma reforma agrária ainda mais radical do que
aquela anunciada no Plano de Ayala. O fundador do Partido
Socialista e alguns militantes anarcossindicalistas influíram
muito neste processo: radicalizaram a ideologia do
movimento, sem ferir suas raízes tradicionais, e lhe
proporcionaram uma imprescindível capacidade de
organização.
A reforma agrária se propunha “destruir na raiz e para
sempre o injusto monopólio da terra, para construir um
estado social que garanta plenamente o direito natural que
todo homem tem sobre a extensão de terra necessária à
sua subsistência e a de sua família”. Restituíam-se as terras
às comunidades e aos indivíduos despojados a partir da lei
de desamortização de 1856, fixavam-se os limites máximos
de terra segundo o clima e a qualidade natural, e se
declaravam de propriedade nacional os prédios dos inimigos
da revolução. Esta última decisão política tinha, como na
reforma agrária de Artigas, um claro sentido econômico: os
inimigos eram os latifundiários. Formaram-se escolas de
técnicos, fábricas de ferramentas e um banco de crédito
rural; nacionalizaram-se os engenhos e as destilarias, que
se tornaram serviços públicos. Um sistema de democracias
locais colocava nas mãos do povo as fontes do poder
político e a sustentação econômica. Nasciam e se difundiam
as escolas zapatistas, organizavam-se juntas populares para
a defesa e a promoção dos princípios revolucionários – uma
democracia autêntica ganhava forma e força. Os municípios
eram unidades nucleares de governo, e as pessoas elegiam
suas autoridades, seus tribunais e suas polícias. Os chefes
militares deviam submeter-se à vontade das populações
civis organizadas. Não era a vontade dos burocratas e dos
generais que impunha os sistemas de produção e de vida. A
revolução se enlaçava com a tradição e operava “de
conformidade com o costume e usos de cada lugar (...), isto
é, se um dado lugar prefere o sistema comunal, que seja, e
se um outro dado lugar deseja o fracionamento da terra
para reconhecer sua pequena propriedade, assim será”.
[5]
Na primavera de 1915, todos os campos de Morelos já
estavam cultivados, principalmente com milho e outros
alimentos. A cidade do México, entrementes, padecia de
uma iminente fome por falta de alimentos. Venustiano
Carranza havia conquistado a presidência e, por sua vez,
ditou uma reforma agrária, mas seus chefes em seguida se
apossaram dos respectivos benefícios; em 1916,
abalançaram-se com bons dentes sobre Cuernavaca, capital
de Morelos, e as demais comarcas zapatistas. As culturas,
que tinham voltado a dar frutos, os minerais, as peles e
maquinários significavam um excelente butim para os
oficiais que avançavam queimando tudo à sua passagem e,
ao mesmo tempo, proclamando “uma obra de reconstrução
e progresso”.
Em 1919, um estratagema e uma traição acabaram com
a
vida de Emiliano Zapata. Mil homens emboscados
descarregaram seus fuzis em seu corpo. Morreu com a
mesma idade de Che Guevara. Sobreviveu-o a lenda: o
cavalo alazão que galopava sozinho, para o sul, pelas
montanhas. Mas não só a lenda. Toda Morelos se
determinou a “consumar a obra do reformador, vingar o
sangue do mártir e seguir o exemplo do herói”, e o país
inteiro lhe fez eco. Passou o tempo, e com a presidência de
Lázaro Cárdenas (1934-1940) as tradições zapatistas
recobraram vida e vigor através da reforma agrária
implantada em todo o México. Foram expropriados,
sobretudo em seu período de governo, 67 milhões de
hectares em poder de empresas estrangeiras e nacionais, e
os camponeses receberam, além da terra, créditos,
educação e meios de organização para o trabalho. A
economia e a população do país tinham começado sua
acelerada ascensão; multiplicou-se a produção agrícola ao
mesmo tempo em que o país inteiro se modernizava e se
industrializava. Cresceram as cidades e se ampliou, em
extensão e profundidade, o mercado de consumo.
Mas o nacionalismo mexicano não derivou para o
socialismo e, em consequência, como ocorreu com outros
países que tampouco deram o salto decisivo, não realizou
cabalmente seus objetivos de independência econômica e
justiça social. Um milhão de mortos haviam tributado seu
sangue, nos longos anos de revolução e de guerra, “a um
Huitzilopochtli mais cruel, mais duro e insaciável do que
aquele
adorado
pelos
nossos
antepassados:
o
desenvolvimento capitalista do México, nas condições
impostas pela subordinação ao imperialismo”
[6]. Diversos
estudiosos investigaram os sinais de deterioração das
velhas bandeiras. Edmundo Flores afirma, em publicação
recente, que “atualmente 60 por cento da população total
do México têm uma renda inferior a 120 dólares por ano e
passa fome”
[7]. Oito milhões de mexicanos não consomem
praticamente nada além de feijões, tortas de milho e
pimenta
[8].
O
sistema não revela suas profundas
contradições tão só quando tombam mortos 500 estudantes
na matança de Tlatelolco. Recolhendo números oficiais,
Alonso Aguilar chega à conclusão de que há no México uns
2 milhões de camponeses sem terra, 3 milhões de crianças
que não recebem educação, cerca de 15 milhões de
analfabetos e 5 milhões de pessoas descalças
[9]. A
propriedade coletiva das terras indígenas se pulveriza
continuamente, e junto com a multiplicação dos
minifúndios, que também se fragmentam, fizeram sua
aparição um latifundismo de novo cunho e uma nova
burguesia agrária dedicada à agricultura em grande escala.
Os
terras-tenentes e intermediários nacionais que
conquistaram uma posição dominante trampolinando o
texto e o espírito das leis são, por sua vez, dominados, e
num livro recente são considerados incluídos nos termos
“and company” da empresa Anderson Clayton
[10]. No
mesmo livro, o filho de Lázaro Cárdenas diz que “os
latifúndios simulados se constituíram, preferencialmente,
nas terras de melhor qualidade, nas mais produtivas”.
O romancista Carlos Fuentes reconstituiu, a partir da
agonia, a vida de um capitão do exército de Carranza que,
na guerra e na paz, vai abrindo caminho a tiros e com a
força da astúcia
[11]. Homem de muito humilde origem,
Artemio Cruz, com a passagem dos anos, vai deixando para
trás o idealismo e o heroísmo da juventude: usurpa terras,
funda e multiplica empresas, elege-se deputado e, em
rutilante carreira, ascende aos píncaros sociais, acumulando
fortuna, poder e prestígio através dos negócios, dos
subornos, da especulação, dos grandes golpes de audácia e
da repressão a sangue e fogo da indiada. O processo do
personagem se parece com o processo do partido que
monopoliza a vida política do país em nossos dias. Ambos
caíram para cima.
continua na página 206...
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[1] SILVA HERZOG, Jesús. Breve historia de la revolución mexicana. México; uenos Aires, 1960.
[2] TURNER, John Kenneth. México bárbaro. México, 1967. Publicado nos
Estados Unidos em 1911.
[3] TURNER, op. cit. O México era o país preferido pelos investimentos norte
americanos: reunia em fins do século pouco menos da terça parte dos capitais
dos Estados Unidos aplicados no exterior. No estado de Chuihuahua e outras
regiões do norte, William Randolph Hearst, o célebre Citizen Kane do filme de
Welles, possuía mais de três milhões de hectares. CARMONA, Fernando. El
drama de América Latina. El caso de México. México, 1964.
[4] WOMACK JR., John. Zapata y la revolución mexicana. México, 1969.
[5] WOMACK JR., op. cit.
[6] CARMONA, op. cit.
[7] FLORES, Edmundo. “Adónde va la economía de México?” In: Comercio
Exterior, v.XX (1). México, janeiro de 1970.
[8] FLORES, Ana María. La magnitude del hambre en México. México, 1961.
[9] AGUILAR & CARMONA, op. cit. Veja-se também, dos mesmos autores e
MONTAÑO, Guillermo, & CARRIÓN, Jorge. El milagro mexicano. México, 1970.
[10] STAVENHAGEN, Rodolfo, PAZ SÁNCHEZ, Fernando, CÁRDENAS, Cuauhtémoc
&
ONILLA SÁNCHEZ, Arturo. Neolatifundismo y explotación. De Emiliano Zapata
a Anderson Clayton and Co. México, 1968.
[11] FUENTES, Carlos. La muerte de Artemio Cruz. México, 1962.
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Febre do Ouro, Febre da Prata
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