terça-feira, 7 de abril de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: ARTEMIO CRUZ e a segunda morte de EMILIANO ZAPATA (20)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     30. ARTEMIO CRUZ e a segunda morte de EMILIANO ZAPATA
          Exatamente um século depois da regulamentação da terra de Artigas, Emiliano Zapata pôs em prática, em sua comarca revolucionária do sul do México, uma profunda reforma agrária.
     Cinco anos antes, o ditador Porfirio Díaz havia celebrado, com grandes festas, o primeiro centenário do grito de Dolores: os cavalheiros de fraque, México oficial, ignoravam olimpicamente o México real, cuja miséria alimentava seus esplendores. Nesta república de párias, os salários dos trabalhadores não tinham aumentado um centavo sequer desde o histórico levante do padre Miguel Hidalgo. Em 1910, pouco mais de 800 latifundiários, muitos deles estrangeiros, eram donos de quase todo o território nacional. Eram bon-vivants da cidade, que viviam na capital ou na Europa, e só raramente visitavam as sedes de seus latifúndios, onde dormiam entrincheirados atrás de altas muralhas de pedra escura sustentadas por robustos contrafortes [1]. Do outro lado das muralhas, os peões se amontoavam em quartinhos de adobe. Doze milhões de pessoas, numa população total de quinze milhões, dependiam dos salários rurais; as diárias eram pagas, quase em sua totalidade, nos armazéns das fazendas, traduzidas a preços de fábula em feijões, farinha, aguardente. O cárcere, o quartel e a sacristia se encarregavam da luta contra os defeitos naturais dos índios, que nas palavras de um membro de uma ilustre família da época, já nasciam “preguiçosos, borrachos e ladrões”. Atado o trabalhador por dívidas que se herdavam ou por contrato legal, a escravidão era o real sistema de trabalho nas plantações de sisal de Yucatán, nos cultivos de tabaco do Valle Nacional, nos matos de madeira e frutas de Chiapas e Tabasco, e nas plantações de seringueiras, café, cana-de-açúcar, tabaco e frutas de Veracruz, Oaxaca e Morelos. John Kenneth Turner, escritor norte-americano, denunciou na memória de sua visita que “os Estados Unidos converteram Porfirio Díaz num virtual vassalo político, e em consequência tornaram o México uma colônia escrava” [2]. Os capitais norte americanos, direta ou indiretamente, obtinham robustos benefícios de sua associação com a ditadura. “A norte americanização do México, da qual Wall Street tanto se jacta”, dizia Turner, “está sendo executada como se fosse uma vingança.”
     Em 1845, os Estados Unidos tinham anexado os territórios mexicanos do Texas e da Califórnia, onde restabeleceram a escravatura em nome da civilização, e na guerra o México perdeu também os atuais estados norte americanos Colorado, Arizona, Novo México, Nevada e Utah. Mais de metade do país. O território roubado equivalia à atual superfície da Argentina. E diz-se desde então: “Pobrezinho do México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”. O resto de seu território mutilado sofreu depois a invasão dos investimentos norte-americanos no cobre, no petróleo, na borracha, no açúcar, no sistema bancário e nos transportes. A empresa American Cordage Trust, filial da Standard Oil, em absoluto não estava alheia ao extermínio dos índios maias e yaquis nas plantações de sisal iucateques, campos de concentração onde os homens e as crianças eram comprados e vendidos como animais, pois esta era a empresa que adquiria mais de metade do sisal produzido e lhe convinha dispor da fibra a preço mais em conta. Outras vezes, como descobriu Turner, a exploração da mão de obra escrava era direta. Um administrador norte-americano lhe contou que pagava 50 pesos por cabeça pelos lotes de peões recrutados “e os conservamos enquanto duram (...). Em menos de três meses enterramos mais da metade”. [3]
     Em 1910, chegou a hora do desquite. O México em armas se insurgiu contra Porfirio Díaz. Um caudilho do campo logo encabeçou a revolta do sul: Emiliano Zapata, o mais puro dos líderes da revolução, o mais leal à causa dos pobres, o mais fervoroso em sua vontade de redenção social.
     As últimas décadas do século XIX tinham sido tempos de feroz espoliação das comunidades agrárias de todo o México; os povoados e as aldeias de Morelos sofreram uma febril caçada às terras, às águas e aos braços, que as plantações de cana-de-açúcar devoravam em sua expansão. As fazendas açucareiras dominavam a vida do estado, e sua prosperidade tinha feito nascer engenhos modernos, grandes destilarias e ramais ferroviários para transportar o produto. Na comunidade de Anenecuilco, onde vivia Zapata, que a ela se dedicava de corpo e alma, os camponeses indígenas reivindicavam sete séculos de contínuo trabalho naquele solo: estavam ali desde antes da chegada de Hernán Cortez. Os que se queixavam em voz alta eram levados para os campos de trabalhos forçados de Yucatán. Como em todo o estado de Morelos, cujas melhores terras estavam nas mãos de dezessete proprietários, os trabalhadores viviam muito pior do que os cavalos de polo que os latifundiários mimavam em seus estábulos de luxo. Uma lei de 1909 determinou que novas terras fossem arrebatadas aos seus legítimos donos, e acabou por incendiar as já incandescentes contradições sociais. Emiliano Zapata, um ginete de poucas palavras, famoso por ser o maior domador do estado e unanimemente respeitado por sua honestidade e sua coragem, tornou-se guerrilheiro. “Agarrados à cola do cavalo do chefe Zapata”, os homens do sul formaram rapidamente um exército libertador. [4]
     Caiu Diaz, e Francisco Madero, na garupa da revolução, chegou ao governo. As promessas de reforma agrária se dissolveram em seguida numa nebulosa institucional. No dia de seu casamento, Zapata teve de interromper a festa: o governo enviara as tropas do general Victoriano Huerta para esmagá-lo. O herói, segundo os doutores da cidade, transformava-se em “bandido”. Em novembro de 1911, Zapata proclamou seu Plano de Ayala, ao mesmo tempo em que anunciava: “Estou disposto a lutar contra tudo e contra todos”. O plano propugnava a nacionalização total dos bens dos inimigos da revolução, a devolução a seus legítimos proprietários das terras roubadas pela avalanche latifundiária e a expropriação de uma terça parte das terras dos fazendeiros restantes. O Plano de Ayala tornou-se um imã irresistível que atraía milhares e milhares de camponeses às hostes do caudilho revolucionário. Zapata denunciava “a infame pretensão” de resumir tudo a uma simples mudança de pessoas no governo: a revolução não era feita para isso.
     Durou cerca de dez anos a luta. Contra Díaz, contra Madero, logo contra Huerta, o assassino, e mais tarde contra Venustiano Carranza. O longo tempo da guerra foi também um período de contínuas intervenções norte americanas: os marines se encarregaram de dois desembarques e vários bombardeios, os agentes diplomáticos tramaram inúmeras conjuras políticas, e o embaixador Henry Lane Wilson organizou com êxito o crime do presidente Madero e de seu vice. Mas as sucessivas mudanças no poder não alteravam a fúria das agressões contra Zapata e suas forças, porque elas eram a expressão não mascarada da luta de classes no fundo da revolução nacional: o perigo real. Os governos e os jornais clamavam contra “as hordas vandálicas” do general de Morelos. Poderosos exércitos foram enviados contra Zapata, um atrás do outro. Os incêndios, as matanças, a devastação dos povoados, sempre resultavam inúteis. Homens, mulheres e crianças morriam fuzilados ou enforcados como “espiões zapatistas”, e às carnificinas seguiam-se as proclamações de vitória: a limpeza tinha sido um êxito. Mas em pouco tempo voltavam a crepitar as fogueiras dos transumantes acampamentos revolucionários nas montanhas do sul. Em várias oportunidades as forças de Zapata contra-atacavam vitoriosamente até os subúrbios da capital. Depois da queda do regime de Huerta, Emiliano Zapata e Pancho Villa, o “Átila do Sul” e o “Centauro do Norte”, entraram na cidade do México a passo de vencedores e por um fugaz período compartilharam o poder. Em fins de 1914, abriu-se um breve ciclo de paz que permitiu a Zapata pôr em prática, em Morelos, uma reforma agrária ainda mais radical do que aquela anunciada no Plano de Ayala. O fundador do Partido Socialista e alguns militantes anarcossindicalistas influíram muito neste processo: radicalizaram a ideologia do movimento, sem ferir suas raízes tradicionais, e lhe proporcionaram uma imprescindível capacidade de organização.
     A reforma agrária se propunha “destruir na raiz e para sempre o injusto monopólio da terra, para construir um estado social que garanta plenamente o direito natural que todo homem tem sobre a extensão de terra necessária à sua subsistência e a de sua família”. Restituíam-se as terras às comunidades e aos indivíduos despojados a partir da lei de desamortização de 1856, fixavam-se os limites máximos de terra segundo o clima e a qualidade natural, e se declaravam de propriedade nacional os prédios dos inimigos da revolução. Esta última decisão política tinha, como na reforma agrária de Artigas, um claro sentido econômico: os inimigos eram os latifundiários. Formaram-se escolas de técnicos, fábricas de ferramentas e um banco de crédito rural; nacionalizaram-se os engenhos e as destilarias, que se tornaram serviços públicos. Um sistema de democracias locais colocava nas mãos do povo as fontes do poder político e a sustentação econômica. Nasciam e se difundiam as escolas zapatistas, organizavam-se juntas populares para a defesa e a promoção dos princípios revolucionários – uma democracia autêntica ganhava forma e força. Os municípios eram unidades nucleares de governo, e as pessoas elegiam suas autoridades, seus tribunais e suas polícias. Os chefes militares deviam submeter-se à vontade das populações civis organizadas. Não era a vontade dos burocratas e dos generais que impunha os sistemas de produção e de vida. A revolução se enlaçava com a tradição e operava “de conformidade com o costume e usos de cada lugar (...), isto é, se um dado lugar prefere o sistema comunal, que seja, e se um outro dado lugar deseja o fracionamento da terra para reconhecer sua pequena propriedade, assim será”. [5]
     Na primavera de 1915, todos os campos de Morelos já estavam cultivados, principalmente com milho e outros alimentos. A cidade do México, entrementes, padecia de uma iminente fome por falta de alimentos. Venustiano Carranza havia conquistado a presidência e, por sua vez, ditou uma reforma agrária, mas seus chefes em seguida se apossaram dos respectivos benefícios; em 1916, abalançaram-se com bons dentes sobre Cuernavaca, capital de Morelos, e as demais comarcas zapatistas. As culturas, que tinham voltado a dar frutos, os minerais, as peles e maquinários significavam um excelente butim para os oficiais que avançavam queimando tudo à sua passagem e, ao mesmo tempo, proclamando “uma obra de reconstrução e progresso”.
     Em 1919, um estratagema e uma traição acabaram com a vida de Emiliano Zapata. Mil homens emboscados descarregaram seus fuzis em seu corpo. Morreu com a mesma idade de Che Guevara. Sobreviveu-o a lenda: o cavalo alazão que galopava sozinho, para o sul, pelas montanhas. Mas não só a lenda. Toda Morelos se determinou a “consumar a obra do reformador, vingar o sangue do mártir e seguir o exemplo do herói”, e o país inteiro lhe fez eco. Passou o tempo, e com a presidência de Lázaro Cárdenas (1934-1940) as tradições zapatistas recobraram vida e vigor através da reforma agrária implantada em todo o México. Foram expropriados, sobretudo em seu período de governo, 67 milhões de hectares em poder de empresas estrangeiras e nacionais, e os camponeses receberam, além da terra, créditos, educação e meios de organização para o trabalho. A economia e a população do país tinham começado sua acelerada ascensão; multiplicou-se a produção agrícola ao mesmo tempo em que o país inteiro se modernizava e se industrializava. Cresceram as cidades e se ampliou, em extensão e profundidade, o mercado de consumo.
     Mas o nacionalismo mexicano não derivou para o socialismo e, em consequência, como ocorreu com outros países que tampouco deram o salto decisivo, não realizou cabalmente seus objetivos de independência econômica e justiça social. Um milhão de mortos haviam tributado seu sangue, nos longos anos de revolução e de guerra, “a um Huitzilopochtli mais cruel, mais duro e insaciável do que aquele adorado pelos nossos antepassados: o desenvolvimento capitalista do México, nas condições impostas pela subordinação ao imperialismo” [6]. Diversos estudiosos investigaram os sinais de deterioração das velhas bandeiras. Edmundo Flores afirma, em publicação recente, que “atualmente 60 por cento da população total do México têm uma renda inferior a 120 dólares por ano e passa fome” [7]. Oito milhões de mexicanos não consomem praticamente nada além de feijões, tortas de milho e pimenta [8]. O sistema não revela suas profundas contradições tão só quando tombam mortos 500 estudantes na matança de Tlatelolco. Recolhendo números oficiais, Alonso Aguilar chega à conclusão de que há no México uns 2 milhões de camponeses sem terra, 3 milhões de crianças que não recebem educação, cerca de 15 milhões de analfabetos e 5 milhões de pessoas descalças [9]. A propriedade coletiva das terras indígenas se pulveriza continuamente, e junto com a multiplicação dos minifúndios, que também se fragmentam, fizeram sua aparição um latifundismo de novo cunho e uma nova burguesia agrária dedicada à agricultura em grande escala. Os terras-tenentes e intermediários nacionais que conquistaram uma posição dominante trampolinando o texto e o espírito das leis são, por sua vez, dominados, e num livro recente são considerados incluídos nos termos “and company” da empresa Anderson Clayton [10]. No mesmo livro, o filho de Lázaro Cárdenas diz que “os latifúndios simulados se constituíram, preferencialmente, nas terras de melhor qualidade, nas mais produtivas”.
     O romancista Carlos Fuentes reconstituiu, a partir da agonia, a vida de um capitão do exército de Carranza que, na guerra e na paz, vai abrindo caminho a tiros e com a força da astúcia [11]. Homem de muito humilde origem, Artemio Cruz, com a passagem dos anos, vai deixando para trás o idealismo e o heroísmo da juventude: usurpa terras, funda e multiplica empresas, elege-se deputado e, em rutilante carreira, ascende aos píncaros sociais, acumulando fortuna, poder e prestígio através dos negócios, dos subornos, da especulação, dos grandes golpes de audácia e da repressão a sangue e fogo da indiada. O processo do personagem se parece com o processo do partido que monopoliza a vida política do país em nossos dias. Ambos caíram para cima.

continua na página 206...
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[1] SILVA HERZOG, Jesús. Breve historia de la revolución mexicana. México; uenos Aires, 1960.
[2] TURNER, John Kenneth. México bárbaro. México, 1967. Publicado nos Estados Unidos em 1911. 
[3] TURNER, op. cit. O México era o país preferido pelos investimentos norte americanos: reunia em fins do século pouco menos da terça parte dos capitais dos Estados Unidos aplicados no exterior. No estado de Chuihuahua e outras regiões do norte, William Randolph Hearst, o célebre Citizen Kane do filme de Welles, possuía mais de três milhões de hectares. CARMONA, Fernando. El drama de América Latina. El caso de México. México, 1964. 
[4] WOMACK JR., John. Zapata y la revolución mexicana. México, 1969. 
[5] WOMACK JR., op. cit. 
[6] CARMONA, op. cit.  
[7] FLORES, Edmundo. “Adónde va la economía de México?” In: Comercio Exterior, v.XX (1). México, janeiro de 1970. 
[8] FLORES, Ana María. La magnitude del hambre en México. México, 1961. 
[9] AGUILAR & CARMONA, op. cit. Veja-se também, dos mesmos autores e MONTAÑO, Guillermo, & CARRIÓN, Jorge. El milagro mexicano. México, 1970. 
[10] STAVENHAGEN, Rodolfo, PAZ SÁNCHEZ, Fernando, CÁRDENAS, Cuauhtémoc & ONILLA SÁNCHEZ, Arturo. Neolatifundismo y explotación. De Emiliano Zapata a Anderson Clayton and Co. México, 1968.
[11] FUENTES, Carlos. La muerte de Artemio Cruz. México, 1962.   
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O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: ARTEMIO CRUZ e a segunda morte de EMILIANO ZAPATA (20)

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