Simone de Beauvoir
02. A Experiência Vivida
O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR
SlMONE DE BEAUVOIR
SEGUNDA PARTE
SITUAÇÃO
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CAPÍTULO III
A VIDA SOCIAL
continuando...
Afirmou-se muitas vezes que a mulher se vestia para excitar
o ciúme das outras mulheres: este ciúme é com efeito um sinal
visível de triunfo; mas não é a única coisa visada. Através dos
sufrágios de inveja ou admiração, a mulher busca uma afirmação
absoluta de sua beleza, de sua elegância, de seu gosto: de si
mesma. Veste-se para se mostrar: mostra-se para se fazer ser.
Submete-se assim a uma dolorosa dependência; a dedicação da
dona de casa é útil mas não é reconhecida; o esforço da coquete
é vão, se não se inscreve em alguma consciência. Ela procura
uma valorização definitiva de si mesma; é uma pretensão ao
absoluto que torna sua busca tão exaustiva; condenado por uma
só opinião, este chapéu não é bonito; um cumprimento a lisonjeia mas um desmentido a arruína; e como o absoluto só se
manifesta por uma série indefinida de aparições, ela vencerá
completamente; eis por que a coquete é tão suscetível; eis por que
também certas mulheres bonitas e aduladas podem estar convencidas de que não são nem belas nem elegantes, que lhes falta
precisamente a aprovação suprema de um juiz que não conhecem:
visam um em si que é irrealizável. Raras são as coquetes soberbas que encarnam elas próprias as leis da elegância, que
ninguém pode surpreender em erro porque são elas que definem,
por decretos, o êxito e o malogro; essas, durante seu reinado,
podem pensar-se como um êxito exemplar. A desgraça está em
que esse êxito não serve para nada nem para ninguém.
A toalete implica desde logo passeios e recepções, está nisso
aliás seu destino original. A mulher passeia de salão em salão
seu tailleur novo e convida outras mulheres para vê-la reinar
em seu "interior". Em certos casos particularmente solenes o
marido acompanha-a em suas "visitas"; porém mais frequentemente, é enquanto o marido trabalha que ela cumpre seus "deveres
mundanos". Descreveu-se mil vezes o tédio implacável dessas
reuniões. Ele provém do fato de que essas mulheres reunidas
pelas "obrigações mundanas" nada têm a se comunicar. Nenhum
interesse comum liga a mulher do advogado à mulher do médico
— nem tampouco a do Dr. Dupont à do Dr. Durant. Não
é de bom-tom, numa reunião, numa conversa de ordem geral falar das travessuras dos filhos ou das preocupações domésticas.
Fica-se, portanto, limitada a considerações sobre o tempo, o último romance em voga, algumas ideias gerais tiradas
dos maridos. O hábito do dia "de Madame" tende sempre mais
a desaparecer; mas sob diversas formas a obrigação da "visita"
sobrevive na França. As norte-americanas substituem de bom
grado a conversa pelo bridge, o que só constitui uma vantagem
para as mulheres que gostam desse jogo.
Entretanto, a vida mundana reveste formas mais atraentes
do que essa ociosa execução de um dever de polidez. Receber
não é apenas acolher os outros em sua residência particular; é
transformar esta em um recanto encantado; a manifestação mundana é ao mesmo tempo festa e poílatch. A dona de casa
expõe seus tesouros: prataria, toalhas, cristais; enche de flores o
lar: efêmeras, inúteis, as flores encarnam a gratuidade das festas
que são despesas e luxo; desabrochadas nos vasos, condenadas
a uma morte rápida, são fogo de artifício, incenso e mirra, libação, sacrifício.
A mesa enche-se de pratos requintados, de
vinhos preciosos. Trata-se, satisfazendo as necessidades dos convivas, de inventar dons graciosos que lhes previnem os desejos;
a refeição transmuda-se em misteriosa cerimônia. V. Woolf
acentua esse caráter neste trecho de Mrs Dalloway:
Então começou pelas portas de vento o vaivém silencioso e encantador das criadinhas de avental e boné brancos, não serventes necessárias porém sacerdotisas de um mistério, da grande mistificação operada pelas donas de casa de Mayfair de uma hora e meia a duas. A um gesto de mão, o movimento da rua cessa e em seu lugar ergue-se essa ilusão enganadora: primeiramente, eis os alimentos oferecidos de graça, depois a mesa cobre-se sozinha de cristais e prataria, de cestos, de gamelas com frutos vermelhos; um véu de creme escuro esconde o peixe; frangos destrinchados nadam em caçarolas, o fogo flameja cerimonioso; e com o vinho e o café — dados de graça — alegres visões erguem-se ante os olhos sonhadores, os olhos que meditam docemente, aos quais a vida se apresenta musical, misteriosa...
É exatamente o que sente Mrs. Dalloway:
Mas suponhamos que Peter lhe diga: Bem! Bem! Mas suas noitadas, qual a razão delas? Tudo o que pode responder é isto (tanto pior se ninguém entende): São uma oferenda... Eis Fulano que mora em South Kennington, Beltrano que vive em Bayswater e Sicrano, diga mos no Mayfair. Ela tem sempre o sentimento da existência deles; ela se diz: Que pena! Que saudade! E ela se diz: Por que não os reunir? quem? E os reúne. É uma oferenda; é combinar, criar. Mas para quem?Uma oferenda pela alegria de oferecer, talvez. seu presente. Ela não tem outra coisa... Em todo caso é seu presente. Ela não tem outra coisa...Outra pessoa, qualquer uma, poderia ter estado ali, fazer tão bem. Entretanto era um pouco admirável, pensava. Fizera com que as sim fosse.
Se há nessa homenagem prestada a outrem pura generosidade,
a festa é realmente uma festa. Mas a rotina social dentro em
pouco transforma o potlatch em instituição, o dom em obriga
ção e a festa em rito. Enquanto saboreia o jantar, a convidada
pensa que será preciso pagá-lo: queixa-se amiúde de ter sido bem
recebida demais. "Os X... quiseram embasbacar-nos", diz com
azedume ao marido. Contaram-me, entre outras coisas, que durante a última guerra os chás se tinham tornado, numa pequena
cidade de Portugal, o mais caro dos potlatchs: em cada reunião
devia a dona da casa servir uma variedade e uma quantidade de
doces maiores do que na reunião precedente; o fardo tornou-se
tao pesado que um dia as mulheres decidiram de comum acordo
nada mais oferecer com o chá. A festa em tais circunstâncias
perde seu caráter generoso e magnífico; é uma corveia entre
outras; os acessórios que exprimem a festividade não passam de
uma fonte de preocupações: é preciso tomar conta dos cristais,
da toalha, medir o champanha e os doces; uma xícara quebra
da, a seda de uma poltrona queimada são desastres; amanhã será
preciso limpar, arrumar, pôr em ordem: a mulher teme esse
excesso de trabalho. Sente essa múltipla dependência que define o destino da dona de casa; depende do soufflé, do assado, do
açougueiro, da cozinheira, do criado extra; depende do marido
que franze o sobrolho, quando alguma coisa falha; depende dos
convidados que avaliam os móveis, os vinhos e julgam se a
noitada foi um êxito ou não. Somente as mulheres generosas
ou seguras de si passarão serenamente por tal prova. Um triunfo pode dar-lhes uma grande satisfação. Mas muitas assemelham--se nesse ponto a Mrs. Dalloway, a propósito de quem V. Woolf
nos diz: "Embora gostando desses triunfos. . . de seu brilho
e da excitação que dão, sentia-lhes também o vazio, o artifício".
A mulher só pode realmente comprazer-se nisso se não lhe empresta grande importância; sem o quê, conhecerá os tormentos da
vaidade nunca satisfeita.
Há, de resto, poucas mulheres sufi
cientemente ricas para encontrar no "mundanismo" um emprego
para sua vida. As que a ele se consagram inteiramente tentam
em geral não somente render um culto a si mesmas como ainda
ultrapassar essa vida mundana com vistas a outros fins: os ver
dadeiros "salões" têm um caráter literário ou político. Elas se
esforçam através desse meio por adquirir ascendência sobre os
homens e desempenhar um papel pessoal. Evadem-se de sua condição de mulher casada. Esta, em geral, não encontra satisfação
nos prazeres, nos triunfos efêmeros que lhes dispensam raramente e que muitas vezes representam para elas uma fadiga tanto quanto uma distração. A vida mundana exige que ela "represente",
que se exiba, mas não cria entre ela e outrem uma verdadeira
comunicação. Não a tira de sua solidão.
"É doloroso pensar, escreve Michelet, que a mulher, o ser
relativo que só pode viver a dois, se ache mais amiúde só do
que o homem. Ele encontra a sociedade por toda parte, cria
relações novas para si. Ela não é nada sem a família. E a
família acabrunha-a; todo o peso lhe cai em cima." E, com
efeito, a mulher encarcerada, separada, não conhece as alegrias da
camaradagem que implica no esforço em comum para alcançar
certos objetivos; seu trabalho não ocupa o espírito, sua formação
não lhe deu nem o gosto nem o hábito da independência e, no
entanto, ela passa os dias na solidão; vimos que era uma das
desgraças de que se queixava Sofia Tolstói. Seu casamento afastou-a amiúde do lar paterno, das amizades da juventude. Colette
descreveu em Mes Apprentissages o desarraigamento de uma mulher casada transportada da província para Paris: não encontra
apoio senão na longa correspondência que troca com a mãe; mas as cartas não substituem uma presença e ela não pode confessar suas decepções a Sido. Geralmente não há verdadeira intimidade entre a jovem mulher e sua família: nem sua mãe nem
suas irmãs são suas amigas. Hoje, em virtude da crise de habitação, muitas jovens recém-casadas vivem com a família ou a
família do marido; mas essas presenças impostas estão longe
de constituir uma verdadeira companhia para elas.
As amizades femininas que a mulher consegue conservar ou
criar ser-lhe-ão preciosas; têm um caráter muito diferente das
relações que os homens conhecem; estes comunicam entre si,
como indivíduos, através das ideias, os projetos que lhes são
pessoais; as mulheres, encerradas na generalidade de seu destino,
acham-se unidas por uma espécie de cumplicidade imanente. O
que primeiramente procuram, umas junto de outras, é a afirmação
do universo que lhes é comum. Não discutem opiniões: trocam
confidencias e receitas; ligam-se para criar uma espécie de contra-universo cujos valores superem os valores masculinos; reunidas,
encontram força para sacudir suas cadeias; negam o domínio sexual do homem, confiando umas às outras sua frieza, zombando
cinicamente dos apetites do macho ou de sua inabilidade; contestam também com ironia a superioridade moral e intelectual
do marido e dos homens em geral. Confrontam suas experiências; gravidez, partos, doenças dos filhos, doenças pessoais, cui
dados caseiros tornam-se os acontecimentos essenciais da história
humana. Seu trabalho não é uma técnica: transmitindo-se receitas de cozinha, receitas caseiras, dão-lhes a dignidade de uma
ciência secreta baseada em tradições orais. Por vezes, examinam
juntas problemas morais. A "pequena correspondência" dos jornais femininos oferece uma boa amostra dessas trocas; não há
como imaginar uma "correspondência amorosa" reservada aos
homens; eles se encontram no mundo, que é o mundo deles; ao
passo que as mulheres têm que definir, medir, explorar seus
domínios; comunicam principalmente conselhos de beleza, receitas
de cozinha e de tricô, pedem opiniões; através de seu gosto pela
tagarelice e pela exibição sentimos, por vezes, surgirem verdadeiras
angústias. A mulher sabe que o código masculino não é o seu,
que o próprio homem espera que ela não o observará, posto que
a impele a abortos, a adultérios, a erros, a traições, a mentiras
que oficialmente condena. Ela pede, portanto, às outras mulheres,
que a ajudem a definir uma espécie de "lei" de seu meio, um
código moral propriamente feminino. Não é somente por maldade que as mulheres comentam e criticam tão longamente as condutas das amigas: para julgá-las e para se orientarem é-lhes
necessária muito mais invenção moral do que aos homens.
O que dá valor a tais relações é a verdade que comportam.
Diante do homem, a mulher está sempre representando; mente,
fingindo aceitar-se como o outro inessencial, mente erguendo, à
frente dele, mediante mímicas, toaletes, frases preparadas, uma
personagem imaginária; essa comédia exige uma constante tensão;
perto do marido, perto do amante, toda mulher pensa mais ou
menos: não sou eu mesma. O mundo masculino é duro, tem
arestas afiadas, as vozes são demasiado sonoras, as luzes demasiado cruas, os contatos rudes. Perto das outras mulheres, a
mulher fica atrás do cenário; forja suas armas, não combate;
combina a toalete, inventa uma maquilagem, prepara seus ardis:
arrasta-se de chinelos e roupão pelos bastidores antes de subir
ao palco; gosta dessa atmosfera morna, doce, repousante. Colette (Le Képi) descreve assim os momentos que passava com
sua amiga Marco:
Confidências rápidas, divertimentos de reclusas, horas que por vezes se assemelham às de uma reunião, por vezes aos lazeres de uma convalescença.
Comprazia-se em desempenhar o papel de conselheira junto
da mulher mais idosa:
Nas tardes quentes, sob o estore do balcão, Marco cuidava de suas roupas. Cozia mal, mas com cuidado e eu me envaidecia com os conselhos que lhe dava... "Não se deve colocar fita azul-celeste nas camisas, o cor-de-rosa é mais bonito na roupa e junto da pele." Não tardei em dar-lhe outros conselhos acerca do pó de arroz, da cor do batom, do traço duro e negro com que cercava o belo desenho de sua pálpebra. "Acha? não cedia. Acha?", dizia-me ela. Minha jovem autoridade Pegava do pente, abria uma pequena brecha graciosa na sua franja fofa, mostrava-me perita em dar brilho a seu olhar, em acender uma aurora vermelha no alto de suas faces, perto das têmporas.
Mais adiante mostra-nos Marco preparando-se ansiosamente
para defrontar-se com um rapaz que desejava conquistar:
... Queria enxugar os olhos molhados, eu a impedia.— Deixa-me fazê-lo.Com os polegares, ergui as pálpebras superiores a fim de que as duas lágrimas prestes a escorrer se reabsorvessem e a pintura dos cílios não fundisse ao seu contato.— Bem. Espera, não terminou ainda.Retoquei todos os traços. A boca tremia um pouco. Deixou-se retocar pacientemente, suspirando como se a pensasse. Para acabar, enchi-lhe o arminho com um pó de arroz mais rosado. vamos, nem uma nem outra.—... Que quer que aconteça — disse-lhe — não chore. De jeito nenhum te deixes dominar pelas lágrimas.... Ela passou a mão entre a franja e a fronte.— Eu devia ter comprado sábado último aquele vestido preto que vi no revendedor. . . Escuta, não poderias emprestar-me meias muito finas? Nesta hora, não tenho mais tempo.— Mas naturalmente, naturalmente.— Obrigada. Não achas que uma flor pode clarear o vestido? Não, nada de flor na blusa. É verdade que o perfume de íris não está mais na moda? Parece-me que teria uma porção de coisas para te perguntar, uma porção de coisas...
continua página 305...
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Leia também:
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Vida Social (3)
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Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
"O que é uma mulher?"
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