Livro 1
Do Entendimento
Parte 1
Das ideias, sua origem, composição,
conexão, abstração, etc.
Seção IV
Da conexão ou associação das ideias
Visto que a imaginação pode separar todas as ideias
simples e uni-las de novo na forma que lhe aprouver, nada seria mais inexplicável do que as operações desta faculdade,
se ela não fosse orientada por alguns princípios universais
que a tornassem em certa medida uniforme em todos os
tempos e lugares. Se as ideias fossem inteiramente soltas e
desconexas, só o acaso as juntaria; e seria impossível que as
mesmas ideias simples se agrupassem regularmente em ideias
complexas (como correntemente sucede) sem estarem unidas por qualquer laço, qualquer qualidade associativa,
mediante a qual uma ideia naturalmente introduz a outra.
Este princípio de união entre as ideias não deve considerar-se uma conexão inseparável, pois tal conexão já foi excluída
da imaginação; contudo não devemos concluir que sem ela,
a mente é incapaz de juntar duas ideias, visto que nada há
mais livre do que essa faculdade. Mas devemos apenas considerar este princípio de união como uma força suave que
normalmente prevalece e é a causa que, entre outras coisas,
produz a correspondência tão estreita das línguas entre si; a
natureza de certo modo indicando a cada um as ideias simples que são mais apropriadas à união numa ideia complexa. As qualidades em que se origina esta associação e
que desta maneira levam a mente de uma ideia para outra,
são três: a semelhança, a contiguidade no tempo e no espaço
e a relação de causa e feito.
Julgo não ser muito necessário provar que estas qualidades produzem uma associação entre as ideias e que, ao
aparecer uma ideia, naturalmente introduzem outra. Está
claro que, no decorrer do nosso pensamento e na transformação constante das nossas ideias, a imaginação passa facilmente de uma ideia para qualquer outra que se lhe assemelhe, e que esta qualidade, por si só, constitui para a fantasia um
laço e associação suficiente. É também evidente que, sendo
os sentidos, ao mudarem os objetos, obrigados a mudarem-nos regularmente, tomando-os tal como se encontram
contíguos uns aos outros, deve a imaginação, devido ao longo
costume, adquirir o mesmo método de pensar, percorrendo as partes do espaço e do tempo ao conceber os seus objetos. Quanto à conexão que se opera pela relação de causa e efeito, a seguir teremos ocasião de a estudar a fundo, pelo
que não insisto nela de momento. Basta notar que nenhuma
relação produz na fantasia uma conexão mais forte, e faz
uma ideia mais prontamente evocar outra, do que a relação
de causa e efeito entre os seus objetos.
Para compreendermos toda a extensão destas relações,
é necessário considerar que dois objetos ficam ligados um
ao outro na imaginação não apenas quando um deles é
diretamente semelhante, contíguo ou causa do outro, mas
ainda quando entre eles se interpõe um terceiro objeto
que mantém com ambos qualquer destas relações. Pode
levar-se longe esta conexão; contudo podemos ao mesmo
tempo notar que cada deslocação enfraquece consideravelmente a relação. Os primos em quarto grau estão ligados
por causalidade, se é que é lícito usar este termo, mas não
tão intimamente como os irmãos e muito menos do que
um filho aos seus pais. Em geral pode notar-se que todas as
relações de consanguinidade dependem da relação de causa
e efeito e consideram-se próximas ou remotas segundo o
número de causas de ligação intercaladas entre as pessoas.
Das três relações mencionadas acima, a de causalidade
é a mais extensa. Dois objetos podem considerar-se nesta
relação já quando um deles é causa de qualquer das ações
ou movimentos do outro, já quando o primeiro é causa da
existência do segundo. Com efeito, não sendo esta ação
ou movimento senão o próprio objeto visto a determinada
luz e continuando o objeto o mesmo em todas as suas
diferentes situações, é fácil de imaginar como essa influência mútua dos objetos pode ligá-los na imaginação.
Podemos ir mais longe e observar que dois objetos
ficam ligados pela relação de causa e efeito, não só quando
um deles produz no outro um movimento ou ação qualquer, mas ainda quando tem poder para produzi-lo. E podemos notar que esta é a origem de todas as relações de interesse e de dever pelas quais os homens se influenciam
mutuamente na sociedade e ficam presos nos laços do governo e da subordinação. Patrão é o homem que, pela sua
situação, originada na força ou num acordo, tem o poder
de dirigir em certos pontos as ações doutro homem a
quem chamamos servo. Juiz é um homem que nos casos de
litígio pode, mediante a sua decisão, assegurar a posse ou
propriedade de uma coisa qualquer a qualquer membro da
sociedade. Quando uma pessoa é dotada de qualquer poder,
nada mais é preciso para que este passe a ato do que o
exercício da vontade; e este exercício considera-se possível
em todos os casos, e provável em muitos deles, especialmente no caso da autoridade, em que a obediência do súb-dito é um prazer e uma vantagem para o superior.
São estes portanto os princípios de união ou coesão
das nossas ideias simples, os quais na imaginação preenchem o lugar dessa conexão inseparável por força da qual
elas se unem na nossa memória. Há aqui uma espécie de
atração, a qual veremos ter no mundo do espírito efeitos
tão extraordinários como no mundo da natureza, e manifestar-se sob tantas e tão variadas formas como neste. Os
seus efeitos são por toda a parte manifestos, mas as suas
causas são na maioria dos casos desconhecidas e têm de se
reduzir a qualidades originais da natureza humana, que não
é minha pretensão explicar. O que mais se exige de um
verdadeiro filósofo é que reprima o desejo imoderado de
procurar causas e que, depois de ter estabelecido uma
doutrina a partir de um número suficiente de experiências,
se dê por satisfeito quando notar que um exame mais por
menorizado o levaria a especulações obscuras e incertas.
Neste caso a sua investigação seria mais bem empregada em
examinar os efeitos do que as causas do seu princípio.
Dentre os efeitos desta união ou associação de ideias,
nenhuns há mais notáveis do que aquelas ideias complexas que são a matéria comum dos nossos pensamentos e raciocínio, e geralmente têm origem nalgum princípio de união
entre as nossas ideias simples. Estas ideias complexas podem
dividir-se em relações, modos e substâncias. Vamos examinar
com brevidade cada uma delas por ordem, e acrescentaremos algumas considerações sobre as nossas ideias gerais e
particulares, antes de deixarmos o presente assunto, que
pode considerar-se como os elementos desta filosofia.
continua na página 43...
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Prefácio / Introdução /
Livro 1: Do Entendimento Parte 1
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro
Tradução do texto inglês intitulado
Tradução do texto inglês intitulado
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume,
segundo a edição da Oxford University Press,
Oxford, 1888
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