quinta-feira, 30 de abril de 2026

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 1: Seção IV)

Da origem das nossas ideias

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 1
Das ideias, sua origem, composição, 
conexão, abstração, etc.

Seção IV
Da conexão ou associação das ideias


     Visto que a imaginação pode separar todas as ideias simples e uni-las de novo na forma que lhe aprouver, nada seria mais inexplicável do que as operações desta faculdade, se ela não fosse orientada por alguns princípios universais que a tornassem em certa medida uniforme em todos os tempos e lugares. Se as ideias fossem inteiramente soltas e desconexas, só o acaso as juntaria; e seria impossível que as mesmas ideias simples se agrupassem regularmente em ideias complexas (como correntemente sucede) sem estarem unidas por qualquer laço, qualquer qualidade associativa, mediante a qual uma ideia naturalmente introduz a outra. Este princípio de união entre as ideias não deve considerar-se uma conexão inseparável, pois tal conexão já foi excluída da imaginação; contudo não devemos concluir que sem ela, a mente é incapaz de juntar duas ideias, visto que nada há mais livre do que essa faculdade. Mas devemos apenas considerar este princípio de união como uma força suave que normalmente prevalece e é a causa que, entre outras coisas, produz a correspondência tão estreita das línguas entre si; a natureza de certo modo indicando a cada um as ideias simples que são mais apropriadas à união numa ideia complexa. As qualidades em que se origina esta associação e que desta maneira levam a mente de uma ideia para outra, são três: a semelhança, a contiguidade no tempo e no espaço e a relação de causa e feito.
     Julgo não ser muito necessário provar que estas qualidades produzem uma associação entre as ideias e que, ao aparecer uma ideia, naturalmente introduzem outra. Está claro que, no decorrer do nosso pensamento e na transformação constante das nossas ideias, a imaginação passa facilmente de uma ideia para qualquer outra que se lhe assemelhe, e que esta qualidade, por si só, constitui para a fantasia um laço e associação suficiente. É também evidente que, sendo os sentidos, ao mudarem os objetos, obrigados a mudarem-nos regularmente, tomando-os tal como se encontram contíguos uns aos outros, deve a imaginação, devido ao longo costume, adquirir o mesmo método de pensar, percorrendo as partes do espaço e do tempo ao conceber os seus objetos. Quanto à conexão que se opera pela relação de causa e efeito, a seguir teremos ocasião de a estudar a fundo, pelo que não insisto nela de momento. Basta notar que nenhuma relação produz na fantasia uma conexão mais forte, e faz uma ideia mais prontamente evocar outra, do que a relação de causa e efeito entre os seus objetos.
     Para compreendermos toda a extensão destas relações, é necessário considerar que dois objetos ficam ligados um ao outro na imaginação não apenas quando um deles é diretamente semelhante, contíguo ou causa do outro, mas ainda quando entre eles se interpõe um terceiro objeto que mantém com ambos qualquer destas relações. Pode levar-se longe esta conexão; contudo podemos ao mesmo tempo notar que cada deslocação enfraquece consideravelmente a relação. Os primos em quarto grau estão ligados por causalidade, se é que é lícito usar este termo, mas não tão intimamente como os irmãos e muito menos do que um filho aos seus pais. Em geral pode notar-se que todas as relações de consanguinidade dependem da relação de causa e efeito e consideram-se próximas ou remotas segundo o número de causas de ligação intercaladas entre as pessoas.
     Das três relações mencionadas acima, a de causalidade é a mais extensa. Dois objetos podem considerar-se nesta relação já quando um deles é causa de qualquer das ações ou movimentos do outro, já quando o primeiro é causa da existência do segundo. Com efeito, não sendo esta ação ou movimento senão o próprio objeto visto a determinada luz e continuando o objeto o mesmo em todas as suas diferentes situações, é fácil de imaginar como essa influência mútua dos objetos pode ligá-los na imaginação.
     Podemos ir mais longe e observar que dois objetos ficam ligados pela relação de causa e efeito, não só quando um deles produz no outro um movimento ou ação qualquer, mas ainda quando tem poder para produzi-lo. E podemos notar que esta é a origem de todas as relações de interesse e de dever pelas quais os homens se influenciam mutuamente na sociedade e ficam presos nos laços do governo e da subordinação. Patrão é o homem que, pela sua situação, originada na força ou num acordo, tem o poder de dirigir em certos pontos as ações doutro homem a quem chamamos servo. Juiz é um homem que nos casos de litígio pode, mediante a sua decisão, assegurar a posse ou propriedade de uma coisa qualquer a qualquer membro da sociedade. Quando uma pessoa é dotada de qualquer poder, nada mais é preciso para que este passe a ato do que o exercício da vontade; e este exercício considera-se possível em todos os casos, e provável em muitos deles, especialmente no caso da autoridade, em que a obediência do súb-dito é um prazer e uma vantagem para o superior.
     São estes portanto os princípios de união ou coesão das nossas ideias simples, os quais na imaginação preenchem o lugar dessa conexão inseparável por força da qual elas se unem na nossa memória. Há aqui uma espécie de atração, a qual veremos ter no mundo do espírito efeitos tão extraordinários como no mundo da natureza, e manifestar-se sob tantas e tão variadas formas como neste. Os seus efeitos são por toda a parte manifestos, mas as suas causas são na maioria dos casos desconhecidas e têm de se reduzir a qualidades originais da natureza humana, que não é minha pretensão explicar. O que mais se exige de um verdadeiro filósofo é que reprima o desejo imoderado de procurar causas e que, depois de ter estabelecido uma doutrina a partir de um número suficiente de experiências, se dê por satisfeito quando notar que um exame mais por menorizado o levaria a especulações obscuras e incertas. Neste caso a sua investigação seria mais bem empregada em examinar os efeitos do que as causas do seu princípio.
     Dentre os efeitos desta união ou associação de ideias, nenhuns há mais notáveis do que aquelas ideias complexas que são a matéria comum dos nossos pensamentos e raciocínio, e geralmente têm origem nalgum princípio de união entre as nossas ideias simples. Estas ideias complexas podem dividir-se em relações, modos e substâncias. Vamos examinar com brevidade cada uma delas por ordem, e acrescentaremos algumas considerações sobre as nossas ideias gerais e particulares, antes de deixarmos o presente assunto, que pode considerar-se como os elementos desta filosofia.

continua na página 43...
______________

Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Seção I / Seção II / Seção III / Seção IV /   
___________________

4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888

Nenhum comentário:

Postar um comentário