domingo, 5 de abril de 2026

De quanta terra um homem precisa? - V

Liev Tolstói

V

     Perguntou Pahóm como poderia ir até estas outras terras e, logo que o negociante o deixou, preparou-se para empreender a viagem; ficou a mulher a tomar conta da casa e ele partiu com o criado; pararam numa cidade e compraram uma caixa de chá, vinho e outros presentes, conforme o negociante. conselho Foram do andando sempre até que, já percorridas mais de noventa léguas, chegaram ao lugar em que os Baquires tinham levantado as suas tendas; era exatamente como o homem tinha dito: viviam nas estepes, junto dum rio, em tendas de feltro; não lavravam a terra, nem comiam pão: o gado e os cavalos andavam em rebanhos pelos pastos da estepe; os potros estavam peados atrás das tendas e duas vezes por dia lhes levavam as éguas; ordenhavam-nas e do leite faziam kumiss (leite fermentado); eram as mulheres quem preparavam o kumiss e faziam queijo; quanto aos homens, passavam o seu tempo a beber kumiss e chá, a comer carneiro e a tocar gaitas de foles; eram gorduchos e prazenteiros, e, durante todo o verão, nem pensavam em trabalhar; eram ignorantes de todo, não sabiam falar russo, mas eram de boa qualidade. 
     Mal viram Pahóm, saíram das tendas e juntaram-se à volta do visitante; apareceu um intérprete e Pahóm disse-lhes que tinha vindo à procura de terra; os Baquires, segundo parecia, ficaram muito contentes; levaram Pahóm para uma das melhores tendas onde o fizeram sentar numas almofadas de pernas postas num tapete, sentando-se eles também à volta; deram-lhe chá e kumiss, mataram um carneiro para a refeição; Pahóm tirou os presentes do carro, distribuiu-os pelos Baquires e dividiu também o chá; os Baquires ficaram encantados; conversaram muito uns com os outros e depois disseram ao intérprete que traduzisse:  

“O que eles estão a dizer é que gostaram de ti e que é nosso costume fazermos tudo o que podemos para agradar aos hóspedes e lhes pagar os presentes; tu deste presentes: tens que dizer agora que te agrada mais de tudo o que possuímos, para que te entreguemos o que desejas”.
“O que me agrada mais — respondeu Pahóm — é a vossa terra. A nossa está cheia de gente e os campos já não dão; vocês têm muita e boa; nunca vi coisa assim”. 

     O intérprete traduziu. Os Baquires falaram um bocado, sem que Pahóm compreendesse o que diziam; mas percebeu que estavam muito divertidos e viu que gritavam e se riam; depois se calaram e olharam para Pahóm, enquanto o intérprete dizia: 

“O que eles me mandam dizer é que, em troca dos teus presentes, te darão a terra que quiseres; é só apontá-la a dedo”.

     Os Baquires puseram-se outra vez a falar e discutiram; Pahóm perguntou o motivo da discussão e o intérprete respondeu que uns eram de opinião de que não deviam resolver nada na ausência do chefe e outros que não havia necessidade de esperarem que voltasse.  

Continua na pág 35...
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De quanta terra um homem precisa? - IV / De quanta terra um homem precisa? - V / De quanta terra um homem precisa? - VI /            
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Lev Nikoláievitch Tolstói, também conhecido em português como Liev, Leão, Leo ou Leon Tolstói (em russo: Лев Николаевич Толстой.  Nasceu em 9 de setembro de 1828 – Morreu em 20 de novembro de 1910.
Em 23 de setembro de 1862, Tolstói se casou com Sophia Andreevna Behrs, filha de um médico da corte. Eles tiveram 13 filhos, oito dos quais chegaram à vida adulta. De início, o casamento com Sophia foi marcado pela intensidade sexual e insensibilidade emocional. Na véspera de seu casamento, Tolstói entregou a sua noiva seu diário pessoal, que detalhava toda sua intensa vida sexual anterior a seu noivado. Os relatos incluíam o fato de ele ter tido um filho com uma de suas empregadas. Ainda assim, o casamento foi afortunado e proporcionou a Tolstói liberdade e estrutura familiar que o ajudaram a escrever as obras Guerra e Paz e Anna Karenina com Sophia atuando como sua secretária pessoal, editora e gerente financeira. No entanto o casamento foi deteriorando à medida que o estilo de vida e as crenças de Tolstói tornavam-se mais radicais. Por conta de seu estilo de vida, ele rejeitou sua herança, incluindo os direitos autorais de suas obras.
Seus contemporâneos prestaram-lhe diversas homenagens, classificando-o como o maior romancista de sua época.

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