V
Perguntou Pahóm como poderia ir até estas outras terras e, logo que o negociante o deixou, preparou-se para empreender a viagem; ficou a mulher a tomar conta da casa e ele partiu com o criado; pararam numa cidade e compraram uma caixa de chá, vinho e outros presentes, conforme o negociante. conselho Foram do andando sempre até que, já percorridas mais de noventa léguas, chegaram ao lugar em que os Baquires tinham levantado as suas tendas; era exatamente como o homem tinha dito: viviam nas estepes, junto dum rio, em tendas de feltro; não lavravam a terra, nem comiam pão: o gado e os cavalos andavam em rebanhos pelos pastos da estepe; os potros estavam peados atrás das tendas e duas vezes por dia lhes levavam as éguas; ordenhavam-nas e do leite faziam kumiss (leite fermentado); eram as mulheres quem preparavam o kumiss e faziam queijo; quanto aos homens, passavam o seu tempo a beber kumiss e chá, a comer carneiro e a tocar gaitas de foles; eram gorduchos e prazenteiros, e, durante todo o verão, nem pensavam em trabalhar; eram ignorantes de todo, não sabiam falar russo, mas eram de boa qualidade.
Mal viram Pahóm, saíram das
tendas e juntaram-se à volta do
visitante; apareceu um intérprete e
Pahóm disse-lhes que tinha vindo à
procura de terra; os Baquires,
segundo parecia, ficaram muito
contentes; levaram Pahóm para
uma das melhores tendas onde o
fizeram sentar numas almofadas de
pernas
postas
num
tapete,
sentando-se eles também à volta;
deram-lhe chá e kumiss, mataram
um carneiro para a refeição;
Pahóm tirou os presentes do carro,
distribuiu-os pelos Baquires e
dividiu também o chá; os Baquires
ficaram encantados; conversaram
muito uns com os outros e depois
disseram
ao intérprete que traduzisse:
“O que eles estão a dizer é que
gostaram de ti e que é nosso
costume fazermos tudo o que
podemos para agradar aos
hóspedes e lhes pagar os presentes;
tu deste presentes: tens que dizer
agora que te agrada mais de tudo o
que possuímos, para que te
entreguemos o que desejas”.
“O que me agrada mais —
respondeu Pahóm — é a vossa
terra. A nossa está cheia de gente e
os campos já não dão; vocês têm
muita e boa; nunca vi coisa assim”.
O
intérprete
traduziu.
Os
Baquires falaram um bocado, sem
que Pahóm compreendesse o que
diziam; mas percebeu que estavam
muito divertidos e viu que
gritavam e se riam; depois se
calaram e olharam para Pahóm,
enquanto o intérprete dizia:
“O que eles me mandam dizer é
que, em troca dos teus presentes, te
darão a terra que quiseres; é só
apontá-la a dedo”.
Os Baquires puseram-se outra
vez a falar e discutiram; Pahóm
perguntou o motivo da discussão e
o intérprete respondeu que uns
eram de opinião de que não
deviam resolver nada na ausência
do chefe e outros que não havia
necessidade de esperarem que
voltasse.
Continua na pág 35...
Lev Nikoláievitch Tolstói, também conhecido em português como Liev, Leão, Leo ou Leon Tolstói (em russo: Лев Николаевич Толстой. Nasceu em 9 de setembro de 1828 – Morreu em 20 de novembro de 1910.
Continua na pág 35...
_________________
De quanta terra um homem precisa? - I / De quanta terra um homem precisa? - II / De quanta terra um homem precisa? - III /
De quanta terra um homem precisa? - IV / De quanta terra um homem precisa? - V / De quanta terra um homem precisa? - VI /
_________________
Em 23 de setembro de 1862, Tolstói se casou com Sophia Andreevna Behrs, filha de um médico da corte. Eles tiveram 13 filhos, oito dos quais chegaram à vida adulta. De início, o casamento com Sophia foi marcado pela intensidade sexual e insensibilidade emocional. Na véspera de seu casamento, Tolstói entregou a sua noiva seu diário pessoal, que detalhava toda sua intensa vida sexual anterior a seu noivado. Os relatos incluíam o fato de ele ter tido um filho com uma de suas empregadas. Ainda assim, o casamento foi afortunado e proporcionou a Tolstói liberdade e estrutura familiar que o ajudaram a escrever as obras Guerra e Paz e Anna Karenina com Sophia atuando como sua secretária pessoal, editora e gerente financeira. No entanto o casamento foi deteriorando à medida que o estilo de vida e as crenças de Tolstói tornavam-se mais radicais. Por conta de seu estilo de vida, ele rejeitou sua herança, incluindo os direitos autorais de suas obras.
Seus contemporâneos prestaram-lhe diversas homenagens, classificando-o como o maior romancista de sua época.
Nenhum comentário:
Postar um comentário