VI
Enquanto os Baquires discutiam, entrou um homem com um barrete de pele de raposa; todos se levantaram em silêncio e o intérprete disse:
“É o chefe!”
Pahóm foi logo buscar o melhor
vestuário e cinco libras de chá e
ofereceu tudo ao chefe; o chefe
aceitou, sentou-se no lugar de
honra e os Baquires começaram a
contar-lhe qualquer coisa; o chefe
escutou, depois fez um sinal com a
cabeça para que se calassem e,
dirigindo-se a Pahóm, disse-lhe em
russo:
“Está bem. Escolhe a terra que
queres; há bastante por aí.”
“A que eu quiser? — pensou
Pahóm — Como é isso possível?
Tenho que fazer uma escritura para
que não voltem com a palavra
atrás.” Depois disse alto:
“Muito obrigado pelas suas boas
palavras: os senhores têm muita
terra, e eu só quero uma parte; mas
que seja bem minha; podiam talvez
medi-la e entregá-la. Há morrer e
viver... Os senhores, que são bons,
dão-me, mas os vossos filhos
poderiam querer tirar-me”.
“Tens razão” — disse o chefe —
“vamos doar-te a terra”.
“Soube que esteve cá um
negociante” — continuou Pahóm
— “e que os senhores lhe deram
umas terras, com uns papéis
assinados... Era assim que eu
gostava”.
O chefe compreendeu:
O chefe compreendeu:
“Bem, isso é fácil; temos aí um
escrivão e podemos ir à cidade
para ficar tudo em ordem”.
“E o preço?” — perguntou
Pahóm.
“O nosso preço é sempre o
mesmo: mil rublos por dia”.
“Por dia? Que medida é essa?
Quantos hectares?”
“Não sabemos; vendemos terra a
dia; fica a pertencer-te toda a terra
a que puderes dar volta, a pé, num
dia; e são mil rublos por dia.
Pahóm ficou surpreendido”.
“Mas num dia pode-se andar
muito!...”
O chefe riu-se:
“Pois será toda tua! Com uma
condição: se não voltares no
mesmo dia ao ponto donde
partiste, perdes o dinheiro”.
“Mas como hei de eu marcar o
caminho?”
“Vamos ao sítio que te agradar e
ali ficamos. Tu começas a andar
com uma pá; onde achares
necessário fazes um sinal; a cada
volta cavas um buraco e empilhas
os torrões; depois nós vamos com
um arado de buraco a buraco.
Podes dar a volta que quiseres,
mas antes do sol-posto tens que
voltar; toda a terra que rodeares
será tua.”
Pahóm ficou contentíssimo e
decidiu-se
partir
seguinte;
falaram
na manhã
ainda
um
bocado, depois beberam mais
kumiss, comeram mais carneiro,
tomaram mais chá; em seguida,
caiu a noite; deram a Pahóm uma
cama de penas e os Baquires
dispersaram-se, depois de terem
combinado reunir-se ao romper da
madrugada e cavalgar antes que o
Sol nascesse.
Continua na pág 40...
Lev Nikoláievitch Tolstói, também conhecido em português como Liev, Leão, Leo ou Leon Tolstói (em russo: Лев Николаевич Толстой. Nasceu em 9 de setembro de 1828 – Morreu em 20 de novembro de 1910.
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De quanta terra um homem precisa? - I / De quanta terra um homem precisa? - II / De quanta terra um homem precisa? - III /
De quanta terra um homem precisa? - IV / De quanta terra um homem precisa? - V / De quanta terra um homem precisa? - VI /
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Em 23 de setembro de 1862, Tolstói se casou com Sophia Andreevna Behrs, filha de um médico da corte. Eles tiveram 13 filhos, oito dos quais chegaram à vida adulta. De início, o casamento com Sophia foi marcado pela intensidade sexual e insensibilidade emocional. Na véspera de seu casamento, Tolstói entregou a sua noiva seu diário pessoal, que detalhava toda sua intensa vida sexual anterior a seu noivado. Os relatos incluíam o fato de ele ter tido um filho com uma de suas empregadas. Ainda assim, o casamento foi afortunado e proporcionou a Tolstói liberdade e estrutura familiar que o ajudaram a escrever as obras Guerra e Paz e Anna Karenina com Sophia atuando como sua secretária pessoal, editora e gerente financeira. No entanto o casamento foi deteriorando à medida que o estilo de vida e as crenças de Tolstói tornavam-se mais radicais. Por conta de seu estilo de vida, ele rejeitou sua herança, incluindo os direitos autorais de suas obras.
Seus contemporâneos prestaram-lhe diversas homenagens, classificando-o como o maior romancista de sua época.
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