segunda-feira, 6 de abril de 2026

De quanta terra um homem precisa? - VI

Liev Tolstói

VI

     Enquanto os Baquires discutiam, entrou um homem com um barrete de pele de raposa; todos se levantaram em silêncio e o intérprete disse:

“É o chefe!”

     Pahóm foi logo buscar o melhor vestuário e cinco libras de chá e ofereceu tudo ao chefe; o chefe aceitou, sentou-se no lugar de honra e os Baquires começaram a contar-lhe qualquer coisa; o chefe escutou, depois fez um sinal com a cabeça para que se calassem e, dirigindo-se a Pahóm, disse-lhe em russo: 

“Está bem. Escolhe a terra que queres; há bastante por aí.” 
“A que eu quiser? — pensou Pahóm — Como é isso possível? Tenho que fazer uma escritura para que não voltem com a palavra atrás.” Depois disse alto: 
“Muito obrigado pelas suas boas palavras: os senhores têm muita terra, e eu só quero uma parte; mas que seja bem minha; podiam talvez medi-la e entregá-la. Há morrer e viver... Os senhores, que são bons, dão-me, mas os vossos filhos poderiam querer tirar-me”. 
“Tens razão” — disse o chefe — “vamos doar-te a terra”.
“Soube que esteve cá um negociante” — continuou Pahóm — “e que os senhores lhe deram umas terras, com uns papéis assinados... Era assim que eu gostava”.  

     O chefe compreendeu:

“Bem, isso é fácil; temos aí um escrivão e podemos ir à cidade para ficar tudo em ordem”.
“E o preço?” — perguntou Pahóm.
“O nosso preço é sempre o mesmo: mil rublos por dia”. 
“Por dia? Que medida é essa? Quantos hectares?” 
“Não sabemos; vendemos terra a dia; fica a pertencer-te toda a terra a que puderes dar volta, a pé, num dia; e são mil rublos por dia. Pahóm ficou surpreendido”.
“Mas num dia pode-se andar muito!...”

     O chefe riu-se: 

“Pois será toda tua! Com uma condição: se não voltares no mesmo dia ao ponto donde partiste, perdes o dinheiro”. 
“Mas como hei de eu marcar o caminho?”
“Vamos ao sítio que te agradar e ali ficamos. Tu começas a andar com uma pá; onde achares necessário fazes um sinal; a cada volta cavas um buraco e empilhas os torrões; depois nós vamos com um arado de buraco a buraco. Podes dar a volta que quiseres, mas antes do sol-posto tens que voltar; toda a terra que rodeares será tua.”

     Pahóm ficou contentíssimo e decidiu-se partir seguinte; falaram na manhã ainda um bocado, depois beberam mais kumiss, comeram mais carneiro, tomaram mais chá; em seguida, caiu a noite; deram a Pahóm uma cama de penas e os Baquires dispersaram-se, depois de terem combinado reunir-se ao romper da madrugada e cavalgar antes que o Sol nascesse. 

Continua na pág 40...
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De quanta terra um homem precisa? - IV / De quanta terra um homem precisa? - V / De quanta terra um homem precisa? - VI / 
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Lev Nikoláievitch Tolstói, também conhecido em português como Liev, Leão, Leo ou Leon Tolstói (em russo: Лев Николаевич Толстой.  Nasceu em 9 de setembro de 1828 – Morreu em 20 de novembro de 1910.
Em 23 de setembro de 1862, Tolstói se casou com Sophia Andreevna Behrs, filha de um médico da corte. Eles tiveram 13 filhos, oito dos quais chegaram à vida adulta. De início, o casamento com Sophia foi marcado pela intensidade sexual e insensibilidade emocional. Na véspera de seu casamento, Tolstói entregou a sua noiva seu diário pessoal, que detalhava toda sua intensa vida sexual anterior a seu noivado. Os relatos incluíam o fato de ele ter tido um filho com uma de suas empregadas. Ainda assim, o casamento foi afortunado e proporcionou a Tolstói liberdade e estrutura familiar que o ajudaram a escrever as obras Guerra e Paz e Anna Karenina com Sophia atuando como sua secretária pessoal, editora e gerente financeira. No entanto o casamento foi deteriorando à medida que o estilo de vida e as crenças de Tolstói tornavam-se mais radicais. Por conta de seu estilo de vida, ele rejeitou sua herança, incluindo os direitos autorais de suas obras.
Seus contemporâneos prestaram-lhe diversas homenagens, classificando-o como o maior romancista de sua época.

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