quinta-feira, 23 de abril de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Vida Social (2)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO III
A   VIDA SOCIAL


     Se a toalete tem, para muitas mulheres, importância tão considerável é porque ela lhes entrega ilusoriamente, e ao mesmo tempo, o mundo e seu próprio eu. Um romance alemão, A Moça em Seda Artificial, de I. Keun, conta a paixão de uma moça pobre por um casaco de petigris; aprecia-lhe com sensualidade o calor acariciante, a ternura forrada; sob as peles preciosas é a si própria transfigurada que ama; possui enfim a beleza do mundo que nunca abraçara e o destino radioso que nunca fora o seu.

   E eis que vi um casaco suspenso a um gancho, uma pele tão mole, tão doce, tão terna, tão cinzenta, tão tímida; tinha vontade de beijá-la, a tal ponto a amava. Ela tinha um ar de consolo e de Todos os Santos e de segurança completa, como um céu. Era um petigris verdadeiro. Silenciosamente tirei o impermeável e enverguei o petigris. Essa pele era como um diamante para minha pele que a amava e o que se ama não se devolve quando se tem. Por dentro, um forro de crepe marroquino, pura seda, com bordados a mão. O casaco envolvia-me e falava mais do que eu ao coração de Hubert.. . Fico tão elegante com essa pele. É como um homem raro, que me tornaria preciosa através de seu amor por mim. Esse casaco me quer e eu o quero: nós nos possuímos.

     Sendo a mulher um objeto, compreende-se que a maneira pela qual se enfeita e se veste modifica seu valor intrínseco. Já não é mais pura futilidade se dá tamanha importância à meia de seda, às luvas, ao chapéu: sustentar sua posição é uma obrigação imperiosa. Nos Estados Unidos, uma enorme parte do orçamento da trabalhadora é consagrada aos cuidados com a beleza e os vestidos; na França, esse fardo é menos pesado; entretanto, a mulher é tanto mais respeitada quanto melhor "representa". Quanto maior sua necessidade de achar trabalho, mais lhe é útil ter um aspecto confortável: a elegância é uma arma, um cartaz, um motivo de respeito, uma carta de recomendação.
     É uma servidão; os valores que conferem, pagam-se; pagam-se tão caro que, por vezes, um inspetor de polícia surpreende nas grandes lojas uma mulher da sociedade ou uma atriz roubando perfumes, meias de seda, roupa branca. É para se vestir que muitas mulheres se prostituem ou arranjam quem "as ajude"''; e a toaleíe que lhes determina as necessidades de dinheiro. Andar bem vestida reclama também tempo e cuidados; é uma tarefa que é, por vezes, fonte de alegrias positivas: neste terreno também há descoberta de "tesouros escondidos", pechinchas, ardis, combinações, invenção; hábil, pode a mulher tornar-se até criadora. Os dias de exposição, de liquidações principalmente, são aventuras frenéticas. Um vestido novo é por si só uma festa. A maquilagem, o penteado são o sucedâneo de uma obra de arte. Hoje, mais do que outrora, a mulher conhece a alegria de modelar o corpo pelos esportes [1], a ginástica, os banhos, as massagens, os regimes; ela decide de seu peso, de sua linha, da cor de sua pele; a estética moderna permite-lhe integrar qualidades ativas em sua beleza: tem o direito a músculos exercitados, impede a invasão da gordura; na cultura física ela se afirma como uma pessoa; há, para ela, uma espécie de libertação da carne contingente; mas essa libertação retorna facilmente à dependência. A "estrela" de Hollywood triunfa sobre a natureza, mas reencontra-se como objeto passivo nas mãos do produtor.

[1] Parece entretanto, segundo inquéritos recentes, que na França os ginásios femininos se acham hoje quase desertos; foi principalmente em 1920-1940 que as francesas se entregaram à cultura física. Atualmente as dificuldades caseiras pesam demais sobre elas.

     Ao lado dessas vitórias em que a mulher pode com razão comprazer-se, o coquetismo implica — como os cuidados caseiros — uma luta contra o tempo; pois seu corpo é também um objeto que a duração rói. Colette Audry descreve esse combate simétrico desse corpo que, em sua casa, a mulher entrega à poeira (On joue perdant).

   Já não era mais a carne compacta da mocidade; ao longo dos braços e das coxas o desenho dos músculos acentuava-se sob a camada de gordura e de pele um pouco distendida. Inquieta, ela modificou novamente o emprego do tempo: o dia começaria com uma hora de ginástica e à noite, antes de se deitar, haveria um quarto de hora de massagem. Pôs-se a consultar manuais de medicina, jornais de modas, a controlar a cintura. Preparou sucos de frutas, purgou-se de quando em quando, lavou a louça com luvas de borracha. Suas duas preocupações fizeram-se uma só: rejuvenescer tão bem o corpo, polir tão bem a casa que chegaria, um dia, a um período de calma absoluta, a uma espécie de ponto morto... O mundo estaria parado, suspenso fora do envelhecimento e do desgaste... Tomava agora na piscina verdadeiras lições para melhorar o estilo e as revistas de beleza mantinham-na numa expectativa inquieta com receitas indefinidamente renovadas. Ginger Rogers confia-nos: "Dou, todas as manhãs, cem escovadelas em mim mesma, leva exatamente dois minutos e meio e tenho cabelos de seda". .. Como adelgaçar os tornozelos? Erga-se todos os dias trinta vezes nas pontas dos pés sem apoiar os calcanhares, o exercício exige apenas um minuto; que é um minuto por dia? De outra feita, era o banho de óleo para as unhas, o creme de limão para as mãos, morangos esmagados para as faces.

     Também aqui a rotina transforma em corveias os cuidados com a beleza, o trato das roupas e vestidos. O horror à degradação, que todo vir a ser vivo acarreta, suscita em certas mulheres frias ou frustradas o horror à própria vida: elas procuram conservar-se como outras conservam os móveis e as geleias; essa obstinação negativa torna-as inimigas de sua própria existência e hostis a outrem: as boas refeições deformam a linha, o vinho estraga a tez, sorrir demais enruga o rosto, o sol mancha a pele, o repouso engorda, o trabalho desgasta, o amor dá olheiras, os beijos inflamam as faces, as carícias deformam os seios, os abraços fazem a pele murchar, maternidade enfeia o rosto e o corpo; sabe-se quantas mães afastam com raiva o filho maravilhado com o vestido de baile. "Não me toques, estás com as mãos suadas, vais sujar-me"; a coquete opõe as mesmas advertências às atenções do marido ou do amante. Assim como se cobrem os móveis com capas de pano, ela gostaria de se subtrair aos homens, ao mundo, ao tempo. Mas todas essas precauções não impedem o aparecimento de cabelos brancos, de pés-de-galinha. Desde a mocidade, a mulher sabe que esse destino é inelutável. E apesar de toda a sua prudência, é vítima de acidentes: uma gota de vinho cai no vestido, um cigarro queima-o; então desaparece a criatura de luxo e festa que se pavoneava sorridente no salão: seu rosto toma o ar sério e duro da dona de casa; descobre-se repentinamente que sua toalete não era uma girândola, um fogo de artifício, um esplendor gratuito e perecível destinado a iluminar generosamente um instante: é uma riqueza, um capital, um investimento; custou sacrifícios, sua perda é um desastre irreparável. Manchas, rasgões, vestidos falhados, permanentes mal feitas são catástrofes ainda mais graves do que um assado queimado ou um vaso quebrado: porque a coquete não se alienou somente nas coisas, ela se quis coisa, e é sem intermediário que se sente em perigo no mundo. As relações que mantém com a costureira e a modista, suas impaciências, suas exigências revelam seu espírito de seriedade e de insegurança. O vestido bem feito cria nela a personagem de seu sonho; mas numa toalete sem viço, falhada, ela sente-se degradada.

   Do vestido dependia meu humor, minha atitude, a expressão de meu rosto, tudo. . . escreve Maria Bashkirtseff. E ainda: Ou cumpre passear nua ou vestir-se de acordo com o físico, o gosto e o caráter. Quando não me acho nessas condições, sinto-me desajeitada, vulgar e, por conseguinte, humilhada. Que acontece ao humor e ao espírito? Pensam nos trapos e a gente fica tola, aborrecida, não sabe onde se enfiar.

     Muitas mulheres preferem renunciar a uma festa a se apresentarem mal vestidas, ainda que não devam ser notadas.
     Entretanto, embora algumas afirmem: "Eu me visto só para mim mesma, vimos que o olhar de outrem se acha implicado no narcisismo. É quase que somente nos hospícios que as coquetes nutrem obstinadamente uma fé total em olhares ausentes; normalmente, elas reclamam testemunhas.

   Gostaria de agradar, que dissessem que sou bela e que Liova o visse e ouvisse... Para que serviria ser bela? Meu encantador pequeno Petia gosta de sua velha "niannia" como se amasse uma beleza e Liovotchka se teria acostumado ao rosto mais horrível... Tenho vontade de ondular meus cabelos. Ninguém o saberá_ mas nem por isso será menos delicioso. Que necessidade tenho de que me vejam? As fitas e os laços me agradam, gostaria de ter um novo cinto de couro e agora que escrevi isto tenho vontade de chorar, escreve Sofia Tolstoi, depois de dez anos de casada.

     O marido desobriga-se mal do que a mulher espera dele. Suas exigências são dúplices. Se a mulher é demasiado atraente, ele tem ciúme; entretanto, todo marido é mais ou menos o Rei Candaule; quer orgulhar-se da mulher; quer que seja elegante, bonita, "bem" pelo menos; sem o quê, dir-lhe-á agastado as palavras do Pai Ubu: "Estás bem feia, hoje! Será porque temos visitas?" No casamento, já o vimos, os valores eróticos e sociais conciliam-se mal. Esse antagonismo reflete-se aqui. A mulher que acentua seu encanto sexual conduz-se mal aos olhos do marido; ele censura ousadias que o seduziram numa estranha e essa censura mata nele todo desejo; se a mulher se veste com decência, ele a aprova, mas com frieza: não a acha bastante atraente e como que lhe censura de modo vago. Por causa disso, olha-a raramente por sua própria conta, é através de olhos alheios que a inspeciona. "Que dirão dela?" Prevê mal, porque atribui a outrem sua perspectiva de marido. Nada mais irritante para uma mulher do que o ver apreciar numa outra as atitudes que critica nela. Espontaneamente, de resto, está próximo demais dela para vê-la; ela tem para ele uma fisionomia imutável; ele não nota nem as novas toaletes nem as mudanças de penteado. Mesmo um marido amoroso ou um amante apaixonado são indiferentes à toalete da mulher. Se a amam ardentemente em sua nudez, os mais belos adornos não fazem senão mascará-la; eles a amarão malvestida, cansada tanto quanto brilhante. Se não mais a amam, os mais lisonjeiros vestidos serão sem promessas. A toalete pode ser um instrumento de conquista, mas não uma arma defensiva; sua arte consiste em criar miragens, oferece ao olhar um objeto imaginário: no amplexo carnal, na convivência quotidiana, toda miragem se dissipa; os sentimentos conjugais, como o amor físico, situam-se no terreno da realidade. Não é para o homem amado que a mulher se veste. Dorothy Parker, em uma de suas novelas, The lovely leave, descreve uma jovem mulher que, esperando com impaciência o marido que chega de licença, resolve fazer-se bela para recebê-lo: 

   Comprou um vestido novo; preto; êle gostava de vestidos pretos; simples, ele gostava de vestidos simples; e tão caro que não queria pensar no preço. . . 
— ... Gostas de meu vestido? 
— Sim! — disse ele. — Sempre gostei de você com esse vestido. 
   Foi como se ela se tivesse transformado num pedaço de pau. 
— Este vestido — respondeu ela, articulando com uma nitidez insultante — é novo em folha. Nunca o usei. Caso te interesse, comprei-o de propósito para esta circunstância. 
— Desculpa, querida. Naturalmente, vejo agora que não se assemelha absolutamente ao outro; é magnífico; gosto de você sempre de preto. 
— Em momentos como este — disse ela — quase desejo ter outro motivo para me vestir de preto. 

continua página 305...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Vida Social (2)   
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

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