volume IV
Sodoma e Gomorra
Capítulo Terceiro
Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.
Quanto ao meu ciúme, forçava-me a deixar Albertine o menos possível, embora soubesse
que ela não o haveria de curar totalmente senão separando-me dela para sempre. Podia até
senti-lo junto dela, mas então cuidava para que não se renovassem as circunstâncias que o
tivessem despertado em mim. Foi assim que, num dia de bom tempo, saímos para almoçar em
Rivebelle. As grandes portas envidraçadas do refeitório, daquele hall em forma de corredor que
servia para os chás, estavam abertas de par em par para a relva dourada pelo sol e das quais o
vasto restaurante luminoso parecia fazer parte. O garçom de rosto róseo, de cabelos negros
revoltos como chamas, movia-se por toda aquela vasta extensão menos depressa que
antigamente, pois não era mais simples garçom, mas um chefe de mesa; não obstante, devido a
sua atividade natural, às vezes de longe, no refeitório, às vezes mais perto, porém do lado de fora,
servindo à fregueses que tinham preferido almoçar no jardim, a gente o avistava ora aqui, ora ali,
como estátuas sucessivas de um jovem deus corredor, umas no interior, aliás bem iluminado, de
uma sala que se prolongava em grama verde, outras sob as folhagens, na claridade da vida ao ar
livre. Por um instante, esteve ao nosso lado. Albertine respondeu distraidamente ao que eu lhe
dizia. Ela o mirava com os olhos crescidos. Durante alguns minutos, senti que é possível estar
junto da pessoa amada e todavia não tê-la consigo. Pareciam estar num tête-à-tête misterioso,
tornado mudo pela minha presença, e talvez continuação de encontros antigos que eu não
conhecia, ou apenas de um olhar que ele lhe lançara e do qual eu era o terceiro importuno e de
quem se escondem. Mesmo quando, chamado com violência por seu patrão, ele se afastou,
Albertine, embora continuasse a almoçar, já não parecia considerar o restaurante e os jardins
senão como pista iluminada, onde aparecia aqui e ali, em cenários variados, o deus corredor de
cabelos negros. Num momento, cheguei a perguntar-me se, para segui-lo, ela não iria me deixar
sozinho na mesa. Porém nos dias seguintes comecei a esquecer para sempre essa impressão
penosa, pois havia decidido jamais voltar a Rivebelle e fizera com que Albertine, que me
assegurou ter ido ali pela primeira vez, me prometesse que não voltaria nunca mais. E neguei que
o garçom de pés ágeis só tivesse olhos para ela, para que Albertine não julgasse que minha
companhia a houvesse privado de um prazer. Aconteceu-me voltar por vezes a Rivebelle, porém
só, e beber demais, como já o fizera. Esvaziando um último copo, eu contemplava uma rosácea
pintada na parede branca e reportava a ela o prazer que experimentava. Somente ela, no mundo,
existia para mim; eu a perseguia, a tocava e a perdia sucessivamente com meu olhar fugidio e era
indiferente ao futuro, contentando-me com a rosácea como uma borboleta que gira ao redor de
uma borboleta pousada, com a qual vai acabar a vida num ato de suprema volúpia. Ora, eu
achava perigoso deixar que se instalasse em mim, mesmo sob uma forma leve, um mal que se
assemelha a esses estados patológicos habituais a que não se costumam dar atenção, mas a
que, se sobrevém o menor acidente, imprevisível e inevitável, bastam para lhe conferir logo uma
extrema gravidade. O momento talvez fosse particularmente bem escolhido para renunciar a uma
mulher, a quem nenhum sofrimento muito recente e muito vivo me obrigava a pedir esse bálsamo
contra um mal que possuem aquelas que o provocaram. Eu me sentia tranqüilizado por esses
mesmos passeios que, embora no momento só os considerasse como uma espera de um amanhã
que, apesar do desejo que me inspirava, não deveria ser diferente da véspera, tinham o encanto
de serem arrancados aos lugares onde até então se encontrava Albertine, e onde eu não estava
com ela, na casa de sua tia, na casa das amigas. Encanto não de uma alegria positiva, mas
apenas do apaziguamento de uma inquietação, e contudo bem intenso. Pois a alguns dias de
distância, quando voltava a pensar na granja diante da qual tínhamos bebido cidra, ou
simplesmente nos poucos passos que déramos defronte de Saint-Mars-le-Vêtu. Lembrando-me
que Albertine caminhava a meu lado com sua touca, o sentimento de sua presença acrescentava
de súbito uma certa virtude à imagem indiferente da igreja nova, que, no momento em que a
fachada ensolarada vinha desse modo pousar por si mesma em minha lembrança, era como uma
grande compressa calmante que houvesse aplicado ao meu coração. Eu deixava Albertine em
Parville, mas para ir encontrá-la de tarde e estender-me a seu lado na praia e no escuro. Claro
que não a via diariamente, e no entanto podia dizer comigo: "Se ela contasse o emprego de seu
tempo, de sua vida, era ainda eu quem ocuparia o maior lugar"; e passávamos juntos longas
horas seguidas que davam aos meus dias uma tão doca embriaguez que até quando, em Parville,
ela saltava do auto que eu ia lhe enviar de novo uma hora depois, já não me sentia sozinho no
carro, como se, antes de desembarcar, ela tivesse deixado flores ali. Poderia ter deixado de vê-la
todos os dias; e seria feliz, pois sentia que o efeito calmante dessa felicidade podia prolongar-se
por vários dias. Mas então ouvia Albertine, ao deixar-me, dizer à sua tia ou a uma amiga:
- Então, amanhã às oito e meia. Não podemos chegar tarde, eles estarão prontos às oito e
quinze. -
- Como gastas dinheiro! (Françoise, em seu linguajar simples e expressivo, dizia com mais
força: "O dinheiro voa.") - Procura - continuou mamãe - não ficar como Charles de Sévigné, cuja
mãe dizia: "Sua mão é um crisol onde o dinheiro se derrete." E depois, creio que de fato saíste
bastante com Albertine. Asseguro-te que é exagerado, que até mesmo para ela pode parecer
ridículo. Fico encantada que isso te distraia, não te peço que não a vejas mais, mas enfim que não
seja impossível um ficar sem o outro. -
Minha vida com Albertine, vida carente de grandes prazeres pelo menos de grandes
prazeres percebidos; essa vida que eu tencionava mudar de um dia para o outro, escolhendo uma
hora de calma, tornou-se-me de repente necessária por algum tempo, quando se achou
ameaçada pelas palavras de mamãe. Disse à minha mãe que suas palavras acabavam de atrasar
talvez de dois meses a decisão que pediam e que, sem elas, seria tomada antes do fim da
semana. Mamãe pôs-se a rir (para não me deixar triste) do efeito instantâneo de seus conselhos,
e prometeu-me não voltar a falar no assunto, para não impedir que renascesse a minha boa
intenção. Mas, desde a morte de minha avó, cada vez que mamãe se deixava rir, o riso
principiado estacava de súbito e terminava com uma expressão quase soluçante de sofrimento, ou
devido ao remorso de, por um instante, ter podido esquecer, ou pela recrudescência com que
esse esquecimento tão breve reavivara ainda mais a sua cruel preocupação. Mas, à que lhe
causava a lembrança da minha avó, instalada em minha mãe como uma ideia fixa, senti que desta
vez se acrescentava uma outra, relativa a mim, por causa de seus temores pelas consequências
de minha intimidade com Albertine; intimidade que ela, no entanto, não se animava a estorvar
devido ao que lhe acabara de dizer. Mas não pareceu persuadida de que eu não estava
enganado. Lembrava-se durante quantos anos minha avó e ela não me haviam mais falado de
meu trabalho e de uma norma de vida mais higiênica e que, dizia eu, só a agitação em que me
punham as suas exortações bastava para me impedir de começá-la, e que, apesar de seu silêncio
obediente, eu não havia seguido.
Depois do jantar, o auto trazia de volta Albertine; ainda havia um pouco de claridade. O ar
estava menos quente, mas, após um dia abrasador, nós dois sonhávamos com frescores
ignorados. Então, a nossos olhos empobrecidos, a lua muito estreita apareceu, a princípio (como
na noite em que eu fora à casa da princesa de Guermantes e Albertine me telefonara) como a
leve e delgada casca, depois como o quarto fresco de uma fruta que uma faca invisível
começasse a descascar no céu. Também às vezes, era eu quem ia buscar a minha amiga, então
um pouco mais tarde; ela devia esperar-me diante das arcadas do mercado, em Maineville. Nos
primeiros instantes, eu não a distinguia; já me inquietava que não devesse aparecer, que tivesse
compreendido mal. Então, via-a, com sua blusa branca de pintas azuis, saltar para o meu lado, no
carro, num leve pulo que mais parecia o de um animalzinho que de uma moça. E era ainda como
uma cadelinha que ela principiava logo a me acariciar sem fim. Quando a noite descia
completamente e, como dizia o gerente do hotel, o céu ficava todo semeado de estrelas, se não
íamos passear na floresta com uma garrafa de champanha, sem nos preocuparmos com os
passeantes que deambulavam ainda sobre o molhe fracamente iluminado, mas que nada
poderiam vislumbrar a dois passos sobre a areia escura, ficávamos estendidos ao pé das dunas;
aquele mesmo corpo, em cuja flexibilidade vivia toda a graça feminina, marinha e esportiva das
moças que eu vira passar pela primeira vez diante do horizonte das ondas, mantinha-o apertado
contra o meu, sob a mesma coberta, exatamente à beira do mar imóvel, visível por um trêmulo
reflexo; e o escutávamos sem cansar e com o mesmo prazer, seja quando retinha sua respiração,
suspensa por tempo bastante para que se julgasse estancado o refluxo, seja quando enfim
exalava a nossos pés o murmúrio esperado e atrasado. Eu acabava por levar Albertine à Parville.
Chegado diante de sua casa, era necessário interromper nossos beijos de medo que nos vissem;
não tendo vontade de ir deitar-se, ela voltava comigo até Balbec, de onde a levava uma última vez
até Parville; os motoristas desses primeiros tempos do automóvel eram pessoas que iam deitar-se
a qualquer hora. E, de fato, eu só voltava para Balbec com a primeira umidade da manhã, dessa
vez sozinho, mas envolto ainda pela presença de minha amiga, repleto de uma quantidade de
beijos longa para se esgotar. Na minha mesa encontrava um telegrama ou um cartão-postal. Era
de Albertine ainda! Ela os escrevera em Quetteholme, enquanto eu saíra sozinho de auto e para
me dizer o que pensava de mim. Eu me deitava na cama relendo-os. Então percebia, acima das
cortinas, o primeiro clarão do dia e dizia comigo que devíamos nos amar, apesar de tudo, pois
tínhamos passado a noite aos beijos. Quando via Albertine no molhe, na manhã seguinte, sentia
tanto medo de que ela me dissesse que não estava livre aquele dia, não podendo aquiescer aos
meus pedidos para passearmos juntos, que atrasava esse pedido o mais que podia. Sentia-me
tanto mais inquieto porque ela estava com um aspecto frio e preocupado; passavam pessoas que
a conheciam; sem dúvida, havia ela formado, para a tarde, projetos dos quais eu estava excluído.
Eu a olhava, olhava aquele corpo encantador, aquele rosto rosado de Albertine, erguendo à minha
face o enigma de suas intenções, a decisão desconhecida que deveria fazer a felicidade ou a
desgraça da minha tarde. Era todo um estado de espírito, todo um futuro de existência que
assumira diante de mim a forma alegórica e fatal de uma moça. E, quando por fim me decidia,
quando com o ar mais indiferente possível perguntava:
- Vamos passear juntos daqui a pouco e de noite? e ela me respondia:
- Com muito gosto -, então toda a brusca reviravolta, na figura rósea, da minha longa
inquietude por uma quietude deliciosa, tornava-me ainda mais preciosas essas formas a que eu
devia perpetuamente o bem-estar, o sossego que se experimenta depois que desaba um
temporal. Eu repetia comigo mesmo: "Como ela é gentil, como é adorável!" numa exaltação
menos fecunda do que a devida à embriaguez, apenas mais profunda que a da amizade, mas
muito superior à da vida mundana. Só não contratávamos o automóvel quando havia jantar na
casa dos Verdurin e nos dias em que, não estando Albertine livre para sair comigo, eu aproveitava
para avisar as pessoas que queriam me ver de que permaneceria em Balbec. Nesses dias eu
dava licença a Saint-Loup para que fosse me visitar; mas somente nesses dias. Pois, numa vez
em que ele chegara de surpresa, eu teria preferido privar-me de ver Albertine do que arriscar-me a
que ele a encontrasse e que ficasse comprometido o estado de calma feliz em que me achava
desde algum tempo e que se renovasse o meu ciúme. E só havia sossegado depois que Saint
Loup se fora. Assim, ele se limitava, com pesar mas escrupulosamente, a nunca vir a Balbec sem
que o chamasse. Outrora, pensando com inveja nas horas que a Sra. de Guermantes passava
com ele, quanto valor dava eu à sua presença! As criaturas não cessam de mudar de lugar em
relação a nós. Na marcha insensível porém eterna do mundo, consideramo-las como imóveis num
instante de visão, curto demais para que seja percebido o momento que as carrega. Porém, basta
escolher na nossa memória duas imagens suas tomadas em instantes diversos, todavia bastante
próximos, para que não tenham mudado, ao menos sensivelmente, e a diferença das duas
imagens mede o deslocamento que operaram em relação a nós. Ele me inquietou horrivelmente
ao falar dos Verdurin; receei que me pedisse para ser recebido em casa deles, o que seria
suficiente, por causa do ciúme que eu não deixava de sentir, para estragar todo o prazer que ali
encontrava com Albertine. Felizmente, porém, Robert me confessou, pelo contrário, que desejava
acima de tudo não conhecê-los.
- Não - disse ele -, acho exasperantes esses meios clericais. -
A princípio não compreendi esse adjetivo "clerical" aplicado aos Verdurin, mas a
continuação da frase de Saint-Loup esclareceu-me o seu pensamento, suas concessões às
modas da linguagem, que a gente muita vez se espanta de ver empregadas pelos homens
inteligentes.
- São meios - disse ele onde se forma uma tribo, onde se fazem congregações e
capelinhas. Não me dirás que não é uma pequena seita; tudo mel para quem pertence ao grupo, e
nenhum desprezo bastante para as pessoas de fora. A questão não é, como para Hamlet, ser ou
não ser, mas ser deles ou não ser deles. Tu és deles, o meu tio Charlus é deles. Que queres?
Jamais gostei disso, a culpa não é minha. Fica entendido que a regra que eu impusera a Saint
Loup, de só vir me visitar a meu chamado, eu a estabeleci estritamente para qualquer pessoa com
quem aos poucos me relacionava na Raspeliere, em Féterne, em Montsurvent e arredores; e,
quando avistava do hotel a fumaça do trem das três horas que, na anfractuosidade das falésias de
Parville, deixava seu penacho estável que permanecia por muito tempo enganchado no flanco das
verdes vertentes, não tinha nenhuma hesitação quanto ao visitante que vinha tomar chá comigo e
que, à maneira de um deus, ainda estava oculto sob aquela nuvenzinha. Sou obrigado a
confessar que esse visitante, previamente autorizado a vir por mim, não foi quase nunca Saniette,
e muitas vezes censurei-me por isto. Mas a consciência que tinha Saniette de aborrecer
(naturalmente ainda mais vindo fazer uma visita do que contando uma história) fazia com que,
embora fosse mais instruído, mais inteligente e melhor pessoa que os outros, parecia impossível
experimentar junto dele não só algum prazer como outra coisa que não um spleen quase
intolerável e que estragava toda a nossa tarde. Provavelmente, se Saniette confessasse
francamente esse tédio que receava causar, a gente não temeria tanto as suas visitas. O tédio é
um dos males menos graves que temos de suportar; o seu talvez só existisse na imaginação dos
outros, ou lhe fora inoculado por eles graças a uma espécie de sugestão, que encontrava pasto
em sua agradável modéstia. Mas ele tanto se empenhava em não dar a perceber que não era
procurado, que não tinha coragem de oferecer-se. Certamente estava correto em não proceder
como as pessoas que ficam tão contentes em desfazer-se em cumprimentos nos lugares públicos
que, não nos tendo visto desde muito e lobrigando-nos em um camarote com pessoas brilhantes a
quem desconhecem, lançam-nos uma saudação furtiva e ruidosa, desculpando-se com a emoção
e o prazer que sentiram ao ver-nos, ao constar que reatamos os prazeres sociais, que temos bom
aspecto, etc. Mas Saniette, ao contrário, carecia muito de audácia. Poderia, na casa da Sra.
Verdurin ou no trenzinho, dizer-me que sentiria muito prazer em ir visitar-me em Balbec, caso não
me fosse incômodo. Tal proposta não teria me assustado. Pelo contrário, ela nada oferecia, mas
com uma fisionomia torturada e um olhar tão indestrutível como um esmalte cozido, em cuja
composição, porém, entrava, com um desejo palpitante de nos ver a menos que não achasse
alguém mais divertido; a vontade de não deixar perceber esse desejo, dizia-me com ar desligado:
- O senhor não sabe o que vai fazer nestes dias? Porque sem dúvida irei para perto de
Balbec. Mas não tem importância, eu só estava perguntando por acaso. -
Aquele ar não me enganava, e os signos inversos com ajuda dos quais exprimimos nossos
sentimentos pelo seu oposto são de uma leitura tão clara, que é de perguntar-se como ainda
existem pessoas que dizem, por exemplo: "Tenho tantos convites que não sei o que fazer", para
dissimular que não são convidados. Porém, mais ainda, aquele ar desligado, possivelmente
devido ao que entrava em sua turva composição, nos causava o que jamais teria podido fazer o
temor ao tédio ou a confissão franca do desejo de nos ver, isto é, essa espécie de mal-estar, de
repulsa, que, na ordem das relações de simples polidez social, é o equivalente ao que, no amor, é
o oferecimento disfarçado, que faz a uma dama o amoroso a quem ela não ama, de vê-la no dia
seguinte, enquanto, ao mesmo tempo, protesta que não faz questão disso, ou nem sequer esse
oferecimento, mas uma atitude de falsa frieza. E logo emanava da pessoa de Saniette um não sei
quê, fazendo com que a gente lhe respondesse com o ar mais afetuoso do mundo:
- Não, infelizmente, esta semana, vou explicar-lhe... -
E eu deixava que viessem, em vez de Saniette, pessoas que estavam longe de ter o seu
valor, mas que não possuíam o seu olhar carregado de melancolia e sua boca encrespada da
amargura inteira de todas as visitas que ele tinha vontade, calando-a, de fazer a uns e outros.
Infelizmente, era bem raro que Saniette não encontrasse no "tortinho" o convidado que vinha me
visitar, se é que este já não me dissera na casa dos Verdurin:
- Não se esqueça de que vou visitá-lo na quinta-feira -, dia em que eu precisamente havia
dito a Saniette que não estava livre. De modo que ele acabava por imaginar a vida como cheia de
divertimentos organizados à sua revelia, se não mesmo contra ele. Por outro lado, como a gente
nunca é completamente uno, aquele discreto exagerado era doentiamente indiscreto. A única vez
em que por acaso veio visitar-me, contra a minha vontade, uma carta, não sei de quem, estava
atirada sobre a mesa. Ao cabo de um momento, percebi que ele só distraidamente escutava o que
lhe dizia. A carta, cuja procedência ele ignorava por completo, o fascinava, e eu julgava que a
qualquer instante as suas pupilas esmaltadas iam saltar das órbitas para se unirem à carta sem
importância, mas que sua curiosidade imantava. Dir-se-ia um pássaro que vai se lançar fatalmente
ao encontro de uma serpente. Por fim, não pôde mais conter-se e primeiro mudou-a de lugar,
como para pôr ordem no meu quarto. Não lhe bastando isso, pegou-a, virou-a, revirou-a, como se
o fizesse maquinalmente. Uma outra forma de sua indiscrição era que, uma vez grudado na gente,
não conseguia ir embora. Como me achasse adoentado naquele dia, pedi-lhe que tomasse o trem
seguinte, que partia dentro de meia hora. Ela não duvidou de que eu estivesse mal, porém
respondeu:
- Ficarei uma hora e um quarto, depois partirei. -
Depois, sofri de não lhe haver dito, de cada vez que o podia fazer, que viesse. Quem
sabe? Talvez eu tivesse conjurado sua má sorte, e o houvessem convidado outros por quem
imediatamente me largaria, de forma que meus convites teriam tido a dupla vantagem de lhe
proporcionar alegria e de me desembaraçar dele. Nos dias seguintes aos quais eu havia recebido,
naturalmente não esperava visitas, e o automóvel vinha nos buscar a mim e a Albertine. E,
quando regressávamos, Aimé, no primeiro degrau da escada, não podia deixar de espiar, com
olhos apaixonados, curiosos e glutões, que tipo de gorjeta eu dava ao chofer. Por mais que eu
encerrasse a moeda ou a nota na mão fechada, os olhares de Aimé afastavam meus dedos.
Desviava a cabeça após um segundo, pois era discreto, bem-educado, e até mesmo se
contentava com benefícios relativamente pequenos. Mas o dinheiro recebido por outrem excitava
nele uma curiosidade irreprimível, dando-lhe água na boca. Nesses curtos instantes, tinha o ar
atento e febril de uma criança que lê um romance de Júlio Verne, ou de uma pessoa que janta tão
longe de nós, num restaurante, e que, vendo que nos trincham um faisão, que ele próprio não
quer ou não pode saborear, abandona por um instante seus pensamentos sérios para pregar na
ave um olhar que o amor e a inveja tornam risonho. Assim ocorriam diariamente aqueles passeios
de automóvel. Mas uma vez, quando eu subia pelo elevador, o ascensorista me disse:
- Aquele cavalheiro esteve aqui, e deixou um recado para o senhor. -
O ascensorista me disse tais palavras com voz absolutamente mudada, tossindo cuspindo
me na cara.
- Que resfriado que peguei! - acrescentou, como se eu não fosse capaz de percebê-lo por
mim mesmo. -
O doutor disse que é coqueluche e recomeçou a tossir e a cuspir em mim.
O doutor disse que é coqueluche e recomeçou a tossir e a cuspir em mim.
- Não se canse falando - disse-lhe eu com ar de bondade fingida.
Temia pegar a coqueluche, a que, com minha tendência às sufocações, me seria bastante
penosa. Mas ele empenhou todo o seu orgulho, como um virtuoso que não quer se confessar
doente, em falar e cuspir o tempo todo.
- Não, isso não quer dizer nada - disse ele (para você, talvez, pensei, mas não para mim). -
Aliás, vou em breve de volta a Paris (tanto melhor, desde que não me passe a coqueluche antes). - Parece - continuou - que Paris é bem magnífica. Deve ser mais magnífica ainda do que aqui e
em Monte-Carlo, embora alguns companheiros e mesmo fregueses, e até mordomos que iam a
Monte-Carlo devido à estação, tenham me dito muitas vezes que Paris era menos magnífica que
Monte-Carlo. Talvez estivessem enganados e, no entanto, para ser mordomia não se pode ser
imbecil; para guardar todos os pedidos, reservar todas as mesas, é preciso ter uma cabeça!
Disseram-me que era ainda mais terrível do que escrever peças e livros. -
Tínhamos quase chegado ao meu andar, quando o ascensorista me fez descer até
embaixo, porque achou que o botão funcionava mal, e consertou-o num piscar de olhos. Disse-lhe
que preferia subir a pé, o que queria dizer, e ocultar, que preferia não pegar coqueluche. Mas,
com um acesso de tosse cordial e contagioso, ele me impeliu para o elevador.
- Agora, não há mais perigo, consertei o botão. -
Vendo que ele não parava de falar, preferindo conhecer o nome do visitante e o recado
que deixara, em vez do paralelo entre as belezas de Balbec, Paris e Monte-Carlo, disse-lhe (como
a um tenor que nos importuna com Benjamin Godard: cante de preferência Debussy):
- Mas quem foi que veio me visitar?
- É o cavalheiro com quem o senhor saiu ontem. Vou buscar o seu cartão, que está com o
porteiro. -
continua na página 191...
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Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - Quanto ao meu ciúme)
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)Volume 6
Volume 7
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