volume IV
Sodoma e Gomorra
Capítulo Terceiro
Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.
A fisionomia da região nos parecia toda mudada, de tanto que a noção do espaço está
longe de ser a que desempenha o maior papel na imagem topográfica que formamos de cada
uma delas. Dissemos que a do tempo as afasta ainda mais. E ela também não será a única.
Certos lugares que vemos sempre isolados nos parecem não ter medida comum com o resto,
quase fora do mundo, como essas pessoas a quem conhecemos em períodos à parte da nossa
vida, no regimento, na nossa infância, e que não relacionamos com coisa alguma. No primeiro ano
da minha temporada em Balbec, existia uma elevação a que a Sra. de Villeparisis gostava de nos
levar, porque dali só se via a água e os bosques, e que se chamava Beaumont. Como o caminho
pelo qual ela mandava seguir para lá chegar, e que achava ser o mais bonito devido às velhas
árvores, era o tempo todo em aclive, os cavalos do seu carro iam a passo e levavam muito tempo.
Uma vez chegados ao alto, descíamos, passeávamos um pouco, voltávamos a subir para o carro,
e regressávamos pelo mesmo caminho sem ter encontrado nenhuma aldeia, nenhum castelo. Eu
sabia que Beaumont era algo de muito curioso, muito longínquo, muito altaneiro, e não tinha a
mínima idéia da direção em que se encontrava, pois jamais tomara o caminho de Beaumont para
ir a outro lugar; aliás, levava-se muito tempo de carro para chegar até lá. Evidentemente fazia
parte do mesmo departamento (ou da mesma província) de Balbec, mas, para mim, estava
situado num plano diverso, gozava de um privilégio especial de extraterritorialidade. Mas o
automóvel, que não respeita nenhum mistério, depois de ter passado por Incarville, cujas casas eu
ainda levava nos olhos, como descêssemos a costa pelo atalho que vai dar em Parville (Paterni
villa), avistando o mar de um terrapleno onde estávamos, perguntei como se chamava aquele
lugar e, antes mesmo que o chofer me respondesse, reconheci Beaumont, a cujo lado assim
passava sem o saber de cada vez que tomava o trenzinho, pois ficava a dois minutos de Parville.
Como um oficial de meu regimento, que teria me parecido uma criatura especial, por demais
bonachão e simples para pertencer a uma grande família, já muito distante e misterioso para ser
simplesmente de uma grande família, e do qual viesse a saber que era cunhado e primo de tais ou
quais pessoas com quem eu jantava fora, assim Beaumont, de súbito ligado a locais de que o
supunha tão diferente, perdeu seu mistério e assumiu seu posto na região, fazendo-me pensar
com terror que Madame Bovary e a Sanseverina talvez me tivessem parecido criaturas
semelhantes às outras se eu as tivesse encontrado em outra parte que não a atmosfera fechada
de um romance. Pode parecer que meu amor pelas feéricas viagens de trem deveria impedir-me
de compartilhar do encantamento de Albertine diante do automóvel que leva, mesmo um doente,
aonde ele quer, e impede como eu o fizera até aqui que consideremos a localização como marca
individual, a essência sem sucedâneo das belezas inamovíveis. E sem dúvida, o automóvel não
fazia dessa localização, como outrora o trem de ferro, quando eu viera de Paris a Balbec, um
objetivo subtraído às contingências da vida comum, quase ideais à partida, e que, continuando a
sê-lo à chegada - à chegada nessa grande residência onde não mora ninguém e que leva apenas
o nome da cidade: a estação -, tem o ar de prometer-lhe enfim o acesso como se fosse a sua
materialização. Não, o automóvel não nos conduzia assim feericamente a uma cidade que víamos
primeiro no conjunto que resume o seu nome, e com as ilusões do espectador na plateia. Ele nos
fazia entrar nos bastidores da rua, parava para pedir uma informação a um habitante. Mas, como
para compensar uma progressão tão familiar, temos os próprios titubeios do chofer, incerto quanto
ao caminho, e que retrocede, e os ziguezagues da perspectiva, que fazem um castelo jogar os
quatro-cantos com uma colina, uma igreja e o mar enquanto nos aproximamos dele, embora
debalde se encolha sob sua folhagem secular; e esses círculos, cada vez mais próximos, que o
automóvel descrevia em torno de uma cidade fascinada, que fugia em todos os sentidos para lhe
escapar e sobre a qual, finalmente, avança direto, a pique, no fundo do vale, onde ela jaz por
terra; de modo que essa localização, único ponto que o automóvel parece ter destituído do
mistério dos trens expressos, dá pelo contrário a impressão de que o descobrimos, de que o
determinamos nós mesmos como que a compasso, de nos ajudar a sentir, com mão mais
amorosamente exploradora, com mais fina precisão, a verdadeira geometria, a bela "medida da
terra". O que infelizmente eu ignorava naquela ocasião, e só vim a saber dois anos mais tarde, é
que um dos fregueses do chofer era o Sr. de Charlus, e que Morel, encarregado de pagá-lo e
guardando para si uma parte do dinheiro (fazendo o chofer triplicar e quintuplicar o número dos
quilômetros), estava muito ligado a este (enquanto fingia não conhecê-lo diante dos outros) e
utilizava o seu carro para corridas distantes. Se então eu soubesse disso, e que provinha daí a
confiança que os Verdurin, sem o saberem, logo tiveram nesse chofer, tivessem sido evitados
muitos dos aborrecimentos de minha vida em Paris, no ano seguinte, bem como diversas
infelicidades relativas a Albertine; mas eu não o suspeitava em absoluto. Em si mesmos, os
passeios do Sr. de Charlus de auto com Morel não me interessavam diretamente. Aliás, o mais
das vezes limitavam-se a um almoço ou a um jantar num restaurante da costa, onde o Sr. de
Charlus passava por um velho criado arruinado, e Morel, que tinha a missão de pagar as contas,
por um bondoso fidalgo. Conto aqui uma dessas refeições, que pode dar uma idéia das outras.
Era num restaurante de forma oblonga, em Saint-Mars-le-Vêtu.
- Será que não poderiam levar isto daqui? - perguntou o Sr. de Charlus a Morel, como a
um intermediário, e para não se dirigir diretamente aos garçons. Por "isto", ele designava três
rosas murchas, com que um maitre d'hôtel bem-intencionado julgara dever decorar a mesa.
- Sim. - disse Morel embaraçado. Não gosta de rosas?
- Provaria, ao contrário, pelo pedido em questão, que as amo, já que não há rosas aqui
(Morel pareceu surpreso), mas na verdade não gosto muito de rosas. Sou bastante sensível aos
nomes; e, quando uma rosa é um pouco bonita, ficamos sabendo que ela se chama Baronesa de
Rothschild ou Marechala Niel, o que nos deixa frios, Gosta dos nomes? Já encontrou belos títulos
para seus pequenos trechos de concerto?
- Há um deles que se chama Poema Triste.
- É horrível - respondeu o Sr. de Charlus com voz aguda e estridente como uma bofetada.
- Mas eu não tinha pedido champanha? - disse ele ao maitre d'hôtel, que julgara trazê-lo,
colocando diante dos dois fregueses duas taças cheias de vinho espumante.
- Mas, senhor...
- Leve daqui este horror, que não tem nenhuma relação com o pior dos champanhas. É o
vomitivo chamado cup, onde em geral se põem três morangos podres numa mistura de vinagre e
água de Seltz... Sim continuou ele, virando-se para Morel o senhor parece ignorar o que seja um
título. E até na interpretação daquilo que executa melhor, parece não perceber do lado mediúnico
da coisa.
- O senhor diz? - indagou Morel que, não tendo compreendido absolutamente nada do que
o barão dissera, temia ficar privado de uma informação útil, como, por exemplo, um convite para
almoçar.
Tendo o Sr. de Charlus desdenhado considerar "O senhor diz?" como uma pergunta,
Morel, consequentemente, sem obter resposta, achou melhor mudar de conversa e dar-lhe um
torneio sensual:
- Olhe, é a lourinha que vende estas flores de que o senhor não gosta; mais uma que tem
seguramente uma amiguinha. E a velha que janta na mesa do fundo, também.
- Mas como sabes de tudo isso? - perguntou o Sr. de Charlus, maravilhado com a
presciência de Morel.
- Oh, em um segundo eu as adivinho. Se nós dois passeássemos no meio de uma
multidão, o senhor veria que não me engano duas vezes. -
E quem naquele momento houvesse olhado Morel, com seu ar de menina em meio à sua
máscula beleza, teria compreendido a obscura adivinhação que não o apontava menos a certas
mulheres do que elas a ele. Tinha vontade de suplantar Jupien, vagamente desejoso de
acrescentar ao seu "fixo" os rendimentos que, segundo julgava, o coleteiro extraía do barão.
- E, quanto aos gigolôs, ainda sou mais entendido, posso poupar-lhe todos os erros. Em
breve, chegará à feira de Balbec, onde encontraremos muitas coisas. E em Paris, então! Aí é que
o senhor haverá de se divertir. -
Mas uma prudência hereditária de criado fê-lo dar um outro sentido à frase que já estava
começando. De modo que o Sr. de Charlus julgou que se tratava sempre de moças.
- Veja o senhor - disse Morel, desejoso de excitar, de um modo que achava menos
comprometedor para si mesmo (embora na realidade fosse mais imoral), os sentidos do barão -,
meu sonho seria encontrar uma moça bem pura, de me fazer amado por ela, e tirar-lhe a
virgindade. -
O Sr. de Charlus não pôde impedir-se de beliscar suavemente a orelha de Morel, mas
acrescentou com ingenuidade:
- Para que te serviria isto? Se lhe acabasses com a donzelice, serias obrigado a casar com
ela.
- Casar com ela? - exclamou Morel, que sentia que o barão estava "alto", ou então que não
pensava no homem, afinal mais escrupuloso do que imaginava, com quem estava falando. -
Casar? Uma ova! Prometeria, sim, mas logo que pequena operação fosse levada a cabo de modo
satisfatório, abandonava-a na mesma noite. -
O Sr. de Charlus tinha o hábito, quando uma ficção podia causar-lhe um momentâneo
prazer sensual, de dar-lhe sua adesão, pronto para retirá-la inteiramente, instantes depois,
quando o prazer se esgotasse.
- Verdadeiramente farias isto? - indagou a Morel, rindo e apertando-o com mais força.
- E como! - disse Morel, vendo que não desagradava ao barão se continuasse a lhe
explicar sinceramente o que era de fato um de seus desejos.
- É perigoso - disse o Sr. de Charlus.
- Eu faria antecipadamente as minhas malas e sumiria sem deixar endereço.
- E eu? - disse o barão.
- Eu o levaria comigo, é claro - apressou-se a dizer Morel, que não pensara no que seria
do Sr. de Charlus, o qual era o menor de seus cuidados. - Olhe, existe uma garota que agradaria
muito para o caso, é uma costureirinha que possui sua loja no palacete do Senhor duque.
- A filha de Jupien! - exclamou o barão, enquanto entrava o copeiro. - Oh, jamais! -
acrescentou, ou porque a presença de um estranho o tivesse esfriado, ou porque, mesmo nessas
espécies de missas negras, em que as pessoas se comprazem em achincalhar as coisas mais
santas, ele não pudesse resolver-se a fazer entrar pessoas por quem nutria amizade. - Jupien é
um bom homem, a mocinha é encantadora, seria horrível causar-lhes esse desgosto. -
Morel sentiu que tinha ido longe demais e se calou. Mas seu olhar continuava, no vago, a
fixar-se na moça, diante da qual quisera certa vez que eu o chamasse de "meu caro artista" e a
quem encomendara um colete. Muito trabalhadora, a garota não tirava férias, mas depois eu
soube que, enquanto o violinista estava nos arredores de Balbec, ela não cessava de pensar no
seu belo rosto, enobrecido pelo fato de que, tendo visto Morel em minha companhia, ela o tomara
por um "senhor".
- Nunca ouvi Chopin tocar piano - disse o barão; - e no entanto poderia, pois tomava lições
com Stamati, mas ele me proibiu de ir ouvir, na casa da minha tia Chimay, o mestre dos Noturnos. - Que asneira que ele fez! - exclamou Morel.
- Pelo contrário - replicou vivamente o Sr. de Charlus com voz aguda. - Ele provava ser
inteligente. Compreendera que eu era um "temperamento" e que sofreria a influência de Chopin.
Isso não importa, porquanto abandonei a música bem jovem, como aliás tudo. E depois, a gente
imagina um pouco - acrescentou com uma voz anasalada, vagarosa e lânguida; - sempre existe
gente que ouviu, que nos dá uma ideia. Mas afinal Chopin era só um pretexto para voltar ao lado
mediúnico que você negligencia.
Observar-se-á que, após uma interpolação da linguagem vulgar, a do Sr. de Charlus se
tornara bruscamente tão preciosa e altaneira como o era de hábito. É que a ideia de que Morel
"largaria" sem remorsos uma moça violada fizera-o de súbito experimentar um prazer completo.
Desde aí os seus sentidos se apaziguaram por algum tempo, e o sádico (este sim,
verdadeiramente mediúnico), que durante alguns instantes substituíra o Sr. de Charlus, havia
fugido e devolvera a palavra ao legítimo Sr. de Charlus, cheio de refinamento artístico, de
sensibilidade e bondade.
- Outro dia, você tocou a transcrição para piano do quarteto XV, o que já é absurdo, pois
nada é menos pianistico. Ela é destinada para pessoas a quem as cordas por demais tensas do
Surdo glorioso fazem mal aos ouvidos. Ora, justamente esse misticismo quase acre é que é
divino. Em todo caso, o senhor o tocou muito mal, modificando todos os movimentos. É preciso
tocar aquilo como se o senhor o estivesse compondo: o jovem Morel, acometido de uma surdez
momentânea e de um gênio inexistente, permanece imóvel por um momento; depois, tomado do
delírio sagrado, ele toca, ele compõe os primeiros compassos; então, esgotado por semelhante
esforço de transe, ele se abate, deixando cair a bela mecha para agradar à Sra. Verdurin, e, mais
ainda, assim dispõe de tempo para reconstituir a prodigiosa quantidade de massa cinzenta que
gastou para a objetivação pitica; então, tendo recobrado as forças, tomado de nova e condoreira
inspiração, lança-se para a sublime frase inesgotável que o virtuoso berlinense (cremos que o Sr.
de Charlus designava desse modo a Mendelssohn) devia infatigavelmente imitar. É dessa
maneira, a única e verdadeiramente transcendente e animadora, que o farei tocar em Paris. -
Quando o Sr. de Charlus lhe dava conselhos desse gênero, Morel ficava muito mais assustado
que ao ver o maitre d'hôtel levar suas rosas e seu cup desdenhados, pois se perguntava
ansiosamente qual o efeito que aquilo produziria sobre a "classe". Mas não para demorar-se
nessas reflexões, pois o Sr. de Charlus lhe dizia imperiosamente:
- Pergunte ao maitre d'hôtel se ele não tem um bom cristão.
- Boro cristão? Não compreendo.
- Bem vê que tratamos de frutas, é uma pera. Esteja certo de que a Sra. de Cambremer a
tem em sua casa, pois a comi dessa d'Escarbagnas, que ela é, também a tinha. O Sr. Thibaudier
a envia e ela diz: "Eis um bom cristão que está lindo."
- Não, eu não sabia.
- Ali, vejo que o senhor não sabe nada. Se nem sequer leu Moliere... Pois bem, visto que
não deve saber encomendar, mais que o resto, peça muito simplesmente uma pera que se colhe
justo perto daqui, a Louise-Bonned'Avranches.
[A sra. de Escarbagnas é personagem da comédia de Moliere, A Condessa de Escarbagnas.
"Bom cristão" é nome dado a uma pera flamenga. (N. do T)]
- A...?
- Espere, já que é tão canhestro, vou eu mesmo pedir outras, que prefiro: Maitre d'hôtel,
tem o senhor a Doyenné des Comices?
Charlie, deveria ler a página sensacional que sobre essa pêra escreveu a duquesa Émilie
de Clermont-Tonnerre.
- Não, senhor; não tenho.
- Tem o Triunfo de Jodoigne?
- Não, senhor.
- A Virginie-Dallet? A Passe-Colmar? Não? Pois bem, já que não tem nada, vamos
embora. A duquesa d'Angoulême ainda não está madura; vamos, Charlie, partamos. -
Infelizmente para o Sr. de Charlus, a sua falta de bom-senso, talvez a castidade das relações que
provavelmente mantinha com Morel fizeram com que, desde essa época, se empenhasse em
cumular o violinista de estranhas gentilezas que este não podia compreender, e às quais sua
natureza, doida à sua moda, porém ingrata e mesquinha, só podia corresponder com uma secura
ou uma violência sempre maiores, e que mergulhavam o Sr. de Charlus antes tão altivo, agora
todo tímido em acessos de legítimo desespero. Veremos como nas menores coisas, Morel, que
acreditava ter se transformado num Charlus mil vezes mais importante, compreendera de
esguedelha, tomando-as ao pé da letra, as orgulhosas informações do barão quanto à
aristocracia.
- Não gosto, é restaurada - disse-me ela, mostrando a igreja e lembrando-se do que Elstir
havia dito acerca da preciosa, da inimitável beleza das velhas pedras. Albertine sabia reconhecer
de pronto uma restauração. A gente só podia assombrar-se com a segurança de gosto que ela já
possuía em matéria de arquitetura, a par do gosto deplorável que conservava em música. Tanto
quanto Elstir, eu não gostava dessa igreja, e foi sem me dar prazer que sua fachada veio postar
se, ensolarada, aos meus olhos, e só desci a contemplá-la para ser agradável a Albertine. E
achava, no entanto, que o grande impressionista estava em contradição consigo mesmo; por que
esse fetichismo ligado ao valor arquitetônico objetivo, sem levar em conta a transfiguração da
igreja no poente?
- Não - disse Albertine -, decididamente não me agrada; gosto do seu nome de
Orgueilleuse (orgulhosa). Mas o que será preciso indagar a Brichot é por que Saint-Mars se
chama "le Vêtu". Iremos lá na próxima vez, não? - perguntava-me olhando-me com seus olhos
negros, sobre os quais a touca estava abaixada como outrora a sua pequena boina. Seu véu
flutuava.
Eu voltava ao auto com ela, feliz por irmos juntos, no dia seguinte, a Saint-Mars, de que,
naqueles dias ardentes em que só se pensava em banhos de mar, os dois antigos campanários
de um rosa-salmão, com telhas em losango, ligeiramente inclinadas e como que palpitantes,
pareciam velhos peixes agudos, imbricados de escamas, musgosos e arruivados, que, sem dar a
impressão de se moverem, erguiam-se numa água transparente e azul. Para resumir, deixando
Marcouville, bifurcávamos numa encruzilhada de caminhos, onde havia uma granja. Às vezes
Albertine mandava parar e me pedia que fosse buscar sozinho, a fim de poder beber no carro,
vinho Calvados ou cidra, que asseguravam não ser espumante e que nos borrifava por completo.
Estávamos apertados um contra o outro. As pessoas da granja mal avistavam Albertine no auto
fechado, e eu lhes devolvia as garrafas; partíamos novamente, como para continuar naquela
nossa vida, essa vida de amantes que elas podiam achar que levávamos, e da qual essa parada
para beber não passasse de um momento insignificante; suposição que teria parecido tanto
menos inverossímil se nos vissem depois que Albertine houvesse bebido a sua garrafa de cidra;
de fato, ela parecia então não mais poder suportar, entre nós dois, um intervalo que de hábito não
a incomodava; sob sua saia de algodão, suas pernas apertavam-se contra as minhas, ela
aproximava do meu rosto as suas faces que se tornavam pálidas, quentes e rubras nos pômulos,
com algo de ardente e descorado como o têm as mulheres dos arrabaldes. Nesses momentos,
quase tão depressa como de personalidade, ela mudava de voz, perdia a sua e assumia uma
outra, enrouquecida, ousada, quase crapulosa. A tarde caía. Que prazer senti-la juntinho a mim,
com sua écharpe e sua touca, lembrando-me que é sempre assim, lado a lado, que se encontram
os que se amam! Talvez eu sentisse amor por Albertine, mas não tinha coragem de dá-lo a
perceber, se bem que, se existisse em mim, não podia ser senão como uma verdade sem valor
até que fosse possível verificá-la pela experiência; ora, isto me parecia irrealizável e fora dos
planos da minha vida.
continua na página 191...
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Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - A fisionomia da região nos parecia toda mudada)
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)Volume 6
Volume 7
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