quarta-feira, 22 de abril de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - A fisionomia da região nos parecia toda mudada)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 

     A fisionomia da região nos parecia toda mudada, de tanto que a noção do espaço está longe de ser a que desempenha o maior papel na imagem topográfica que formamos de cada uma delas. Dissemos que a do tempo as afasta ainda mais. E ela também não será a única. Certos lugares que vemos sempre isolados nos parecem não ter medida comum com o resto, quase fora do mundo, como essas pessoas a quem conhecemos em períodos à parte da nossa vida, no regimento, na nossa infância, e que não relacionamos com coisa alguma. No primeiro ano da minha temporada em Balbec, existia uma elevação a que a Sra. de Villeparisis gostava de nos levar, porque dali só se via a água e os bosques, e que se chamava Beaumont. Como o caminho pelo qual ela mandava seguir para lá chegar, e que achava ser o mais bonito devido às velhas árvores, era o tempo todo em aclive, os cavalos do seu carro iam a passo e levavam muito tempo. Uma vez chegados ao alto, descíamos, passeávamos um pouco, voltávamos a subir para o carro, e regressávamos pelo mesmo caminho sem ter encontrado nenhuma aldeia, nenhum castelo. Eu sabia que Beaumont era algo de muito curioso, muito longínquo, muito altaneiro, e não tinha a mínima idéia da direção em que se encontrava, pois jamais tomara o caminho de Beaumont para ir a outro lugar; aliás, levava-se muito tempo de carro para chegar até lá. Evidentemente fazia parte do mesmo departamento (ou da mesma província) de Balbec, mas, para mim, estava situado num plano diverso, gozava de um privilégio especial de extraterritorialidade. Mas o automóvel, que não respeita nenhum mistério, depois de ter passado por Incarville, cujas casas eu ainda levava nos olhos, como descêssemos a costa pelo atalho que vai dar em Parville (Paterni villa), avistando o mar de um terrapleno onde estávamos, perguntei como se chamava aquele lugar e, antes mesmo que o chofer me respondesse, reconheci Beaumont, a cujo lado assim passava sem o saber de cada vez que tomava o trenzinho, pois ficava a dois minutos de Parville. Como um oficial de meu regimento, que teria me parecido uma criatura especial, por demais bonachão e simples para pertencer a uma grande família, já muito distante e misterioso para ser simplesmente de uma grande família, e do qual viesse a saber que era cunhado e primo de tais ou quais pessoas com quem eu jantava fora, assim Beaumont, de súbito ligado a locais de que o supunha tão diferente, perdeu seu mistério e assumiu seu posto na região, fazendo-me pensar com terror que Madame Bovary e a Sanseverina talvez me tivessem parecido criaturas semelhantes às outras se eu as tivesse encontrado em outra parte que não a atmosfera fechada de um romance. Pode parecer que meu amor pelas feéricas viagens de trem deveria impedir-me de compartilhar do encantamento de Albertine diante do automóvel que leva, mesmo um doente, aonde ele quer, e impede como eu o fizera até aqui que consideremos a localização como marca individual, a essência sem sucedâneo das belezas inamovíveis. E sem dúvida, o automóvel não fazia dessa localização, como outrora o trem de ferro, quando eu viera de Paris a Balbec, um objetivo subtraído às contingências da vida comum, quase ideais à partida, e que, continuando a sê-lo à chegada - à chegada nessa grande residência onde não mora ninguém e que leva apenas o nome da cidade: a estação -, tem o ar de prometer-lhe enfim o acesso como se fosse a sua materialização. Não, o automóvel não nos conduzia assim feericamente a uma cidade que víamos primeiro no conjunto que resume o seu nome, e com as ilusões do espectador na plateia. Ele nos fazia entrar nos bastidores da rua, parava para pedir uma informação a um habitante. Mas, como para compensar uma progressão tão familiar, temos os próprios titubeios do chofer, incerto quanto ao caminho, e que retrocede, e os ziguezagues da perspectiva, que fazem um castelo jogar os quatro-cantos com uma colina, uma igreja e o mar enquanto nos aproximamos dele, embora debalde se encolha sob sua folhagem secular; e esses círculos, cada vez mais próximos, que o automóvel descrevia em torno de uma cidade fascinada, que fugia em todos os sentidos para lhe escapar e sobre a qual, finalmente, avança direto, a pique, no fundo do vale, onde ela jaz por terra; de modo que essa localização, único ponto que o automóvel parece ter destituído do mistério dos trens expressos, dá pelo contrário a impressão de que o descobrimos, de que o determinamos nós mesmos como que a compasso, de nos ajudar a sentir, com mão mais amorosamente exploradora, com mais fina precisão, a verdadeira geometria, a bela "medida da terra". O que infelizmente eu ignorava naquela ocasião, e só vim a saber dois anos mais tarde, é que um dos fregueses do chofer era o Sr. de Charlus, e que Morel, encarregado de pagá-lo e guardando para si uma parte do dinheiro (fazendo o chofer triplicar e quintuplicar o número dos quilômetros), estava muito ligado a este (enquanto fingia não conhecê-lo diante dos outros) e utilizava o seu carro para corridas distantes. Se então eu soubesse disso, e que provinha daí a confiança que os Verdurin, sem o saberem, logo tiveram nesse chofer, tivessem sido evitados muitos dos aborrecimentos de minha vida em Paris, no ano seguinte, bem como diversas infelicidades relativas a Albertine; mas eu não o suspeitava em absoluto. Em si mesmos, os passeios do Sr. de Charlus de auto com Morel não me interessavam diretamente. Aliás, o mais das vezes limitavam-se a um almoço ou a um jantar num restaurante da costa, onde o Sr. de Charlus passava por um velho criado arruinado, e Morel, que tinha a missão de pagar as contas, por um bondoso fidalgo. Conto aqui uma dessas refeições, que pode dar uma idéia das outras. Era num restaurante de forma oblonga, em Saint-Mars-le-Vêtu. 

- Será que não poderiam levar isto daqui? - perguntou o Sr. de Charlus a Morel, como a um intermediário, e para não se dirigir diretamente aos garçons. Por "isto", ele designava três rosas murchas, com que um maitre d'hôtel bem-intencionado julgara dever decorar a mesa. 
- Sim. - disse Morel embaraçado. Não gosta de rosas? 
- Provaria, ao contrário, pelo pedido em questão, que as amo, já que não há rosas aqui (Morel pareceu surpreso), mas na verdade não gosto muito de rosas. Sou bastante sensível aos nomes; e, quando uma rosa é um pouco bonita, ficamos sabendo que ela se chama Baronesa de Rothschild ou Marechala Niel, o que nos deixa frios, Gosta dos nomes? Já encontrou belos títulos para seus pequenos trechos de concerto? 
- Há um deles que se chama Poema Triste. 
- É horrível - respondeu o Sr. de Charlus com voz aguda e estridente como uma bofetada. 
- Mas eu não tinha pedido champanha? - disse ele ao maitre d'hôtel, que julgara trazê-lo, colocando diante dos dois fregueses duas taças cheias de vinho espumante. 
- Mas, senhor... 
- Leve daqui este horror, que não tem nenhuma relação com o pior dos champanhas. É o vomitivo chamado cup, onde em geral se põem três morangos podres numa mistura de vinagre e água de Seltz... Sim continuou ele, virando-se para Morel o senhor parece ignorar o que seja um título. E até na interpretação daquilo que executa melhor, parece não perceber do lado mediúnico da coisa. 
- O senhor diz? - indagou Morel que, não tendo compreendido absolutamente nada do que o barão dissera, temia ficar privado de uma informação útil, como, por exemplo, um convite para almoçar.  

     Tendo o Sr. de Charlus desdenhado considerar "O senhor diz?" como uma pergunta, Morel, consequentemente, sem obter resposta, achou melhor mudar de conversa e dar-lhe um torneio sensual: 

- Olhe, é a lourinha que vende estas flores de que o senhor não gosta; mais uma que tem seguramente uma amiguinha. E a velha que janta na mesa do fundo, também. 
- Mas como sabes de tudo isso? - perguntou o Sr. de Charlus, maravilhado com a presciência de Morel. 
- Oh, em um segundo eu as adivinho. Se nós dois passeássemos no meio de uma multidão, o senhor veria que não me engano duas vezes. -

     E quem naquele momento houvesse olhado Morel, com seu ar de menina em meio à sua máscula beleza, teria compreendido a obscura adivinhação que não o apontava menos a certas mulheres do que elas a ele. Tinha vontade de suplantar Jupien, vagamente desejoso de acrescentar ao seu "fixo" os rendimentos que, segundo julgava, o coleteiro extraía do barão. 

- E, quanto aos gigolôs, ainda sou mais entendido, posso poupar-lhe todos os erros. Em breve, chegará à feira de Balbec, onde encontraremos muitas coisas. E em Paris, então! Aí é que o senhor haverá de se divertir. -

     Mas uma prudência hereditária de criado fê-lo dar um outro sentido à frase que já estava começando. De modo que o Sr. de Charlus julgou que se tratava sempre de moças. 

- Veja o senhor - disse Morel, desejoso de excitar, de um modo que achava menos comprometedor para si mesmo (embora na realidade fosse mais imoral), os sentidos do barão -, meu sonho seria encontrar uma moça bem pura, de me fazer amado por ela, e tirar-lhe a virgindade. -

     O Sr. de Charlus não pôde impedir-se de beliscar suavemente a orelha de Morel, mas acrescentou com ingenuidade: 

- Para que te serviria isto? Se lhe acabasses com a donzelice, serias obrigado a casar com ela. 
- Casar com ela? - exclamou Morel, que sentia que o barão estava "alto", ou então que não pensava no homem, afinal mais escrupuloso do que imaginava, com quem estava falando. - Casar? Uma ova! Prometeria, sim, mas logo que pequena operação fosse levada a cabo de modo satisfatório, abandonava-a na mesma noite. -

     O Sr. de Charlus tinha o hábito, quando uma ficção podia causar-lhe um momentâneo prazer sensual, de dar-lhe sua adesão, pronto para retirá-la inteiramente, instantes depois, quando o prazer se esgotasse. 

- Verdadeiramente farias isto? - indagou a Morel, rindo e apertando-o com mais força. 
- E como! - disse Morel, vendo que não desagradava ao barão se continuasse a lhe explicar sinceramente o que era de fato um de seus desejos. 
- É perigoso - disse o Sr. de Charlus. 
- Eu faria antecipadamente as minhas malas e sumiria sem deixar endereço. 
- E eu? - disse o barão. 
- Eu o levaria comigo, é claro - apressou-se a dizer Morel, que não pensara no que seria do Sr. de Charlus, o qual era o menor de seus cuidados. - Olhe, existe uma garota que agradaria muito para o caso, é uma costureirinha que possui sua loja no palacete do Senhor duque. 
- A filha de Jupien! - exclamou o barão, enquanto entrava o copeiro. - Oh, jamais! - acrescentou, ou porque a presença de um estranho o tivesse esfriado, ou porque, mesmo nessas espécies de missas negras, em que as pessoas se comprazem em achincalhar as coisas mais santas, ele não pudesse resolver-se a fazer entrar pessoas por quem nutria amizade. - Jupien é um bom homem, a mocinha é encantadora, seria horrível causar-lhes esse desgosto. -
  
     Morel sentiu que tinha ido longe demais e se calou. Mas seu olhar continuava, no vago, a fixar-se na moça, diante da qual quisera certa vez que eu o chamasse de "meu caro artista" e a quem encomendara um colete. Muito trabalhadora, a garota não tirava férias, mas depois eu soube que, enquanto o violinista estava nos arredores de Balbec, ela não cessava de pensar no seu belo rosto, enobrecido pelo fato de que, tendo visto Morel em minha companhia, ela o tomara por um "senhor". 

- Nunca ouvi Chopin tocar piano - disse o barão; - e no entanto poderia, pois tomava lições com Stamati, mas ele me proibiu de ir ouvir, na casa da minha tia Chimay, o mestre dos Noturnos. - Que asneira que ele fez! - exclamou Morel. 
- Pelo contrário - replicou vivamente o Sr. de Charlus com voz aguda. - Ele provava ser inteligente. Compreendera que eu era um "temperamento" e que sofreria a influência de Chopin. Isso não importa, porquanto abandonei a música bem jovem, como aliás tudo. E depois, a gente imagina um pouco - acrescentou com uma voz anasalada, vagarosa e lânguida; - sempre existe gente que ouviu, que nos dá uma ideia. Mas afinal Chopin era só um pretexto para voltar ao lado mediúnico que você negligencia.

     Observar-se-á que, após uma interpolação da linguagem vulgar, a do Sr. de Charlus se tornara bruscamente tão preciosa e altaneira como o era de hábito. É que a ideia de que Morel "largaria" sem remorsos uma moça violada fizera-o de súbito experimentar um prazer completo. Desde aí os seus sentidos se apaziguaram por algum tempo, e o sádico (este sim, verdadeiramente mediúnico), que durante alguns instantes substituíra o Sr. de Charlus, havia fugido e devolvera a palavra ao legítimo Sr. de Charlus, cheio de refinamento artístico, de sensibilidade e bondade. 

- Outro dia, você tocou a transcrição para piano do quarteto XV, o que já é absurdo, pois nada é menos pianistico. Ela é destinada para pessoas a quem as cordas por demais tensas do Surdo glorioso fazem mal aos ouvidos. Ora, justamente esse misticismo quase acre é que é divino. Em todo caso, o senhor o tocou muito mal, modificando todos os movimentos. É preciso tocar aquilo como se o senhor o estivesse compondo: o jovem Morel, acometido de uma surdez momentânea e de um gênio inexistente, permanece imóvel por um momento; depois, tomado do delírio sagrado, ele toca, ele compõe os primeiros compassos; então, esgotado por semelhante esforço de transe, ele se abate, deixando cair a bela mecha para agradar à Sra. Verdurin, e, mais ainda, assim dispõe de tempo para reconstituir a prodigiosa quantidade de massa cinzenta que gastou para a objetivação pitica; então, tendo recobrado as forças, tomado de nova e condoreira inspiração, lança-se para a sublime frase inesgotável que o virtuoso berlinense (cremos que o Sr. de Charlus designava desse modo a Mendelssohn) devia infatigavelmente imitar. É dessa maneira, a única e verdadeiramente transcendente e animadora, que o farei tocar em Paris. - Quando o Sr. de Charlus lhe dava conselhos desse gênero, Morel ficava muito mais assustado que ao ver o maitre d'hôtel levar suas rosas e seu cup desdenhados, pois se perguntava ansiosamente qual o efeito que aquilo produziria sobre a "classe". Mas não para demorar-se nessas reflexões, pois o Sr. de Charlus lhe dizia imperiosamente: 
- Pergunte ao maitre d'hôtel se ele não tem um bom cristão. 
- Boro cristão? Não compreendo. 
- Bem vê que tratamos de frutas, é uma pera. Esteja certo de que a Sra. de Cambremer a tem em sua casa, pois a comi dessa d'Escarbagnas, que ela é, também a tinha. O Sr. Thibaudier a envia e ela diz: "Eis um bom cristão que está lindo." 
- Não, eu não sabia. 
- Ali, vejo que o senhor não sabe nada. Se nem sequer leu Moliere... Pois bem, visto que não deve saber encomendar, mais que o resto, peça muito simplesmente uma pera que se colhe justo perto daqui, a Louise-Bonned'Avranches. 
[A sra. de Escarbagnas é personagem da comédia de Moliere, A Condessa de Escarbagnas. "Bom cristão" é nome dado a uma pera flamenga. (N. do T)
- A...? 
- Espere, já que é tão canhestro, vou eu mesmo pedir outras, que prefiro: Maitre d'hôtel, tem o senhor a Doyenné des Comices?

     Charlie, deveria ler a página sensacional que sobre essa pêra escreveu a duquesa Émilie de Clermont-Tonnerre. 

- Não, senhor; não tenho. 
- Tem o Triunfo de Jodoigne? 
- Não, senhor. 
- A Virginie-Dallet? A Passe-Colmar? Não? Pois bem, já que não tem nada, vamos embora. A duquesa d'Angoulême ainda não está madura; vamos, Charlie, partamos. - Infelizmente para o Sr. de Charlus, a sua falta de bom-senso, talvez a castidade das relações que provavelmente mantinha com Morel fizeram com que, desde essa época, se empenhasse em cumular o violinista de estranhas gentilezas que este não podia compreender, e às quais sua natureza, doida à sua moda, porém ingrata e mesquinha, só podia corresponder com uma secura ou uma violência sempre maiores, e que mergulhavam o Sr. de Charlus antes tão altivo, agora todo tímido em acessos de legítimo desespero. Veremos como nas menores coisas, Morel, que acreditava ter se transformado num Charlus mil vezes mais importante, compreendera de esguedelha, tomando-as ao pé da letra, as orgulhosas informações do barão quanto à aristocracia.

     Por ora, digamos simplesmente, enquanto Albertine me espera em Saint-Jean-de-la-Haise, que se havia uma coisa que Morel punha acima da nobreza (e isso, em princípio, era bastante nobre, sobretudo vindo de alguém cujo prazer era ir procurar menininhas despercebidamente com o chofer) era a sua reputação artística e o que poderiam pensar na classe de violino. Sem dúvida era feio, pois sentia o Sr. de Charlus todo dedicado à sua pessoa, que desse a impressão de renegá-lo, de zombar dele, da mesma maneira como, logo que lhe prometi guardar segredo sobre as funções de seu pai na casa de meu tio-avô, ele passara a tratar-me com altivez. Mas, por outro lado, seu nome de artista diplomado, Morel, parecia-lhe superior a um "nome". E quando o Sr. de Charlus, em seus devaneios de ternura platônica, queria fazer com que ele tomasse um título de sua família, Morel recusava energicamente. Quando Albertine achava mais prudente ficar em Saint-Jean-dela-Haise para pintar, eu tomava o auto e não era só a Gourville e a Féterne que podia ir, mas também a Saint-Mars-le-Vieux e até a Criquetot, antes de voltar para pegá-la. Fingindo estar ocupado com outra coisa que não ela, e ser obrigado a deixá-la por outros prazeres, só nela pensava. Muitas vezes não ia além da grande planície que domina Gourville, e, como esta se assemelha um pouco à que principia acima de Combray, na direção de Méséglise, eu, ainda que a uma enorme distância de Albertine, sentia-me alegre ao pensar que, se meus olhares não podiam chegar até ela, aquela poderosa e suave brisa marinha que passava a meu lado, alcançando muito mais do que eles, deveria baixar, sem ser detida por nada, até Quetteholme, para agitar os ramos das árvores que ocultavam Saint-Jean-dela-Haise sob sua folhagem, acariciando o rosto da minha amiga, e, assim, lançando um duplo elo entre nós dois. Naquele retiro indefinidamente aumentado, mas sem riscos, como nesses jogos em que duas crianças se encontram por instantes fora do alcance da voz e da vista uma da outra, e onde, mesmo estando afastadas, permanecem juntas. Eu regressava por esses caminhos de onde se avista o mar e onde, outrora, antes que ele aparecesse por entre os ramos, eu fechava os olhos para bem pensar que o que ia ver era mesmo o queixoso ancestral da terra, prosseguindo, como no tempo em que ainda não existiam seres vivos, em sua demente e imemorial agitação. Agora, essas estradas não eram para mim senão o meio de ir ao encontro de Albertine; quando as reconhecia tão iguais, sabendo até onde iriam em linha reta, onde fariam uma curva, eu me lembrava de que as seguira pensando na Srta. de Stermaria, e também que a mesma pressa de encontrar-me com Albertine, eu a tivera em Paris ao descer as ruas por onde passava a Sra. de Guermantes; assumiam, para mim, a profunda monotonia, a significação moral de uma espécie de linha que seguia o meu caráter. Era natural e, contudo, não era indiferente; lembravam-me que minha sorte consistia apenas em perseguir fantasmas, criaturas cuja realidade em boa parte estavam na minha imaginação; de fato, existem seres e fora o meu caso desde a juventude - para quem nada do que possui um valor fixo, verificável por outros, a fortuna, o sucesso, as altas posições, é levado em conta; o que lhes é necessário, são os fantasmas. Sacrificam tudo o mais, põem tudo em ação, fazem tudo servir para achar determinado fantasma. Mas este não tarda em se desvanecer; então correm atrás de outro, prontos para voltarem logo ao primeiro. Não era a primeira vez que eu procurava Albertine, a moça vista no primeiro ano diante do mar. É verdade que outras mulheres haviam sido intercaladas entre a Albertine amada da primeira vez e esta a quem quase não deixava no momento; outras mulheres, notadamente a duquesa de Guermantes. Mas, dirão, por que tantos cuidados a respeito de Gilberte, ter tanto trabalho por causa da Sra. de Guermantes, se, tornando-se amigo desta, fizera-o com o único fim de não mais pensar nela, mas somente em Albertine? Antes de morrer, Swann teria podido responder, ele que fora amador de fantasmas. De fantasmas perseguidos, esquecidos, de novo procurados, às vezes para uma só entrevista, e a fim de tocar numa vida irreal que logo se evolava, estavam cheias as estradas de Balbec. Pensando que suas árvores, pereiras, macieiras, tamargas, me sobreviveriam, parecia-me receber delas o conselho de me pôr enfim a trabalhar enquanto não soasse a hora do repouso eterno. Eu saltava do carro em Quetteholme, corria pela íngreme descida, cruzava o regato por uma tábua e encontrava Albertine que pintava diante da igreja toda em torreões, espinhosa e rubra, florescente como um roseiral. Só o tímpano era liso; e, à superfície ridente da pedra, afloravam anjos que continuavam, diante do casal do século XX, a celebrar, círios na mão, as cerimônias do século XIII. Era deles que Albertine procurava fazer o retrato em sua tela preparada e, imitando Elstir, dava grandes pinceladas, buscando obedecer ao nobre ritmo que tornava esses anjos, dissera-lhe o grande mestre, tão diferentes de todos os que conhecia. Depois ajuntava as suas coisas. Apoiados um no outro, subíamos a encosta, deixando a igrejinha, tão tranquila como se não nos tivesse visto, a escutar o perpétuo rumor do regato. Em breve o auto partia, fazia-nos tomar de regresso um caminho diverso do que seguíramos na ida. Passávamos por Marcouville l'OrgueiIleuse. Sobre sua igreja, metade nova, metade restaurada, o sol poente estendia sua pátina, tão linda como a dos séculos. Através dela, os grandes baixos-relevos pareciam ser vistos apenas sob uma camada fluida, meio líquida, meio luminosa; a Santa Virgem, Santa Isabel e São Joaquim nadavam ainda no impalpável remoinho quase em seco, à flor d'água ou à tona do sol. Numa cálida poeira surgiam as numerosas estátuas modernas, erguendo-se sobre colunas até meia altura dos véus dourados do poente. Defronte à igreja, um grande cipreste parecia estar dentro de uma espécie de recinto consagrado. Descíamos um instante para o contemplar e dávamos alguns passos. Tanto quanto de seus membros, tinha Albertine consciência de sua touca de palha da Itália e da écharpe de seda (que, para ela, não eram a sede das menores sensações de bem-estar), e delas recebia, enquanto ia ao redor da igreja, uma outra espécie de impulsão, traduzida por um contentamento inerte mas no qual eu encontrava graça; touca e écharpe que eram apenas uma parte recente, adventícia, de minha amiga, mas que já me era bastante cara e cujo rastro eu seguia com os olhos, ao longo do cipreste, no ar da tardinha. Ela própria não podia vê-lo, mas desconfiava que tais elegâncias faziam bem, pois me sorria harmonizando o porte da cabeça com o chapéu que a completava: 

- Não gosto, é restaurada - disse-me ela, mostrando a igreja e lembrando-se do que Elstir havia dito acerca da preciosa, da inimitável beleza das velhas pedras. Albertine sabia reconhecer de pronto uma restauração. A gente só podia assombrar-se com a segurança de gosto que ela já possuía em matéria de arquitetura, a par do gosto deplorável que conservava em música. Tanto quanto Elstir, eu não gostava dessa igreja, e foi sem me dar prazer que sua fachada veio postar se, ensolarada, aos meus olhos, e só desci a contemplá-la para ser agradável a Albertine. E achava, no entanto, que o grande impressionista estava em contradição consigo mesmo; por que esse fetichismo ligado ao valor arquitetônico objetivo, sem levar em conta a transfiguração da igreja no poente? 
- Não - disse Albertine -, decididamente não me agrada; gosto do seu nome de Orgueilleuse (orgulhosa). Mas o que será preciso indagar a Brichot é por que Saint-Mars se chama "le Vêtu". Iremos lá na próxima vez, não? - perguntava-me olhando-me com seus olhos negros, sobre os quais a touca estava abaixada como outrora a sua pequena boina. Seu véu flutuava.

     Eu voltava ao auto com ela, feliz por irmos juntos, no dia seguinte, a Saint-Mars, de que, naqueles dias ardentes em que só se pensava em banhos de mar, os dois antigos campanários de um rosa-salmão, com telhas em losango, ligeiramente inclinadas e como que palpitantes, pareciam velhos peixes agudos, imbricados de escamas, musgosos e arruivados, que, sem dar a impressão de se moverem, erguiam-se numa água transparente e azul. Para resumir, deixando Marcouville, bifurcávamos numa encruzilhada de caminhos, onde havia uma granja. Às vezes Albertine mandava parar e me pedia que fosse buscar sozinho, a fim de poder beber no carro, vinho Calvados ou cidra, que asseguravam não ser espumante e que nos borrifava por completo. Estávamos apertados um contra o outro. As pessoas da granja mal avistavam Albertine no auto fechado, e eu lhes devolvia as garrafas; partíamos novamente, como para continuar naquela nossa vida, essa vida de amantes que elas podiam achar que levávamos, e da qual essa parada para beber não passasse de um momento insignificante; suposição que teria parecido tanto menos inverossímil se nos vissem depois que Albertine houvesse bebido a sua garrafa de cidra; de fato, ela parecia então não mais poder suportar, entre nós dois, um intervalo que de hábito não a incomodava; sob sua saia de algodão, suas pernas apertavam-se contra as minhas, ela aproximava do meu rosto as suas faces que se tornavam pálidas, quentes e rubras nos pômulos, com algo de ardente e descorado como o têm as mulheres dos arrabaldes. Nesses momentos, quase tão depressa como de personalidade, ela mudava de voz, perdia a sua e assumia uma outra, enrouquecida, ousada, quase crapulosa. A tarde caía. Que prazer senti-la juntinho a mim, com sua écharpe e sua touca, lembrando-me que é sempre assim, lado a lado, que se encontram os que se amam! Talvez eu sentisse amor por Albertine, mas não tinha coragem de dá-lo a perceber, se bem que, se existisse em mim, não podia ser senão como uma verdade sem valor até que fosse possível verificá-la pela experiência; ora, isto me parecia irrealizável e fora dos planos da minha vida.

continua na página 191...
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