sexta-feira, 8 de maio de 2026

Massa e Poder - O Sobrevivente: Sobre os Cemitérios e o sentimento que provocam

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     Sobre os Cemitérios e o sentimento que provocam
 

          Os cemitérios exercem uma forte atração; as pessoas os visitam mesmo quando neles não jaz nenhum parente seu. Em cidades estrangeiras, peregrinam rumo a eles; deixam-se ficar ali e passeiam pelo cemitério como se ele tivesse sido construído para elas. Nem sempre é o túmulo de um homem respeitado que as atrai. E mesmo quando a visita tinha por meta original um tal homem, ela sempre se transforma em mais do que isso. No cemitério, as pessoas logo mergulham num estado de espírito de natureza bastante singular. Enganar-se a si próprias acerca da natureza desse estado de espírito constitui um seu costume piedoso. E isso porque a seriedade que sentem e, mais ainda, exibem oculta uma satisfação secreta.
     O que faz realmente um visitante quando se encontra num cemitério? Como se move e de que se ocupa? Ele caminha lentamente de um lado para outro por entre as sepulturas, contempla esta ou aquela lápide, lê os nomes e sente-se atraído por muitos deles. Começa, então, a interessar-se pelo que possa haver sob aqueles nomes. Ali está um casal que viveu junto por muito tempo e, agora, como é próprio, repousa junto. Lá está uma criança que morreu bem pequenina. Ou uma moça que acabara de completar dezoito anos. Cada vez mais, são os espaços de tempo que cativam o visitante. Mais e mais, eles se destacam das particularidades comoventes e fazem-se espaços de tempo enquanto tais.
     Lá está alguém que viveu 32 anos, e, mais adiante, um outro que chegou aos 45. O visitante é já mais velho que isso; aqueles dois estão, por assim dizer, fora do páreo. Ele encontra muitos que não viveram tanto quanto ele, e, a não ser que tenham morrido bem jovens, seu destino não lhe desperta pesar algum. Mas há muitos também que superam sua idade. Há homens que morreram aos setenta anos e mesmo um que ultrapassou os oitenta. Estes, o visitante ainda pode alcançar. Eles o estimulam a imitá-los. Para ele abrem-se ainda todas as perspectivas. O caráter indefinido do tempo de vida que ainda espera viver constitui uma grande vantagem que ele possui sobre ambos aqueles mortos, e, empenhando-se, ele poderia mesmo superá-los. É auspicioso medir-se com eles, pois o visitante possui já uma vantagem sobre ambos: a meta destes já foi alcançada; eles não estão mais vivos. Com qualquer um dos dois que venha a competir, toda a força estará do seu lado, pois do lado contrário não há força alguma, apenas a meta assinalada. Aqueles que o superaram já estão mortos. Já não podem olhá-lo nos olhos de homem para homem e infundem-lhe a força para tornar-se para sempre mais do que eles. O homem de 89 anos que ali jaz é como um grande estímulo. O que impede o visitante de chegar aos noventa anos?
     Esse, porém, não é o único tipo de conta que se faz em meio a uma tal abundância de túmulos. Começa-se também a atentar para quanto tempo faz que alguns homens jazem ali. O tempo que separa o visitante da morte desses homens tem algo de tranquilizador: o primeiro encontra-se já um certo número de anos a mais neste mundo. Os cemitérios que ainda possuem lápides bem antigas, remontando aos séculos XVIII ou mesmo XVII, têm algo de enaltecedor. O visitante posta-se pacientemente diante da inscrição já apagada e não sai dali até que a tenha decifrado. A contagem do tempo, em geral empregada unicamente para propósitos práticos, adquire subitamente uma vida vigorosa e profunda. Todos os séculos conhecidos pelo visitante lhe pertencem. Aquele que ali jaz não faz ideia de que o homem postado diante de seu túmulo contempla-lhe o tempo de vida. Para o morto, a contagem de tempo interrompe-se no ano de sua morte; para o observador, porém, ela seguiu adiante, até ele próprio. Quanto não daria o morto já há tanto tempo para poder ainda postar-se ao lado do observador! Duzentos anos se passaram desde a sua morte; o visitante é, por assim dizer, duzentos anos mais velho que ele e, graças a toda sorte de registros, conhece bem muito do que aconteceu no tempo que se passou desde então. Ele leu a respeito, ouviu histórias e chegou a vivenciá-lo em parte. É difícil não se sentir superior, e é assim que se sente, nessa situação, o homem ingênuo.
     Mais ainda, porém, ele sente que está passeando sozinho no cemitério. A seus pés jazem muitos desconhecidos, todos densamente reunidos. Seu número é indefinido, mas grande, e aumenta cada vez mais. Eles não podem separar-se; permanecem como num amontoado. Somente o visitante vem e vai a seu bel-prazer. Somente ele se encontra de pé em meio aos que jazem.

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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?

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