sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: Um talismã vazio de poderes (1)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

A ESTRUTURA CONTEMPORÂNEA DA ESPOLIAÇÃO
     
48. Um talismã vazio de poderes
          
          Quando Lênin escreveu, na primavera de 1916, seu livro sobre o imperialismo, o capital norte-americano abarcava menos de um quinto do total dos investimentos privados diretos, de origem estrangeira, na América Latina. Em 1970, abarca cerca de três quartas partes. O imperialismo que Lênin conheceu – a rapacidade dos centros industriais na busca de mercados mundiais para a exportação de suas mercadorias; a febre de apossar-se de todas as fontes possíveis de matérias-primas; o saque do ferro, do carvão, do petróleo; as ferrovias articulando o domínio das áreas submetidas; os empréstimos vorazes dos monopólios financeiros; as expedições militares e as guerras de conquista – era um imperialismo que regava com sal os lugares em que uma colônia ou semicolônia tivesse ousado levantar fábrica própria. Para os países pobres, a industrialização, privilégio das metrópoles, resultava incompatível com o sistema de domínio imposto pelos países ricos. A partir da Segunda Guerra Mundial, consolida se na América Latina um recuo dos interesses europeus em benefício do arrasador avanço dos investimentos norte americanos. E se assiste, desde então, a uma mudança importante no destino dos investimentos. Passo a passo, ano atrás de ano, vão perdendo importância relativa os capitais aplicados nos serviços públicos e na mineração, enquanto aumenta a proporção dos investimentos em petróleo e, sobretudo, na indústria manufatureira. Atualmente, de cada três dólares investidos na América Latina, um corresponde à indústria¹.

[1] Há 40 anos, o investimento norte-americano em indústrias de transformação só representava 6 em cada 100 do valor total dos capitais dos Estados Unidos na América Latina. Em 1960, a proporção já roçava 20 em 100, e logo continuou subindo até cerca de uma terça parte do total. NACIONES UNIDAS CEPAL. El financiamiento externo de América Latina. Nova York; Santiago de Chile, 1964, e Estudio económico de América Latina, de 1967, 1968 e 1969.

     Em troca de investimentos insignificantes, as filiais das grandes corporações saltam por cima das barreiras alfandegárias latino-americanas, paradoxalmente levantadas contra a concorrência estrangeira, e se apoderam dos processos internos de industrialização. Exportam fábricas ou, frequentemente, encurralam e devoram as fábricas nacionais já existentes. Para tanto, contam com a entusiástica ajuda da maioria dos governos locais e com a capacidade de extorsão que os organismos internacionais de crédito colocam à sua disposição. O capital imperialista apossa-se dos mercados por dentro, fazendo com que se tornem seus os setores cardeais da indústria local: conquista ou constrói as fortalezas decisivas, de onde domina o resto. A OEA descreve assim o processo: “As empresas latino-americanas vão tendo um predomínio sobre as indústrias e tecnologias já estabelecidas e de menor sofisticação, ao passo que o investimento privado norte-americano, e provavelmente também o proveniente de outros países industrializados, vai aumentando rapidamente sua participação em certas indústrias dinâmicas que exigem um grau de avanço tecnológico relativamente alto e que são mais importantes na determinação do curso do desenvolvimento econômico¹. Assim, o dinamismo das fábricas norte-americanas ao sul do rio Bravo é muito mais intenso do que o da indústria latino americana em geral. São eloquentes os ritmos dos três maiores países: para um índice 100 em 1961, o produto industrial na Argentina passou a ser 112,5 em 1965, e no mesmo período as vendas das empresas filiais dos Estados Unidos subiram para 166,3. Para o Brasil, as cifras respectivas são de 109,2 e 120; para o México, de 142,2 e 186,8².

[1] SECRETARÍA GENERAL DE LA ORGANIZACIÓN DE ESTADOS AMERICANOS. El financiamiento externo para el desarrollo de la América Latina. Washington, 1969. Documento de distribución limitada; sextas reuniones anuales del CIES.
[2] Dados do Departamento de Comércio dos Estados Unidos e do Comitê Interamericano da Aliança para o Progresso. Secretaría General de la OEA, op. cit.

     O interesse das corporações imperialistas de apropriar se do crescimento industrial latino-americano e capitalizá-lo em seu benefício não implica, claro está, um desinteresse por todas as outras formas tradicionais de exploração. É verdade que a ferrovia da United Fruit Co. na Guatemala já não era rentável, e que a Electric Bond and Share e a International Telephone realizaram esplêndidos and Telegraph negócios Corporation quando foram nacionalizadas no Brasil, com indenizações em ouro puro em troca de instalações oxidadas e seu maquinário de museu. Mas o abandono dos serviços públicos em troca de atividades mais lucrativas nada tem a ver com o abandono das matérias-primas. Que futuro teria o Império sem o petróleo e os minerais da América Latina? Apesar da relativa diminuição dos investimentos em minas, a economia norte-americana não pode prescindir, como vimos em outro capítulo, dos abastecimentos vitais e dos robustos lucros que chegam do Sul. Além disso, os investimentos que tornam as fábricas latino-americanas meras peças da engrenagem mundial das gigantescas corporações em absoluto não alteram a divisão internacional do trabalho. Não sofre a menor modificação o sistema de vasos comunicantes por onde circulam os capitais e as mercadorias entre os países pobres e os países ricos. A América Latina continua exportando seu desemprego e sua miséria: as matérias-primas que o mercado mundial necessita, e de cuja venda depende a economia da região, e certos produtos industriais elaborados, com mão de obra barata, por filiais das corporações internacionais. O intercâmbio desigual funciona como sempre: os salários de fome da América Latina contribuem para financiar os altos salários dos Estados Unidos e da Europa.
     Não faltam políticos e tecnocratas dispostos a demonstrar que a invasão do capital estrangeiro “industrializador” beneficia as áreas em que irrompe. Diferentemente do antigo, este imperialismo novo implicaria uma ação na verdade civilizadora, uma bênção para os países dominados, de modo que, pela primeira vez, a letra das declarações de amor da potência dominante do momento coincidiria com suas intenções reais. As consciências culpadas, então, já não precisariam de álibis, pois não seriam culpáveis: o imperialismo atual irradiaria tecnologia e progresso, e até seria de mau gosto a utilização desta velha e odiosa palavra para defini-lo. Sempre que o imperialismo começa a exaltar suas próprias virtudes, convém revistar seus bolsos. E comprovar que este novo modelo de imperialismo não torna suas colônias mais prósperas, conquanto enriqueça seus polos de desenvolvimento; não alivia as tensões sociais regionais, antes as agrava; dissemina ainda mais a pobreza e concentra ainda mais a riqueza: paga salários vinte vezes menores do que em Detroit e estipula preços três vezes maiores do que em Nova York; torna-se dono do mercado interno e das etapas cruciais do aparelho produtivo; apropria-se do progresso, decide seus rumos e lhe fixa as fronteiras; dispõe do crédito nacional e orienta a seu talante o comércio exterior; não só desnacionaliza a indústria como também os lucros que a indústria produz; estimula o desperdício de recursos ao desviar para o exterior parte substancial do excedente econômico; não emprega capitais no desenvolvimento, antes os subtrai. A CEPAL indicou que a hemorragia dos lucros dos investimentos diretos dos Estados Unidos na América Latina, nestes últimos anos, foi cinco vezes maior do que a transfusão de investimentos novos. Para que as empresas possam garantir seus lucros, os países se hipotecam a si mesmos, endividando-se com a banca estrangeira e com os organismos internacionais de crédito, e assim avultam o caudal das próximas sangrias. O investimento industrial, nesse sentido, atua com as mesmas consequências do investimento “tradicional”. 
     No marco de aço de um capitalismo mundial integrado em torno das grandes corporações norte-americanas, a industrialização da América Latina se identifica cada vez menos com o progresso e com a libertação nacional. O talismã foi despojado de poderes nas decisivas derrotas do século passado, quando os portos triunfaram sobre os países e a liberdade de comércio arrasou a indústria nacional recém-nascida. O século XX não engendrou uma burguesia industrial forte e criadora que fosse capaz de retomar a tarefa e levá-la até as últimas consequências. Todas as tentativas ficaram na metade do caminho. Aconteceu com a burguesia industrial da América Latina o mesmo que acontece com os anões: chegou à decrepitude sem ter crescido. Nossos burgueses, hoje em dia, são comissionistas ou funcionários das corporações estrangeiras todo-poderosas. Em honra da verdade, nunca acumularam méritos para ter melhor destino.

continua na página 333...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
A Estrutura Contemporânea da Espoliação
Um talismã vazio de poderes (1)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?



As Veias Abertas da América Latina (1970), 
de Eduardo Galeano, que escreveu o prefácio em 2010




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