O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes
SEGUNDA PARTE
A ESTRUTURA CONTEMPORÂNEA
DA ESPOLIAÇÃO
48. Um talismã vazio de poderes
Quando Lênin escreveu, na primavera de 1916, seu livro
sobre o imperialismo, o capital norte-americano abarcava
menos de um quinto do total dos investimentos privados
diretos, de origem estrangeira, na América Latina. Em 1970,
abarca cerca de três quartas partes. O imperialismo que
Lênin conheceu – a rapacidade dos centros industriais na
busca de mercados mundiais para a exportação de suas
mercadorias; a febre de apossar-se de todas as fontes
possíveis de matérias-primas; o saque do ferro, do carvão,
do petróleo; as ferrovias articulando o domínio das áreas
submetidas; os empréstimos vorazes dos monopólios
financeiros; as expedições militares e as guerras de
conquista – era um imperialismo que regava com sal os
lugares em que uma colônia ou semicolônia tivesse ousado
levantar fábrica própria. Para os países pobres, a
industrialização, privilégio das metrópoles, resultava
incompatível com o sistema de domínio imposto pelos
países ricos. A partir da Segunda Guerra Mundial, consolida
se na América Latina um recuo dos interesses europeus em
benefício do arrasador avanço dos investimentos norte
americanos. E se assiste, desde então, a uma mudança
importante no destino dos investimentos. Passo a passo,
ano atrás de ano, vão perdendo importância relativa os
capitais aplicados nos serviços públicos e na mineração,
enquanto aumenta a proporção dos investimentos em
petróleo
e, sobretudo, na indústria manufatureira.
Atualmente, de cada três dólares investidos na América
Latina, um corresponde à indústria¹.
[1] Há 40 anos, o investimento norte-americano em indústrias de
transformação só representava 6 em cada 100 do valor total dos capitais dos
Estados Unidos na América Latina. Em 1960, a proporção já roçava 20 em 100, e
logo continuou subindo até cerca de uma terça parte do total. NACIONES
UNIDAS
CEPAL. El financiamiento externo de América Latina. Nova York;
Santiago de Chile, 1964, e Estudio económico de América Latina, de 1967, 1968
e 1969.
Em troca de investimentos insignificantes, as filiais das
grandes corporações saltam por cima das barreiras
alfandegárias
latino-americanas,
paradoxalmente
levantadas contra a concorrência estrangeira, e se
apoderam dos processos internos de industrialização.
Exportam fábricas ou, frequentemente, encurralam e
devoram as fábricas nacionais já existentes. Para tanto,
contam com a entusiástica ajuda da maioria dos governos
locais e com a capacidade de extorsão que os organismos
internacionais de crédito colocam à sua disposição. O
capital imperialista apossa-se dos mercados por dentro,
fazendo com que se tornem seus os setores cardeais da
indústria local: conquista ou constrói as fortalezas decisivas,
de onde domina o resto. A OEA descreve assim o processo:
“As empresas latino-americanas vão tendo um predomínio
sobre as indústrias e tecnologias já estabelecidas e de
menor sofisticação, ao passo que o investimento privado
norte-americano, e provavelmente também o proveniente
de
outros
países
industrializados,
vai
aumentando
rapidamente sua participação em certas indústrias
dinâmicas que exigem um grau de avanço tecnológico
relativamente alto e que são mais importantes na
determinação do curso do desenvolvimento econômico¹.
Assim, o dinamismo das fábricas norte-americanas ao sul do
rio Bravo é muito mais intenso do que o da indústria latino
americana em geral. São eloquentes os ritmos dos três
maiores países: para um índice 100 em 1961, o produto
industrial na Argentina passou a ser 112,5 em 1965, e no
mesmo período as vendas das empresas filiais dos Estados
Unidos subiram para 166,3. Para o Brasil, as cifras
respectivas são de 109,2 e 120; para o México, de 142,2 e
186,8².
[1] SECRETARÍA GENERAL DE LA ORGANIZACIÓN DE ESTADOS AMERICANOS. El
financiamiento externo para el desarrollo de la América Latina. Washington,
1969. Documento de distribución limitada; sextas reuniones anuales del CIES.
[2] Dados do Departamento de Comércio dos Estados Unidos e do Comitê
Interamericano da Aliança para o Progresso. Secretaría General de la OEA, op.
cit.
O interesse das corporações imperialistas de apropriar
se do crescimento industrial latino-americano e capitalizá-lo
em seu benefício não implica, claro está, um desinteresse
por todas as outras formas tradicionais de exploração. É
verdade que a ferrovia da United Fruit Co. na Guatemala já
não era rentável, e que a Electric Bond and Share e a
International
Telephone
realizaram
esplêndidos
and
Telegraph
negócios
Corporation
quando
foram
nacionalizadas no Brasil, com indenizações em ouro puro
em troca de instalações oxidadas e seu maquinário de
museu. Mas o abandono dos serviços públicos em troca de
atividades mais lucrativas nada tem a ver com o abandono
das matérias-primas. Que futuro teria o Império sem o
petróleo e os minerais da América Latina? Apesar da
relativa diminuição dos investimentos em minas, a
economia norte-americana não pode prescindir, como vimos
em outro capítulo, dos abastecimentos vitais e dos robustos
lucros que chegam do Sul. Além disso, os investimentos que
tornam as fábricas latino-americanas meras peças da
engrenagem mundial das gigantescas corporações em
absoluto não alteram a divisão internacional do trabalho.
Não sofre a menor modificação o sistema de vasos
comunicantes por onde circulam os capitais e as
mercadorias entre os países pobres e os países ricos. A
América Latina continua exportando seu desemprego e sua
miséria: as matérias-primas que o mercado mundial
necessita, e de cuja venda depende a economia da região, e
certos produtos industriais elaborados, com mão de obra
barata, por filiais das corporações internacionais. O
intercâmbio desigual funciona como sempre: os salários de
fome da América Latina contribuem para financiar os altos
salários dos Estados Unidos e da Europa.
Não faltam políticos e tecnocratas dispostos a
demonstrar que a invasão do capital estrangeiro
“industrializador” beneficia as áreas em que irrompe.
Diferentemente do antigo, este imperialismo novo implicaria
uma ação na verdade civilizadora, uma bênção para os
países dominados, de modo que, pela primeira vez, a letra
das declarações de amor da potência dominante do
momento coincidiria com suas intenções reais. As
consciências culpadas, então, já não precisariam de álibis,
pois não seriam culpáveis: o imperialismo atual irradiaria
tecnologia e progresso, e até seria de mau gosto a
utilização desta velha e odiosa palavra para defini-lo.
Sempre que o imperialismo começa a exaltar suas próprias
virtudes, convém revistar seus bolsos. E comprovar que
este novo modelo de imperialismo não torna suas colônias
mais prósperas, conquanto enriqueça seus polos de
desenvolvimento; não alivia as tensões sociais regionais,
antes as agrava; dissemina ainda mais a pobreza e
concentra ainda mais a riqueza: paga salários vinte vezes
menores do que em Detroit e estipula preços três vezes
maiores do que em Nova York; torna-se dono do mercado
interno e das etapas cruciais do aparelho produtivo;
apropria-se do progresso, decide seus rumos e lhe fixa as
fronteiras; dispõe do crédito nacional e orienta a seu talante
o comércio exterior; não só desnacionaliza a indústria como
também os lucros que a indústria produz; estimula o
desperdício de recursos ao desviar para o exterior parte
substancial do excedente econômico; não emprega capitais
no desenvolvimento, antes os subtrai. A CEPAL indicou que
a hemorragia dos lucros dos investimentos diretos dos
Estados Unidos na América Latina, nestes últimos anos, foi
cinco vezes maior do que a transfusão de investimentos
novos. Para que as empresas possam garantir seus lucros,
os países se hipotecam a si mesmos, endividando-se com a
banca estrangeira e com os organismos internacionais de
crédito, e assim avultam o caudal das próximas sangrias. O
investimento industrial, nesse sentido, atua com as mesmas
consequências do investimento “tradicional”.
No marco de aço de um capitalismo mundial integrado
em torno das grandes corporações norte-americanas, a
industrialização da América Latina se identifica cada vez
menos com o progresso e com a libertação nacional. O
talismã foi despojado de poderes nas decisivas derrotas do
século passado, quando os portos triunfaram sobre os
países e a liberdade de comércio arrasou a indústria
nacional recém-nascida. O século XX não engendrou uma
burguesia industrial forte e criadora que fosse capaz de
retomar a tarefa e levá-la até as últimas consequências.
Todas as tentativas ficaram na metade do caminho.
Aconteceu com a burguesia industrial da América Latina o
mesmo que acontece com os anões: chegou à decrepitude
sem ter crescido. Nossos burgueses, hoje em dia, são
comissionistas ou funcionários das corporações estrangeiras
todo-poderosas. Em honra da verdade, nunca acumularam
méritos para ter melhor destino.
continua na página 333...
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Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
A Estrutura Contemporânea da Espoliação
Um talismã vazio de poderes (1)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ?
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?
As Veias Abertas da América Latina (1970),
de Eduardo Galeano, que escreveu o prefácio em 2010
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