segunda-feira, 29 de junho de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: Do rio, os navios de guerra britânicos saudavam a independência (1)

 O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA

     41. Do rio, os navios de guerra britânicos saudavam a independência
          Em 1823, George Canning, cérebro do império britânico, estava celebrando seus triunfos universais. O encarregado de negócios da França teve de suportar a humilhação deste brinde: “Vossa seja a glória do triunfo, seguida pelo desastre e pela ruína; nosso seja o tráfico sem glória da indústria e da prosperidade sempre crescente (...). A idade da cavalaria passou, sucedida pela idade dos economistas e dos calculistas”. Londres vivia o princípio de uma longa festa; Napoleão tinha sido derrotado alguns anos antes, e a era da pax britannica se abria sobre o mundo. Na América Latina, a independência garantira perpetuidade ao poder dos donos da terra e dos comerciantes enriquecidos nos grandes portos de exportação, à custa da antecipada ruína dos países nascentes. As antigas colônias espanholas, e também o Brasil, eram mercados ávidos para os tecidos ingleses e para as libras esterlinas a tantos por cento. Canning não se enganara ao escrever, em 1824: “A coisa está feita; o prego está pregado, a América espanhola é livre; e se não negligenciarmos tristemente os nossos assuntos, é inglesa”. [1]

[1] KAUFMANN, William W. La política británica y la independencia de la América Latina (1804-1828). Caracas, 1963.

     A máquina a vapor, o tear mecânico e o aperfeiçoamento da máquina de tecer tinham feito amadurecer vertiginosamente a revolução industrial na Inglaterra. Multiplicavam-se as fábricas e os bancos; os motores de combustão interna haviam modernizado a navegação e um sem-número de grandes navios rumavam para os quatro pontos cardeais universalizando a expansão industrial inglesa. A economia britânica pagava com tecidos de algodão os couros do rio da Prata, o guano e o nitrato do Peru, o cobre do Chile, o açúcar de Cuba, o café do Brasil. As exportações industriais, os fretes, os seguros, os juros dos empréstimos e os dividendos dos investimentos alimentariam, ao longo do século XIX, a pujante prosperidade da Inglaterra. Em verdade, antes das guerras de independência os ingleses já controlavam boa parte do comércio legal entre a Espanha e suas colônias, e haviam lançado às costas da América Latina um caudaloso e persistente fluxo de mercadorias de contrabando. O tráfico de escravos proporcionava um anteparo eficaz para o comércio clandestino, ainda que ao fim e ao cabo as alfândegas também registrassem, em toda a América Latina, uma esmagadora maioria de produtos que não provinham da Espanha. Nos fatos, o monopólio espanhol nunca existiu: “(...) a colônia já estava perdida para a metrópole muito antes de 1810, e a revolução não representou nada mais que um reconhecimento político de semelhante estado de coisas”. [2]

[2] KOSSOK, Manfred. El virreinato del Río de la Plata. Su estructura económico social. Buenos Aires, 1959.

     As tropas britânicas tinham conquistado Trinidad, no Caribe, ao preço de uma só baixa, mas o comandante da expedição, Sir Ralph Abercromby, estava convencido de que não seriam fáceis outras conquistas militares na América espanhola. Pouco depois, fracassaram as invasões inglesas no rio da Prata. A derrota fortaleceu a opinião de Abercromby sobre a ineficácia das expedições armadas e o momento histórico dos diplomatas, mercadores e banqueiros: uma nova ordem liberal nas colônias espanholas ofereceria à Grã-Bretanha a oportunidade de abocanhar as nove décimas partes do comércio da América espanhola [3]. A febre da independência fervia em terras hispano-americanas. A partir de 1810, Londres aplicou uma política serpejante e dúplice, cujas flutuações obedeceram à necessidade de favorecer o comércio inglês, impedir que a América Latina caísse nas mãos dos Estados Unidos ou da França e prevenir uma possível infecção interna do jacobinismo nos novos países que nasciam para a liberdade.

[3] FERNS, H. S. Gran Bretaña y Argentina en el siglo XIX. Buenos Aires, 1966.

     Quando se constituiu a junta revolucionária em Buenos Aires, em 25 de maio de 1810, uma salva de canhonaços dos navios britânicos a saudou desde o rio. O capitão do navio Mutine pronunciou, em nome de Sua Majestade, um inflamado discurso: o júbilo invadia os corações britânicos. Buenos Aires levou apenas três dias para eliminar certas proibições que dificultavam o comércio com estrangeiros; doze dias depois, reduziu de 50 para 7,5 por cento os impostos que incidiam sobre as vendas ao exterior de couros e sebo. Tinham passado seis semanas desde 25 de maio quando foi tornada sem efeito a proibição de exportar ouro e prata em moedas, de modo que pudessem circular em Londres sem inconvenientes. Em setembro de 1811, um triunvirato substituiu a junta como autoridade governante: foram novamente reduzidos, e em alguns casos abolidos, os impostos de exportação e importação. A partir de 1813, quando a Assembleia se declarou autoridade soberana, os comerciantes estrangeiros ficaram desobrigados de vender suas mercadorias através dos comerciantes nativos: “O comércio, em verdade, tornou-se livre” [4]. Já em 1812, alguns comerciantes britânicos comunicaram ao Foreign Office: “Conseguimos (...) substituir com êxito os tecidos alemães e franceses”. Tinham substituído também a produção dos tecedores argentinos, estrangulados pelo porto livre-cambista. E o mesmo processo se registrou, com variantes, em outras regiões da América Latina.

[4]  Ibid.

     De Yorkshire e Lancashire, dos Cheviots e Gales, brotavam sem cessar artigos de algodão e de lã, de ferro e de couro, de madeira e porcelana. Os teares de Manchester, as ferrarias de Shaffield, as olarias de Worcester e Staffordshire inundavam os mercados latino-americanos. O livre-comércio enriquecia os portos que viviam da exportação e elevava aos céus o nível de esbanjamento das oligarquias ansiosas por desfrutar de todo o luxo que o mundo oferecia, e arruinava as incipientes manufaturas locais e frustrava a expansão do mercado interno. As indústrias domésticas, precárias e de muito baixo nível técnico, tinham surgido no mundo colonial apesar das proibições da metrópole, e experimentaram uma culminância, às vésperas da independência, em consequência do afrouxamento dos laços opressores da Espanha e das dificuldades de abastecimento que a guerra europeia provocou. Nos primeiros anos do século XIX, as oficinas estavam ressuscitando depois dos mortíferos efeitos da decisão que o rei tomara em 1778, autorizando o livre-comércio entre os portos da Espanha e da América. Uma avalanche de mercadorias estrangeiras arrasara as manufaturas têxteis e a produção colonial de cerâmica e objetos de metal, e os artesãos não tiveram muitos anos para se recuperar do golpe: a independência abriu completamente as portas à livre concorrência da indústria já desenvolvida da Europa. Os vaivéns posteriores nas políticas aduaneiras dos governos da independência gerariam sucessivas mortes e renascimentos das manufaturas locais, sem a possibilidade de um desenvolvimento sustentado no tempo.

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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: Do rio, os navios de guerra britânicos saudavam a independência (1)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?

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