domingo à domingo
a vozearia das vozes espalha aquele rosnar acima dos passos, despreza o silêncio submisso e despreocupado, infesta cantos e frestas, dispersa a algazarra, engole o emudecimento contemplativo, avança em todas distâncias, gritinhos e sussurros rebeldes pelos caminhos das pedras polidas
mulheres anônimas em seus uniformes caminham esfregando e revigorando o luzimento dos chãos de pedra, recolhendo pratos copos talheres, sem gritaria ou desordem, como se não existissem, não tivessem nada para dizer, combinar ou alegar, sem rostos, sem vozes, invisíveis, anônimas sem nome, cada uma e todas, desformadas, desformoseadas, mulheres tornadas opacas fazendo brilhar frestas e rejuntes
espreitando das frestas, parados estrategicamente nos cantos ou nas portas de entrada e saída, como mostruários intimidadores, homens uniformizados de luto, cada um com seu melhor olhar diligente, inibidor dos mendicantes, sentinelas convenientes para evitar alvoroços, observam conversas animadas, sem importância, em silêncio, ouvem tudo, não escutam nada, atentos aos seus minúsculos fones de ouvido e microfones disfarçados, uma grande caverna gelada vigiada e resguardada para compras e comidas
olho na minha volta, não encontro nenhum rosto conhecido, não marquei ajuntamento algum, já existiu um tempo que bastava chegar para encontrar amigos, conhecidas, mesmo as desconhecidas pareciam vultos com aparência habitual, até mesmo os frequentes despretensiosos estão ausentes, sumiram
visitantes incógnitos, sem qualquer aparência já vista
continuo aqui, bolorecendo, contaminado por lembranças e caminhos sabidos, apenas mais um desconhecido, bem-parecido com nada, despercebido para esses novos olhares estranhos, também sou lembrança irrelevante definhando
o banquete do tempo
é preciso oferecer alguma contribuição para resistir aos estragos desse banquete, essa regra não tem discussão: filtros para expor-se, arriscar-se, mostrar-se, poses e biquinhos, perdi-me desta vocação, ser saliente, nada especial, alguma saliência abdominal, nada mais, tempos de engordar e adelgaçar sem muito sucesso, os ciclos do velho enfatuado cada vez mais frequentes, histórias que se repetem, desaparecimentos no esquecimento, como tantas outras patranhas criadas para enganar o tempo perdido e jamais recuperado
repetimos os mesmos erros, nossa vocação egoísta de querer mais, não conseguimos ser melhores nem nas cortesias, a pressa desmedida de chegar em algum lugar nos impede de apreciar o espanto as surpresas a poesia pelo caminho, e quando chegamos, parece que não deu muito certo, uma correria vazia para vidas despejadas, desabitadas, não é possível voltar ao início
todos os dias, o mesmo do mesmo, alienação do vozear das palavras volúveis, repetição da repetição, o entra e sai, senta e levanta, a ventilação gelada das horas, menos um minuto, menos uma hora, menos um dia, o desabamento do tempo, às vezes apertado, outras vezes folgado - esse tempo folgado parece cada vez mais inútil e ocupado -, ninguém muito próximo, todos muito afastados, correndo, as mulheres invisíveis de uniforme indo e vindo, apressadas, os homens trajando luto vigiando, preocupados
o ar reaproveitado na caverna tem o faro do azeite bronzeado depois de muitas frituras, os rastros das carnes dessoldadas dos ossos assando até o ponto pedido, Vamos experimentar, escuto o convite
e paro
a voz pouca continua sua atuação decorada, O almoço é livre e acompanha um grelhado malpassado, no ponto ou bem-passado, ao seu gosto.
encaro o balcão às suas costas
salada verde, cenouras e beterrabas esfoladas, arroz, feijão, batatinhas fritas derramando óleo, almôndegas – sempre são a possibilidade de algum reaproveitamento -, milho, ervilhas, ovos cozidos, massa espaguete ao alho e óleo, aipim, gelatina, sagu, huuummm
comer até entulhar o bucho, esguichar a comida garganta adentro enquanto aguentamos, mastigar, engolir, como nesses jogos de comilança, o vencedor precisa comer mais e mais rápido que seus desafiantes, não é sobre a fome nem sobre aproveitar oportunidades, recursos disponíveis, mas sobre comportamentos predatórios e consumo excessivo, danem-se os problemas de saúde, as preocupações ambientais, todos vamos morrer mesmo, mais dia menos dia, teremos nossa extinção
presto atenção na mocinha, acho que a conheço, ainda não reconheço, tento um inventário das lembranças dançando em círculos, talvez alguma aluna sem nome guardado - como se lembrar de nomes fosse comum e corriqueiro para mim -, as vidas dispersas flutuando, uma promessa de familiaridade, nuances sutis, queria apertar um botão e lembrar, desafiando o tempo, desvelando mais uma desconhecida habitual, essas pessoas que encontramos com regularidade no frenesi dos dias, onde cada esquina nos faz um convite ao acaso, uma galeria de rostos sem nomes, anônimas
a senhora da padaria e as histórias do pão que acabou de assar, para ela sou o freguês que gosta do pão mais clarinho, trocamos apenas algumas palavras iguais, escolhemos o silêncio das formalidades
há também, o homem que espera o ônibus, sentado, sempre com um livro nas mãos, mergulhado em páginas e páginas enquanto o ônibus não chega, eu o observo de uma das janelas, sem acenos ou palavras, somos cúmplices do silêncio, assim as histórias permanecem desconhecidas, uma simples pergunta poderia dar início uma amizade, o medo encoraja a indiferença
há também o senhor de cabelos brancos que senta no banco, todos os dias, na frente da minha janela, como se esperasse o ônibus, horas e horas esperando, passa um dois às vezes três, continua sentado, até que levanta e vai para voltar no outro dia
não posso esquecer a jovem que vejo passar apressada com seus fones de ouvido, dançando invisivelmente ao ritmo da música que só ela escuta, e se, num acaso do destino, nossos caminhos se cruzassem mais uma vez em um lugar diferente, quem sabe, em uma cafeteria, onde o tempo parece parar, com certeza não iríamos nos reconhecer
é curioso como esses desconhecidos habituais podem nos tocar
algumas vezes, bastaria um aceno um sorriso uma palavra gentil um gesto de solidariedade, pequenas cerimônias que poderiam criar afinidades momentâneas, desvelar outros pequenos mundos que cada pessoa carrega, universos apertados de experiências e sentimentos, ignoramos e não agradecemos
a beleza desses encontros diários existe não só na ausência de nomes, mas na possibilidade de um vínculo, mesmo que passageiro, não é preciso conhecer alguém profundamente para reconhecer sua humanidade, todos fazemos parte de um mosaico rico em histórias não contadas
quem sabe, entre a correria e o barulho de um dia qualquer, surja coragem para olhar um pouco mais além, saudar o desconhecido não como um estranho, mas uma camarada dessa jornada chamada vida
pergunto se posso repetir, Quantas vezes o professor quiser, responde a jovem anônima, Então... é livre, repito a pergunta, responde com a paciência da aluna distinta para o professor medíocre, sou o próximo a ser reprovado, Sim, a mocinha está cheia de entusiasmo, Come o que puder e mais um grelhado, Comer como um cavalo, O professor pode comer à vontade!
continuo pechinchando, fugindo do calor estrambelhado – saímos do excesso de água para o abuso de sol – daqueles dias muito quentes, o calor lá fora derretendo, Comer até abarrotar a panturra, É livre, Comer até os escombros do buffet, O que o professor aguentar, repetiu
imagino os destroços, cicatrizes da fome, já foi minha aluna, afinal não tenho escrito na testa que sou professor - ou será que tenho? -, não lembro ou foi engano
a algazarra do silêncio chega no balcão das comidas, o calor fervendo fora da caverna, digo sem cuidado, Que bom seria viver aqui para sempre, pelo menos enquanto durar esse calorão, Não acho, não. Sobrevivo aqui de domingo à domingo, sem sol e sem chuva. Tenho uma folga por mês.
olho para a desconhecida habitual e pergunto, Como é o teu nome?
Nenhum comentário:
Postar um comentário