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sábado, 9 de janeiro de 2021

Los Poetas del Amor... Federico García Lorca (España)

 Los Poetas del Amor (76)



Federico García Lorca
- Dime qué lees y te diré quién eres



fragmentos do discurso


"... sentados quietos como estátuas a esperar outro dia e outro e outro, no mesmo ritmo, sem que por sua alma cruze um desejo de saber..."

"... homens escravos da morte sem haver vislumbrado sequer as luzes e a formosura do espírito humano..."

"... no mundo não existe mais que vida e morte, e existem milhões de homens que falam, olham, comem, mas estão mortos. Mais mortos que as pedras e mais mortos que os verdadeiros mortos que dormem seu sono embaixo da terra porque têm a alma morta..."

"... morta porque não tem amor..."

"... sinto a melancolia por todas as gentes que por falta de meios e por desgraça sua não gozam do supremo bem da beleza..."

"... por isso não tenho nunca um livro porque os dou quando os compro..."

"... eu tenho muito mais lástima por um homem que quer saber e não pode..."

"... pedir livros quer dizer pedir horizontes, quer dizer pedir para subir as escadas do espírito e do coração porque a agonia física, biológica, natural... dura pouco, mas a agonia de uma alma insatisfeita dura toda a vida."



Discurso do escritor espanhol Federico García Lorca, na inauguração da biblioteca Fuente Vaqueros, sua terra natal.


Federico García Lorca - Dime qué lees y te diré quién eres





terça-feira, 16 de junho de 2020

Los Poetas del Amor... Federico García Lorca (España)

Los Poetas del Amor (69)






Oh chuva silenciosa, sem tempestades ou ventos
chuva boa e pacífica que você é a verdadeira
Eu canto sua elegância com palavras que gemem






ALMA AUSENTE

No te conoce el toro ni la higuera,
ni caballos ni hormigas de tu casa.
No te conoce el niño ni la tarde
porque te has muerto para siempre.

No te conoce el lomo de la piedra,
ni el rasgo negro donde te destrozas.
No te conoce tu recuerdo mudo
porque te has muerto para siempre.

El otoño vendrá con caracolas,
uva de niebla y montes agrupados,
pero nadie querrá mirar tus ojos
porque to has muerto para siempre.

Porque, to has muerto para siempre
como todos los muertos de la Tierra,
como todos los muertos que se olvidan
en un montón de perros apagados.

No te conoce nadie. No. Pero yo te canto.
Yo canto para luego tu perfil y tu gracia.
La madurez insigne de tu conocimiento.
Tu apetencia de muerte y el gusto de su boca.
La tristeza que tuvo tu valiente alegría.

Tardará mucho tiempo en nacer, si es que nace,
un andaluz tan claro, tan rico de aventura.
Yo canto su elegancia con palabras que gimen
y recuerdo una brisa triste por los ollvos.






LLUVIA

La lluvia tiene un vago secreto de ternura,
algo de soñolencia resignada y amable,
una música humilde se despierta con ella
que hace vibrar el alma dormida del paisaje.

Es un besar azul que recibe la Tierra,
el mito primitivo que vuelve a realizarse.
El contacto ya frío de cielo y tierra viejos
con una mansedumbre de atardecer constante.

Es la aurora del fruto. La que nos trae las flores
y nos unge de espíritu santo de los mares.
La que derrama vida sobre las sementeras
y en el alma tristeza de lo que no se sabe.

La nostalgia terrible de una vida perdida,
el fatal sentimiento de haber nacido tarde,
o la ilusión inquieta de un mañana imposible
con la inquietud cercana del color de la carne.

El amor se despierta en el gris de su ritmo,
nuestro cielo interior tiene un triunfo de sangre,
pero nuestro optimismo se convierte en tristeza
al contemplar las gotas muertas en los cristales.

Y son las gotas: ojos de infinito que miran
al infinito blanco que les sirvió de madre.

Cada gota de lluvia tiembla en el cristal turbio
y le dejan divinas heridas de diamante.
Son poetas del agua que han visto y que meditan
lo que la muchedumbre de los ríos no sabe.

¡Oh lluvia silenciosa, sin tormentas ni vientos,
lluvia mansa y serena de esquila y luz suave,
lluvia buena y pacifica que eres la verdadera,
la que llorosa y triste sobre las cosas caes!

¡Oh lluvia franciscana que llevas a tus gotas
almas de fuentes claras y humildes manantiales!
Cuando sobre los campos desciendes lentamente
las rosas de mi pecho con tus sonidos abres.

El canto primitivo que dices al silencio
y la historia sonora que cuentas al ramaje
los comenta llorando mi corazón desierto
en un negro y profundo pentágrama sin clave.

Mi alma tiene tristeza de la lluvia serena,
tristeza resignada de cosa irrealizable,
tengo en el horizonte un lucero encendido
y el corazón me impide que corra a contemplarte.

¡Oh lluvia silenciosa que los árboles aman
y eres sobre el piano dulzura emocionante;
das al alma las mismas nieblas y resonancias
que pones en el alma dormida del paisaje!





FEDERICO GARCÍA LORCA "Lluvia". Recitado por Joan Mora.







SONETOS DE UN AMOR OSCURO

Amor de mis entrañas, viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso, con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.

El aire es inmortal, la piedra inerte
ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna vierte.

Pero yo te sufrí, rasgué mis venas,
tigre y paloma, sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.

Llena, pues, de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena noche
del alma para siempre oscura.





Sonetos del Amor Oscuro 
- El poeta pide a su amor que le escriba 
- FEDERICO GARCÍA LORCA - Voz FENETÉ







________________________________


A vida e as mortes de Federico García Lorca

JULIANA GRAGNANI


"Federico morreu perto de seu povoado durante a guerra na Espanha." A frase, publicada em um livro didático espanhol em 2011, introduziu crianças de seis anos à história do poeta e dramaturgo Federico García Lorca, um dos mais célebres do país. Seu assassinato, em 1936, foi omitido do texto direcionado a estudantes.

Em maio deste ano, depois que o caso veio à tona, a editora espanhola responsável pela publicação retirou os livros do mercado e prometeu corrigir as edições seguintes.

A versão sem censuras: Lorca morreu fuzilado aos 38 anos pelas forças antirrepublicanas da Espanha, um mês após o início da Guerra Civil no país. Seus restos não foram encontrados até hoje.

Um dos responsáveis por esclarecer as circunstâncias da morte do poeta foi o escritor hispanista Ian Gibson, 75, autor de "Federico García Lorca: A Biografia" [trad. Augusto Klein, Biblioteca Azul, R$ 69,90, 718 págs.], volume lançado em 1989 no Brasil e que agora ganha segunda edição, com novo prefácio escrito pelo autor.

Em 1965, quando o país ainda estava sob o regime do general Francisco Franco (ditador entre 1936 e 1975), o irlandês começou a investigar o assassinato de Lorca em Granada, no sul da Espanha.

"O acesso à informação era difícil. Tive que me tornar um bom mentiroso. Até mandei fazer falsos cartões de visita", diz Gibson, em entrevista por e-mail. O autor se tornou cidadão espanhol em 1984 e hoje vive em Madri. Para obter informações sobre a morte de Lorca, ele fingiu investigar a participação da Irlanda na Guerra Civil Espanhola. O resultado foi o livro "A Morte de Lorca" (Civilização Brasileira, esgotado), publicado em 1971 em Paris e banido da Espanha à época. Para escrever esse e outros livros sobre o poeta, como o agora reeditado, Gibson diz que entrevistou mais de mil pessoas.


PIANISTA

Lorca nasceu em 5 de junho de 1898, no lugarejo de Fuente Vaqueros, aos pés da Serra Nevada, próximo a Granada. Em 1909 mudou-se para a cidade. Era mau aluno, mas um talentoso pianista, que mais tarde viria a destacar-se no meio literário.

Lorca nasceu em 5 de junho de 1898, no lugarejo de Fuente Vaqueros, aos pés da Serra Nevada, próximo a Granada. Em 1909 mudou-se para a cidade. Era mau aluno, mas um talentoso pianista, que mais tarde viria a destacar-se no meio literário.

O autor das peças "Bodas de Sangue" (1933) e "A Casa de Bernarda Alba" (1933-36) era homossexual. Por causa dos trejeitos afeminados, no colégio chegou a ser chamado de "Federica".

Sua orientação sexual era um problema para a família -e acabou sendo um entrave para a realização da biografia. O autor afirma que os parentes de Lorca lhe deram acesso "relativo, nunca total" aos arquivos do espanhol.

"Seu irmão Francisco e sua irmã Isabel se recusavam a falar sobre o assunto, quando para mim parecia fundamental levá-lo em consideração. Quando perceberam, começaram a se afastar. À medida que eu investigava mais a fundo, o relacionamento ia ficando mais difícil. Por fim, rompeu-se", afirma.

Presidente da Fundação García Lorca, Laura García Lorca, sobrinha do poeta, relativiza a posição de seu pai, Francisco, e de sua tia, Isabel. "Eram outros tempos, não se falava de sexualidade e menos ainda de homossexualidade", disse, em entrevista por telefone, de Madri.

Segundo ela, o biógrafo teve "acesso total" aos documentos de Lorca. "Talvez não tivesse tido antes porque não existia a fundação, e não porque alguém tenha ocultado algo dele", diz. A instituição foi criada em 1984, um ano antes da publicação do primeiro volume da biografia na Espanha.

Se a legislação espanhola fosse como a brasileira, é possível que a biografia de Lorca não tivesse sido publicada no país europeu. Aqui, de acordo com os artigos 20 e 21 do Código Civil, biografados e herdeiros podem vetar uma biografia que não tenha sido autorizada ou aprovada por eles. A regra tomou o debate público no ano passado, quando artistas como Roberto Carlos, Chico Buarque e Caetano Veloso disseram ser favoráveis à manutenção da norma vigente no país.

Tido como um dos principais biógrafos de personalidades espanholas -além de Lorca, escreveu sobre a vida do pintor Salvador Dalí (1904-89) e do cineasta Luis Buñuel (1900-83), entre outros-, Gibson diz que não há maneira definitiva para resolver a questão da privacidade. Mas a mais absurda, para ele, é a supervisão da obra pelo biografado ou sua família.

"A ideia de 'supervisão' é tão horripilante quanto a ideia de a família autorizar alguém a escrever uma versão oficial, deixando de fora áreas sensíveis ou polêmicas", afirma o biógrafo. Nesse caso, diz, "uma biografia honesta não é possível".

Embora reconheça ser impossível mantê-los integralmente, a sobrinha de Lorca defende "espaços privados" para os biografados. "Há questões que as pessoas quiseram que fossem privadas e eu prefiro respeitá-las."


CÃO ANDALUZ

Lorca foi ator, diretor, pianista, guitarrista, ensaísta, pintor, dramaturgo e poeta. Atraente -moreno, de sobrancelhas grossas e olhos grandes-, ele é descrito por amigos ora como radiante, ora como melancólico.

Foi na Residencia de Estudiantes, em Madri, ponto de encontro de artistas da época, que Lorca tornou-se amigo de Dalí e de Buñuel.

Mais do que isso: o poeta foi apaixonado por Dalí. Buñuel tinha ciúme da relação entre os dois. "Lorca era louco por Dalí, mas Dalí morria de medo de ser gay, e resistiu até o fim. Buñuel era homofóbico a ponto de também levantar dúvidas", afirma Gibson.

Em 1928, Buñuel e Dalí produziram o filme surrealista "Um Cão Andaluz". Os colegas da Residencia referiam-se às pessoas do sul da Espanha como "cães andaluzes" (perros andaluces), em referência à sua região de origem. Mas, como o amigo Ángel del Río depois relataria, Lorca viu no filme um ataque direto a ele. "Buñuel fez uma merdinha de filme chamado 'Um Cão Andaluz' -e o cão sou eu", disse Lorca, conforme relato de Del Río.

No mesmo ano, Lorca lançou o livro de poemas "Romanceiro Cigano", em que misturou linguagens erudita e popular para retratar a Andaluzia. Em Nova York, no ano seguinte, o autor escreveu "Poeta em Nova York", no qual flertou com o surrealismo.


ENCANTO

Última capital árabe da Península Ibérica, reconquistada pelos espanhóis em 1492, hoje uma cidade turística e universitária, Granada é conhecida pelo encanto que exerce sobre os visitantes -a maioria quer conhecer a Alhambra, fascinante palácio árabe erguido no alto de uma montanha. Para Lorca, Granada foi sobretudo uma fonte de inspiração.

É para lá que a sobrinha do poeta, Laura, quer transferir os arquivos do tio que hoje ficam na fundação, em Madri. Em 2007, a União Europeia, o governo da Andaluzia e a prefeitura de Granada criaram um consórcio para construir na cidade o Centro Federico García Lorca, ao custo estimado de 23 milhões de euros. As obras, cuja conclusão era prevista para 2010, não foram terminadas até hoje.

Laura diz à Folha que o local será inaugurado em setembro do ano que vem. Hoje, é possível visitar em Granada a Huerta de San Vicente, casa de veraneio dos Lorca transformada em um pequeno museu.

Foi nessa casa que Lorca escreveu grande parte de suas obras. Passou o verão de 1931 ali, escrevendo "como uma fonte", produzindo de manhã, de tarde e de noite um livro de versos, segundo carta que escreveu a um amigo.

A hipótese mais provável é que a obra em questão fosse "O Divã do Tamarit" [trad. Josely Baptista Vianna, Biblioteca Azul, R$ 39,90, 80 págs.], dedicada pelo autor aos antigos poetas árabes de Granada. O título, que ganha nova edição no Brasil (bilíngue e com ilustrações do escritor, como a desta página), é o último de poemas de Lorca, escrito entre 1931 e 1935.

"Somente um granadino poderia sentir com tão aguda hiperestesia essa tendência a debruçar-se sobre a ruína, esse negligente e sensual abandono que -diante de uma Sevilha exata e uma Córdoba elegante- caracteriza Granada", escreveu o arabista Emilio García Gómez (1905-95) na introdução ao "Divã do Tamarit".

Versos de Lorca comparam Granada à lua -provável referência às casas brancas do bairro árabe- e destacam os sons de água corrente de uma cidade repleta de fontes e açudes.

"Ele se identificava com a Granada perdida para sempre em 1492 e dizia que ser de Granada o fazia simpatizar com todas as pessoas sofridas", afirma Gibson. Nos poemas do "Divã" também há referências à morte, uma constante em toda a obra de Lorca. Dizem os primeiros versos de "Do Menino Morto": "Todas as tardes em Granada/ todas as tardes morre um menino./ Todas as tardes senta-se a água/ para falar com seus amigos".

"Granada era o cenário de sua infância, mas também era cenário do sofrimento", lembra a sobrinha Laura. Na última entrevista que concedeu, ao jornal "El Sol" em julho de 1936, Lorca afirmou que na cidade vivia a "pior burguesia de toda a Espanha". Gibson diz que políticos de direita na cidade odiavam Lorca, o que contribuiria para seu assassinato no mês seguinte.


ROSÁRIO DE MORTES

Certa vez, vestido de toureiro em um Carnaval em Granada, Lorca fez amigos carregarem seu corpo pelas ruas, como se ele tivesse recebido uma chifrada mortal. Em outra ocasião, caiu na risada ao descrever a Dalí, em detalhe, a cena do fechamento do caixão com seu corpo e o cortejo fúnebre que tomaria as ruas esburacadas da cidade.

Amigos de Lorca diziam que ele era obcecado pela morte e gostava de dramatizar seu próprio fim.

O poeta americano Philip Cummings registrou em seu diário uma viagem de trem que fez com o autor em 1929, na qual Lorca comentou que o homem passava a existência "num jogo de esconde-esconde com a morte"."Perguntei-lhe qual era para ele o sentido da vida. A resposta foi simples: 'Philip, a vida é riso entre um rosário de mortes; é olhar além do homem que gargalha e ver o amor no coração das pessoas", escreveu Cummings.

A morte encontraria Lorca em 1936, quando um golpe militar contra a República Espanhola desencadeou uma guerra civil no país. Na tarde de 20 de julho, a guarnição de Granada sublevou-se contra os republicanos. Manuel Fernández-Montesinos, prefeito de Granada e cunhado de Lorca, foi preso em seu gabinete.

Alvo fácil por ser poeta, homossexual e simpático à República, Lorca decidiu esconder-se na casa de um amigo, o poeta Luis Rosales. Menos de um mês depois, em 16 de agosto, Lorca foi encontrado pelos fascistas. Naquele mesmo dia, seu cunhado fora executado. Quem entrou na casa de Rosales para prender Lorca foi o ex-deputado Ramón Ruiz Alonso, pertencente a uma coligação direitista. Sua alegação? Lorca "havia feito mais estragos com sua pena do que outros com suas armas". Dias depois de ficar preso na sede do governo, Lorca foi executado entre os vilarejos de Víznar e Alfacar, nas cercanias de Granada, onde vários outros "vermelhos" foram fuzilados.


EXUMAÇÃO

Talvez a principal divergência entre o biógrafo de Lorca e a família do poeta seja o apoio de Gibson à exumação do corpo de seu biografado. Em 2009, o irlandês apontou o lugar onde acreditava estarem os restos do poeta, de acordo com o que apurou com uma testemunha. Mas as escavações não resultaram em nada. Hoje, o autor cita promessa do governo de esquerda à frente da região da Andaluzia de procurar as vítimas da repressão franquista. E diz manter esperanças de que os restos sejam encontrados.

Se depender dos herdeiros de Lorca, não. "Entendemos o desejo de buscar os restos de familiares, mas acreditamos que não é o caso de Lorca. Ele está onde deveria: entre tantos mortos desconhecidos", diz Laura. "Ele não está acima de ninguém, é mais uma das vítimas. Separar seus restos não nos dá nenhum consolo." Em 1940, quatro anos após o assassinato do poeta, sua morte foi registrada em Granada. O documento declarava que Lorca havia morrido "em consequências de ferimentos de guerra".

"Para o mundo, dava a impressão de que o poeta tinha sido vítima de uma bala perdida", escreveu Gibson. De certa forma -em livros didáticos ou no esquecimento- essa percepção ameaça permanecer até hoje.


JULIANA GRAGNANI, 23, é jornalista da Folha.

FEDERICO GARCÍA LORCA (1898-1936), poeta e dramaturgo espanhol, autor de, entre outros, "A Casa de Bernarda Alba" (Humanidades).





Breve biografía de Federico García Lorca




sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Federico García Lorca - Yerma (1 ato - 1 quadro)

Federico García Lorca - Yerma





PERSONAGENS



YERMA
MARIA
VELHA PAGÃ
DOLORES
1 ª  LAVADEIRA
2 ª  LAVADEIRA
3 ª  LAVADEIRA
4 ª  LAVADEIRA
5 ª  LAVADEIRA
6 ª  LAVADEIRA
1 ª  RAPARIGA
2 ª  RAPARIGA
FÊMEA
1 ª  CUNHADA
2 ª  CUNHADA
1 ª  MULHER
2 ª  MULHER
MENINO
JOÃO
VICTOR
MACHO
1 °  HOMEM
2 °  HOMEM

3 °  HOMEM







PRIMEIRO  ATO


PRIMEIRO  QUADRO

            Ao levantar-se o pano, Yerma está adormecida, tendo aos pés uma cestinha de costura. A cena tem uma estranha luz de sonho.  Entra um pastor nas pontas dos pés, fitando firmemente Yerma.  Leva pela mão um menino vestido de branco.  O relógio bate.  Quando o pastor entra, a luz é substituída por uma alegre claridade matinal de primavera.  Yerma desperta.


CANTO
(Voz dentro)
                        Nana, nana, nana, nana,
                        nana, nana, que faremos
                        uma palhoça no campo
                        e nela nos meteremos.
YERMA
            João, não me ouves, João?
JOÃO
            Já  vou.
YERMA
            Está na hora.
JOÃO
            Já passaram as juntas?
YERMA
            Passaram.
JOÃO
            Até logo.   (Faz menção de sair.)
YERMA
            Não tomas um copo de leite?
JOÃO
            Para quê?
YERMA
            Trabalhas muito e não tens corpo para tanto trabalho.
JOÃO
            O corpo enxuto de carne torna-se forte como o aço.
YERMA
            Mas o teu, não. Quando casamos, eras outro. Agora tens a cara branca como se o sol não te batesse nela.  Gostaria que fosses ao rio e nadasses, e subisses ao telhado quando a chuva nos entra pela casa adentro.  Já estamos casados há vinte e quatro meses e tu cada vez mais triste, mais seco, como se crescesses ao contrário.
JOÃO
            Acabaste?
YERMA
            (Levantando-se) – Não me leves a mal.  Se eu estivesse doente, gostaria que me tratasses.  “Minha mulher está doente – vou matar este cordeiro para fazer-lhe um bom ensopado.”  “Minha mulher está doente – vou guardar esta enxúndia de galinha para aliviar-lhe o peito; vou levar-lhe esta pele de ovelha para resguardar-lhe os pés da neve.”  Eu sou assim.  Por isso trato de ti. 
JOÃO
            E eu te agradeço.
YERMA
            Mas não te deixas tratar.
JOÃO
            É que não tenho nada.  Todas essas coisas são suposições tuas.  Trabalho muito.  Todos os anos irei ficando mais velho.
YERMA
            Todos os anos. . .  Tu e eu continuaremos aqui todos os anos. . .
JOÃO
            (Sorridente) – Naturalmente.  E muito sossegados.  Os negócios vão bem; não temos filhos que gastem.
YERMA
            Não temos filhos. . . João!
JOÃO
            Fala.
YERMA
            Eu não gosto de ti?
JOÃO
            Gostas.
YERMA
            Sei de raparigas que tremeram e choraram antes de se entregarem a seus maridos.  E eu?  Chorei?  A primeira vez que dormi contigo? Não cantava ao levantar as barras dos lençóis de holanda?  E não te disse:  Como cheiram a maça estas roupas?
JOÃO
            Foi o que disseste!
YERMA
            Minha mãe chorou, porque não tive pena de separar-me dela.  E era verdade!  Ninguém se casou com mais alegria.  E no entanto. .  .
JOÃO
            Cala-te.  Já estou cansado de ouvir a todo instante. . .
YERMA
            Não.  Não me repitas o que dizem.  Vejo com os meus olhos que isso não pode ser. . .  De tanto cair a chuva nas pedras, elas amolecem e fazem nascer saramagos, que o povo diz que não servem para nada.  “Os saramagos não prestam para nada”. . .  mas eu bem os vejo moverem pelo ar suas flores amarelas.
JOÃO
            É preciso esperar.
YERMA
            Sim;  querendo (Yerma abraça e beija o marido, tomando ela a iniciativa.)
JOÃO
            Se precisas de alguma coisa, dize-me que a trarei.  Já sabes que não gosto que saias.
YERMA
            Nunca saio.
JOÃO
            Estás melhor aqui.
YERMA
            É.
JOÃO
            A rua é para os desocupados.
YERMA
            (Sombria) – Claro.
(O marido sai e Yerma dirige-se para a costura. Passa a mão pelo ventre, levanta os braços num lindo bocejo e senta-se a coser.)
            De onde é que vens, amor, meu filho?
            Da crista do duro frio.
            De que precisas, amor, meu filho?
            Do morno pano de teu vestido.
                        (Enfia a agulha)
            Que se agitem as ramas ao sol
            e as fontes saltem todas, em redor!
                        (Como se falasse com uma criança)
            Ladra o cão pelo terreiro,
            na folhagem canta o vento.
            Muge o boi ao boiadeiro
            e a lua me encrespa o cabelo.
            Que pedes, filho, de tão longe?
                                                           (Pausa)
            Os brancos montes que há no teu peito.
            Que se agitem as ramas ao sol
            e as fontes saltem todas, em redor!
                        (Cosendo)
            Filho meu, dir-te-ei que sim.
            Despedaçada me dou a ti.
            Sofre a cintura que te ofereço,
            e que será teu primeiro berço!
            Quando, meu filho, poderás vir?
                                                           (Pausa)
            Quando teu corpo cheire a jasmim.
            que se agitem as ramas ao sol
            e as fontes saltem todas, em redor!
(Yerma continua a cantar. Pela porta entra Maria, que vem com um embrulho de roupa)
YERMA
            De onde vens?
MARIA
            Da loja.
YERMA
            Da loja?  Tão cedo?
MARIA
            Por mim, teria ficado à porta., esperando que abrissem. . . 
Quem é capaz de saber o que comprei?
YERMA
            Deves ter comprado café, para de manhã, açúcar e pão.
MARIA
            Nada disso. Comprei rendas, três varas de linho, fitas de lã de cor para fazer borlas.  O dinheiro era de meu marido e foi ele mesmo que mo deu.
YERMA
            Vais fazer uma blusa.
MARIA
            Não.  É porque. . .  Sabes?
YERMA
            Que é?
MARIA
            Porque. . .  já chegou!
(Fica de cabeça baixa.  Yerma levanta-se e deixa-se estar contemplando-a com admiração)
YERMA
            Aos cinco meses!
MARIA
            É.
YERMA
            E já o percebeste?
MARIA
            Naturalmente.
YERMA
            (Com curiosidade) – E que sentes?
MARIA
            Não sei.  Angústia.
YERMA
            Angústia (Agarrada a ela). – Mas. . .  quando chegou?
Dize-me. Tu estavas descuidosa.
MARIA
            É, descuidosa. . .
YERMA
            Estarias cantando, não é?  Eu canto.  Tu. . .  dize-me. . .
MARIA
            Não me perguntes.  Nunca tiveste um pássaro vivo apertado na mão?
YERMA
            Já.
MARIA
            Pois é o mesmo. . .  mas por dentro do sangue.
YERMA
            Que maravilha! 
(Mira-a extasiada)
MARIA
            Estou aturdida.  Não sei nada.
YERMA
            De quê?
MARIA
            Do que tenho que fazer.  Vou perguntá-lo a minha mãe.
YERMA
            Para quê? Já está velha e terá esquecido estas coisas. Não andes muito, e, quando respirares, respira de leve, como se tivesses uma rosa entre os dentes.
MARIA
            Ouve:  dizem que, mais para adiante, empurra suavemente com as perninhas.
YERMA
            E então é quando se lhe tem mais amor; quando já se diz: “meu filho!”
MARIA
            No meio de tudo, tenho vergonha.
YERMA
            Teu marido, que disse?
MARIA
            Nada.
YERMA
            Gosta muito de ti?
MARIA
            Não me fala nisso, mas põe-se ao pé de mim e seus olhos tremem como duas folhas verdes.
YERMA
            Ele sabia que tu. . .?
MARIA
            Sabia.
YERMA
            E como o sabia?
MARIA
            Não sei. Mas na noite do nosso casamento me dizia tantas vezes isso, com a boca na minha face, que até me parece que o meu filho é um pombinho de luz que ele deixou escorregar pelo meu ouvido.
YERMA
            Criatura feliz!
MARIA
            Mas tu estás mais inteirada disto do que eu.
YERMA
            De que me serve?
MARIA
            É verdade. Por que será? De todas as noivas de teu tempo, és a única. . .
YERMA
            Assim é.  Claro que ainda é tempo. Helena levou três anos; e outras, antigas, do tempo de minha mãe, levaram muito mais.  Mas dois anos e vinte dias, como eu, já é esperar demasiado.  Acho que não é justo que me consuma aqui.  Muitas noites saio descalça pelo pátio, para pisar a terra, não sei por quê. Se continuo assim, acabarei tornando-me má.
MARIA
            Mas, criatura, vem cá: falas como se fosses uma velha. Que digo! Ninguém se pode queixar destas coisas.  Uma irmã de minha mãe teve-o depois de quatorze anos!. . . e se visses que lindeza de criança!
YERMA
            (Com ansiedade) – Que fazia?
MARIA
            Chorava como um tourinho, com a força de mil cigarras cantando ao mesmo tempo, e nos molhava, e nos puxava as tranças, e quando fazia quatro meses nos enchia a cara de arranhões.
YERMA
            (Rindo) – Mas essas coisas não doem.
MARIA
            Eu sei!. . .
YERMA
            Ora!  Eu vi minha irmã dar de mamar ao filho com o peito cheio de gretas e lhe produzia uma grande dor, mas era uma dor fresca, boa, necessária à saúde.
MARIA
            Dizem que se sofre muito com os filhos.
YERMA
            Mentira. Isso é o que dizem as mães fracas, queixosas.  Para que os têm?  Ter um filho não é ter um ramo de rosas.  Precisamos sofrer, para vê-los crescer.  Acho que nisso se vai metade do nosso sangue.  Mas isso é bom, sadio, belo. Toda mulher tem sangue para quatro ou cinco filhos, e quando os filhos não vêm, o sangue torna-se veneno, como me vai acontecer.
MARIA
            Não sei o que tenho.
YERMA
            Sempre ouvi dizer que, da primeira vez, as mulheres têm medo.
MARIA
            (Tímida) – Vamos a ver. . .  Como coses bem. . .
YERMA
            (Apanhando o embrulho) – Dá cá.  Cortarei duas roupinhas.  E isto?
MARIA
            São as fraldas.
YERMA
            Está bem. (Senta-se)
MARIA
            Então. . . até logo. (Aproxima-se e Yerma toma-lhe amorosamente o ventre nas mãos)
YERMA
            Não corras pelas pedras da rua.
MARIA
            Adeus.  (Beija-a e sai)
YERMA
            Volta, assim que puderes
(Yerma fica na mesma atitude do começo. Apanha a tesoura e começa a cortar.  Entra Victor.)
            Olá, Victor.
VICTOR
            (Sério, de aspecto grave) – Por onde anda João?
YERMA
            Pelo campo.
VICTOR
            Que está cosendo?
YERMA
            Estou cortando umas fraldas.
VICTOR
            (Sorrindo) – Muito bem!
YERMA
            (Rindo) – Vou botar-lhes uma cercadura de renda.
VICTOR
            Se for menina, dar-lhe-ás teu nome.
YERMA
            (Tremendo) – Como?
VICTOR
            Alegro-me por ti.
YERMA
            (Quase sufocada) – Não. . . não são para mim.  São para o filhinho de Maria.
VICTOR
            Bem, pois vamos a ver se, com o exemplo, te animas. Nesta casa faz falta uma criança.
YERMA
            (Com angústia) – Se faz!
VICTOR
            Pois, para a frente! Dize ao teu marido que pense menos no trabalho. Quer juntar dinheiro e há de juntá-lo, mas para quem o deixará, quando morrer? Eu me vou com as ovelhas. Dize ao João que recolha as duas que me comprou. E quanto ao resto. . . É preciso lavrar mais fundo!
                                               (Vai-se embora sorrindo.)
YERMA
            (Com paixão.)
                        É isso! Lavrar mais fundo!
                        Pois, meu filho, dir-te-ei que sim,
                        despedaçada me dou a ti.
                        Sofre a cintura que te ofereço
                        para ser teu primeiro berço!
                        Quando, meu filho, virás a mim?
                        Quando teu corpo cheire a jasmim!
(Yerma, que em atitude pensativa se levanta e corre para o lugar onde esteve Victor e respira, –  fortemente como se aspirasse ar de montanha – vai depois para o outro lado da sala, como à procura de alguma coisa, e de lá volta a sentar-se, e torna a pegar na costura. Começa a coser, e fica de olhos fitos num ponto.)


Cortina



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É uma obra popular de caráter trágico, ambientada em Andaluzia, no início do século XX. Yerma é uma mulher que vive o drama de não poder conceber um filho. ... Desesperada, Yerma descobre que o seu marido não deseja ter filhos e, enlouquecida entre o desejo de conceber um filho e a sua impossibilidade, ela...
Num ambiente rural, Yerma é casada com João há dois anos e vinte dias. Não têm filhos, mas ela os deseja intensamente. Esse é seu drama e sua maior preocupação. É uma das raras casadas do vilarejo que não os têm. A tradição ali é esta: casar e ter filhos. Na casa, falam constantemente nisso. Tornou-se o problema do casal. Maria, a amiga, espera um bebê, para quem Yerma faz um enxoval. E Víctor, um ex-namorado, é uma presença incômoda: uma perda do passado e um presente proibido. Passa-se um ano. Yerma vai levar almoço ao marido que trabalha no campo, como fazem outras mulheres. Encontra uma velha que teve 14 filhos, dos quais morreram 6. Falam de filhos e de casamentos com e sem amor. Encontra também duas raparigas, uma que deixou o filho em casa sozinho; outra que ainda não tem filhos, como Yerma. O diálogo gira em torno do papel das mulheres naquela sociedade. Entre confidências, Yerma revela que seu casamento com Juan resultou de uma imposição do pai; e sugere que só Victor lhe despertou sentimentos mais fortes, quando eram mais jovens Yerma encontra Víctor e fica mais evidente que ainda há um clima entre eles. Chega João que a manda para casa, dizendo que não volta para dormir em casa. Vai ficar vigiando a água, pouca nessa região, para não ser roubada. Dois anos mais tarde...