Reproducção fiel da edição original de 1870
PRIMEIRO VOLUME
ESPUMAS FLUCTUANTES
EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica.
com uma inlroducção bibliographica e annotações de
AFRANIO PEIXOTO
ESPUMAS FLUCTUANTES
reproducção fiel da edição original de 1870
HYMNOS DO EQUADOR
publicações posthumas e poesias inéditas
OS ESCRAVOS
texto integral, parte inédita, com
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS
drama em 4 actos, segundo a edição original
VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA
conforme autographos e manuscriptos authenticos
ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870
A' MEMÓRIA
DE
MEU PAE,
DE
MINHA MÃE
E DE
MEU IRMÃO
O. D. C
Poesias Lyricas
DALILA
Fair delect oi nature
MILTON (Parodia* loat).
Pedir seiva de vida — á sepultura,
Em gelo — me abrasar,
Pedir amores — a Marco sem brio,
E a. rebolcar-me em leito immundo e frio
— A ventura buscar.
Errado viajor — sentei-me á alfombra
Errado viajor — sentei-me á alfombra
E adormeci da mancenilha á sombra
Em berço de setim...
Embalava-me a brisa no meu leito...
Tinha o veneno a lacerar-me o peito
— A morte dentro em mim...
Foi loucura!... No occaso — tomba o astro;
A estatua branca e pura de alabastro
— Se mancha em lodo vil...
Quem rouba a estrella — á tumba do occidente ?
Que Jordão lava na lustrai corrente
O marmóreo perfil?...
Talvez!... Foi sonho!... Em noite nevoenta
Talvez!... Foi sonho!... Em noite nevoenta
Ella passou sósinha, macilenta
Tremendo a soluçar...
Chorava — nenhum echo respondia...
Sorria — a tempestade além bramia...
E ella sempre a marchar.
E eu disse-lhe: Tens frio? — arde minha alma.
E eu disse-lhe: Tens frio? — arde minha alma.
Tens os pés a sangrar? — podes em calma
Dormir no peito meu.
Pomba errante — é meu peito um ninho vago!
Estrella — tens minha alma — immenso lago —
Reflecte o rosto teu!...
E amamos... Este amor foi um delírio...
E amamos... Este amor foi um delírio...
Foi ella minha crença, foi meu lirio,
Minha estrella sem véu...
Seu nome era o meu canto de poesia,
Que com o sol — penna de ouro — eu escrevia
Nas lâminas do céu.
Em seu seio escondi-me... como á noite
Em seu seio escondi-me... como á noite
Incauto colibri, temendo o açoite
Das iras do tufão,
A cabecinha esconde sob as asas,
Faz seu leito gentil por entre as gazas
Da rosa do Japão.
E depois... embalei-a com meus cantos
Seu passado esqueci... lavei com prantos
Seu lodo e maldição...
... Mas um dia acordei... E mal desperto
Olhei em torno a mim... — Tudo deserto...
Deserto o coração...
Ao vento, que gemia pelas franças
Ao vento, que gemia pelas franças
Por ella perguntei... de suas trancas
A' flor que ella deixou...
Debalde... Seu lugar era vazio...
E meu lábio queimado e o peito frio,
Foi ella que o queimou...
Minha alma nodoou no osculo immundo,
Minha alma nodoou no osculo immundo,
Bem como Satanaz — beijando o mundo —
Manchou a creação,
Simoun — crestou-me da esperança as flores...
Tormenta — ella afogou nos seus negrores
A luz da inspiração...
Vai, DalilaL. E' bem longa tua estrada...
Vai, DalilaL. E' bem longa tua estrada...
E' suave a descida — terminada
Em barathro cruel.
Tua vida — é um banho de ambrosia...
Mais tarde a morte e a lâmpada sombria
Pendente do bordel.
Hoje flores... A musica soando...
Hoje flores... A musica soando...
As perlas do Champagne gottejando
Em taças de crystal.
A volúpia a escaldar na louca insomnia...
Mas suffoca os festins de Babylonia
A legenda fatal.
Tens o seio de fogo e a alma fria.
Tens o seio de fogo e a alma fria.
O sceptro empunhas lubrico da orgia
Em que reinas tu só!...
Mas que finda o ranger de uma mortalha,
A enxada do coveiro que trabalha
A revolver o pó.
Não te maldigo, não!... Em vasto campo
Não te maldigo, não!... Em vasto campo
Julguei-te — estrella, — e eras — pyrilampo
Em meio á cerração...
Prometheu — quis dar luz á fria argilla...
Não pude... Pede a Deus, louca Dalila,
A luz da redempção !...
Recife, 1864.
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Espumas Fluctuantes, Edição original: XXXIX.
Pbl. na "Imprensa Acadêmica", de S. Paulo, n". 7, de 5 de Julho de 1868, quasi sem alteração: apenas, na 9.* estância, ultimo verso: "Foi ella que gelou". A importância desta versão é, porem, a data: "Recife — Setembro de 1864".
1) Dalila (titulo). Não é a personagem biblica, como se poderia immediatamente pensar, mas a da ficção de Octavio Feuillet, heroina symbolica que dá o nome a um drama, em 3 actos e 6 quadros, representa do em Paris em 1857 pela primeira vez e, depois, por toda a parte. No Brasil foi levado á scena muitas vezes e Castro Alves o àpplaudiu, representado por Furtado Coelho e Eugenia Câmara, a qual encarnava Leonora, princeza Falconieri, a Dalila que rende os Sansões, cortezã de excelsa formosura e coração insensível, que immola perversamente as affeiçôes que desperta e provoca, até as vidas que lhe consagram. O nosso Poeta vingou no seu canto os artistas, como o desgraçado André Roswein, o "cysne dalmata", que se degrada e morre por ella, traiçoeira Dalila.
2) Marco (estância i\, v. 4). Na versão da "Imprensa Acadêmica" vem accentuada assim a palavra, que é como se lê o original francês: "Marco". Personagem principal do drama Les Filies de Marbre, de Theodore Barrière et Lambert Thiboust, em 5 actos, representando em 1853 em Paris e depois também por toda a parte. No Brasil constava do repertório de Furtado Coelho e Eugenia Câmara. As Mulheres de Mármore têm uma dupla celebridade: foram a refutação da these de Alexandre Dumas Filho na Dama das Ca melias, tentativa de rehabilitação das cortezãs, pelo amor, e imitação quasi plagiaria, pela Dalila, de Octavio Feuillet. Marco é uma Dalila, como foi depois a. Leonora, a hetaira que devora os patrimônios e degrada os talentos, insensivel a tudo, excepto ao oiro, como as "mulheres de mármore", do prefacio, que é o começo symbolico do drama. Em Athenas, rico amador encomenda a Phidias três estatuas de mulher, Phryné, Lais, Aspasia, as quaes tão bellas saem do cinzel que ao próprio criador apaixonam. Por isso, não quer o artista entregá-las ao dono, mas apenas restituir-lhe o dinheiro recebido antecipadamente, ao que não convém este. Diogenes intervém: as próprias estatuas o decidirão: "Qual preferem dos dois — um, pobre artista, de gênio e de coração, ou o outro, velho idiota, rico de oiro?" As mulheres de mármore sorriem a este. O philosopho exclama: "Eu bem vos reconheço, ó mulheres de mármore, cortezãs do presente, cortezãs do futuro!" Marco, uma destas, em Paris e na época contemporânea, é como as outras, e o drama doloroso e commovido anda em torno delia.
Na poesia de Castro Alves ha allusões claras a situações do drama: Raphael, o moço escultor, de gênio e sensibilidade, quando se desenlaça da traçoeira que o empobreceu e degradou, não tem mais gênio nem entusiasmo. O "lábio queimado", o "peito frio", crestadas "as flores da esperança", afogada "a luz da inspiração", nada mais lhe resta, senão morrer. Não creio que em 1864, quando a escreveu Castro Alves, houvesse allusão pessoal: a poesia traduz apenas, em verso, uma impressão de teatro.
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Pbl. na "Imprensa Acadêmica", de S. Paulo, n". 7, de 5 de Julho de 1868, quasi sem alteração: apenas, na 9.* estância, ultimo verso: "Foi ella que gelou". A importância desta versão é, porem, a data: "Recife — Setembro de 1864".
1) Dalila (titulo). Não é a personagem biblica, como se poderia immediatamente pensar, mas a da ficção de Octavio Feuillet, heroina symbolica que dá o nome a um drama, em 3 actos e 6 quadros, representa do em Paris em 1857 pela primeira vez e, depois, por toda a parte. No Brasil foi levado á scena muitas vezes e Castro Alves o àpplaudiu, representado por Furtado Coelho e Eugenia Câmara, a qual encarnava Leonora, princeza Falconieri, a Dalila que rende os Sansões, cortezã de excelsa formosura e coração insensível, que immola perversamente as affeiçôes que desperta e provoca, até as vidas que lhe consagram. O nosso Poeta vingou no seu canto os artistas, como o desgraçado André Roswein, o "cysne dalmata", que se degrada e morre por ella, traiçoeira Dalila.
2) Marco (estância i\, v. 4). Na versão da "Imprensa Acadêmica" vem accentuada assim a palavra, que é como se lê o original francês: "Marco". Personagem principal do drama Les Filies de Marbre, de Theodore Barrière et Lambert Thiboust, em 5 actos, representando em 1853 em Paris e depois também por toda a parte. No Brasil constava do repertório de Furtado Coelho e Eugenia Câmara. As Mulheres de Mármore têm uma dupla celebridade: foram a refutação da these de Alexandre Dumas Filho na Dama das Ca melias, tentativa de rehabilitação das cortezãs, pelo amor, e imitação quasi plagiaria, pela Dalila, de Octavio Feuillet. Marco é uma Dalila, como foi depois a. Leonora, a hetaira que devora os patrimônios e degrada os talentos, insensivel a tudo, excepto ao oiro, como as "mulheres de mármore", do prefacio, que é o começo symbolico do drama. Em Athenas, rico amador encomenda a Phidias três estatuas de mulher, Phryné, Lais, Aspasia, as quaes tão bellas saem do cinzel que ao próprio criador apaixonam. Por isso, não quer o artista entregá-las ao dono, mas apenas restituir-lhe o dinheiro recebido antecipadamente, ao que não convém este. Diogenes intervém: as próprias estatuas o decidirão: "Qual preferem dos dois — um, pobre artista, de gênio e de coração, ou o outro, velho idiota, rico de oiro?" As mulheres de mármore sorriem a este. O philosopho exclama: "Eu bem vos reconheço, ó mulheres de mármore, cortezãs do presente, cortezãs do futuro!" Marco, uma destas, em Paris e na época contemporânea, é como as outras, e o drama doloroso e commovido anda em torno delia.
Na poesia de Castro Alves ha allusões claras a situações do drama: Raphael, o moço escultor, de gênio e sensibilidade, quando se desenlaça da traçoeira que o empobreceu e degradou, não tem mais gênio nem entusiasmo. O "lábio queimado", o "peito frio", crestadas "as flores da esperança", afogada "a luz da inspiração", nada mais lhe resta, senão morrer. Não creio que em 1864, quando a escreveu Castro Alves, houvesse allusão pessoal: a poesia traduz apenas, em verso, uma impressão de teatro.
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continua página 73...
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Posias Lyricas
Meu segredo / Mocidade e Morte / Dalila /
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia.
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo,
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP)
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
_______________LIVRARIA FRANCISCO ALVES
RIO DE JANEIRO
S. PAULO - BELLO HORIZONTE
1921
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