domingo, 13 de setembro de 2026

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Poesias Lyricas (Dalila)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Poesias Lyricas

DALILA  
 
Fair delect oi nature 
                                              MILTON (Parodia* loat).

Foi desgraça, meu Deus!... Não!... Foi loucura 
Pedir seiva de vida — á sepultura, 
          Em gelo — me abrasar, 
 Pedir amores — a Marco sem brio, 
 E a. rebolcar-me em leito immundo e frio 
           — A ventura buscar. 

Errado viajor — sentei-me á alfombra 
E adormeci da mancenilha á sombra 
          Em berço de setim... 
Embalava-me a brisa no meu leito... 
  Tinha o veneno a lacerar-me o peito 
          — A morte dentro em mim... 

Foi loucura!... No occaso — tomba o astro; 
A estatua branca e pura de alabastro 
          — Se mancha em lodo vil... 
Quem rouba a estrella — á tumba do occidente ? 
Que Jordão lava na lustrai corrente 
          O marmóreo perfil?...  

Talvez!... Foi sonho!... Em noite nevoenta 
Ella passou sósinha, macilenta 
          Tremendo a soluçar... 
Chorava — nenhum echo respondia... 
Sorria — a tempestade além bramia... 
          E ella sempre a marchar. 

E eu disse-lhe: Tens frio? — arde minha alma. 
Tens os pés a sangrar? — podes em calma 
          Dormir no peito meu. 
Pomba errante — é meu peito um ninho vago! 
Estrella — tens minha alma — immenso lago — 
          Reflecte o rosto teu!...

E amamos... Este amor foi um delírio... 
Foi ella minha crença, foi meu lirio, 
          Minha estrella sem véu... 
Seu nome era o meu canto de poesia, 
Que com o sol — penna de ouro — eu escrevia 
          Nas lâminas do céu. 

Em seu seio escondi-me... como á noite 
Incauto colibri, temendo o açoite 
          Das iras do tufão, 
A cabecinha esconde sob as asas, 
Faz seu leito gentil por entre as gazas 
          Da rosa do Japão. 

E depois... embalei-a com meus cantos 
Seu passado esqueci... lavei com prantos 
          Seu lodo e maldição... 
... Mas um dia acordei... E mal desperto 
Olhei em torno a mim... — Tudo deserto... 
          Deserto o coração... 

Ao vento, que gemia pelas franças 
Por ella perguntei... de suas trancas 
          A' flor que ella deixou... 
Debalde... Seu lugar era vazio... 
E meu lábio queimado e o peito frio, 
          Foi ella que o queimou... 

Minha alma nodoou no osculo immundo, 
Bem como Satanaz — beijando o mundo — 
          Manchou a creação, 
Simoun — crestou-me da esperança as flores... 
Tormenta — ella afogou nos seus negrores 
          A luz da inspiração... 

Vai, DalilaL. E' bem longa tua estrada... 
E' suave a descida — terminada 
          Em barathro cruel. 
Tua vida — é um banho de ambrosia... 
Mais tarde a morte e a lâmpada sombria 
          Pendente do bordel. 

Hoje flores... A musica soando... 
As perlas do Champagne gottejando 
          Em taças de crystal. 
A volúpia a escaldar na louca insomnia... 
Mas suffoca os festins de Babylonia 
          A legenda fatal.

Tens o seio de fogo e a alma fria. 
O sceptro empunhas lubrico da orgia 
          Em que reinas tu só!... 
Mas que finda o ranger de uma mortalha, 
A enxada do coveiro que trabalha 
          A revolver o pó.  

Não te maldigo, não!... Em vasto campo 
Julguei-te — estrella, — e eras — pyrilampo 
          Em meio á cerração... 
Prometheu — quis dar luz á fria argilla... 
Não pude... Pede a Deus, louca Dalila, 
          A luz da redempção !...           

Recife, 1864. 
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     Espumas Fluctuantes, Edição original: XXXIX.
     Pbl. na "Imprensa Acadêmica", de S. Paulo, n". 7, de 5 de Julho de 1868, quasi sem alteração: apenas, na 9.* estância, ultimo verso: "Foi ella que gelou". A importância desta versão é, porem, a data: "Recife — Setembro de 1864".
     1) Dalila (titulo). Não é a personagem biblica, como se poderia immediatamente pensar, mas a da ficção de Octavio Feuillet, heroina symbolica que dá o nome a um drama, em 3 actos e 6 quadros, representa do em Paris em 1857 pela primeira vez e, depois, por toda a parte. No Brasil foi levado á scena muitas vezes e Castro Alves o àpplaudiu, representado por Furtado Coelho e Eugenia Câmara, a qual encarnava Leonora, princeza Falconieri, a Dalila que rende os Sansões, cortezã de excelsa formosura e coração insensível, que immola perversamente as affeiçôes que desperta e provoca, até as vidas que lhe consagram. O nosso Poeta vingou no seu canto os artistas, como o desgraçado André Roswein, o "cysne dalmata", que se degrada e morre por ella, traiçoeira Dalila.
     2) Marco (estância i\, v. 4). Na versão da "Imprensa Acadêmica" vem accentuada assim a palavra, que é como se lê o original francês: "Marco". Personagem principal do drama Les Filies de Marbre, de Theodore Barrière et Lambert Thiboust, em 5 actos, representando em 1853 em Paris e depois também por toda a parte. No Brasil constava do repertório de Furtado Coelho e Eugenia Câmara. As Mulheres de Mármore têm uma dupla celebridade: foram a refutação da these de Alexandre Dumas Filho na Dama das Ca melias, tentativa de rehabilitação das cortezãs, pelo amor, e imitação quasi plagiaria, pela Dalila, de Octavio Feuillet. Marco é uma Dalila, como foi depois a. Leonora, a hetaira que devora os patrimônios e degrada os talentos, insensivel a tudo, excepto ao oiro, como as "mulheres de mármore", do prefacio, que é o começo symbolico do drama. Em Athenas, rico amador encomenda a Phidias três estatuas de mulher, Phryné, Lais, Aspasia, as quaes tão bellas saem do cinzel que ao próprio criador apaixonam. Por isso, não quer o artista entregá-las ao dono, mas apenas restituir-lhe o dinheiro recebido antecipadamente, ao que não convém este. Diogenes intervém: as próprias estatuas o decidirão: "Qual preferem dos dois — um, pobre artista, de gênio e de coração, ou o outro, velho idiota, rico de oiro?" As mulheres de mármore sorriem a este. O philosopho exclama: "Eu bem vos reconheço, ó mulheres de mármore, cortezãs do presente, cortezãs do futuro!" Marco, uma destas, em Paris e na época contemporânea, é como as outras, e o drama doloroso e commovido anda em torno delia.
     Na poesia de Castro Alves ha allusões claras a situações do drama: Raphael, o moço escultor, de gênio e sensibilidade, quando se desenlaça da traçoeira que o empobreceu e degradou, não tem mais gênio nem entusiasmo. O "lábio queimado", o "peito frio", crestadas "as flores da esperança", afogada "a luz da inspiração", nada mais lhe resta, senão morrer. Não creio que em 1864, quando a escreveu Castro Alves, houvesse allusão pessoal: a poesia traduz apenas, em verso, uma impressão de teatro.

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continua página 73...
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Posias Lyricas
Meu segredo / Mocidade e Morte / Dalila /     
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921

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