domingo, 13 de setembro de 2026

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (IX - Pois é isso, ma chère)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
IX

Dos jovens, sem contar a filha mais velha da condessa (com quatro anos mais que Natacha e que se considerava pessoa grande), e a filha da visitante, só Nicolau e a sobrinha Sônia continuavam na sala. Sônia era uma moreninha franzina, de olhar doce, com longos cílios a sombreá-lo. Uma grande trança preta lhe fazia duas vezes a volta da cabeça, e a pele, sobretudo a do pescoço e dos braços, finos, mas fortes e graciosos, tinha uma tonalidade amarelada. Pela harmonia dos movimentos, finura e graça dos membros e pelos modos um pouco artificiais e comedidos, lembrava uma linda gatinha ainda não formada, mas destinada a ser uma bela gata. Evidentemente ela achava de bom-tom mostrar, pelo sorriso, que tomava parte na conversação comum, mas seus olhos sombreados fitavam o primo que partia para o exército com uma expressão tão apaixonada que seu sorriso não podia enganar a ninguém. Era visível que a gatinha só sentara para pular ainda com mais força e brincar com o primo assim que saíssem da sala como Boris e Natacha.

 — Pois é isso, ma chère — disse o velho conde dirigindo-se à visitante e mostrando seu filho Nicolau. — Está aí, seu amigo Boris foi promovido a oficial e, por amizade, não quer separar-se dele. Deixa a Universidade, deixa-me só, a mim, um velho, para prestar o serviço militar, ma chère. Sua nomeação na diretoria dos arquivos já estava pronta. Eis a amizade, hein? 
— Mas dizem que foi declarada a guerra — disse a visitante. 
— Sim, dizem isso há muito tempo — respondeu o conde —, falam, falam, e depois as coisas continuam no mesmo. Ma chère, eis a amizade — repetiu. 
— Entrou para os hussardos.

     A visitante, não sabendo o que dizer, sacudia a cabeça. 

— Não é por amizade! — exclamou Nicolau, defendendo-se com calor, como se tivesse sido miseravelmente caluniado. — Não é, absolutamente, por amizade, mas porque sinto inclinação pela carreira das armas. — E voltou-se para a prima e para a filha da visitante, que o aprovavam com um sorriso. 
— Schubert, o comandante do regimento dos hussardos de Pavlograd, janta conosco hoje. Estava aqui em licença e leva-o com ele. Que fazer! — disse o conde, erguendo os ombros e falando num tom desprendido dessa história que lhe causava verdadeiro pesar. 
— Se não quiser que eu vá, já lhe disse, papai, ficarei. Mas estou certo que não presto para nada fora do serviço militar. Não sou nem diplomata nem funcionário. Não posso esconder meus pensamentos — acrescentou, olhando Sônia e a filha da visitante, com a faceirice dos moços de sua idade.

     A gatinha, fixando-o, parecia pronta, a cada segundo, a brincar e mostrar sua natureza felina. 

— Está bem, está bem! — disse o velho conde. — Ele sempre se exalta. Esse Bonaparte virou a cabeça de todo o mundo, todos pensam tornar-se como ele: de segundo-tenente a imperador. Que Deus permita… — acrescentou, sem notar o sorriso de mofa da visitante.

     Os adultos começaram a falar em Bonaparte. Júlia, a filha da princesa Kariaguina, dirigiu-se ao jovem Rostov. 

— Foi uma pena você não ter ido à festa dos Arkharov quinta-feira. — E num sorriso terno: — Sua falta aborreceu-me.

     Lisonjeado, o rapaz aproximou-se dela com um sorriso faceiro, iniciando um tête-à-tête, sem perceber que Sônia, muito vermelha, esforçava-se para não demonstrar o mal que lhe fazia e para manter o sorriso. Numa pausa voltou-se para ela e só então viu o olhar magoado e apaixonado que o fixava; mal retendo as lágrimas e com um sorriso equívoco, Sônia deixou a sala. Toda a animação de Nicolau desapareceu. Esperou a primeira oportunidade e, com uma expressão inquieta, saiu à procura da prima. 

— Como se descobrem facilmente os segredos dos moços! — disse Ana Mikhailovna, seguindo Nicolau com o olhar. — Primos, vizinhanças perigosas — acrescentou. 
— Sim — disse a condessa, mas o raio de luz que entrara na sala com a mocidade havia desaparecido. E como respondendo a uma pergunta que ninguém fizera mas que a preocupava incessantemente: — Quantos sofrimentos e inquietações foi necessário enfrentar pelo prazer de vê los agora! E, mesmo agora, o receio é maior que a alegria. Sempre se tem medo… E é exatamente nessa idade que os perigos são maiores para as meninas e rapazes. 
— Tudo depende da educação — disse a visitante. 
— Sim, a senhora tem razão. Até aqui, graças a Deus, tenho sido sempre amiga de meus filhos e eles depositam em mim a mais absoluta confiança — disse a condessa, perpetuando o erro de muitos pais que não creem que seus filhos tenham segredos para eles. 
— Sei que sempre serei a primeira confidente de minhas filhas e que se Nikolenka, pelo seu temperamento arrebatado, viesse a cometer qualquer falta (inevitável num rapaz), nunca seria como a desses jovens de São Petersburgo. 
— Sim, são muito boas crianças, muito boas — repetiu o conde que resolvia todas as questões complicadas achando todo o mundo bom. — Pois aí está! Quer ser hussardo, o que fazer, ma chère
— E que criatura encantadora sua filhinha — disse a visitante —, que vivacidade! 
— Sim, vivacidade — repetiu o conde. — Saiu a mim. E que voz! Embora seja minha filha, devo dizer a verdade: será cantora, será uma nova Salamoni. Temos um professor italiano para que estude. 
— Mas não será muito cedo? Dizem que não é bom para a voz começar a estudar nessa idade. 
— Não, não é cedo demais — respondeu o conde. — E, afinal, nossas mães não casaram com doze, treze anos? 
— Está apaixonada por Boris! Hein! O que acham? — disse a condessa, olhando a mãe do jovem oficial e sorrindo docemente. Depois voltando ao pensamento que a preocupava, continuou: — Veja, se eu a controlasse mais severamente, se a refreasse… Deus sabe o que seriam capazes de fazer às escondidas… (a condessa pensava que eles seriam capazes de beijar-se). E, agora, sei cada uma das palavras que eles se dizem. Ela mesma, todas as noites, conta-me tudo. Talvez eu a mime um pouco, mas é melhor. A mais velha foi educada com mais severidade. 
— É, eu não fui educada assim — disse, sorrindo, a linda condessa Vera. Ao contrário do que se vê em geral, o sorriso não lhe embelezava o rosto, que se tornava desnatural e desagradável. No entanto, Vera era bonita, nada tola, instruída e bem-educada; tinha voz agradável e o que disse era sensato e correto. Mas, coisa estranha, todos, a visitante e a condessa, a olharam como admiradas de ela ter dito isso, e sentiram-se constrangidas. 
— É sempre assim com os mais velhos; a gente quer fazer coisas extraordinárias — disse a visitante. 
— Por que esconder, ma chère, a condessa quis fazer de Vera uma coisa extraordinária — disse o conde. — Pois bem! Não deixa de ser uma ótima criatura — acrescentou, piscando o olho a Vera com ar de aprovação.

     As visitas levantaram-se, e ao sair prometeram vir jantar. 

— Que modos! Achei que não iriam embora! — disse a condessa depois de reconduzi-las.

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Guerra e Paz
Primeira Parte:
VI - A princesa entrou / VII - A condessa / VIII - O conde / IX - Pois é isso, ma chère /                     
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

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