domingo, 13 de setembro de 2026

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (VII - A condessa)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
VII

O príncipe Vassili, cumprindo a promessa que fizera à princesa Drubetzkaia, no sarau de Ana Pavlovna, intercedera por seu filho único. Encaminharam o pedido ao imperador, e Boris, excepcionalmente, fora nomeado segundo-tenente da guarda, no regimento Semenovski. Mas, apesar de todas as solicitações e arranjos de Ana Mikhailovna, não foi nomeado ajudante de ordens, nem entrou para o Estado-Maior de Kutuzov. Pouco depois da festa de Ana Pavlovna, Ana Mikhailovna voltou a Moscou e foi diretamente para casa dos Rostov, ricos parentes seus, onde sempre se hospedava e onde fora criado seu adorado Borenka. Este, recentemente promovido a segundo-tenente de infantaria, passava agora para a guarda. A guarda havia deixado Petersburgo no dia 10 de agosto e o rapaz ficara em Moscou para mandar fazer o uniforme, devendo alcançá-la na estrada de Radzivilov. Na casa dos Rostov era o dia da festa das duas Natálias: mãe e filha mais moça. Desde antes do meio-dia, as berlindas chegavam e desfilavam sem cessar, trazendo visitantes para o palácio da condessa Rostov, conhecido em toda Moscou e localizado à rua Povarskaia, para felicitá-las. A condessa e sua bonita filha mais velha recebiam no salão os visitantes, que se sucediam continuamente.
     
     A condessa era uma mulher de quarenta e cinco anos, tipo oriental, rosto magro, e visivelmente fatigada pelos doze filhos que dera ao marido. Os movimentos vagarosos e a voz cansada, devido à falta de forças, lhe davam um ar imponente que inspirava respeito. A princesa Ana Mikhailovna Drubetzkaia também se achava lá, e, como pessoa de casa, auxiliava a receber os visitantes e a entreter a conversação.
     Julgando desnecessário participar da recepção, os filhos estavam nos outros cômodos. O conde ia ao encontro dos convidados e, ao acompanhá-los à porta, convidava a todos para jantar. 

— Eu lhe agradeço muito, ma chère ou mon cher (dizia ma chère ou mon cher sem nenhuma distinção, sem a menor diferença, quer as pessoas fossem de nível superior ou inferior ao seu), eu lhe agradeço muito em meu nome e no de minhas queridas cuja festa celebramos hoje. Mas venha para jantar. Não me ofenda, mon cher. Eu a convido cordialmente em nome de toda família, ma chère.

     Dizia essas mesmas palavras a todos sem exceção e sem alterar nada, com a mesma expressão no rosto bem nutrido, alegre e rigorosamente barbeado, com o mesmo aperto de mão e os mesmos cumprimentos breves, repetidos. Tendo reconduzido o visitante, o conde voltava àquele ou àquela que ainda se achasse na sala, aproximava uma poltrona e, com o ar de um homem que sabe e gosta de rir, com as mãos nos joelhos abria galhardamente as pernas, e balançando o corpo, com importância, fazia predições sobre o tempo, sobre saúde, ora em russo ora, ousadamente, no seu péssimo francês. Apesar do cansaço, mas firme no cumprimento do dever, alisando os raros cabelos já grisalhos, reconduzia mais um visitante, convidando-o para jantar. Às vezes, ao voltar do vestíbulo, passava pelo jardim de inverno e pela copa para ir à grande sala de paredes de mármore onde preparavam uma mesa de oitenta talheres; olhando para os criados que traziam as pratas e as porcelanas, punham as mesas e desdobravam as toalhas adamascadas, chamava Dmitri Vassilievitch, um mordomo de origem nobre que se ocupava de todos os seus negócios, e lhe dizia: 

— Então, Mitenka, toma cuidado para que tudo esteja em ordem. Está bem, está bem… — E pensava, olhando com prazer a enorme mesa que acabara de ser estendida. — O principal é o serviço. Sim, sim, sim… — E, com um suspiro de satisfação, voltava novamente para a sala. 
— Maria Lvovna Kariaguina e sua filha — anunciou com voz grave o lacaio da condessa, aparecendo na porta da grande sala.

     A condessa refletiu, saboreando uma pitada de fumo da tabaqueira de ouro ornada com o retrato do marido. 

— As visitas me cansaram — disse ela. — Está bem, vou recebê-la, mas será a última. Ela é muito pernóstica. Mande entrar — disse ao lacaio com uma voz triste, como se tivesse dito: “Pois bem, essa dará cabo de mim!”

     Uma senhora, grande, forte, de aspecto altivo e uma moça de rosto redondo e sempre sorridente, entraram na sala num farfalhar de saias.

“Querida condessa, há quanto tempo… esteve de cama, a pobrezinha… no baile dos Razumovski… e a condessa Apraxine… fiquei tão contente…”, ouvia-se um murmúrio de vozes de mulher interrompendo-se umas às outras e confundindo-se com o rumor dos vestidos e das cadeiras. Começou, então, uma dessas conversações nas quais se espera apenas uma pausa para levantar-se num ruído de saias e dizer: “Estou encantada: a saúde de mamãe… e a condessa Apraxine…” e novamente, num ruído de saias, passar para o vestíbulo, vestir a peliça ou o casacão e sair. A conversa girava em torno da grande nova do dia, a doença do conde Bezukhov, o riquíssimo e belo ancião, sobrevivente da época de Catarina, e sobre Pierre, seu filho natural, que se portara tão mal na recepção de Ana Pavlovna Scherer.

— Lastimo muito o pobre conde — disse a visitante. — Com a saúde já tão fraca, não resistirá a esse desgosto. 
— Mas o que houve? — perguntou a condessa, como se ignorasse do que falava sua interlocutora, apesar de já lhe terem contado umas quinze vezes a causa da dor do conde Bezukhov. 
— Eis aí a educação moderna! 
— No exterior, o rapaz estava entregue a si próprio, e agora, em Petersburgo, fez tais horrores, segundo dizem, que foi expulso pela polícia. 
— Realmente! — exclamou a condessa. 
— Escolheu mal os amigos — interveio a princesa Ana Mikhailovna. — O filho do príncipe Vassili, ele e um tal Dolokhov fizeram o diabo, ao que contam. Todos dois foram castigados. Dolokhov perdeu a patente, voltando a ser soldado, e o filho de Bezukhov foi mandado para Moscou. Quanto a Anatole Kuriaguine… o pai abafou a história, mas, apesar disso, foi expulso de Petersburgo. 
— Mas o que fizeram? — perguntou a condessa. 
— São verdadeiros bandidos, sobretudo Dolokhov — disse a visitante. 
— É o filho de Maria Ivanovna Dolokhova, uma senhora tão respeitável! Eis aí! Imagine que os três pegaram um urso, puseram-no num carro e foram para a casa de umas artistas. A polícia chegou para acalmá-los e eles pegaram o inspetor, amarraram-no de costas no urso e atiraram este no Moika; o animal nadou com o policial no lombo. 
Ma chère, eu desejaria ver a cara desse inspetor — exclamou o conde, retorcendo-se de tanto rir. 
— Ah! que horror! Que graça acha nisso, conde?

     Mas as senhoras também riam, ainda que tentassem disfarçar. 

— Fizeram o impossível para salvar o infeliz — continuou a visitante. — E é o filho do conde Kiril Vladimirovitch Bezukhov que assim se diverte tão inteligentemente! — acrescentou. — E diziam que ele era tão bem-educado e talentoso. Eis no que dá a educação no exterior. Espero que aqui, apesar de sua fortuna, ninguém o receba. Quiseram me apresentá-lo, mas recusei categoricamente, tenho filhas. 
— Por que diz que esse rapaz é tão rico? — perguntou a condessa, se inclinando para a senhora Karaguine e dando as costas para as moças, que logo fingiram não estar ouvindo. — Ele só tem filhos ilegítimos. Parece que Pierre… também é filho ilegítimo

     A visitante fez um gesto com a mão. 

— Creio que ele tem vinte filhos assim.

     A princesa Ana Mikhailovna tomava parte na conversa, no desejo evidente de mostrar suas relações e seus conhecimentos das coisas do mundo. 

— O que há é o seguinte — explicou em voz baixa e grave: — A reputação do conde Kiril Vladimirovitch é conhecida… Ele não sabe mais o número dos filhos que tem, mas esse Pierre sempre foi o favorito. 
— Como o velho ainda estava bonito o ano passado! — disse a condessa. — Nunca vi homem mais lindo. 
— Agora está muito mudado — disse Ana Mikhailovna. — Então, como ia dizendo — continuou —, pelo lado da mulher, o príncipe Vassili é o herdeiro direto de todos os bens, mas o pai gostava muito de Pierre, preocupou-se com sua educação e escreveu ao imperador… de sorte que ninguém sabe, por sua morte (está tão doente que isso pode acontecer a qualquer momento e Lorrain chegou de Petersburgo), quem receberá essa enorme fortuna, se Pierre ou o príncipe Vassili. Quarenta mil almas e milhões de rublos. Sei muito bem, pelo próprio príncipe Vassili. E Kiril Vladimirovitch é também meu parente pelo seu lado materno; é o padrinho de Boris — acrescentou como se não desse a menor importância a esse fato. 
— O príncipe Vassili chegou ontem a Moscou. Disseram-me que anda inspecionando — informou a visitante. 
— Sim, mas entre nós — fez a princesa —, isso é um pretexto. Sabendo do estado do príncipe Kiril Vladimirovitch, veio vê-lo. 
— No entanto, ma chère, foi uma boa história — disse o conde. E, percebendo que a visitante não o escutava, dirigiu-se às moças. — Eu só imagino a cara do inspetor.

     E, mostrando como o infeliz deveria ter agitado os braços, irrompeu num riso sonoro e profundo que lhe sacudiu todo o corpo, como costumam rir os homens que sempre comeram bem e sobretudo beberam melhor. 

— Muito bem, espero que voltem para jantar — disse ele.

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Guerra e Paz
Primeira Parte:
VI - A princesa entrou / VII - A condessa / VIII - O conde /                  
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

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