EU
Á MEMORIA DE MEU PAE
Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos
As Scismas do Destino
IV
Calou-se a voz. A noite era funesta.
E os queixos, a exhibir trismos damnados,
Eu puxava os cabellos desgrenhados
Como o rei Lear, no meio da floresta!
No stentor de mil línguas insurrectas,
O convencionalismo das Pandectas
E os textos maus dos códigos recentes!
Minha imaginação atormentada
Minha imaginação atormentada
Paria absurdos. Como diabos juntos,
Perseguiam-me os olhos dos defuntos
Com a carne da esclerótica esverdeada
Seccára a chlorophylla das lavouras.
Igual aos sostenidos de uma endeixa,
Vinha-me ás cordas glótticas a queixa
Das collectividades soffredoras.
O mundo resignáva-se invertido
Nas forças principaes do seu trabalho.
A gravidade era um principio falho,
A anályse espectral tinha mentido!
O Estado, a Associação, os Municípios
O Estado, a Associação, os Municípios
Eram mortos. De todo aquelle mundo
Restava um mecanismo moribundo
E uma teleologia sem princípios.
Eu queria correr, ir para o inferno,
Eu queria correr, ir para o inferno,
Para que, da psychê no occulto jogo,
Morressem suffocadas pelo fogo
Todas as impressões do mundo externo!
Mas a Terra negava-me o equilíbrio.
Mas a Terra negava-me o equilíbrio.
Na Natureza, uma mulher "de luto
Cantava, espiando as árvores sem fructo,
A canção prostituta do ludibrio!
Continua na página 42...
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Leia também:
Monologo de uma sombra / Agonia de um filósofo / Psicologia de um vencido / O Lázaro da Pátria / Soneto /
O Deus-Verme / As Scismas do Destino I / As Scismas do Destino II / As Scismas do Destino III / As Scismas do Destino III /
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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.
Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações.
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira
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