sábado, 12 de setembro de 2026

Augusto dos Anjos - As Scismas do Destino IV

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


As Scismas do Destino

 IV

Calou-se a voz. A noite era funesta. 
E os queixos, a exhibir trismos damnados, 
Eu puxava os cabellos desgrenhados 
Como o rei Lear, no meio da floresta!

Maldizia, com apóstrophes vehementes, 
No stentor de mil línguas insurrectas, 
O convencionalismo das Pandectas 
E os textos maus dos códigos recentes!

Minha imaginação atormentada 
Paria absurdos.     Como diabos juntos, 
Perseguiam-me os olhos dos defuntos 
Com a carne da esclerótica esverdeada

Seccára a chlorophylla das lavouras. 
Igual aos sostenidos de uma endeixa, 
Vinha-me ás cordas glótticas a queixa 
Das collectividades soffredoras. 
 
O mundo resignáva-se invertido 
Nas forças principaes do seu trabalho. 
A gravidade era um principio falho, 
A anályse espectral tinha mentido! 

O Estado, a Associação, os Municípios 
Eram mortos.   De todo aquelle mundo 
Restava um mecanismo moribundo 
E uma teleologia sem princípios. 

Eu queria correr, ir para o inferno, 
Para que, da psychê no occulto jogo, 
Morressem suffocadas pelo fogo 
Todas as impressões do mundo externo! 

Mas a Terra negava-me o equilíbrio. 
Na Natureza, uma mulher "de luto 
Cantava, espiando as árvores sem fructo, 
A canção prostituta do ludibrio!  

Continua na página 42...
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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

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