domingo, 13 de setembro de 2026

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (VI - A princesa entrou)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
VI

No cômodo vizinho ouviu-se o farfalhar de um vestido. Como se acordasse naquele instante e sacudindo-se todo, o príncipe André retomou a expressão que manteve na festa de Ana Pavlovna. Pierre tirou os pés do divã.

     A princesa entrou. Havia retirado seu traje de noite e estava agora com um vestido caseiro, mas sempre fresca e elegante. Seu marido levantou-se e, polidamente, ofereceu-lhe uma poltrona. 

— Muitas vezes pergunto a mim mesma — disse em francês, como sempre, fazendo barulho ao sentar-se na poltrona — por que Annette não casou. Como vocês homens são tolos, não casando com ela. Perdoem-me, mas vocês não compreendem as mulheres. E que discutidor está me saindo o senhor Pierre! 
— Sim, e até com seu marido sempre discuto. Não compreendo por que ele quer ir para a guerra — disse Pierre, dirigindo-se à princesa, sem os salamaleques habituais nas relações entre um rapaz e uma moça.

     A princesa teve um sobressalto.
     Era evidente que as palavras de Pierre a tocavam em cheio. 

— Aí está! Sempre digo a mesma coisa. Não compreendo por que os homens não podem viver sem guerra! Por que, nós, mulheres, não queremos nada, não temos necessidade de nada? Pois bem, sirva de juiz. Eu lhe digo sempre… aqui, é ajudante de ordens do tio, tem uma brilhante situação, todos o conhecem e apreciam muito. Um dia desses, na casa dos Apraxine, ouvi uma senhora dizer: “Então é esse o famoso príncipe André? Vejam só!” — Riu. — É bem recebido em toda a parte, poderá, muito facilmente, vir a ser ajudante de ordens do imperador. Você sabe que o tzar falou muito gentilmente com ele. Annette e eu achamos que será muito fácil arranjar isso. O que acha?

     Pierre olhou o príncipe André e, vendo que esse assunto desagradava o amigo, não respondeu nada. 

— Quando embarca? — perguntou. 
— Ah! não me fale nessa partida, não me fale. Nem quero ouvir falar nisso — disse a princesa no mesmo tom caprichoso com que falara com o príncipe Hippolyte, mas que, evidentemente, destoava num ambiente familiar do qual Pierre era considerado íntimo. — Hoje, pensando que devo interromper todas essas relações que me são caras… E depois, tu sabes, André? — Olhava para o marido com os olhos arregalados. — Tenho medo, tenho medo — segredou estremecendo.

     O marido, como se só então tivesse percebido que além dele e Pierre havia mais alguém na sala, de forma delicada, mas fria, perguntou-lhe: 

— De que tens medo, Lisa? Não posso compreender… 
— Está aí como são egoístas vocês homens, todos, todos, uns egoístas. Deixa-me espontaneamente, sabe Deus por quê, e quer encerrar-me sozinha no campo. 
— Com meu pai e minha irmã, não te esqueças — disse suavemente o príncipe André. 
— Dá no mesmo. Sem meus amigos, não deixarei de estar só… e depois não quer que eu tenha medo.

     Choramingava e sua boca entreaberta já não tinha a expressão sorridente, mas a de um animalzinho assustado.
     Calou-se como se julgasse inconveniente falar em sua gravidez na frente de Pierre, pois esse era o motivo real da discussão. 

— Não compreendo de que tens medo — disse o príncipe André lentamente, fitando-a com insistência.

     Gesticulando desesperadamente, a princesa corou. 

— Não, André, eu digo estás tão mudado, tão mudado… 
— Teu médico recomendou-te ir cedo para a cama — disse o príncipe André. — Creio que deves recolher-te.

     A princesa não respondeu, mas de súbito seu beicinho começou a tremer; o príncipe levantou-se, dando de ombros, e começou a andar pela sala.
     Pierre, muito admirado, olhava ingenuamente, ora o príncipe, ora a princesa; fez um movimento para levantar-se, mas, refletindo, continuou sentado. 

— Não faz mal que o senhor Pierre esteja presente! — retrucou a princesinha, fazendo uma cara de choro. — Há muito tempo que queria perguntar por que mudaste tanto comigo, André? O que foi que eu fiz? Vais para a guerra e não tens pena de mim, por quê? 
— Lisa! — limitou-se a dizer o príncipe André, e nessa palavra havia, ao mesmo tempo, um pedido, uma ameaça e, principalmente, a certeza de que ela lamentaria por aquelas palavras. Mas Lisa continuou rapidamente: 
— Tu me tratas como uma doente ou uma criança. Eu bem o percebo. Não eras assim há seis meses! 
— Lisa! Peço que não continues — disse o príncipe num tom ainda mais expressivo.

     Pierre, cada vez mais comovido com essa cena, aproximou-se da princesa. Parecia não poder suportar a visão das lágrimas, e ele próprio estava prestes a chorar. 

— Acalme-se, princesa. Asseguro-lhe que tudo isso pode parecer… Eu sei… porque… porque… Mas perdoe-me, sou um estranho… Não, acalme-se… eu já vou.

     O príncipe André deteve-o com um gesto. 

— Espera, Pierre, a princesa é muito boa e não há de querer privar-me do prazer de tua companhia. 
— Não, ele só pensa em si — exclamou a princesa, não retendo mais as lágrimas de cólera. 
— Lisa! — cortou secamente o príncipe André, levantando a voz para mostrar que sua paciência estava esgotada.

     Subitamente a expressão de animalzinho feroz deu lugar a uma expressão tímida, apavorada e recolhida. Seus lindos olhos fitavam timidamente o marido de baixo para cima, como um cachorrinho com o rabo entre as pernas. 

Mon Dieu, mon Dieu! — disse a princesa, erguendo as dobras do vestido; aproximou-se do marido e beijou-o na testa. 
— Boa noite, Lisa! — fez o príncipe, levantando-se e beijando-lhe cortesmente a mão como a uma estranha.

* * * *

Os dois amigos ficaram silenciosos. Nem um nem outro procurava conversar. Pierre olhava o príncipe, e este passava a mão fina na testa.


— Vamos cear — disse num suspiro, dirigindo-se para a porta.

     Entraram na sala de jantar, rica e elegantemente mobiliada. Tudo, desde as toalhas até a prataria, porcelanas, cristais, tinha esse cunho particularmente novo que sempre se nota nas moradas dos casais jovens. No meio da ceia o príncipe André debruçou-se na mesa com uma expressão de irritação nervosa que Pierre nunca lhe havia visto, e, como um homem que enfim se decide a descarregar um peso do coração, começou a falar: 

— Não casa, meu amigo, é o conselho que te dou: não casa antes de ter certeza de que fizeste tudo o que querias fazer. Não casa até ter deixado de amar a mulher que escolheste, de a teres visto tal como é. Do contrário, te enganarás cruel e irremediavelmente. Casa só depois de velho, quando não prestares para mais nada… senão, tudo que tiveres de bom e nobre dentro de ti perecerá; gastarás tudo em ninharias. Sim, sim, sim! Não me olhes assim admirado. Se, futuramente, esperas fazer alguma coisa, perceberás que tudo está terminado para ti, que todas as portas estão fechadas, exceto a dos salões, onde estarás no mesmo nível de um lacaio de corte e de um imbecil… Sim, é isso!…

     Fez um gesto brusco.
     Pierre tirou os óculos, o que lhe mudava a fisionomia, que se tornara ainda mais bondosa, e, muito admirado, olhou o amigo.

— Minha mulher — continuou o príncipe André — é uma criatura admirável. É uma das poucas mulheres com quem se pode estar descansado em assuntos de honra. Mas, meu Deus, quanto eu não daria para não estar casado! Tu és o primeiro e o único a quem eu falo nessas coisas; isso, porque gosto de ti.

     Dizendo essas palavras, o príncipe André ainda se parecia menos que antes com esse príncipe Bolkonski que, sentado numa poltrona de Ana Pavlovna, piscando os olhos, deixava passar, entre dentes, algumas frases em francês. Uma animação nervosa fazia tremer cada músculo de seu rosto descamado; agora, um brilho claro iluminava-lhe os olhos, que antes pareciam completamente mortos. Ainda mais energia aparentava nesse momento de irritabilidade quase doentia por ter normalmente o aspecto de uma criatura sem vida. 

— Tu não compreendes por que digo isso — continuou — e, no entanto, é toda a história de minha existência. Tu dizes “Bonaparte e sua carreira” — complementou, apesar de Pierre não ter falado em Bonaparte —, mas quando Bonaparte trabalhava, quando caminhava em direção a seu ideal, era livre, via apenas o ideal, e por isso atingiu-o. Mas se te ligares a uma mulher, então, como um forçado, com os pés num grilhão, perderás toda a liberdade. Tudo que tiveres de esperança e de força ficará deprimido e te arrependerás amargamente. Os salões, os disse que disse, os bailes, as vaidades, as nulidades, eis o círculo vicioso que não poderás romper. Agora, vou para a guerra, para a maior guerra de todos os tempos, e não sei nada. Não presto para nada. Sou muito amável e muito sarcástico — continuou o príncipe André — e nas reuniões de Ana Pavlovna todos me escutam. É essa sociedade idiota sem a qual minha mulher não pode viver, e essas mulheres… Se, ao menos, pudesse saber o que são essas mulheres de sociedade e as mulheres em geral! Meu pai tem razão. As mulheres, quando mostram como são, não passam de umas egoístas, vaidosas, estúpidas e de uma insignificância total. Quando a gente as vê em sociedade, acredita que guardem no íntimo alguma coisa, mas puro engano, não há nada, nada, nada! É, meu amigo, não cases, não cases! — concluiu o príncipe André. 
— Acho engraçado — disse Pierre — que você se considere incapaz e julgue sua vida perdida, quando tem ainda futuro na sua frente. Além disso…

     Não concluiu a frase, mas o tom indicava o conceito que fazia do amigo, e a confiança que depositava no seu futuro.

“Como pode falar assim?”, pensava Pierre

     Ele considerava o príncipe André como o modelo de todas as perfeições, precisamente porque reunia, no mais alto grau, as qualidades que lhe faltavam e que podiam ser resumidas nesta expressão: força de vontade. Sempre admirara a capacidade do príncipe, a sua conduta com os homens, quaisquer que eles fossem, sua memória extraordinária, tudo que havia lido (lera tudo, sabia tudo, de tudo tinha uma ideia) e mais ainda, sua capacidade de trabalho e compreensão. Se, muitas vezes, ficara chocado com sua inaptidão para a filosofia contemplativa (pela qual ele, Pierre, tinha especial inclinação), não via nisso um defeito, mas um atributo a mais.
     Nas relações, por mais íntimas, amigáveis e simples que sejam, a lisonja e o louvor são tão necessários como a graxa numa engrenagem em movimento. 

— Sou um homem liquidado, falemos de ti — disse o príncipe André, sorrindo dessas ideias consoladoras. Um sorriso refletiu-se imediatamente no semblante de Pierre. 
— E o que dizer de mim! — disse Pierre num sorriso despreocupado e jovial. — Quem sou eu? Um bastardo! — De súbito enrubesceu. Evidentemente fizera um grande esforço para dizer isso. — Sem nome, sem fortuna… e o que, afinal de contas… — Mas não concluiu esse “afinal de contas”. — Agora, sou livre e feliz. Mas, francamente, não sei como começar e queria pedir-te que me aconselhasses.

     O príncipe André olhou-o com bondade. Embora amigável, esse olhar exprimia a consciência da própria superioridade. 

— Tenho-lhe afeição principalmente, porque, de todo o nosso círculo, és o único homem que tem vida. Tu estás satisfeito. Para ti, escolhes o que quiseres, não faz diferença. Em qualquer lugar estarás bem… mas, uma única coisa… deixa de frequentar Kuriaguine, deixa essa vida. Essas orgias não te servem. 
— O que queres, meu caro? — disse Pierre, encolhendo os ombros. — As mulheres, meu caro, as mulheres! 
— Não compreendo — replicou o príncipe André. — As mulheres decentes são uma coisa, mas as mulheres de Kuriaguine, as mulheres e o vinho! Não compreendo.

     Pierre morava com o príncipe Vassili Kuriaguine e compartilhava das orgias de seu filho Anatole, o mesmo que, para corrigi-lo, queriam casar com a irmã do príncipe André. 

— Sabes — disse Pierre, como se lhe tivesse vindo uma ideia feliz —, já tenho pensado seriamente nisso; com essa vida não posso refletir nem decidir nada. Tenho dores de cabeça e nenhum dinheiro. Ele convidou-me hoje, mas não irei. 
— Dás tua palavra de honra que não irás mais? 
— Palavra de honra!

* * * *

Já passava da uma da madrugada quando Pierre deixou o amigo. Era uma dessas noites brancas de junho em São Petersburgo. Tomou um carro com a intenção de recolher-se. Mas, quanto mais se aproximava de casa, tanto mais sentia a impossibilidade de dormir nessa noite que mais se parecia ao crepúsculo ou à alvorada.

     Seu olhar perdia-se nas ruas desertas. Durante o caminho lembrou-se que nessa noite havia uma reunião de seus companheiros habituais de jogo, na casa de Anatole Kuriaguine, seguida de uma bebedeira que terminaria pelo seu prazer favorito.

“Eu poderia ir lá”, pensou; mas logo lhe veio à memória a palavra de honra que dera ao príncipe André, de não mais andar com Kuriaguine.

     Porém, como acontece com todos os fracos, o intenso desejo de gozar ainda uma vez essa vida de depravação, tão sua conhecida, o venceu. Imediatamente considerou que a palavra de honra nada significava para aquela noite porque, antes de prometer ao príncipe André, comprometera-se com Anatole. Além disso — pensou —, essas palavras de honra são convenções que não têm um sentido preciso, principalmente considerando que se pode morrer de um momento para outro ou acontecer alguma coisa tão extraordinária que tudo deixará de existir, inclusive honra e desonra.
     Pierre fazia frequentemente esse raciocínio, destruidor de tudo quanto ele resolvia ou conjeturava. Rumou para a casa de Kuriaguine.
     Chegando à residência de Anatole, uma grande casa perto do quartel da guarda montada, Pierre subiu as escadarias iluminadas. A porta estava aberta, entrou. No vestíbulo não havia ninguém. Garrafas vazias, casacões e galochas rolavam por toda a parte; sentia-se um cheiro de vinho e, de longe, ouvia-se o ruído de vozes e de gritos.
     O jogo e a ceia já haviam terminado, mas os convivas continuavam reunidos. Pierre atirou o sobretudo, entrou numa sala onde estavam os restos da ceia e passou por um criado que, pensando não ser visto, esvaziava os copos. Dos fundos, da terceira sala, vinha um barulho infernal, risadas, gritos de vozes conhecidas e o bramido de um urso. Ansiosos, oito rapazes se apertavam contra uma janela aberta; três outros brincavam com um urso novo que um deles puxava por uma corrente assustando os companheiros. 

— Aposto cem rublos em Stievens! — gritou um. 
— Atenção, não se deve segurá-lo! — gritou outro. 
— Aposto em Dolokhov — disse um terceiro. Que acha, Kuriaguine?! 
— Pois bem, deixa Michka, trata-se de uma aposta. 
— De um só gole, senão perde! 
— Iakov, traz uma garrafa, Iakov! — berrou o dono da casa, um grande e belo rapaz que estava no meio dos convidados com uma fina camisa aberta ao peito. — Senhores, um momento, meu bom amigo Petrucha chegou — disse, mostrando Pierre.

     Um homem de estatura baixa e olhos azul-claros, com uma voz calma e sóbria contrastava de modo singular com as outras, já tomadas pelo vinho, chamou pela janela: 

— Vem cá, vou te explicar a aposta!

     Era Dolokhov, oficial do regimento Semeonovski, muito conhecido como jogador e espadachim, que morava com Anatole. Pierre sorriu e olhou alegremente em volta de si. 

— Não estou entendendo nada, de que se trata? 
— Esperem, ele não está bêbado. Alcancem uma garrafa — disse Anatole, e, com um copo na mão, aproximou-se de Pierre. — Antes de mais nada, bebe.

     Olhando e escutando os convivas embriagados que se agrupavam em torno da janela, Pierre bebeu um copo atrás do outro. Enquanto lhe servia o vinho, Anatole contava que Dolokhov apostara com Stievens, um oficial da marinha inglesa, como beberia uma garrafa de rum, sentado na janela do terceiro andar com as pernas para fora. 

— Anda, bebe tudo, senão não te deixo em paz — disse Anatole, enchendo-lhe um último copo. 
— Não, não quero mais — fez Pierre, empurrando o amigo e aproximando-se da janela.

     Dolokhov, segurando o inglês pela mão e dirigindo-se de preferência a Pierre e Anatole, explicava claramente as condições da aposta. Era um rapaz de mais ou menos vinte e cinco anos, estatura média, cabelos crespos e olhos azul-claros. Como todos os oficiais de infantaria, não usava bigode. A linha da boca, seu traço mais característico, era extremamente fina, com o lábio superior caindo energicamente sobre o inferior em forma de cone agudo, dividindo-a como que em dois sorrisos permanentes, um de cada lado. O conjunto, acrescentando-lhe o olhar resoluto, ousado e inteligente, impressionava bastante.
     Dolokhov não tinha fortuna nem relações, e apesar de morar com Anatole, que gastava dezenas de milhares de rublos, soubera impor-se de tal forma que chegava a ser mais estimado por todos os amigos do que o próprio dono da casa. Jogava todos os jogos e quase sempre ganhava. Nunca perdia a lucidez por mais que bebesse. Ele e Kuriaguine eram duas celebridades no mundo dos gozadores e libertinos de Petersburgo.
     Trouxeram uma garrafa de rum; dois lacaios, atrapalhados com as ordens e gritos dos patrões que os cercavam, arrancavam apressadamente os caixilhos que impediam de sentar no rebordo exterior da janela.
     Com seu ar dominador, Anatole aproximou-se. Queria quebrar alguma coisa. Empurrou os criados e tentou arrancar os caixilhos, mas estes resistiram. Quebrou os vidros. 

— Aí, vamos ver o atleta — gritou a Pierre. Este segurou a armação e, fazendo uma barulhada enorme, arrancou os caixilhos de carvalho. 
— Arranca completamente para não pensarem que me seguro — disse Dolokhov. 
— O inglês gaba-se, hein? Está tudo em ordem? — perguntou Anatole. 
— Está — respondeu Pierre, olhando para Dolokhov, que, com uma garrafa de rum na mão, se aproximava da janela por onde se via o céu pálido em que as claridades da noite e da manhã começavam a fundir-se.

     Saltou e, em pé, na janela, com a garrafa na mão gritou fazendo todos calar: 

— Atenção! Aposto (falava no seu mau francês para que o inglês o compreendesse), aposto cinquenta imperiais, quer cem? — acrescentou, dirigindo-se a Stievens. 
— Não, cinquenta — disse este. 
— Bem, cinquenta imperiais como beberei toda a garrafa de rum sem tirá-la da boca, sentado na parte exterior da janela, ali (baixou-se para indicar o rebordo externo), e sem segurar-me em nada… está certo?… 
— Exatamente — concordou o inglês.

     Anatole virou-se para Stievens, segurou-o pelo botão da casaca e, olhando-o de cima (o inglês era de pequena estatura), repetiu-lhe as condições da aposta em inglês. 

— Um momento — gritou Dolokhov, batendo a garrafa na janela para chamar a atenção —, espera, Kuriaguine. Escutem. Se alguém fizer a mesma coisa, aposto cem imperiais… Entendido?

     O inglês fez um sinal de cabeça que não permitia concluir se tinha ou não a intenção de aceitar essa nova aposta. Anatole não o largava e, embora ele fizesse sinais indicando que compreendera tudo, continuava traduzindo as palavras de Dolokhov.
     Um jovem hussardo, que já havia perdido muito nos jogos daquela noite, trepou na janela e, inclinando-se, olhou para baixo. 

— Hu!… Hu!… — exclamou olhando a calçada. 
— Silêncio! — gritou Dolokhov, empurrando o oficialzinho, que se atrapalhou nas esporas ao saltar para dentro.

     Colocando a garrafa sobre o peitoril, para poder segurar a janela com mais facilidade, e com todo o vagar e prudência, apoiando-se nas duas mãos, sentou-se no rebordo externo, deixando cair as pernas para fora. Depois de sentir-se bem acomodado, segurou a garrafa. Anatole trouxe duas velas, colocando-as no parapeito, ainda que a noite estivesse clara. As costas e os cabelos crespos de Dolokhov, que estava de camisa, estavam iluminados de ambos os lados. Todos se agruparam perto da janela. O inglês estava na frente. Pierre sorria sem dizer uma palavra. Um dos presentes, mais idoso, adiantou-se subitamente, com uma expressão de cólera e susto, procurando segurar a camisa de Dolokhov. 

— Mas é uma loucura, ele vai se matar — disse esse homem, o mais ajuizado de todos.

     Anatole deteve-o. 

— Não toca nele, vais assustá-lo, e então, sim, pode matar-se! E depois?…

     Apoiando-se novamente nas mãos e procurando mostrar tranquilidade, Dolokhov virou-se: 

— Se alguém continuar a se meter na minha vida — disse, pronunciando distintamente as palavras com os lábios finos e apertados —, eu o farei descer imediatamente por aqui. Entenderam?

     Dizendo isso, virou-se novamente, deixando de apoiar-se, levou a garrafa aos lábios atirando a cabeça para trás e levantando o braço livre para manter o equilíbrio. Um criado que começava a juntar os vidros quebrados parou nessa posição inclinada sem despregar os olhos da janela e da cabeça de Dolokhov. Anatole, com os olhos bem abertos, mantinha-se em pé sem fazer o menor movimento. O inglês, espichando os lábios, olhava de esguelha. Aquele que procurara deter Dolokhov retirou-se para um canto da sala e deitou-se num divã, virando o rosto para a parede. Pierre tapou os olhos com as mãos, sorrindo levemente apesar do medo e horror que sentia. Ninguém falava. Pierre tirou as mãos dos olhos.
     Dolokhov continuava sentado na mesma posição, somente a cabeça estava mais caída, os cabelos tocando o colarinho da camisa, e a mão que segurava a garrafa, trêmula do esforço, levantava-se cada vez mais. A garrafa esvaziava-se visivelmente e a cabeça pendia ainda mais para trás. “Por que demora tanto?”, pensou Pierre. Parecia-lhe que mais de meia hora havia passado. Subitamente, Dolokhov fez um movimento de espáduas e sua mão tremeu nervosamente. Esse tremor poderia ter feito escorregar todo o corpo, que estava sobre o rebordo inclinado. Ele movimentou o corpo todo, e seu braço e cabeça vacilaram de novo.
     Uma das mãos chegou a erguer-se para segurar o vão da janela, mas tornou a cair. Pierre fechou novamente os olhos com o propósito de não ver mais nada. Quando, um segundo depois, sentiu que todos se agitavam, olhou; Dolokhov estava em pé no vão da janela, muito pálido mas com a fisionomia alegre: 

— Vazia!

     Saltando da janela, atirou a garrafa ao inglês, que a aparou habilmente. Exalava um forte hálito de rum. 

— Bravo! Bravo! Aposta ganha! O diabo que os carregue! — gritavam de todos os lados.

     O inglês puxou a bolsa e contou o dinheiro. Dolokhov franziu a testa e calou-se. Pierre se lançou à janela. 

— Senhores! Quem quer apostar comigo? Farei o mesmo — disse de repente. — Não preciso de aposta, tragam-me uma garrafa de rum. 
— Está bem! — disse Dolokhov, sorrindo. 
— O que é isso, enlouqueceste? Quem permitirá? Até numa escada ficas tonto! — gritavam de todos os lados. 
— Beberei, só quero uma garrafa de rum! — gritou Pierre. Num gesto decidido de bêbado, bateu na mesa e trepou na janela. Seguraram-no pelas mãos, mas ele era muito forte e repelia todos que se aproximavam. 
— Não, assim vocês não resolvem nada — disse Anatole. — Esperem que eu vou enganá-lo. Escuta, eu aposto contigo, mas para amanhã, agora nós vamos à casa de ***. 
— Vamos — gritou Pierre —, vamos e levemos Michka também. — Pegou o urso e, abraçando o, começou a dançar com ele pela sala.
continua na página... 21
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Guerra e Paz
Primeira Parte:
VI - A princesa entrou / VII - A condessa /                
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 


Guerra e Paz, Liev Tolstói | Resenha | Casa da Coruja




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