domingo, 13 de setembro de 2026

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (VIII - O conde)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
VIII

Fez-se silêncio. A condessa olhava a princesa com um sorriso agradável, mas sem esconder a satisfação de vê-la partir. A filha da visitante arranjava o vestido e olhava a mãe interrogativamente, quando, de súbito, ouviu-se no cômodo vizinho um burburinho como de pessoas correndo, depois um barulho de cadeira virada, e irrompeu na sala uma menina de treze anos. Parou no meio do aposento, escondendo qualquer coisa na sua saiazinha curta de musselina. Via-se que era por acaso e por não ter calculado o impulso que chegara tão longe. Quase imediatamente apareceram na porta um estudante de gola púrpura, um oficial da guarda, uma jovem de quinze anos e um garotinho de cardigã, gordo, de expressão alegre e vermelha.

          O conde levantou-se e, bamboleando-se todo, abriu os braços prendendo a menina. 

— Ah! Peguei-a! — gritou ele rindo.— É tua festa hoje, ma chère, tua festa. 
— Minha querida, tudo tem a sua hora — disse a condessa, fingindo severidade. — Tu a mimas, Élie — acrescentou, dirigindo-se ao marido. 
— Olá, querida, eu te parabenizo. Que criança maravilhosa! — disse a visitante dirigindo-se à mãe.

     A meninazinha tinha os olhos pretos, boca grande, parecia meio feia, mas era de uma vivacidade sem igual. O movimento dos ombros, que apareciam nus por causa do decote, denunciava que ela estava correndo. Os cabelos pretos em cachos levantados caíam-lhe nas costas. Os braços eram finos e nus, e as calças de renda caíam sobre as pernas, e calçava sapatos abertos. Estava nessa idade deliciosa em que a menina não é mais uma criança e a criança ainda não é moça. Escapando do pai, correu para a mãe e, sem preocupar-se com seu ar severo, escondeu o rosto vermelho na mantilha de renda da condessa para rir mais à vontade. Ria de qualquer coisa e, toda ofegante, falava da boneca que tirou de baixo da saia.

— Está vendo?… a boneca… Mimi… veja. — E Natacha, não podendo mais falar, caiu no colo da mãe num ataque de riso tão alto e tão sonoro que todos, até a majestosa visitante, tiveram que rir. 
— Muito bem, agora vai com teu monstro! — disse a mãe, fingindo que a repelia. — É a mais moça — explicou a condessa.

     Natacha levantou um momento a cabeça da mantilha de renda de tua mãe, olhou a visitante de cabeça baixa ainda com as lágrimas do riso, e novamente escondeu o rosto.
     Forçada a assistir a essa cena de família, a visitante julgou delicado tomar parte. 

— Diga-me, minha querida — dirigia-se a Natacha —, qual é seu parentesco com essa Mimi? Sua filha, provavelmente.

     O tom indulgente e essa pergunta infantil da visitante não agradaram a Natacha. Não respondeu nada e fitou a princesa com ar sério.
     Nesse momento, toda a jovem geração: Boris, oficial, filho da princesa Ana Mikhailovna; Nicolau, estudante e filho mais velho da condessa; Sônia, uma sobrinha do conde, de quinze anos; e o pequeno Petrucha, o filho mais moço, reuniram-se na sala, esforçando-se visivelmente para manter dentro dos limites da boa educação a animação e a alegria que se podiam ver em cada um de seus movimentos. Era evidente que no cômodo vizinho, de onde tinham vindo com tanta precipitação, os assuntos eram mais alegres que os disse me disse da sala principal, e que falavam mais do que sobre a sociedade, o tempo e a condessa Apraxine. De quando em vez se entreolhavam e a grande custo continham o riso.
     Os dois rapazes, o estudante e o oficial, eram da mesma idade, amigos de infância, ambos bonitos, mas de beleza diferente. Boris era alto, louro, rosto calmo de traços finos e regulares. Nicolau, não muito alto, tinha os cabelos crespos e uma fisionomia franca. No lábio superior apontava um pequeno buço preto, e todo o semblante exprimia animação e entusiasmo.
     Nicolau corou desde que entrou na sala; via-se que ele não sabia o que dizer. Boris, ao contrário, logo dominou-se e, tranquilamente, fazendo pilhéria, contou que conhecera Mimi-boneca quando ainda era jovem, antes de partir o nariz, e que, nesses últimos cinco anos, ela quebrara a cabeça e envelhecera. Contou isso fitando Natacha. Esta virou o rosto, olhou o irmãozinho mais moço, que, de olhos fechados, ria baixinho. Não podendo mais conter-se, deu um pulo e fugiu da sala o mais ligeiro que pôde. Boris não ria. 

— Parece que a senhora já quer ir, mamãe? É preciso um carro — disse Boris com um sorriso para a mãe. 
— Sim, manda atrelar — respondeu a princesa, sorrindo.

     Boris saiu devagar nos passos de Natacha.
     Petrucha correu furioso atrás deles; parecia descontente por ter sido incomodado em seus afazeres.

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Guerra e Paz
Primeira Parte:
VI - A princesa entrou / VII - A condessa / VIII - O conde / IX - Pois é isso, ma chère /                     
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

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