sábado, 12 de setembro de 2026

Marcel Proust - A Prisioneira (Toda criatura amada)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Toda criatura amada, e até, em certa medida, qualquer criatura, é para nós como o deus Jano, apresentando-nos a fronte que nos agrada, se essa criatura nos abandona, e a fronte sombria se a temos à nossa disposição permanente. Quanto a Albertine, a convivência duradoura com ela apresentava algo penoso de outra forma que não posso contar nesta narrativa. É terrível ter a vida de outra pessoa ligada à nossa como uma bomba que não podemos largar sem cometer um crime. Mas tomem-se como comparação os altos e baixos, os perigos, a inquietude, o medo de ver acreditadas mais tarde coisas falsas e verossímeis que já não será possível explicar, sentimentos por que se passa quando se tem na intimidade um louco. Por exemplo, eu sentia pena de que o Sr. de Charlus vivesse com Morel (logo a lembrança da cena da tarde me fez sentir o lado esquerdo do peito bem mais pesado que o outro); deixando de lado as relações que pudessem ter ou não juntos o Sr. de Charlus, no princípio, deveria ignorar que Morel era louco. A beleza desta; sua chatice e arrogância, deveriam ter desviado o barão de ir procurar tão longe, até aos dias de melancolia em que Morel acusava o Sr. de Charlus por sua tristeza, sem poder dar explicações, insultava-o por sua desconfiança com o auxílio de arrazos dos falsos, porém extremamente sutis, ameaçava-o com resoluções desesperadas - no meio das quais persistia a mais velhaca intenção do interesse mais imediato. Tudo isto é apenas comparação. Albertine não era louca.
     Para lhe fazer parecer menos penoso o seu jugo, o mais hábil se me afigurou fazê-la crer que eu próprio ia rompê-lo. Em todo caso, não podia confiar-lhe naquele momento semelhante projeto mentiroso, quando voltara tão amável do Trocadero, agora há pouco; o que eu podia fazer, muito longe de afligi-la com a ameaça de um rompimento, era quando muito calar os sonhos de perpétua vida comum que meu coração reconhecido formava. Olhando-a, esforçava-me por evitar desabafá-los, e talvez ela o percebesse.
     Infelizmente, a expressão deles não é contagiosa. O caso de um velho amaneirado como o Sr. de Charlus, que, à força de só ver, na imaginação, um rapaz simpático, julga tornar-se ele próprio um rapaz simpático e tanto mais quanto mais se torna amaneirado e ridículo, é o caso mais geral. E que desgraça para um amante apaixonado não perceber que, ao passo que vê um belo rosto à sua frente, sua amante está vendo o dele, que, ao contrário, não fica mais belo quando se deforma pelo prazer que nele faz surgir a vista da beldade. E o amor nem mesmo esgota toda a generalidade desse caso; não vemos o nosso corpo, que os outros veem, e "seguimos" o nosso pensamento, objeto invisível aos outros que está à nossa frente. Tal objeto, por vezes o artista o expõe em sua obra. Daí decorre que os admiradores desta sentem-se desiludidos pelo autor, em cujo rosto essa beleza interior imperfeitamente se refletiu.
     Guardando de meu sonho de Veneza apenas o que podia referir-se a Albertine e suavizar o tempo que ela passava em minha casa, falei-lhe de um vestido de Fortuny que era necessário que encomendássemos por aqueles dias. Eu procurava saber com que novos prazeres poderia distraí-la. Gostaria de poder fazer-lhe a surpresa de lhe dar, se fosse possível achá-las, peças de velha prataria francesa. De fato, quando tínhamos feito o projeto de possuir um iate, projeto julgado irrealizável por Albertine-e por mim mesmo, cada vez que pensava que ela fosse virtuosa e a vida com ela principiava logo a parecer-me tão ruinosa quanto impossível o nosso casamento-, tínhamos pedido conselhos a Elstir, sem que ela no entanto acreditasse que eu compraria um.
     Soube que naquele dia ocorrera um falecimento que me deu muita pena, o de Bergotte. Era sabido que sua enfermidade vinha de muito tempo. Evidentemente, não a que o afligira no começo, e que era natural. A natureza parece quase incapaz de produzir doenças que não sejam muito curtas. Mas a medicina acrescenta-lhes a arte de prolongá-las. Os remédios, a remissão que oferecem, o mal-estar que sua interrupção faz renascer, compõem um simulacro de doença que o hábito do paciente acaba por estabilizar, por estilizar, assim como as crianças tossem regularmente por muito tempo depois de estarem curadas da coqueluche. E depois os remédios agem menos, e aumentam-lhes sua dose, eles não fazem mais nenhum bem, mas começaram a fazer mal graças a essa indisposição duradoura. A natureza não lhes teria oferecido uma tão longa duração. É uma maravilha que a medicina, quase igualando a natureza, possa forçar o doente a ficar de cama, a continuar tomando, sob pena de morte, o uso de um medicamento. Desde então, a doença superficialmente fitada cria raízes, torna-se mal-estar secundário; porém verdadeira, com a diferença de que as doenças naturais se curam, mas nunca as que a medicina acredita, pois ela ignora o segredo da cura. Havia anos em que Bergotte já não saía de sua casa. Aliás, ele jamais gostara da sociedade. Fazia estar nela apenas um dia, para despreza-la como tudo o mais a sociedade que era a sua; não desprezar porque não podia obter, mas logo depois, por obtê-la. Vivia de modo tão simples que não se suspeitava quão era rico; logo depois que alguém o soubesse, estaria enganado julgando-o avaro; quando na verdade ninguém fora tão generoso. Era-o sobretudo com mulheres, com as meninas, que ficavam envergonhadas, pois sabiam que nunca poderiam receber tanto por tão pouco. Desculpava-se aos próprios olhos porque sabia que nunca podia produzir tão bem mesmo na atmosfera de se sentir enamorado. O amor, melhor dizendo, o prazer tanto entranhado na carne, auxilia no trabalho das letras; porque anula outros prazeres, por exemplo os prazeres da sociedade, que são os que aniquilam o mundo. E, mesmo se esse amor traz desilusões, ao menos também agita a superfície da alma, que sem isso se arriscaria a ficar estagnado. Desse modo o desejo não é inútil para o escritor, pois primeiro o afasta dos outros homens e de adaptar-se a eles; e em seguida restitui algum movimento a uma máquina espiritual que depois de certa idade, tende a se imobilizar. Não se chega ser feliz, entretanto conhece-se as razões que impedem de sê-lo e que sem as fendas bruscamente abertas pela decepção permaneceriam invisíveis. Os sonhos, não são realizáveis, bem sabemos; não os conceberíamos talvez sem o desejo, para os ver fracassarem e para que seu fracasso nos sirva de consolo útil. Assim Bergotte dizia consigo: "Gasto com essas meninas mais que os multimilionários. Mas, assim, os prazeres ou as decepções que me causam me fazem escrever livros e me dá dinheiro.” Do ponto de vista econômico, tal raciocínio absurdo certamente encontrava Bergotte algum contentamento em transmutar assim o ouro em carícias e as carícias em ouro. E depois, como antes da morte da minha avó, sua velhice fatigada amava o repouso. E no mundo não existe mais que a conversação. Ali ela é estúpida, mas tem o poder de suprimir as mulheres na sociedade; que se reduzem a perguntas e respostas. Fora da sociedade, as mulheres voltam a ser de novo o que é tão repousante para o velho cansado: um objeto de contemplação. Em todo caso agora já não se tratava de nada disso. Disse que Bergotte não saía mais; quando se levantava por uma hora em seu quarto, ficava envolto em mantas, tudo aquilo que serve para cobrir no momento em que está fazendo frio; ou ao subir para o vagão de um trem. Desculpava-se com um sorriso expor-se; mostrando suas cobertas aos raros amigos que ainda permitia que o visitassem e, dizia jovialmente: - Que se há de fazer, meu caro? Anaxágoras disse: a vida é uma viagem. - 
     Assim, ele ia se resfriando progressivamente, pequeno planeta que oferecia uma imagem antecipada dos últimos dias do grande, quando aos poucos se há de retirar da Terra o calor e depois a vida. Então a ressurreição terá chegado ao fim, pois, por mais que brilhem as obras dos homens nas gerações futuras, é necessário que os homens ainda existam. Se algumas espécies de animais resistem por mais tempo ao frio invasor, quando não houver mais homens e supondo que a glória de Bergotte dure até lá, vai extinguir-se bruscamente para sempre. Não serão os últimos animais que irão lê-lo, pois é pouco provável que, como os apóstolos no Pentecostes, eles possam compreender a linguagem dos diversos povos humanos sem a ter aprendido.
     Nos meses que precederam a sua morte, Bergotte sofria de insônias e, o que é pior, de pesadelos assim que adormecia, pesadelos que, se acordava, faziam com que evitasse voltar a dormir. Por muito tempo gostara dos sonhos, mesmo os maus sonhos, pois graças a eles, graças à contradição que apresentam com a realidade que temos diante de nós no estado de vigília, nos dão, o mais tardar logo que despertamos, a sensação profunda de que dormimos. Mas os pesadelos de Bergotte não eram assim. Quando ele falava de pesadelos, antigamente entendia por isso coisas desagradáveis que se passavam no seu cérebro. Agora, era como vindas de fora que sentia uma mão munida de um esfregão molhado que, passado em seu rosto por uma mulher malvada, esforçava-se por acordá-lo, intoleráveis cócegas nos quadris, a raiva porque Bergotte havia murmurado do sono que ele conduzia mal de um cocheiro louco furioso, que se atirava sobre o escritor e lhe mordia os dedos, e os serrava. Enfim, logo que no seu sono a escuridão era suficiente, a natureza se encarregava de uma espécie de ensaio, sem vestimenta, do ataque de apoplexia que o haveria de matar: Bergotte entrava num carro sob o pórtico do novo palacete dos Swann, queria descer. Uma vertigem fulminante pregava-o no banco, o porteiro tentava ajudá-lo a descer, ele ficava sentado sem poder se levantar e se firmar nas pernas. Procurava arrimar-se ao pilar de pedra que estava à sua frente, mas não achava apoio bastante para se pôr de pé. Consultou os médicos que, lisonjeados por terem sido chamados por ele, viram em suas virtudes de grande trabalhador (há vinte anos que ele já não fazia nada), no cansaço excessivo, a causa de seu mal estar. Aconselharam-no que não lesse contos de terror (ele não lia nada), a desfrutar mais do sol, "indispensável à vida" (devia ao fato de viver enclausurado alguns anos de relativa melhora), a se alimentar mais (o que o fez emagrecer e alimentou sobretudo os pesadelos). Sendo dotado do espírito de contrariar e irritar o próximo, um dos médicos, quando Bergotte o recebia na ausência dos outros e, para não constrangê-lo, submetia-lhe como ideias próprias o que os demais lhe haviam aconselhado, o contradizia, achando que Bergotte procurava que lhe receitassem alguma coisa que lhe agradava, e logo lhe proibia, muitas vezes com razões fabricadas tão depressa para as necessidades da causa que, diante da evidência das objeções materiais opostas por Bergotte, o médico que o contradizia era forçado a contradizer a si próprio na mesma frase, mas, por razões novas reforçava a mesma proibição. Bergotte retornava a um dos primeiros médicos, homem metido a espirituoso, sobretudo diante de um dos mestres da pena, e que; se Bergotte insinuava:

- Parece-me no entanto que o doutor X me havia dito (antigamente, é claro) que isto poderia congestionar-me o rim e o cérebro...- sorria, malicioso, erguia o dedo e pronunciava: 
- Eu disse usar, e não abusar. Fica entendido que todo remédio, se a gente exagera, torna-se uma faca de dois gumes.-

     Existe no nosso corpo um certo instinto daquilo que nos seja saudável, como no coração o do dever moral, e que nenhuma autorização de um doutor em medicina ou em teologia pode substituir. Sabemos que os banhos frios nos fazem mal; gostamos deles, achamos sempre um médico que os aconselhe, e não para impedir que eles nos façam mal. De cada um desses médicos Bergotte obteve licença para aquilo que, por cautela, abstivera-se durante anos. Ao fim de algumas semanas, os acidentes de outrora haviam reaparecido, e os mais recentes tinham se agravado. Atormentado por um sofrimento de todos os minutos, ao qual se acrescentava a insônia cortada de breves pesadelos, Bergotte não mais chamou nenhum médico e tentou com êxito, mas com excesso, diversos narcóticos, lendo confiantemente a bula que acompanhava cada um deles, bula que proclamava a necessidade do sono mas insinuava que todos os produtos que o provocam (salvo o contido no frasco que ela envolvia e que jamais causava intoxicação) eram tóxicos e por esse motivo faziam o remédio ficar pior que o mal. Bergotte experimentou todos. Alguns são de família diversa daqueles a que estamos habituados, derivados por exemplo da amila e do etilo. Não absorvemos o novo produto, de composição inteiramente diversa, senão com a deliciosa expectativa da ignorância. O coração bate como num primeiro encontro. Para que gêneros desconhecidos de sono, de sonhos, a recém-chegado vai nos levar? Está em nós agora, possui a direção do nosso pensamento. De que maneira vamos adormecer? E, uma vez que estivermos dormindo, por quais caminhos estranhos, sobre quais cimos, em que abismos inexplorados o mestre todo-poderoso vai nos comandar? Que novo grupamento de sensações vamos conhecer nessa viagem? Vai levar-nos ao mal-estar? À beatitude? À morte? A morte de Bergotte sobreveio na véspera daquele dia, quando ele se confiara assim a um desses amigos (amigo? inimigo?) excessivamente poderoso.
     Morreu nas seguintes circunstâncias: uma crise de uremia bem leve fora motivo para que lhe prescrevessem o repouso. Mas, tendo um crítico escrito que na Vísta de Delft, de Vermeer (emprestado pelo museu de Haia para uma exposição holandesa), quadro que ele adorava e julgava conhecer muito bem, havia um pequeno lanço de muro amarelo (de que não se lembrava) tão bem pintado que era, se lhe fixassem o olhar, como uma preciosa obra de arte chinesa, de uma beleza que não bastava em si mesma - Bergotte comeu algumas batatas, saiu da casa e foi à exposição. Logo aos primeiros degraus que teve de subir, sentiu tonteiras. Passou diante de vários quadros e teve a impressão de secura e da inutilidade de uma arte tão artificial, e que não valia as correntes de ar e os raios de sol de um palácio de Veneza, ou de uma simples casa à beira-mar. Por fim chegou diante do Vermeer que ele recordava ser mais cintilante, mais diverso de tudo o que conhecia, mas onde, graças ao artigo do crítico, reparou pela primeira vez em pequenos personagens em azul, e que a areia era rósea, e, afinal, a preciosa matéria do pedacinho bem pequeno de muro amarelo. Suas tonteiras aumentavam; não tirava os olhos do precioso pedacinho de muro amarelo, como procede a criança com uma borboleta amarela a que pretende agarrar.

- Assim é que eu deveria ter escrito – dizia.- Meus últimos livros são muito secos, seria preciso passar-lhes diversas camadas de cor, tornar a minha frase preciosa em si mesma, como este pedacinho de muro amarelo. - Entretanto, a gravidade de suas tonteiras não lhe escapava. Numa celeste balança lhe aparecia, deposta num dos pratos, sua própria vida, ao passo que o outro continha o pedacinho de muro tão bem pintado em amarelo. Sentia Bergotte haver dado imprudentemente a primeira pelo segundo.- No entanto não gostaria - disse consigo - de ser para os jornais vespertinos a nota sensacional desta exposição. - Repetia para si mesmo: "Pedacinho de muro amarelo com uma varanda, pedacinho de muro amarelo." Nisso deixou-se cair num canapé circular; e subitamente parou de pensar que a vida estava em jogo e, voltando ao otimismo, disse consigo: "É uma simples indigestão causada por aquelas batatas mal cozidas, não é nada." Uma nova crise o derrubou, fazendo-o rolar do canapé para o chão; acorreram todos os visitantes e guardas. Estava morto. Morto para sempre? Quem o pode afirmar? Certo, as experiências espíritas, não mais que os dogmas religiosos, não provam que a alma subsiste. O que se pode afirmar é que tudo se passa na nossa vida como se nela entrássemos com o fardo de obrigações contraídas numa vida anterior; nas nossas condições de vida neste mundo, não há motivo algum para que nos julguemos obrigados a praticar o bem, a ser delicados, ou mesmo corteses, e tampouco para que o artista ateu se julgue obrigado a recomeçar vinte vezes um trabalho, cuja admiração que suscitará pouco há de importar a seu corpo devorado pelos vermes, como o pedacinho de muro amarelo que com tanta ciência e requinte pintou um artista desconhecido para sempre, mal identificado pelo nome de Vermeer. Todas estas obrigações, que não têm sanção na vida presente, parecem pertencer a um outro mundo, fundado na bondade, no escrúpulo, no sacrifício, um mundo inteiramente diverso deste, e do qual saímos para nascer nesta terra, antes talvez de voltar a viver nele sob o império dessas leis desconhecidas, às quais temos obedecido porque trazíamos em nós o seu ensinamento, sem saber quem as fizera, essas leis das quais nos aproximam todo trabalho profundo de inteligência e que apenas são invisíveis -e ainda para os tolos. De modo que a ideia de que Bergotte não haja morrido para sempre não é inverossímil.
     Enterraram-no, mas durante toda a noite fúnebre, nas vitrinas iluminadas, seus livros, dispostos de três em três, velavam como anjos de asas abertas e pareciam, para aquele que não existia mais, o símbolo de sua ressurreição.
     Como disse, soube naquele dia que Bergotte morrera. E me espantei com a falta de exatidão dos jornais que reproduzindo uns e outros a mesma nota diziam que ele havia morrido na véspera. Ora, na véspera Albertine se encontrara com ele, conforme contou-me na mesma noite, o que até a atrasou um pouco, pois ele havia conversado com ela por muito tempo. Sem dúvida fora com ela que Bergotte havia tido a última conversa. Albertine o conhecia através de mim, que não o via há muito mais tempo, mas como tivera a curiosidade de lhe ser apresentada, eu escrevera um ano antes ao velho mestre pedindo lhe autorização para levá-la à sua presença. Ele concordara com o pedido, embora um tanto magoado, acho, por eu só ir revê-lo para agradar a outra pessoa, o que confirmava a minha indiferença por ele. Esses casos são freqüentes; por vezes, aquele ou aquela que imploramos não pelo prazer de conversar de novo com eles, mas por um terceiro, recusa de tal maneira obstinada que o nosso protegido julga que nos vangloriamos de um falso poder; mais comumente, o gênio ou a beldade célebre consentem, mas, humilhados em sua glória, feridos no seu afeto, só conservam por nós um sentimento diminuído, doloroso, um pouco depreciativo. Adivinhei, muito depois, que acusara falsamente os jornais de inexatidão, pois naquele dia Albertine de forma alguma se encontrara com Bergotte; porém no momento não suspeitara de nada, porque ela me havia contado aquilo de modo tão natural, e só mais tarde percebi a arte encantadora que ela possuía de mentir com simplicidade. O que ela dizia, o que confessava, possuía de tal forma as mesmas características das coisas evidentes - do que vemos, do que aprendemos de maneira irrefutável que ela semeava assim nos intervalos da vida os episódios de uma outra vida de cuja falsidade então eu ainda não desconfiava. Aliás, haveria muito a discutir sobre essa palavra falsidade. O universo é real para nós todos e dissemelhante para cada um. O testemunho dos meus sentidos, se eu estivesse fora naquele momento, talvez me dissesse que uma certa senhora não dera alguns passos em companhia de Albertine. Mas, se eu fosse informado do contrário, seria por um desses encadeamentos de raciocínio (onde as palavras daqueles em que depositamos confiança inserem fortes malhas) e não pelo testemunho dos sentidos. Para invocar tal testemunho, seria necessário que eu tivesse estado precisamente lá fora, o que não ocorrera. No entanto, pode-se imaginar que uma tal hipótese não é inverossímil. E então eu teria sabido que Albertine mentira. Mesmo assim, seria verdade? O testemunho dos sentidos é igualmente uma operação do espírito onde a convicção cria a evidência. Vimos muitas vezes o sentido da audição levar a Françoise não a palavra pronunciada, mas a que ela julgava ser a verdadeira, o que bastava para que não ouvisse a retificação implícita de uma pronúncia melhor. Nosso mordomo era feito da mesma massa. O Sr. de Charlus usava por essa época pois mudava muito calças demasiado claras e que seriam reconhecidas entre mil. Ora, o nosso mordomo, que julgava que a palavra pissotierez (palavra que designa o que o Sr. de Rambuteau ficara indignado por ouvir o duque de Guermantes denominar um "urinol Rambuteau") era pistiere, nunca ouviu em toda a vida uma só pessoa dizer pissotiere, embora muitas vezes assim a pronunciassem diante dele. Mas o erro é mais obstinado que a fé e não examina as próprias crenças. Constantemente o mordomo dizia:

[pistieere: mictório. N do T]


- Com certeza o Sr. barão de Charlus pegou uma doença para ficar assim tanto tempo numa pistiere. Eis o que acontece com quem anda sempre atrás de mulheres. Acaba metido nessas calças. Hoje de manhã, a patroa me mandou fazer compras em Neuilly. Na pistiere da rua de Bourgogne, vi entrar o Sr. barão de Charlus. Voltando de Neuilly, uma boa hora mais tarde, vi suas calças amarelas na mesma pistiere, no mesmo lugar, no meio, onde ele se põe sempre para que não o vejam. - 

     Eu não conhecia nada mais lindo, mais nobre nem mais jovem que uma certa sobrinha da Sra. de Guermantes. Mas ouvi o porteiro de um restaurante aonde ia às vezes dizer à sua passagem: 

- Olhem essa velha bruaca, que tipo! E tem pelo menos oitenta anos. - 

     Quanto à idade, parecia-me difícil que acreditasse no que dizia. Mas os criados que se agrupavam em torno dele e que troçavam cada vez que ela passava diante do hotel para visitar tão longe dali as duas tias-avós encantadoras, Sras. de Fezensac e de Balleroy, viram na fisionomia dessa jovem beleza os oitenta anos que, gracejando ou não, atribuíra o porteiro à "velha bruaca". Haveriam de se torcer de riso se lhes dissessem que a moça era mais distinta que uma das duas caixeiras do hotel e que, embora roída de eczemas, de uma gordura ridícula, parecia-lhes uma bela mulher. Talvez somente o desejo sexual teria sido capaz de impedi-los de caírem no seu erro, caso ele houvesse agido à passagem da pretensa "velha bruaca", e se aqueles criados tivessem de súbito cobiçado a jovem deusa.
     Mas, por motivos ignorados e que provavelmente deviam ser de ordem social, tal desejo não se manifestara.
     Mas afinal eu poderia ter saído e ter passado na rua à hora em que Albertine me dissera, naquela noite (sem me ter visto), que dera alguns passos em companhia da tal senhora. Uma obscuridade sagrada se apoderou de meu espírito, eu teria posto em dúvida que a vira sozinha, mal teria procurado compreender por que ilusão de ótica não havia percebido a senhora e não ficaria mais espantado por me haver iludido, pois o mundo dos astros é menos difícil de conhecer do que as ações reais dos seres, sobretudo nos seres a que amamos, fortificados que são contra nossa dúvida por fábulas destinadas a protegê-los. Durante quantos anos podem eles deixar que o nosso apático amor acredite que a mulher amada tem no estrangeiro uma irmã, um irmão, uma cunhada que jamais existiram! De resto, se não fôssemos obrigados, para a boa ordem da narrativa, a nos limitar a razões frívolas, quantas outras mais sérias nos permitiriam mostrara insignificância mentirosa do princípio deste volume, onde, do meu leito, ouço o despertar do mundo, ora num dia ensolarado, ora num dia chuvoso. Sim, fui obrigado a adelgaçar a coisa e a ser mentiroso, mas não é só um universo, são milhões de universos que despertam todas as manhãs, quase tão numerosos quantas são as pupilas e inteligências humanas.

continua na página 79...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Toda criatura amada)
Volume 6

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