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terça-feira, 22 de abril de 2025

Marcel Proust - O Tempo Recuperado (Além disso, sob certos pontos de vista)

em busca do tempo perdido

volume VII
O Tempo Recuperado


continuando...

     Além disso, sob certos pontos de vista a comparação não era falsa. De nossa varanda, a cidade parecia um só local movente, informe e negro, e que de repente passava das profundezas e da noite para a luz e para o céu, onde, um a um, os aviadores se elevavam ao apelo aflitivo das sirenes, enquanto, com um movimento mais vagaroso, mais traiçoeiro, mais alarmante, pois esse olhar lembrava o objeto ainda invisível e talvez já próximo, que estava procurando, os refletores mudavam permanentemente de direção, farejando o inimigo, assediando-o com seus faróis até o momento em que os aviões, orientados, mergulhavam em pique para capturá-lo. E, esquadrilha após esquadrilha, cada aviador se alçava desse modo da cidade, transportada agora aos céus, semelhante a uma valquíria. No entanto, alguns pontos da terra, no nível das casas, iluminavam-se, e eu disse a Saint-Loup que, se ele estivesse em casa na véspera, poderia, contemplando o apocalipse no céu, ver sobre a terra (como no Enterro do Conde de Orgaz, de El Greco, onde esses planos diversos são paralelos) um verdadeiro vaudeville representado pelos personagens de camisola, os quais, devido a seus nomes célebres, mereceriam ter sido mandados a algum sucessor daquele Ferrari cujas notas mundanas tantas vezes nos tinham divertido, a mim e a Saint-Loup, que as imitávamos de brincadeira. E foi o que fizemos ainda àquele dia, como se não houvesse guerra, conquanto acerca de um assunto bem "de guerra", o medo aos zepelins: "Reconhecidos: a duquesa de Guermantes, magnífica de camisola; o duque, de Guermantes, indescritível de pijama cor-de-rosa e roupão de banho etc., etc." - "Garanto", disse ele, "que em todos os grandes hotéis se devem ter, judias americanas de camisola, apertando nos seios envelhecidos o colar de pérolas que lhes permitiria casarem-se com um duque arruinado. O hotel Ritz, nas noites, deve se parecer à Bolsa de Valores".
     Contudo, é preciso dizer que, se a guerra não fizera aumentar a inteligência de Saint Loup, essa inteligência, conduzida por uma evolução em que a hereditariedade assumia uma grande parte, ganhara um brilho que eu antes jamais percebera. Que distância entre o jovem louro, outrora cortejado pelas mulheres chiques ou aspirando a sê-lo, e o argumentador, o doutrinário que não cessa de brincar com as palavras! Noutra geração, noutro ramo, como um ator que retoma o papel representado antigamente por Bressant ou Delaunay, ele era como um sucessor róseo, louro, dourado, ao passo que o outro se dividia entre muito preto e branco do Sr. de Charlus. Conquanto não se entendesse com o tio a respeito da guerra, tendo-se alistado naquela porção de aristocracia que colocava a França acima de tudo, enquanto o Sr. de Charlus era derrotista no fundo, ele podia mesmo a quem não tivesse visto o "criador do papel", como era possível sobressaltar qualidade de argumentador.

- Parece que Hindenburg é uma revelação - disse eu. 
- Uma revelação velha, ou futura - respondeu-me de pronto. - Devia se ter mais poder de fogo a Mangin, em vez de poupar o inimigo, abater a Áustria - Alemanha e europeizar a Turquia, em vez de "montenegrizar" a França. 
- Mas agimos com o auxílio dos Estados Unidos - observei. 
- Enquanto esperamos, não vejo senão o espetáculo dos Estados Desunidos. Por que não fazer maiores concessão à Itália, com medo de descristianizar a França? 
- Se o teu tio Charlus te ouvisse - exclamei. - No fundo, não te aborrecerias se se ofendesse ainda mais o papa, e pensa com desespero no mal que podem fazer ao trono de Francisco José. Ainda fala-se nisso, dentro da tradição de Talleyrand e do Congresso de Viena.  
- Ah! O Congresso de Viena já passou - respondeu ele-; à diplomacia secreta, é necessária para opor a diplomacia concreta. Meu tio no fundo é um monarquista impenitente quem fariam engolir "carpas", como a Sra. Molé, ou "escarpas", como Arthur M; desde que as carpas e escarpas sejam preparadas à Chambord. Por ódio ao penta tricolor, creio que aderiria antes ao esfregão do bonnet rouge, que de boa-fé teria pelo estandarte branco da realeza. -  

*[No original, carpes e escarpes, trocadilho de fundo paronímico. Carpe é "carpa", mas, na gíria, significa "tola, simplória". Escarpe é "estopa", "talude", mas também quer dizer "assaltante". Mantivemos a tradução mesmo sem sentido para que não se perca o sabor da paronímia. (N. do T)]*
*[Bonnet rouge ('Boné vermelho'): nome de um jornal revolucionário e antimilitarista francês, cujo diretor Almereyda, envolveu-se em casos de traição (1917-18) (N. do T)]*

     É claro que tudo aquilo não eram mais palavras, e Saint-Loup estava longe de possuir a originalidade por vezes profunda do tio. Mas era tão afável e de caráter tão encantador, como o outro era suspicaz e invejoso. E continuara encantador e róseo como em Balbec, sob todos os seus cabelos de ouro. O único aspecto em que o tio não o sobrepujaria era aquele estado de espírito do Faubourg Saint-Germain, de que se imbuem até os que se creem mais livres, incutindo-lhes, a um tempo, o respeito pelos homens inteligentes sem nascimento (e que na verdade só floresce na nobreza e torna tão injustas as revoluções) e uma tola satisfação de si mesmos. Em nome dessa mistura de humildade e orgulho, de curiosidades de espírito adquiridas e de autoridade inata, o Sr. de Charlus e Saint-Loup, percorrendo caminhos diversos e sustentando opiniões opostas, tinham se tornado, com uma geração de intervalo, intelectuais interessados em toda ideia nova e conversadores de quem nenhuma interrupção consegue obter silêncio. De modo que uma pessoa um tanto medíocre podia considerá-los, de acordo com a disposição em que estivesse, fascinantes ou aborrecidos.  

- Tu te lembras – disse-lhe - de nossas conversas em Doncieres. 
- Ah, era um bom tempo. Que abismo nos separa dele. Aqueles dias lindos regressarão um dia: *Du gouffre interdit à nos sondes/ Comine montem au ciei les soleils rajeunis Apres s'être lavés au fond des mers profondes?* 

*["do abismo vedado às nossas sondas,/ Como sobem ao céu os sóis tornados: jovens/ Depois de se lavarem nas profundas ondas?" Versos (com ligeiras alterações) de Baudelaire no poema Le Balcon ('A Varanda'). (N. do T)]*

- Só pensemos nessas conversas para recordar sua doçura - disse-lhe eu. - Procurava nelas alcançar um certo tipo de verdade. A guerra atual, que transtornou tudo, e, principalmente, me dizes, a ideia da guerra, tornaria ultrapassado o que me falavas então a respeito dessas batalhas, por exemplo, quanto às batalhas de Napoleão, que seriam imitadas nas guerras futuras? 
- De modo algum! - respondeu-me. - A batalha napoleônica é sempre reencontrada, e tanto mais ainda nesta guerra, em que Hindenburg está imbuído do espírito napoleônico. Seus rápidos deslocamentos de tropas, seus fingimentos, ou porque deixa apenas uma pequena linha de defesa diante de um de seus adversários, para cair com todas as forças juntas sobre o outro (Napoleão, 1814), ou porque investe numa diversão *[Diversão: manobra ou operação militar cujo fim é desviar a atenção do inimigo do ponto que se pretende ocupar.(N. Do T.)]* que força o adversário a manter suas tropas numa frente que não é a principal (assim a manobra fingida de Hindenburg diante de Varsóvia, graças à qual os russos, enganados, levaram para ali a sua resistência e foram batidos nos lagos da Masúria), seus recuos, análogos àqueles pelos quais começaram as batalhas de Austerlitz, Arcole e Eckmühl, tudo nele é napoleônico, e ainda não terminei. Acrescentarei, se, longe de mim, tentas, à medida que interpretas os acontecimentos desta guerra, a não confiar exclusivamente nessa maneira especial de Hindenburg para não ver o sentido do que ele faz, a chave do que ele vai fazer. Um general é como um que deseja escrever uma certa peça, um certo livro, e que o próprio livro, cheio de inesperados reclusos que revela aqui, o impasse que apresenta além, faz excessivamente do plano preconcebido. Como uma diversão, por exemplo; deve ser feita senão num ponto de importância vital; supondo que a diversão tenha êxito além de qualquer esperança, ao passo que a operação principalmente em fracasso; é a diversão que pode se tornar a operação principal. Espero Hindenburg num desses tipos de batalha napoleônicos, o que consiste em separar dois adversários: os ingleses e nós.

O Tempo Recuperado (Além disso, sob certos pontos de vista)

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Marcel Proust - O Tempo Recuperado (E agora, na minha segunda volta à Paris)

em busca do tempo perdido

volume VII
O Tempo Recuperado


continuando...

     E agora, na minha segunda volta à Paris, eu recebera, logo no dia seguinte à minha chegada, uma nova carta de Gilberte que, sem dúvida, havia esquecido da outra, ou pelo menos o sentido dela, de que já falei; pois sua partida de Paris, em fins de 1914, era ali apresentada retrospectivamente de modo bem diverso.

- Você não sabe, meu caro amigo - dizia ela -, mas já faz quase dois anos que estamos em Tansonville. Cheguei aqui ao mesmo tempo que os alemães; todos quiseram impedir-me de partir. Chamavam-me de louca. Como diziam "você se achará em segurança em Paris e vai partir para essas regiões invadidas, justo no momento em que todos procuram fugir de lá". Eu ignorava tudo o que esse raciocínio continha de exato. Mas, que quer, só possuo uma qualidade, não sou covarde, ou melhor se prefere, sou fiel, e, quando soube que minha querida Tansonville estava também não quis que o nosso velho caseiro ficasse sozinho a defendê-la. Julguei que meu lugar era a seu lado. De resto, foi graças a esta resolução que mais ou menos pude salvar o castelo, quando todos os outros das vizinhanças, abandonados por proprietários enlouquecidos, foram quase todos destruídos de alto a baixo e não apenas salvar o castelo, mas as preciosas coleções que meu querido papai prezava. 

     Numa palavra, Gilberte agora estava convencida de que não fora à Tansonville, como me escrevera em 1914, para fugir dos alemães e estar sem esperança, mas, ao contrário, para encontrá-los e defender seu castelo contra eles. 
     No entanto, não tinha permanecido em Tansonville, mas nem por isso deixara haver ali um vaivém constante de militares, muito superior ao que na rua de Combray.  
     Françoise só fazia derramar lágrimas, e Gilberte podia dizer, e agora sem fugir à verdade, que levava uma vida de frente de batalha. Assim, todos os jornais falavam de sua conduta admirável com os maiores elogios, e pensava-se em condecorá-la. O fim de sua carta era rigorosamente exato. Você não faz ideia do que é esta guerra, meu caro amigo, e da importância que nela assume uma estrada, uma ponte, uma elevação. Quantas vezes pensei em você, nos passeios, tornados deliciosos graças a você, que fazíamos por toda essa região hoje devastada, no momento em que imensos combates se travavam pela posse de um determinado caminho, de um certo outeiro de que você gostava, onde subimos juntos tantas vezes! Provavelmente, você, como eu, não imaginava que a obscura Roussainville e a enfadonha Méséglise, de onde nos levavam nossas cartas, e onde foram buscar o médico quando você esteve doente, seriam jamais lugares célebres. Pois bem, meu caro amigo, elas são gloriosas para sempre, no mesmo nível de Austerlitz ou de Valmy. A batalha de Méséglise durou mais de oito meses, nela os alemães perderam mais de seiscentos mil homens; destruíram Méséglise, mas não a tomaram. A pequena vereda de que você gostava tanto, a que chamávamos de ladeirinha de espinheiros, e onde pretende ter se apaixonado por mim na infância, ao passo que, na verdade, afirmo-lhe que era eu quem estava apaixonada por você, nem posso lhe dizer a importância que ela adquiriu. O imenso campo de trigo a que ela conduz é o famoso marco 307, cujo nome você deve ter lido tantas vezes nos comunicados. Os franceses explodiram a pontezinha sobre o Vivonne, a qual, dizia você, não lhe recordava a infância tanto quanto desejaria; os alemães explodiram outras, durante um ano e meio ocuparam uma metade de Combray, e os franceses a outra metade.
     No dia seguinte àquele em que eu havia recebido esta carta, ou seja, na antevéspera do dia em que, andando na escuridão, ouvindo soar o ruído de meus passos, ruminando todas essas lembranças, Saint-Loup, vindo do front, quase de regresso, fizera-me uma visita de apenas alguns minutos, que só em ser anunciada me deixou violentamente emocionado. Françoise quisera precipitar-se para ele, esperando que Saint-Loup pudesse mandar reformar o tímido aprendiz de açougueiro, cuja classe partiria dentro de um ano. Mas ela própria se susteve, pela inutilidade de semelhante pedido, pois de há muito o tímido matador de animais havia mudado de açougue. E, ou porque a dona do nosso temesse perder a freguesia, ou porque estivesse de boa-fé, declarou a Françoise que ignorava onde se empregava o rapaz, que, de resto, não daria um bom açougueiro. Françoise, então, havia procurado em todo canto, mas Paris é grande, e os açougues numerosos, e ela não pudera achar o jovem tímido e sangrento.
     Quando Saint-Loup entrou no meu quarto, aproximei-me dele com a sensação de timidez, com a impressão de sobrenatural que davam, no fundo, todos os convocados em licença, e que experimentamos quando somos levados à presença de uma pessoa atacada de moléstia mortal, e que, no entanto, ainda se levanta, veste-se e passeia. Parecia (parecera, sobretudo no começo, pois para quem não vivera, como eu, longe de Paris, sobreviera o hábito, cortando das coisas que diversas vezes a raiz da impressão profunda e de pensamento que lhes não tinha sentido real), parecia quase haver algo de cruel nessas licenças dadas aos combatentes. Nas primeiras, dizia-se: "Não hão de querer voltar, desertarão." E, não regressavam apenas de lugares que nos pareciam irreais porque só tínhamos ouvido falar deles pelos jornais, e porque não imaginávamos a possibilidade de alguém tomar parte nesses combates titânicos e voltar com apenas um ombro; era das margens da morte, às quais voltariam, que eles regressavam; um momento para ficar conosco, incompreensíveis para nós, enchendo-nos de assombro, e de uma sensação de mistério, como esses mortos que evocamos, que nos aparecem por um segundo, que não ousamos interrogar quando muito, poderiam responder: "Não poderíeis fazer ideia." Pois é extraordinário verificar a que ponto, seja entre os que escaparam do fogo, que são os combatentes de licença entre os vivos, seja entre os espíritos que um médium hipnotizado ou o único efeito do contato com o mistério é o de aumentar, se possível, a implicância das frases. Assim, abordei Robert, que ainda trazia na testa uma cicatriz mais augusta e misteriosa para mim que a impressão deixada na terra pelo um gigante. E eu não tivera coragem de lhe fazer qualquer pergunta, e ele dissera simples palavras; e estas ainda eram bem pouco diferentes das de antes da guerra como se, apesar dela, as pessoas continuassem a ser o que eram: o retorno das conversas era o mesmo, apenas o assunto diferia, e ainda assim!
     Julguei entender que Robert encontrara no exército expedientes que poucos o tinham feito esquecer que Morel procedera tão mal com ele como seu tio. Todavia, conservava-lhe grande amizade e era possuído de bruscos de tornar a vê-lo, sempre adiados. Julguei mais delicado para com Gilberte indicar à Robert que, para encontrar Morel, bastava que ele fosse à casa da Sra. Verdurin. Disse humildemente a Robert quão pouco se sentia a guerra; retrucou-me que, mesmo em Paris, às vezes ocorriam "coisas incríveis". A um ataque de zepelins que houvera na véspera, e me perguntou se o vira, mas me falaria antigamente de algum espetáculo de grande beleza estética. No entanto se compreende que haja uma espécie de coqueteria em dizer: "É maravilhoso! Que rosa! E que verde-claro!" no momento em que se pode a todo instante ver a morte; porém isto não existia em Saint-Loup, em Paris, a propósito de um insignificante, mas que, da nossa varanda, no silêncio de uma noite onde houve de súbito, uma festa verdadeira de foguetes úteis e protetores, toque de clarins não eram para a parada etc. Comentei a beleza dos aviões que subiam à noite.

- Talvez, mais ainda a dos que descem -disse ele. - Reconheço que é muito bonito o momento em que eles sobem, quando vão fazer constelação, e nisso obedecem a leis tão precisas como as que regem as constelações, pois o que te parece um espetáculo é o alinhamento das esquadrilhas, o comando que lhes dão, sua partida para a caça etc. Mas não preferes o momento em que, definitivamente comparados às estrelas, eles diferem destas para sair em caça, ou voltar após o toque de recolher, no momento em que fazem apocalipse e até as estrelas saem do lugar? E as sirenes, não seriam bem wagnerianas, o que, de resto, seria bem natural para saudar a chegada dos alemães, parecendo hino nacional, Wachtam Rhein [1], com o Kronprinz e as princesas no camarote imperial; era para se perguntar se se tratava mesmo de aviadores ou antes das Valquírias que subiam. - 

     Parecia comprazer-se nessa comparação entre aviadores e Valquírias, explicando-a, de resto, por motivos puramente musicais:

- Ora, é que a música das sirenes era a de uma Cavalgada! Decididamente, é preciso a chegada dos alemães para que se ouça Wagner em Paris. 

O Tempo Recuperado (E agora, na minha segunda volta à Paris)
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[1] Wachtam Rhein ('A guarda do Reno'), poema de Max Schneckenburger (1819-1849) musicado por Karl Wilhelm à Ferrari: François Ferrari, cronista mundano do Fígaro, em Paris, fins do século XIX e começos do XX. (N. do T)

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Marcel Proust - O Tempo Recuperado (Dias antes, eu encontrara esse ascensorista aviador)

em busca do tempo perdido

volume VII
O Tempo Recuperado


continuando...

     Dias antes, eu encontrara esse ascensorista aviador. Falara-me de Balam curioso por saber o que me diria acerca de Saint-Loup, desviei a conversa a fim de saber se era verdade, como me haviam dito, que o Sr. de Charlus tinha relações com os rapazes etc. O ascensorista pareceu assombrado; não sabia de nada. Em compensação, acusou o rapaz rico, o que vivia com a amante e três amigos. Como impressão de colocar tudo num mesmo saco e eu soubesse pelo Sr. de Charlus que me dissera, como estão lembrados, diante de Brichot, que ele não o era em absoluto, afirmei ao ascensorista que ele deveria estar enganado. Opôs às minhas dúvidas as mais seguras afirmativas. A amiga do rapaz rico é quem estava enganada de levar-lhe moços, e todos desfrutavam juntos os prazeres. Assim, o Sr. Charlus, o mais competente dos homens nessa matéria, enganara-se completamente, de tal modo a verdade é parcial, secreta e imprevisível. De medo de raciocinar como um burguês, de ver o charlismo onde ele não existia, não obter aquele fato, a "condução" operada pela mulher.

- Ela vem se encontrar comigo várias vezes - disse o ascensorista.- Mas percebeu logo com quem estava lidando e recusei categoricamente. Não me meto em tal assunto; disse-lhe que isso positivamente me desagradava. Basta que uma pessoa seja indiscreta e isso se divulgam; não se consegue mais colocação em parte alguma. -

     Estas últimas declarações enfraqueciam as virtuosas afirmações do princípio, pois pareciam implicar que o ascensorista teria cedido se estivesse seguro da discrição. Tal fora, sem dúvida no caso de Saint-Loup. É provável que até mesmo o rapaz rico, sua amante e os amigos não fossem menos favorecidos, pois o ascensorista citava muitas conversas que tivera com eles em épocas bem variadas, o que raramente acontece quando nos recusamos categoricamente. Por exemplo, a amante do rico - encontrar-se com ele para conhecer um lacaio de quem o ascensorista era muito amigo. 

- Não creio que o conheça; não estava no hotel naquela ocasião; chamavam de Victor. Naturalmente - acrescentou o ascensorista com o ar de quem se refere as leis invioláveis e um tanto secretas-, não se pode recusar a um camarada que é rico. - 

     Lembrei-me do convite que o amigo nobre do rapaz rico me havia dirigido alguns dias antes de minha partida de Balbec. Mas certamente aquilo nada tinha a ver e era ditado apenas pela amabilidade. 

- Muito bem, e a pobre Françoise, conseguiu obter a reforma do sobrinho?

     Mas Françoise, que há muito fazia todos os esforços possíveis para que o sobrinho fosse reformado, e que, quando lhe propuseram uma recomendação, por meio dos Guermantes, ao general de Saint-Joseph, respondera num tom desesperado: 

"Oh, não, não serviria de nada, não se pode esperar nada desse velhote, é o que há de pior, é patriota" 

     Françoise, desde o começo da guerra, e apesar da dor que aquilo lhe causava, achava que não se devia abandonar os "pobres russos", visto serem "aliançados". O mordomo, persuadido aliás de que a guerra não duraria mais que dez dias e acabaria com a vitória brilhante da França, não ousaria, com receio de ser desmentido pelos fatos, e até mesmo não teria bastante imaginação para prever uma guerra longa e indecisa. Mas, dessa vitória completa e imediata, procurava ele ao menos extrair de antemão tudo o que poderia fazer Françoise infeliz.

- As coisas vão indo mal, pois parece que muitos não querem marchar, e há rapazes de dezesseis anos que choram.-

     E, dizendo-lhe assim coisas desagradáveis, para aborrecê-la, era o que chamava "atirar-lhe um pepino, lançar-lhe uma apóstrofe, enviar-lhe um trocadilho". 

- De dezesseis anos, Virgem Maria! - exclamava Françoise e, num momento de desconfiança: - No entanto, diziam que só os recrutavam depois de completarem vinte anos, ainda são crianças. 
- Naturalmente os jornais têm ordem para não falar isso. Aliás, toda a juventude será convocada, muitos serão dizimados. Por um lado, isto será útil, uma boa sangria é proveitosa de vez em quando, põe em andamento o comércio. Ah, diabos! se alguns desses rapazinhos mimados vacilarem, serão imediatamente fuzilados, doze balas no couro, e pronto! Em parte, é necessário. E depois, que têm os oficiais com isso? Ganham suas pesetas, é tudo o que desejam.-

     Françoise empalidecia de tal modo durante essas conversas que receávamos que o mordomo causasse a sua morte de ataque cardíaco. Mas nem por isso ela perdia seus defeitos. Quando uma moça vinha me visitar, por mais que a velha criada se sentisse mal das pernas, se me ocorria sair por um instante do quarto, eu a via no alto de uma escada, na rouparia, no ato, dizia ela, de procurar um paletó meu para ver se não estava comido de traças, mas na realidade para nos escutar. Apesar de todas as minhas críticas, conservava o seu jeito insidioso de fazer perguntas de modo indireto, para o que utilizava desde algum tempo um certo "porque, sem dúvida". Não ousando dizer-me:

- Aquela senhora tem casa própria? - comentava, os olhos timidamente erguidos como os de um cão mansinho: - Porque, sem dúvida, aquela senhora tem uma casa própria evitando a interrogação direta menos por polidez do que para não parecer curiosa. 

     Enfim, como os criados que mais estimamos e sobretudo se já quase não nos prestam os serviços e o respeito que lhes impõe sua condição-infelizmente continuam sendo criados e marcam mais nitidamente os limites (que desejaríamos apagar) de sua casta, à medida que julgam penetrar mais na nossa. Françoise tinha frequentemente a meu respeito ("para me irritar", diria o mordomo) observações estranhas que uma pessoa da sociedade não faria: com uma alegria controlada, mas tão profunda como se se tratasse de uma moléstia grave, se eu sentisse calor, e o suor, que não me incomodava, gotejasse-me na testa, "Mas o senhor está ensopado" dizia, espantada como diante de um fenômeno estranho; ou, de leve, com o desprezo que provoca algo de indecente ("vai sair mas esqueceu de pôr a gravata"), mas com voz preocupada, própria para inquietar alguém em seu estado. Dir-se-ia que somente eu, em todo o universo, nunca estivera ensopado. Enfim, já não me falava bem como antigamente. Pois, em sua humildade; sua carinhosa admiração pelas criaturas que lhe eram infinitamente inferiores imitava seus modos feios de falar. Sua filha, queixando-se dela para mim, (não sei de quem o soubera) disse-me: 

- Ela sempre tem algo a reclamar, que eu não fecha bem as portas, e patati-patatá-, Françoise sem dúvida pensou que só uma ação incompleta a privara até então desse belo hábito. E nos lábios em que ia florescer outrora o francês mais puro, ouvi diversas vezes por dia: - E patati-patatá. 

     De resto, é curioso verificar como, não só as expressões mas os pensamentos variam pouco numa dada pessoa. O mordomo, tendo adquirido o hábito de falar que o Sr. Poincaré *[Raymond Poincaré (1860-1934): presidente da França (1913-1920) (N. do T)] estava com más intenções, não pelo dinheiro, mas desejara absolutamente a guerra, repetia isto sete a oito vezes por dia para o mesmo auditório habitual e sempre igualmente interessado. E sem modificar uma palavra, um gesto, uma entonação. Embora isso não durasse mais que dois minutos, invariável como uma representação. Seus erros de francês corrompiam a linguagem de Françoise, tanto quanto os erros da filha desta. Achava que aquilo que o Sr. de Rambuteau ficara tão melindrado um dia ao ouvir o Sr. de Guermantes afirmar de "urinóis Rambuteau" se denominava pistieres. É claro que desde a informação não ouvia outra coisa e aquilo lhe ficara. Portanto, pronunciava essa palavra de modo incorreto, mas permanentemente. Françoise, constrangida a princípio, acabou falar do mesmo modo, queixando-se de que não existisse esse tipo de coisas as mulheres, como existia para os homens. Porém a sua humildade e sua admiração pelo mordomo faziam com que jamais dissesse pissotieres, e sim com leve concessão ao costume pissetieres. [Pissotiere: mictório. Este episódio já vem narrado, com outras palavras e em contexto diversa, em A Prisioneira. (N. do T)]  
     Ela já não dormia nem comia, vivia ouvindo os comunicados, de que não entendia, lidos pelo mordomo, que, igualmente nada entendendo, e cujo desejo de atormentar Françoise era frequentemente sobrepujado por uma alegria patriótica dizia, com um riso simpático, falando dos alemães:

- Isto está esquentando; o velho Joffre vai lhes cortar a cauda do cometa. -

     Françoise não compreendia de que cometa se tratava, mas nem por isso deixava de perceber que essa frase fazia parte das amáveis e originais extravagâncias às quais uma pessoa bem educada deve responder de bom humor, por urbanidade, e dando de ombros alegremente, como a dizer: "Qual, é sempre o mesmo" e temperava as lágrimas com um sorriso. Ao menos, mostrava-se feliz porque seu novo açougueiro, que, apesar da profissão, era bastante medroso (todavia começara pelos abatedouros), ainda não estava em idade de ser convocado. Não fosse isto, ela teria sido capaz de ir ao ministro da Guerra para solicitar sua reforma.
     O mordomo não poderia admitir que os comunicados não fossem excelentes, e que o exército não se aproximasse de Berlim, visto que lia: "Repelimos, com pesadas perdas para o inimigo etc.", ações que ele celebrava como novas vitórias. Entretanto, eu me sentia assustado com a rapidez com que o teatro dessas vitórias se aproximava de Paris, e até fiquei assombrado que o mordomo, tendo visto num comunicado que uma das ações ocorrera perto de Lens, não se inquietasse ao ver no jornal, na manhã seguinte, que as consequências de tais encontros se voltaram a nosso favor em Jouy-le-Vicomte, onde eram sólidas as nossas posições. No entanto, o mordomo conhecia perfeitamente o nome de Jouy-le-Vicomte, que não distava muito de Combray. Mas a gente lê os jornais da mesma forma que ama, com uma venda nos olhos. Não procuramos compreender os fatos. Ouvimos as doces palavras do redator-chefe como se fossem palavras de nossa amante. Somos vencidos e ficamos satisfeitos, pois não nos consideramos vencidos, mas vencedores.
     Aliás, não me demorei muito em Paris e voltei depressa para a minha casa de saúde. Embora, em princípio, o médico me tratasse pelo isolamento, entregaram-me em épocas diferentes uma carta de Gilberte e outra de Robert. Gilberte me escrevia (mais ou menos em setembro de 1914) dizendo que, apesar do seu desejo de permanecer em Paris, onde mais facilmente obteria notícias de Robert, as perpétuas incursões dos taubes sobre Paris lhe infundiram tamanho pavor, principalmente por causa da filhinha, que ela fugira da cidade pelo último trem que ainda saía para Combray, que o trem nem mesmo chegara a Combray e que somente graças à charrete de um camponês, na qual fizera dez horas de um caminho atroz, é que alcançara Tansonville!
*[Taubes: Pombo, em alemão. Nome dado aos monoplanos alemães da Primeira Guerra Mundial. (N. do T)]* 

- E lá, quem imaginava que esperava a sua velha amiga - escrevia Gilberte, ao terminar. - Eu saíra de Paris para fugir aos aviões alemães, pensando que em Tansonville estaria a salvo de tudo. Não fazia nem dois dias que ali me encontrava, quando imagine quem chegou: os alemães, que invadiam a região depois de terem abatido nossas tropas em La Fere, e um estado-maior alemão, seguido de um regimento que se apresentava à porta de Tansonville, e para lá que fui.

     Poemas que durante a convalescença, colocavam-se, para descrever a guerra, nível dos acontecimentos, que em si mesmos nada significam, mas no vulgar, de que haviam seguido as regras até então, falando, como o teriam feito anos antes, da "sangrenta aurora", do "voo fremente da vitória" etc. Sai muito mais inteligente e artista, continuava sendo inteligente e artista, e fixava finura, para mim, as paisagens que via enquanto estava imobilizado à beira da floresta pantanosa, mas como se participasse de uma caçada a patos selecionados. Para me fazer compreender certas oposições de sombra e luz que tinham encantamento de sua manhã, recordava alguns quadros que nós dois vimos, sem recear aludir a uma página de Romain Rolland, ou até de Nietzsche com aquela independência dos que estão no front, que não têm o mesmo rancor dos inativos de pronunciarem um nome alemão, e até, com uma ponta de quietismo, de citar um inimigo, que fizera, por exemplo, o coronel Du Paty depor na sala das testemunhas do processo Zola, a recitar de passagem, diante de juízes - Quillard, poeta dreyfusista de extrema violência, a quem aliás não conhecia, do seu drama simbolista, A Menina de Mãos Cortadas.  
     Saint-Loup me falava uma melodia de Schumann, só lhe dava o título em alemão e não entrava circunlóquios para dizer que, quando ao amanhecer ouvira um primeiro gorjeio da orla daquela floresta, sentira-se inebriado como se lhe falasse o pássaro daquele "sublime Siegfried" que esperava escutar depois da guerra.

O Tempo Recuperado (Dias antes, eu encontrara esse ascensorista aviador)

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Marcel Proust - O Tempo Recuperado (Bloch nos deixou)

em busca do tempo perdido

volume VII
O Tempo Recuperado


continuando...

     Bloch nos deixou diante da porta de sua casa, transbordante de azedume contra Saint-Loup, dizendo-lhe que os outros, "belos rapazes" agora pavoneando-se nos Estados Maiores, não arriscavam coisa alguma, ao que ele, simples soldado de 21ª classe, não desejava ser "crivado de balas" por causa de Guilherme.

- Parece que o imperador Guilherme está gravemente enfermo - respondeu Saint Loup.  

     Bloch que, como todas as pessoas que lidam com a Bolsa, com extrema facilidade as notícias sensacionalistas, acrescentou:

- Dizem até que ele está morto. - Na Bolsa, todo soberano doente, fosse Eduardo VII ou Guilherme II, está morto, toda cidade a ponto de ser assediada, já sofreu captura. - Só dão o fato - continuou Bloch - para não abater o moral dos boches. Mas, morreu na noite de ontem. Meu pai o soube por uma fonte altamente fidedigna. As fontes altamente fidedignas eram as únicas que o Sr. Bloch pai levava em consideração porque, devido às "altas relações", tinha a sorte de estar em comunicação das quais recebia a notícia, ainda secreta, de que as ações da Extérieure iam subir, que as de Beers cairiam. Aliás, se naquele preciso momento houvesse uma alta ações da Beers, ou "ofertas" pelas da Extérieure, se o mercado da primeiramente revelasse "firme" e "ativo", e o da segunda "hesitante", "fraco", e as pessoas se prevenissem", nem por isso a fonte fidedigna deixava de sê-lo. Assim, Bloch nos anunciou a morte do Kaiser com ar misterioso e importante, mas também irritado. Especialmente exasperava-o ouvir Robert dizer: "o imperador Guilherme". Creio que, sob o cutelo da guilhotina, Saint-Loup e o Sr. de Guermantes não diriam coisa diversa. Dois homens da sociedade, últimos sobreviventes numa ilha deserta, onde não precisariam dar provas de boas maneiras a ninguém, se reconheceriam graças a esses traços de polidez, da mesma forma que dois latinistas citariam corretamente Virgílio.

     Mesmo torturado pelos alemães, Saint-Loup jamais deixaria de dizer outra coisa que não "o imperador Guilherme". E este savoir-vivre é, apesar de tudo, o grande sinal de entraves para o espírito. Aquele que não sabe rejeitá-los, permanece um mundano. Essa elegante mediocridade, aliás, é deliciosa - sobretudo pelo que deixa entrever de generosidade escondida e de heroísmo não expresso - ao lado da vulgaridade de Bloch, a um tempo covarde e fanfarrão, que gritava para Saint-Loup: 

- Não poderias dizer "Guilherme", simplesmente? É isto, és um poltrão, e já te pões de quatro diante dele! Ah, teremos bravos soldados na fronteira, vão lamber as botas dos boches. Vocês usam galões e sabem se exibir num picadeiro. Mais nada. 

- Este pobre Bloch quer absolutamente que eu não faça outra coisa além de exibir me - comentou Saint-Loup sorrindo, depois de nos separarmos do nosso companheiro. 

     E senti perfeitamente que exibir-se não era de forma alguma o que Robert desejava, embora na ocasião não lhe percebesse tão bem as intenções, como mais tarde, quando, permanecendo inativa a cavalaria, ele conseguiu servir primeiro como oficial de infantaria, depois como oficial dos atiradores, e, por fim, quando aconteceu o que se lerá mais adiante. Porém Bloch não percebia do patriotismo de Saint-Loup, simplesmente porque Robert não o manifestava de forma alguma. Se Bloch nos fizera profissões de fé maldosamente anti militaristas ao ser considerado apto, antes, quando se julgara dispensado por miopia, este dera declarações extremamente nacionalistas. Mas tais declarações, Saint-Loup teria sido incapaz de fazê-las; primeiro, por uma espécie de delicadeza moral que impede a expressão de sentimentos muito profundos e que se consideram naturais. Minha mãe, outrora, não só não teria vacilado um segundo em morrer por minha avó, como sofreria horrivelmente se a tivessem impedido de fazê-lo. Não obstante, é-me impossível imaginar, retrospectivamente, em sua boca uma frase do tipo:

"Darei a vida por minha mãe." 

     Tão tácito era Robert em seu amor pela França, que, nesse momento, eu o considerava, muito mais Saint-Loup (na medida em que podia me figurar seu pai) do que Guermantes. Teria também sido preservado de expressar tais sentimentos pela qualidade de certa forma moral de sua inteligência. Há entre os trabalhadores intelectuais e verdadeiramente sérios uma certa aversão por aqueles que transpõem para a literatura, valorizando-o, tudo o que eles fazem. Não tínhamos estado juntos nem no liceu nem na Sorbonne, mas, separadamente. E havíamos seguido certos cursos dos mesmos professores (e recordo o Saint-Loup) que, dando aulas notáveis, como alguns outros, querem fazer-se passar por homens de gênio, dando um nome ambicioso às suas teorias. Uma alusão a isso e Robert ria gostosamente. Naturalmente, não privilegiávamos o instinto dos Cottard ou dos Brichot; mas enfim, mostrávamos uma certa consideração pelas pessoas que conhecem a fundo o grego ou a medicina e nem por isso se julgavam autorizadas a assumir ares de charlatães. Dizia eu que se todas as vezes em que mamãe outrora assentava na ideia de que ela teria dado a vida por mim; o fato é que ela jamais formulara tal sentimento para si própria e que, teria achado não apenas inútil e ridículo, mas também chocante e vergonhoso expressá-lo aos outros; da mesma forma, é-me impossível imaginar, Saint-Loup (ao me falar do seu equipamento, das marchas que tinha de de nossas chances de vitória, o pouco valor do exército russo, daquilo que seria a Inglaterra), é-me impossível imaginar em sua boca a frase, ainda a mais proferida por um ministro, mesmo o mais simpático, aos deputados que o aplaudem de pé, entusiasmados. Todavia, não posso garantir que não houvesse, lado negativo que o impedia de expressar os mais belos sentimentos, um "espírito dos Guermantes", de que já vimos tantos exemplos no caso de Saint-Loup. Pois, se o achava sobretudo um Saint-Loup, ele continuava sendo também Guermantes, e assim, dentre os muitos motivos que excitavam a sua conversa havia aqueles diversos dos de seus amigos de Doncieres, os rapazes apaixonados pela carreira militar com quem eu jantara todos os dias, e dos quais tantos me falaram na batalha do Marne ou alhures, junto com seus homens.
     Os jovens socialistas que poderia haver em Doncieres, quando ali estivera, que não chegara a conhecer porque não frequentavam o meio de Saint-Loup, ter verificado que os oficiais desse meio não eram de modo algum aristocratas - acepção altivamente orgulhosa e grosseiramente gozadora que o "populacho', oficiais tarimbeiros e os maçons atribuíam a esse termo. E aliás, paralelamente aos oficiais nobres encontraram esse mesmo patriotismo pleno entre os socialistas em quem eu os ouvira acusar, enquanto estava em Doncieres, de serem uns “sem pátria". O patriotismo dos militares, igualmente sincero e profundo, assumira forma definida que eles julgavam intangível, e sobre a qual indignavam-se lançando o opróbrio, enquanto os patriotas por assim dizer inconscientes, independentes, sem religião patriótica definida, como eram os radicais socialistas, conseguiram compreender a realidade profunda daquilo que consideravam vãs e odiosas.
     Como eles, Saint-Loup sem dúvida se habituara a desenvolver dentro de si, como a parte mais genuína do seu eu, a pesquisa e a concepção das melhores manobras, tendo em vista os maiores êxitos estratégicos e táticos, de modo que para ele, como para os demais, a vida do corpo era algo relativamente sem importância, que podia facilmente ser sacrificada a essa parte interior, verdadeiro núcleo vital a cuja volta a existência pessoal não tinha valor senão como uma epiderme protetora. Na coragem de Saint-Loup havia elementos mais característicos, entre os quais se reconheceria facilmente a generosidade que, logo no começo, fora o encanto da nossa amizade, e, também, o vício hereditário que mais tarde despertara nele, e que, aliado a um certo nível intelectual que ele não cultivara, fazia-o não somente admirar a coragem, mas levar o horror ao afeminamento a uma certa embriaguez no contato com a virilidade. Vivendo ao relento com senegaleses, que a todo momento faziam o sacrifício de suas vidas, ele sentia, castamente é claro, uma volúpia cerebral em que entrava muito de desprezo pelos "homenzinhos efeminados", e que, por mais oposta que lhe parecesse, não era muito diversa da que lhe conferia a cocaína da qual havia abusado em Tansonville, e cujo heroísmo - como um remédio que substitui outro -o curava. Em sua coragem havia, principalmente, aquele duplo hábito de polidez que, por um lado o fazia elogiar os outros, mas, para si próprio, contentar-se em fazer bem as coisas sem dizer nada a respeito (ao contrário de um Bloch, que lhe dissera em nosso reencontro: "Naturalmente, você não arriscaria nada", e que não fazia coisa alguma); e, por outro lado, levava-o a não dar valor ao que era seu, a fortuna, o nível social, sua própria vida, coisas que lhes cedia. Numa palavra, a verdadeira nobreza de sua formação. Porém tantas origens se confundem no heroísmo quanto esse gosto novo que se revelara nele, e também a mediocridade intelectual que não soubera vencer, tinham sua parte nisso. Assumindo os hábitos do Sr. de Charlus, Robert se achou a assumir, igualmente, embora sob forma bem diversa, o seu ideal de virilidade.

- A guerra vai durar muito tempo? - indaguei a Saint-Loup.

- Não, acredito numa guerra bastante curta - respondeu-me. Mas neste ponto, como sempre, seus argumentos eram livrescos. - Levando em consideração as profecias de Moltke, relê - disse ele, como se eu já tivesse lido - o decreto de 28 de outubro de 1913, a respeito da conduta das grandes unidades; verás que a substituição das reservas em tempo de paz não está organizada, nem sequer prevista, o que não teriam deixado de fazer se a guerra devesse ser longa.- 

     Parecia-me ser possível interpretar o decreto em questão, não como prova de que a guerra seria curta, mas como imprevisão de que ela o seria, e do que ela haveria de ser, daqueles que a tinham redigido, e que não suspeitavam nem do que seria, numa guerra estabilizada, o espantoso consumo de material de todo tipo, nem a solidariedade dos diversos teatros de operação.
     Fora a homossexualidade, nas pessoas naturalmente mais infensas ao homossexualismo, existe um certo ideal convencional de virilidade que, caso o homossexual não seja um indivíduo superior, encontra-se à disposição dele para ser corrompido alhures. Esse ideal de certos militares, de certos diplomatas - é particularmente exasperador. Sob seu aspecto mais vil, é simplesmente a dureza do coração de ouro que não quer parecer comovido e que, no momento em que um amigo que talvez venha a ser morto, tem no fundo uma vontade de chorar que ninguém duvida, porque ele a esconde sob uma cólera crescente que talvez por explodir no instante em que se deixam: "Vamos, com os diabos!, seu idiota; abrace-me, e pegue logo essa bolsa que me incomoda, seu imbecil!" O diplomático oficial, o homem que sente que apenas uma grande obra nacional é o que precisa, mas que, ainda assim, nutriu afeição pelo "pequeno" que estava na legação, no batalhão, e que morreu de febres ou de um tiro, apresenta o mesmo gosto de virilidade sob um aspecto mais hábil, mais sábio, mas, no fundo, igualmente odioso. Não deseja prantear o "pequeno", sabe que em breve não se pensará neste como o cirurgião bondoso que, todavia, na noite da morte de uma doente que tinha moléstia contagiosa, sente um desgosto que não manifesta. Por menos diplomata seja escritor e narre essa morte, não dirá que sentiu desgosto; primeiro, por "pudor viril", depois, pela habilidade artística, que faz nascer a dissimulando-a. Um de seus colegas e ele velarão o agonizante. Em nenhum momento dirão que sentiram mágoa. Falarão dos casos da legação, ou do batalhão até com maiores detalhes que de costume: 

''- B*** me diz: "Não se esqueçam que amanhã teremos revista do general, cuidem para que seus homens se apresentem asseados." 

     Ele, de hábito tão doce, falava em tom mais seco que de costume. Percebi que evitava encarar-me. Eu mesmo também estava nervoso. E o leitor compreende que esse tom seco é a mágoa nas pessoas que desejam parecer magoadas, o que seria simplesmente ridículo, mas que é realmente horrendo e desesperador, pois é o modo de sentir desgosto entre as criaturas que julgam que o desgosto já não conta, que a vida é mais séria que as separações etc., de maneira que, nas mortes, dão essa ideia de mentira, de vazio, que no dia de Ano-Novo, dá o senhor que, nos trazendo marrons-glacés, diz: "Desejo lhe que tenha um Ano Feliz", em tom de troça, mas mesmo assim o diz. Para terminar com o relato do oficial ou do diplomata em vigília ao agonizante de cabeça coberta porque o ferido foi transportado ao ar livre, num certo momento tudo se acabou:  

- Eu pensava: é preciso voltar a preparar as coisas para dar polimento, não sei bem por quê, no momento em que o médico largou o pulso, B*** e eu sem nenhuma combinação, talvez porque tivéssemos calor, pois o sol caía; empinamos conosco de pé diante do leito e tiramos o quepe.

     E o leitor percebe muito bem que não foi devido ao calor do sol, mas emoção diante da majestade da morte, que os dois homens viris, que nunca pronunciaram as palavras "ternura" e "mágoa", se descobriram.
     O ideal de virilidade dos homossexuais do tipo Saint-Loup não é igualmente o mesmo, porém tão convencional e mentiroso quanto o outro. A mentira para eles, reside no fato de não quererem se dar conta de que o desejo físico está na base dos sentimentos aos quais atribuem outra origem. O Sr. de Charlus detestava o afeminamento; Saint-Loup admira a coragem dos rapazes, a ebriedade das cargas de cavalaria, a nobreza intelectual e moral das amizades entre homens, inteiramente puras, onde um sacrifica sua vida pela do outro. A guerra que faz, nas capitais em que só restam mulheres, o desespero dos homossexuais, será pelo contrário o romance apaixonado dos homossexuais, se estes forem suficientemente inteligentes para imaginarem quimeras, não o bastante para saberem desvendá-las, reconhecer sua origem, e se julgarem. De modo que, quando certos rapazes se engajaram simplesmente por espírito de imitação esportiva (como num determinado ano todos jogam diabolô), para Saint-Loup a guerra foi sobretudo o próprio ideal que ele pensava perseguir em seus desejos muito mais concretos, porém eivados de ideologia, ideal servido em comum com as criaturas que ele preferia, numa ordem de cavalaria puramente masculina, longe das mulheres, onde poderia expor a vida para salvar seu ordenança e morrer inspirando um amor fanático aos seus homens. E assim, conquanto sua coragem abrigasse muitas outras coisas mais, o fato de que ele era um fidalgo nela se achava; e nela se achava, igualmente, sob uma forma irreconhecível e idealizada, a ideia do Sr. de Charlus, que era a de que a essência de um homem não tem nada de afeminado. Aliás, da mesma maneira que, na filosofia e na arte, ideias análogas só valem pelo modo como são desenvolvidas, podendo diferir grandemente caso sejam expostas por Platão ou Xenofonte, assim também, mesmo reconhecendo o quanto ambos se realizam fazendo isso, admiro Saint-Loup, solicitando partir para o ponto mais perigoso de combate, infinitamente mais que o Sr. de Charlus, evitando usar gravatas claras.
     Falei a Saint-Loup do meu amigo, o gerente do Grande Hotel de Balbec, que, ao que parece, anunciara terem ocorrido em certos regimentos franceses, no começo da guerra, algumas defecções que ele denominava "defeituosidades", acusando-as de terem sido causadas pelo que chamava de "militarista prussiano". Em dado momento, chegara mesmo a acreditar num desembarque simultâneo de japoneses, alemães e cossacos em Rivebelle, ameaçando Balbec, e dissera que nada mais tinha a fazer senão "raspar-se".
     Achava um tanto precipitada a partida dos poderes públicos para Bordéus, declarando que eles tinham feito mal em "raspar-se" tão depressa. Este germanófobo afirmava, rindo, a propósito do irmão:

- Está nas trincheiras, a vinte e cinco metros dos boches! - até que, verificando-se que ele próprio o era, internaram-no num campo de concentração. - A propósito de Balbec, lembras-te do antigo ascensorista do hotel? - indagou Saint-Loup ao despedir-se, no tom de alguém que não estivesse sabendo de quem se tratava, e que contasse comigo para esclarecê-lo. - Alistou-se e me escreveu, pedindo que o fizesse entrar para a aviação. É claro que o ascensorista estava farto de subir na gaiola cativa do elevador, e as alturas da escadaria do Grande Hotel já não lhe bastavam. Ia obter galões diferentes dos de porteirgy: nosso destino nem sempre é o que havíamos suposto. Certamente, vou a seu pedido disse-me Saint-Loup. - Dizia-o ainda esta manhã a Gilberte: teremos aviões em número suficiente. Somente com eles veremos o que está fazendo o adversário. Assim é que anularemos a sua vantagem de ataque, assim, o melhor exército será talvez aquele que tiver melhores olhos. 
 
O Tempo Recuperado (Bloch nos deixou)

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Marcel Proust - O Tempo Recuperado (Ah, se Albertine tivesse vivido)

em busca do tempo perdido

volume VII
O Tempo Recuperado



continuando...

   Ah, se Albertine tivesse vivido, como seria doce, nas noites em que eu fosse jantar no centro da cidade, marcar um encontro ao ar livre, sob as arcadas! A princípio, eu não distinguiria nada, teria a emoção de crer que ela faltara ao encontro; quando, de repente, veria destacar-se da parede negra um de seus caros vestidos grises, seus olhos risonhos que tinham me avistado, e poderíamos passear abraçados sem que ninguém nos visse ou incomodasse, e a seguir voltar para casa. Ai de mim!, estava sozinho, com a impressão de ir fazer uma visita de vizinho no campo, como as visitas que Swann nos fazia após o jantar, sem dar com transeuntes na escuridão de Tansonville, no pequeno caminho de sirga, até a rua do Saint-Esprit, mais do que eu agora, em ruas transformadas em sinuosos caminhos rústicos, entre Sainte-Clotilde e a rua Bonaparte. Além disso, como nenhuma moldura, tornada invisível, constrangia mais esses fragmentos de paisagem, à noite, quando o vento soprava rajadas glaciais, eu me julgava, bem mais do que em Balbec, à beira do mar revolto dos meus sonhos de antigamente; e mesmo outros elementos da natureza, que até então não existiam em Paris, davam a ilusão de que, ao descer do trem, acabava-se de chegar para as férias no campo. Por exemplo: o contraste de luz e sombra, bem próximo, no chão, nas noites de luar. Este compunha efeitos que as cidades não conhecem, e até em pleno inverno; seus raios estendiam-se na neve, que nenhum trabalhador removia mais, no bulevar Haussmann, tal como nas geleiras dos Alpes. As silhuetas das árvores refletiam-se, nítidas e puras, sobre essa neve de ouro azulado, com a delicadeza que têm em certas pinturas japonesas ou em determinados fundos das telas de Rafael; alongavam-se no chão, ao pé da própria árvore, como as vemos com frequência ao vivo, pelo ocaso, quando o sol poente inunda e torna espelhantes as campinas em que as árvores se erguem a intervalos regulares. Mas, por um requinte de delicadeza deliciosa, a campina em que se desenvolviam essas sombras de árvores, leves como almas, era um prado paradisíaco, não verde, mas de um branco tão brilhante, devido aos raios de luar que incidiam sobre a neve de jade, que dir-se-ia que essa campina era tecida unicamente de pétalas de pereiras em flor. E, nas praças, as divindades das fontes públicas, com o jato gelado a lhes sair das mãos, pareciam estátuas de matéria dupla, para cuja execução o artista quisera juntar, exclusivamente, o bronze ao cristal. Naqueles dias excepcionais, todas as casas estavam às escuras. Mas ao contrário, na primavera, de vez em quando, burlando os regulamentos da polícia, uma residência particular, ou apenas o andar de um prédio, ou até somente um aposento num hotel, sem ter fechado seus postigos, dando a impressão de sustentar-se sozinho sobre as trevas impalpáveis, como projeção puramente luminosa, uma aparição sem consistência. Se a mulher de alguém erguesse bem alto os olhos, se distinguia nessa penumbra dourada, nessa noite em que se perdia o observador e ela própria parecia reclusa num misterioso encanto velado de uma visão oriental. Depois, seguia-se em frente nada mais interrompia a higiênica e monótona passada rústica na escuridão.
   Lembrei-me de que há muito não revia nenhuma das pessoas de que trato nesta obra. Apenas, em 1914, durante os dois meses que passara em Paris tinha avistado o Sr. de Charlus e visto Bloch e Saint-Loup, este último somente por duas vezes. A segunda vez fora com certeza aquela em que se mostrara mais natural, desmanchando todas as impressões pouco agradáveis de insinceridade que me causara na minha estadia em Tansonville, a que me referi, e reconhecera - todas as belas qualidades de outrora. Na primeira vez em que o vi após a declaração de guerra, ou seja, no começo da semana imediata, enquanto Bloch exibia o exaltado nacionalismo, Saint-Loup, assim que Bloch nos deixou, excedera em auto ironias, porque não voltara ao serviço, e eu fiquei meio chocado com a violência do seu tom. Saint-Loup voltava de Balbec. Soube mais tarde, indiretamente, que as tentativas baldadas junto ao gerente do restaurante. Este último devia sua posição ao que herdara do Sr. Nissim Bernard. Com efeito, não era outro senão o anterior jovem empregado que o tio de Bloch "protegia". Mas a riqueza lhe trouxera a virtude. De modo que foi em vão que Saint-Loup tentara seduzi-lo. Assim, em compensação enquanto os jovens se deixam levar, com a idade, pelas paixões; depois, afinal tomaram consciência, os adolescentes fáceis se tornam homens de princípios, contra os quais os Charlus, confiando em antigos relatos, porém demasiadamente tarde, se chocam desagradavelmente. Tudo é uma questão de cronologia.
   A falsidade não faz mais prudentes a quem os acreditou quando surge um novo rumor de bodas, de divórcio, ou um rumor político, para lhe dar crédito e difundi-lo. Não tinham acontecido quarenta e oito horas quando certos feitos me demonstraram que estava absolutamente equivocado na interpretação das palavras de Robert:

- Não! - exclamou ele com força, alegremente. -Todos os que não estão no fronte, seja qual for o motivo que deem, é porque não desejam ser mortos, é porque têm medo! - E, com o mesmo gesto de afirmação, mais enérgico ainda do que com que sublinhara o temor alheio, acrescentou: - E eu, se não me apresento ao serviço, é certamente por medo, e nada mais! -

   Eu já havia reparado, em pessoas, que a afetação de sentimentos louváveis não é a única desculpa, mas que são malvados, sendo que um pretexto mais novo é a exibição destes, de forma que ao menos não pareça ocultá-los. Além do mais, em Saint-Loup tal tendência fortalecida pelo seu hábito, quando cometia uma indiscrição ou fazia uma que lhe poderiam censurar, de proclamá-las dizendo que fora de propósito. Acredito, lhe viera de algum professor da Escola de Guerra em cujo interior vivera, pelo qual professava enorme admiração. Portanto, não senti qualquer constrangimento em interpretar essa tirada como a ratificação verbal de um sentimento que Saint-Loup preferia proclamar abertamente, visto que lhe ditara a conduta e sua abstenção na guerra que principiava.

- Quer dizer que ouviste dizer - perguntou-me ao ir embora que a tia Oriane ia se divorciar? Pessoalmente, não sei de nada. De vez em quando se fala disso, e eu ouvi anunciarem esse divórcio tão amiúde que espero que aconteça, para crer. Acrescento que seria perfeitamente compreensível; meu tio é um homem encantador, não só na sociedade, mas para os amigos, os parentes. E até, sob certos aspectos, tem mais coração que minha tia, que é uma santa, mas fá-lo sentir isso de maneira terrível. Apenas, é um marido péssimo, que nunca deixou de enganar a esposa, insultá-la, tratá-la com brutalidade, privá-la de dinheiro. Seria tão natural que ela o deixasse, que essa é uma razão para que a notícia seja verdadeira, mas também para que o não seja, pois sobram motivos para que a inventem e divulguem. E aliás, já que ela o suportou portanto tempo! Agora sei muito bem que existem coisas que anunciam erradamente, que são desmentidas, e que mais tarde se tornam verdadeiras. -

   Aquilo me fez pensar em perguntar-lhe se alguma vez cogitara casar-se com a Srta. de Guermantes. Teve um sobressalto e afirmou que não, que isso fora apenas um boato da sociedade, desses que nascem de tempos em tempos, ninguém sabe por quê, desaparecem como surgiram, e cuja falsidade não torna mais prudentes os que nele acreditaram; tão logo aparecem novos rumores de noivado ou divórcio, ou um boato político, eles creem e os divulgam.
   Saint-Loup dissera isto para brilhar na conversação, para ostentar originalidade psicológica, enquanto não estava certo de que seu alistamento seria aceito. Mas, nesse meio tempo, fazia o possível para que o fosse, revelando-se assim menos original, no sentido que julgava ser preciso emprestar ao termo, porém mais profundamente francês de Saint-André-des-Champs, mais em conformidade com tudo o que, por essa época, havia de melhor nos franceses de Saint-André-des-Champs, senhores, burgueses e servos submissos aos senhores ou revoltados contra eles, duas divisões igualmente francesas da mesma família, sub-ramificação Françoise e sub-ramificação Morel, de onde partiam duas flechas, para se reunirem de novo numa só direção, que era a fronteira.
   Bloch ficara encantado com a confissão de covardia de um nacionalista (que, aliás, o era bem pouco) e, como Saint-Loup lhe indagasse se iria partir, assumira ares de sumo sacerdote para responder: - Míope.
   Mas Bloch mudara completamente de opinião sobre a guerra alguns dias depois, quando veio me visitar, muito aflito. Apesar de "míope", fora dado como bom para o serviço militar. Acompanhava-o até sua casa quando Saint-Loup, que, para ser apresentado, no Ministério da Guerra, a um coroamento; tinha um encontro marcado com um antigo oficial:

- "O Sr. de Cambremer", disse-me a verdade, é de um velho conhecido de quem te falo. Tu conheces Cancan tão bem quanto eu. -

   Respondi que o conhecia, de fato, e também à sua esposa, e que apreciava muito. Mas estava de tal modo habituado, desde que os vira pela vez, a considerar a mulher como uma pessoa notável, apesar de tudo, conhecedora de Schopenhauer, pertencente, em suma, a um meio intelectual mais do que a seu grosseiro marido, que, a princípio, fiquei assombrado ao ouvir me responder:

- A mulher dele é idiota, abandono-a a ti. Mas ele é um homem excelente, bem dotado, e continua bastante agradável.-

   Pela "idiotice" de Saint-Loup sem dúvida entendia o desejo alucinado de frequentar a alta sociedade, o que esta não perdoa. Pelas qualidades do marido, sem dúvida, algumas lhe reconhecia a mãe ao proclamá-lo o melhor da família. A ele, pelo menos, interessavam as duquesas, mas, na verdade, tratava-se de uma inteligência diferente tanto da que caracteriza os pensadores, como a "inteligência" atribuída em público a um determinado homem rico "por ter sabido fazer sua fortuna". As palavras de Saint-Loup não me desagradavam, visto sugerirem que a presunção, vizinha da tolice e que a simplicidade tem um gosto pouco pronunciado e agradável. Não me fora dado, é verdade, saborear a do Sr. de Cambremer; justamente isto que faz com que uma pessoa seja tantas criaturas diferentes, forme as pessoas que a julgam, mesmo sem se levar em conta as diferenças do julgamento. Do Sr. de Cambremer eu só conhecera o escorço. E o sabor, que fora atestado por outras pessoas, era-me desconhecido.  


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Marcel Proust - O Tempo Recuperado (As coisas eram de tal modo as mesmas)

em busca do tempo perdido

volume VII
O Tempo Recuperado



continuando...

   As coisas eram de tal modo as mesmas que retomavam muito naturalmente as palavras de outrora: "bem pensantes, mal pensantes". E, como pareciam diferentes, como os antigos partidários da Comuna tinham sido anti-revisionistas, os maiores dreyfusistas queriam mandar fuzilar todo mundo, contando com o apoio dos generais, como estes, no tempo do Caso Dreyfus, tinham sido contra Galliffet.
   A essas reuniões a Sra. Verdurin convidava algumas senhoras um tanto recentes, conhecidas pelas joias, e que nas primeiras vezes compareciam com vestidos berrantes e grandes colares de pérolas, que Odette, possuidora de um colar igualmente admirável, de cuja exibição ela própria havia abusado, olhava com severidade, agora que andava de "uniforme de guerra", à imitação das damas do Faubourg. Mas as mulheres sabem adaptar-se. Depois de três ou quatro vezes, elas se davam conta de que os vestidos que haviam considerado elegantes eram precisamente proscritos pelas pessoas que o eram, punham de lado os vestidos resplandecentes e se resignavam à simplicidade.
   Uma das estrelas do salão era o "Em-apuros", que, apesar dos gostos esportivos, conseguira ser considerado inapto. Tornara-se, para mim, de tal modo o autor de uma obra admirável, sobre a qual eu estava sempre meditando, que somente por acaso, quando estabelecia uma corrente transversal entre duas séries de recordações, é que me lembrava que ele fora o causador da saída de Albertine de minha casa. E mesmo assim, essa corrente transversal ia dar, no que diz respeito aos restos das reminiscências de Albertine, num caminho inteiramente abandonado a vários anos de distância. Pois eu nunca pensava nela. Era um caminho de recordações, um rumo que jamais seguia. Ao passo que as obras de "Em-apuros" eram mais recentes e esse rumo de lembranças permanentemente frequentado e utilizado pelo meu espírito.
   Devo dizer que as relações com o marido de Andrée não eram agradáveis, e que a amizade que lhe devotasse sofria muitas decepções; naquela ocasião já estava muito doente e procurava evitar as fadigas de que esperasse extrair nenhum prazer. E só incluía nestas os encontros com quem ainda não conhecia, e que sua ardente imaginação sem dúvida lhe reatava como tendo uma possibilidade de serem diferentes dos outros. Quanto aos conhecidos, sabia muito bem como eram, e não lhe pareciam valer a pena um cansaço perigoso, talvez mortal. Em suma, era um amigo muito ruim. Restava seu gosto pelas novas pessoas se pudesse encontrar algo da sua audácia frequente de outrora, em Balbec, nos esportes, no jogo, em todos os excessos.
   Quanto à Sra. Verdurin, a todo instante queria apresentar-me à Andrée sem poder admitir que eu já a conhecesse. Aliás, Andrée raramente comparecia com o marido. Era, para mim, uma amiga adorável e sincera; fiel à estética; fiel ao marido, em reação contra os balés russos, dizia do marquês de Polignac:

- Sua cama é decorada por Bakst. Como é que se pode dormir lá dentro? Eu preferiria Dub'' -

   De resto, os Verdurin, devido ao progresso fatal do esteticismo que acatava a comer a própria cauda, afirmavam não suportar o modem style (além do mais, era muniquense) nem os apartamentos brancos, e só apreciavam os velhos móveis franceses em ambiente sombrio.
   Vi muitas vezes Andrée por esse tempo. Não sabíamos o que dizer um ao outro, e uma vez pensei naquele nome de Juliette que subira do fundo da recordação de Albertine como uma flor misteriosa. Misteriosa naquela época, mas que hoje não evocava mais nada. Apesar de falar sobre tantos assuntos indiferentes, calei-me a tal respeito; não que fosse menos indiferente que os outros, mas porque existe uma espécie de supersaturação das coisas em que pensamos demais. Talvez fosse verdadeiro o período em que eu via naquilo tantos mistérios. Mas, esses períodos não hão de durar para sempre, não devemos sacrificar a saúde, a fortuna, na descoberta de mistérios que um dia deixarão de nos interessar.
   Por esse tempo, causou grande espanto, visto que a Sra. Verdurin ter em casa quem quisesse, vê-la fazer indiretamente gentilezas a alguém que perdera inteiramente de vista, Odette. Achavam que esta nada acrescentaria ao brilhante meio em que se transformara o pequeno clã dos Verdurin. Mas a separação prolongada, ao mesmo tempo que acalma os rancores, desfaz às vezes a amizade. E, além disso, o fenômeno que leva não só os agoniza pronunciarem somente nomes que lhes foram familiares outrora, mas os faz se comprazerem nas recordações da infância, esse fenômeno tem o seu equivalente social. Para ter êxito na empreitada de fazer Odette retornar à sua casa, a Sra. Verdurin não se utilizou, é claro, dos "ultras", mas dos frequentadores menos que tinham conservado um pé num e noutro salão. Dizia-lhes:

- Não sei porque não a vemos aqui. Talvez esteja zangada, eu não. Afinal, que foi que lhe fiz? Foi na casa da rainha que ela conheceu seus dois maridos. Se quiser voltar, saiba que as portas lhe estão abertas.-

   Tais palavras, que deveriam ter magoado o orgulho da patroa caso não fossem ditadas por sua imaginação, foram repetidas, mas sem sucesso. A Sra. Verdurin esperou Odette, sem vê-la regressar, até que certos acontecimentos, que veremos mais adiante, conseguiram, por outros motivos, o que não obtivera a embaixada, todavia zelosa, dos inconstantes. Tanto são poucas as conquistas fáceis quanto as derrotas definitivas.
   A Sra. Verdurin dizia:

- É desolador, vou telefonar à Bontemps a fim de que tome providências para amanhã. Já "empastelaram" de novo o final do artigo de Norpois e apenas porque ele insinuou que tinham posto empecilho "no desvio". -

   Pois a estupidez da moda fazia com que as pessoas julgassem ponto de honra empregar expressões correntes, e ela julgava mostrar-se "da moda", assim como uma burguesa ao dizer, a propósito do Sr. de Bréauté, do Sr. de Agrigento ou do Sr. de Charlus:

- Quem? Babal de Bréauté, Grigri, Mémé de Charlus? -

   Aliás, as duquesas faziam o mesmo, tendo igual prazer em falar "no desvio", pois, se o seu nome fala à imaginação dos plebeus um tanto poetas, elas se exprimem de acordo com a categoria intelectual, bastante burguesa, a que pertencem. As classes intelectuais nada têm a ver com o nascimento.
   Todos esses telefonemas da Sra. Verdurin, aliás, tinham os seus inconvenientes. 
   Embora tenhamos esquecido de dizê-lo, o "salão" Verdurin, se permanecia em espírito e em verdade, transportara-se momentaneamente a um dos maiores hotéis de Paris, pois a falta de carvão e de luz tornara mais difíceis as recepções dos Verdurin na antiga residência, muito úmida, dos embaixadores de Veneza. O novo salão, entretanto, não era desagradável. Como em Veneza o espaço, diminuto por causa da água, determina a forma dos palácios, como um palmo de jardim em Paris encanta mais que um parque na província, a exígua sala de jantar da Sra. Verdurin no hotel formava uma espécie de losango de paredes de alvura brilhante, onde se projetavam, como numa tela, todas as quartas-feiras, e quase todos os dias, todas as pessoas mais variadas e mais interessantes, as mulheres mais elegantes de Paris, encantadas por poderem usufruir do luxo dos Verdurin, que, com sua fortuna, iam gastando, numa época em que os mais ricos reduziam as despesas para não tocar nos seus rendimentos. A forma dada às recepções se modificara, sem que deixassem de encantar Brichot, que, à medida que as relações dos Verdurin se estendiam, mais prazeres novos, acumulados como surpresas num sapatinho de Natal, encontrava em sua companhia. Por fim, em certos dias, sendo os convivas tão numerosos que a sala de jantar do apartamento se tornava pequena demais, servia-se o jantar na enorme sala do térreo, onde os fiéis, fingindo hipocritamente lastimar a intimidade do andar superior - como outrora a necessidade de convidar os Cambremer fazia com que a Sra. Verdurin dissesse que se aborreceriam - entulhavam no fundo, fazendo um grupo à parte, como antigamente no trenzinho, por serem objeto de contemplação e inveja dos ocupantes das mesas. Sem dúvida, nos tempos normais de paz, uma nota mundana, sub-reptícia enviada ao Fígaro ou ao Gaulois, teria comunicado a mais pessoas do que poderia conter a sala de jantar do Majestic, que Brichot jantara com a duquesa Duras. Mas desde a guerra, tendo os cronistas mundanos suprimido esse de informações (eles se desforravam nos enterros, nas citações e nos franco-americanos), a publicidade só podia existir por meio desse expediente hostil e restrito, digno das eras primitivas e anterior à descoberta de Gutenberg visto à mesa da Sra. Verdurin. Depois do jantar, subia-se para os salões e então os telefonemas começavam. Mas, naquela época, muitos dos grandes que estavam cheios de espiões que anotavam as notícias transmitidas por com uma indiscrição, felizmente corrigida apenas pela inexatidão dos seus nomes, sempre desmentidos pelos acontecimentos. 
   Antes da hora em que terminavam os chás, ao cair da tarde, no céu claro, viam-se ao longe pequenas manchas escuras que, no crepúsculo poderiam tomar por mosquitos ou passarinhos. Assim, quando se via uma andorinha muito ao longe, era possível confundi-la com uma nuvem. Mas e imaginar que essa nuvem é sólida, imensa e resistente. Assim, estava eu como por aquela mancha escura no céu estival, que não era nem mosquito nem passarinho, mas um aeroplano tripulado por homens que velavam sobre Paris. (A ação dos aeroplanos que tinha visto com Albertine no nosso último passeio de Versalhes, não entrava em nada nessa emoção, pois a lembrança desse passeio se me tornara indiferente.)
   À hora do jantar, os restaurantes estavam cheios; e, se, passando nestes eu via um pobre soldado de licença, livre por seis dias do risco permanente da morte, e prestes a voltar para as trincheiras, deter seus olhos, por um instante, nas vidraças iluminadas, sofria como no hotel de Balbec, quando os pescadores observavam-me a comer, porém sofria ainda mais por saber que a miséria do soldado era maior que a dos pobres, pois abrangia todas as misérias, sendo mais ainda por ser mais resignada, mais nobre, e conhecia o sacudir filosófico de cara sem ódio, com o qual, pronto para retornar à guerra, ele murmurava, aos embusqués ao se acotovelarem para conservar em suas mesas: "Nem se diria que guerra por aqui."

*[Embusqués: gíria militar francesa, que designava o soldado que, tendo um emprego civil, era dispensado do serviço de caserna e do alistamento militar. (N. do T)]* 

   Depois, às nove e meia, quando ninguém tivera tempo de terminar o jantar, apagavam-se bruscamente todas as luzes, em obediência às ordens da polícia, e a nova arremetida dos embusqués, arrancando os soberanos aos lacaios do restaurante, onde eu havia jantado com Saint-Loup numa noite na qual a licença ocorrera às nove e trinta e cinco minutos, numa misteriosa penumbra de quarto onde se projeta a lanterna mágica, de sala de espetáculos que serve para exibir os filmes de um desses cinemas para os quais iam precipitar-se os que jantavam, homens e mulheres. Mas, depois dessa hora, para aqueles que, como eu, na noite da qual estou falando, jantavam em casa e saíam para ver os amigos. Paris era, ao menos em certos bairros, ainda mais escura que a Combray da minha infância; as visitas que se faziam, assumiam um ar de visitas de vizinhos no campo.

O Tempo Recuperado (As coisas eram de tal modo as mesmas)

domingo, 17 de dezembro de 2023

Marcel Proust - O Tempo Recuperado (Acontecera com o dreyfusismo)

em busca do tempo perdido

volume VII
O Tempo Recuperado



continuando...

   Acontecera com o dreyfusismo o mesmo que ocorrera com o casamento de Saint-Loup com a filha de Odette, casamento que a princípio dera o que falar: que viam na casa dos Saint-Loup todas as pessoas "que se conheciam", Gilberte poderia ter os costumes da própria Odette que, apesar disso, todos a "frequentariam" e aprovariam que ela censurasse, com empáfia, as novidades mesmo assimiladas. O dreyfusismo, agora, estava integrado numa série de coisas agradáveis e habituais. Quanto a indagar o que por si mesmo valia, ninguém, poderia agora, para admiti-lo, como não se pensara outrora para condená-lo. Ele era mais shocking. Era o que bastava. Mal se lembravam que ele o fora, como já sabe, ao cabo de algum tempo, se o pai de uma moça era ou não um necessário, podia-se dizer: "Não, é de um irmão ou de um cunhado que o está falando. Mas dele nunca se falou mal." Da mesma forma, certamente o anti-dreyfusismo e dreyfusismo, e o que ia à casa da duquesa de Montmorency e aprovar a lei dos três anos não podia ser o ruim. Em todo caso, misericórdia a todo pecado. Este esquecimento que se outorgara ao dreyfusismo favorecia os dreyfusistas. De resto, sobravam apenas eles na política, visto que, em dado momento, tiveram de adotar esse rótulo todos aqueles que desejaram participar do governo, mesmo se representassem o oposto do que o dreyfusismo, em sua chocante novidade, havia encarnado (no tempo em que Saint-Loup se inclinava por tendências perigosas): o antipatriotismo, a não religião, a anarquia etc. Assim, o dreyfusismo do Sr. Bontemps, invisível e essencial como o de todos os políticos, não se lhe notava mais do que os ossos sob a pele. Ninguém se recordava que ele fora dreyfusista, pois os mundanos são distraídos e esquecidos; também porque havia decorrido muito tempo, que eles afetavam ter sido maior ainda, visto que uma das ideias da moda era dizer que o período anterior à guerra estava separado da guerra por algo tão profundo e, aparentemente, tão prolongado quanto um período geológico; e o próprio Brichot, o nacionalista, quando aludia ao Caso Dreyfus, comentava: "Naqueles tempos pré-históricos." (Na verdade, essa mudança profunda operada pela guerra estava na razão inversa do valor dos espíritos afetados, pelo menos a partir de um certo grau. Nas camadas inferiores, os rematados idiotas e os perfeitos gozadores nem se preocupavam com a guerra. Mas, nos níveis superiores, aos que fazem da vida interior o seu ambiente, pouco lhes importa o vulto dos acontecimentos. O que, para eles, modifica profundamente a ordem dos pensamentos é antes alguma coisa que parece não ter em si qualquer importância e que lhes inverte a ordem cronológica do tempo, tornando-os contemporâneos de outra época de suas vidas.

   Pode-se, de modo prático, perceber a beleza das páginas que tais coisas lhes inspiram: um canto de pássaro no parque de Montboissier, ou uma brisa que recende ao perfume do resedá são, evidentemente, fatos de menor consequência que as grandes datas da Revolução e do Império. Todavia, inspiraram à Chateaubriand, nas Memórias de Além-túmulo, algumas páginas de valia infinitamente superior.) Os termos dreyfusista e antidreyfusista já careciam de sentido, diziam as mesmas pessoas que teriam ficado pasmas e revoltadas se lhes contassem que, provavelmente, dentro de alguns séculos, ou talvez menos, palavras como boche só teriam o valor de curiosidade, da mesma forma que sans-culotte, chouan ou bleu.

["Boche, alemão; sansculotte, revolucionário republicano (da Revolução Francesa); chouan, nome que se dava ao revoltoso da região da Vendéia, na França, que se insurgiu contra a Revolução Francesa em 1793; bleu, popularmente, todo recruta em serviço militar. (N. do T)] -usqu'au-boutiste, partidário do jusqu'au-boutisme, termo criado por Maurice, em 1914, para radicalizar uma posição nacionalista antigermânica. A tradução literal seria "até-o-finzismo" e "até-o-finzistá'. (N. do T)] 

   O Sr. Bontemps não queria ouvir falar de paz sem que a Alemanha fosse reduzida à mesma fragmentação que na Idade Média, sem que se declarasse a degradação da casa de Hohenzollern, e Guilherme II levasse doze tiros. Numa palavra, era o que Brichot denominava um jusqu'au-boutiste, ['partido dos duques", do qual soubera ser o Sr. d'Haussonville um dos maiores da Academia]; era o breve de civismo que lhe poderiam dar é claro que nos três primeiros dias da temperança se sentira um tanto deslocada no meio de pessoas que manifestavam desejos de conhecê-la, e foi num tom ligeiramente rabugento que Verdurin respondeu: - O conde, minha cara Sra. Bontemps, que é mesmo o duque d'Haussonville que você me acaba de apresentar? Com total ignorância e ausência de associação entre o nome de HaussonviIle e o atual quer seja, pelo contrário, por excessiva instrução e associação de ideia.

   A partir do quarto dia, ela principiara a instalar-se de maneira só no faubourg Saint-Germain. Às vezes, notavam-se ainda a seu redor os estranhos conhecidos de uma sociedade que ignoravam, e que eram naturalmente como que os restos de casca ao redor do pinto, pelos que conheciam de que ovo saíra a Sra. Bontemps. Mas no fim da primeira quinzena já os havia sacudido antes de se completar um mês, quando ela dizia: - Vou à casa dos Lévy -, entendiam, sem que ela precisasse explicar, que se tratava dos Lévis-Mire nenhuma duquesa se deitaria sem ouvir da Sra. Bontemps ou da Sra. Verdurin, ao menos por telefone, o que dizia o comunicado da noite, o que fora omitido, e como andavam as coisas na Grécia, qual a ofensiva que se preparava, numa palavra; aquilo que o público só saberia no dia seguinte, ou mais tarde ainda, e de que desse modo, fazia, como as costureiras, uma espécie de exibição privada. Na conversa, a Sra. Verdurin, para comunicar as novidades, dizia: - "nós" falamos à França.- Pois bem, é isto: nós exigimos do rei da Grécia que se retire do Pelo etc., nós lhe enviamos etc. - E nesses relatos retornava o tempo todo o G. Q. G. ("telefonei ao G. Q. G." ), a abreviatura que ela pronunciava com o mesmo ar para as mulheres que, antigamente, não conhecendo o príncipe de Agrigento, perguntariam sorrindo quando falavam dele, e para mostrar-se a par do assunto: "Gri tem prazer reservado apenas aos mundanos em épocas mais tranquilas, mas nas grandes crises até o povo experimenta. Nosso mordomo, por exemplo, falavam do rei da Grécia, era capaz de dizer, graças aos jornais, como Guilherme-Tino - apesar de ter sido até então mais vulgar a sua familiaridade como os inventada por ele mesmo, como quando, outrora, ao referir-se ao rei da Espanha dizia: "Fonfonse". Aliás, pôde-se notar que, à medida que aumentava o número de pessoas ilustres que se relacionavam com a Sra. Verdurin, diminuía o número que ela chamava de "maçantes". Por uma espécie de transformação mágica a pessoa tida como "maçante", que lhe fazia uma visita e solicitava um contrato tornava-se de súbito alguém agradável e inteligente. Em suma, ao cabo de um tempo o número dos "maçantes" diminuiu tanto que "o medo e a impossibilidade de aborrecer", que tinham tido um lugar tão grande na conversa, desempenhava papel tão decisivo na vida da Sra. Verdurin, desapareceram quase por completo. Dir-se-ia que, no fim da vida, essa impossibilidade de aborrecer-se (que antigamente, aliás, ela assegurava não ter sentido na primeira mocidade) a fazia sofrer menos, como certas enxaquecas, ou certas asmas de caráter nervoso, que diminuem de intensidade quando se envelhece. E o receio de aborrecer-se teria com certeza abandonado inteiramente a Sra. Verdurin, por falta de "maçantes", se ela, em pequena escala, não houvesse substituído os que já não o eram por outros, recrutados entre os antigos fiéis.

   De resto, para terminar com as informações sobre as duquesas que agora frequentavam a casa da Sra. Verdurin, elas iam buscar ali, sem o perceberem, exatamente a mesma coisa que os dreyfusistas antigamente, ou seja, um prazer mundano composto de tal modo que sua degustação fartasse as curiosidades políticas e satisfizesse a necessidade de comentar entre si os incidentes lidos nos jornais. A Sra. Verdurin dizia:

- Venha às cinco horas falar da guerra -, como outrora "falar do Caso Dreyfus", e, no intervalo: -Venham ouvir Morel.

   Ora, Morel não deveria comparecer, pelo simples motivo de que não fora dispensado do serviço militar. Simplesmente não se apresentara, era um desertor, mas ninguém o sabia.

continua na página 038...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
Volume 6
Volume 7
O Tempo Recuperado (Acontecera com o dreyfusismo)