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sábado, 8 de agosto de 2026

Marcel Proust - A Prisioneira (Imediatamente, pegando o jornal)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Imediatamente, pegando o jornal, ela descobriu até o cotovelo a manga rubra da sua jaqueta e me estendeu o diário conservador com um gesto hábil e gentil que me agradou pela rapidez familiar, pela aparência macia e a cor escarlate. Enquanto eu abria o Fígaro, para dizer algo e sem erguer os olhos, perguntei à menina:

- Como se chama esse seu casaco de tricô vermelho? É muito bonito. -

     Ela respondeu: 

- É o meu golfe. -

     Pois, devido a uma degradação costumeira a todas as modas, as roupas e os ternos que, alguns anos antes, pareciam pertencer ao mundo relativamente elegante das amigas de Albertine, eram agora usados pelas operárias. 
- Não se incomodará se eu a mandar a um recado um pouco longe? - disse-lhe, aparentando procurar no Fígaro. Logo que achei penoso o serviço que me prestaria, ela começou de fato a pensar que era um transtorno. 
- É que devo passear daqui a pouco de bicicleta. Droga, só temos o domingo para isso. 
- Mas não vai sentir frio, com a cabeça descoberta desse jeito?
- Ah! Mas não estarei de cabeça descoberta, e sim com a minha boina, e poderia até passar sem ela por causa da minha cabeleira. - 
 
     Ergui os olhos para as mechas flavescentes e frisadas, e senti que seu turbilhão me arrastava, o coração palpitante, na luz e nas rajadas de um furacão de beleza. Continuava a ler o jornal, mas, embora fosse apenas para me recobrar e ganhar tempo, enquanto fingia ler ia compreendendo, apesar do sentido das palavras que tinha diante dos olhos, e estas me deixaram atônito: "No programa da vesperal que anunciamos e que será executada esta tarde no salão de festas do Trocadero, é necessário acrescentar o nome da Srta. Léa, que aceitou comparecer em Les Fourberies de Nérine¹. Evidentemente, ela fará o papel de Nérine, no qual é estonteante de vivacidade e de encantadora alegria."

[1] 'As artimanhas de Nérine', comédia em versos de Théodore de Banville (1823-1891)(N. do T).

     Foi como se me tivessem arrancado brutalmente do coração o curativo sob o qual ele começara a cicatrizar desde o meu regresso de Balbec. O fluxo de minhas angústias jorrou em torrentes. Léa era a comediante amiga das duas moças que Albertine, sem parecer vê-las, havia em uma tarde observado pelo espelho, no cassino. É verdade que, em Balbec, Albertine, ao nome de Léa, assumira um tom particular de compunção para me dizer, quase chocada de que se pudesse suspeitar de pessoa tão virtuosa: 

- Oh não, não é de modo algum uma mulher desse tipo; é uma mulher muito correta. -

     Infelizmente para mim, quando Albertine fazia uma afirmação desse gênero, isto nunca passava do primeiro estágio de afirmações diferentes. Pouco depois da primeira, vinha esta segunda:

- Não a conheço.

     Em terceiro lugar, depois de me ter falado de tal pessoa como "acima de qualquer suspeita", e que, a seguir, afirmava não a conhecer, esquecia-se aos poucos, primeiro de haver dito que não a conhecia, e, numa frase em que se contradizia sem querer, voltava a falar que a conhecia. Consumado este primeiro esquecimento e tendo sido enunciada a nova afirmação, principiava um segundo esquecimento, o de que a pessoa era insuspeitável.

- Será que essa fulana - indagava eu - tem esses hábitos?
- Ora, naturalmente, todo mundo sabe disso! -

     Porém logo o tom compungido voltava para uma afirmação que era um vago eco, bastante atenuado da primeira:

- Devo dizer que comigo sempre se mostrou muito correta. Naturalmente ela sabia que eu a teria posto em seu lugar, e de que maneira. Mas, afinal, pouco importa. Sou forçada a lhe ser grata pelo verdadeiro respeito que ela sempre testemunhou por mim. Vê-se que ela sabia com quem estava lidando.

     Lembramo-nos da verdade porque ela tem um nome, raízes antigas; mas uma mentira improvisada se esquece depressa. Albertine se esquecia dessa última mentira, a quarta, e, num dia em que desejava ganhar minha confiança por meio de confidências, chegava a me dizer da mesma pessoa, no começo tão distinta e que ela não conhecia: 

- Teve uma quedinha por mim. Três, quatro vezes me pediu para acompanhá-la até em casa e subir com ela. Eu não via mal nenhum em acompanhá-la, diante de todo mundo, em pleno dia, na rua. Mas, logo que chegava à sua porta, achava sempre um pretexto e nunca subi.

     Algum tempo depois, Albertine me fazia alusão à beleza dos objetos que se viam na casa da mesma pessoa. De aproximação em aproximação, talvez se chegasse a fazê-la dizer a verdade, uma verdade quem sabe menos grave do que eu era levado a crer, pois talvez, fácil com as mulheres, ela preferisse um amante, e agora que eu era o seu, não mas teria pensado em Léa. Em todo caso, quanto a muitas das mulheres, já teria me bastado apresentar numa síntese à minha amiga as suas afirmações contraditórias para convencê-la de seus erros (erros que são bem mais fáceis de verificar pelo raciocínio, como as leis astronômicas, do que de observar, de surpreender na realidade). Mas ela ainda teria preferido dizer que mentira quando fizera uma de suas afirmações, cuja retirada faria desse modo desmoronar todo o meu sistema, em vez de reconhecer que tudo o que havia contado desde o princípio não passava de uma trama de histórias mentirosas. Há casos iguais nas Mil e Uma Noites, e que nos encantam. Fazem-nos sofrer numa pessoa a quem amamos, e por causa disso nos permitem penetrar um pouco mais fundo no conhecimento da natureza humana, em vez de limitar-nos à sua superfície. O desgosto nos invade e obriga-nos pela curiosidade dolorosa a penetrar. Daí decorrem as verdades que não nos sentimos com o direito de ocultar, de modo que um ateu agonizante que as descobriu, seguro do Nada, despreocupado da glória, usa todavia suas horas derradeiras para tentar fazer com que sejam conhecidas.
     Sem dúvida, eu estava ainda na primeira daquelas afirmações sobre Léa. Ignorava até se Albertine a conhecia ou não. Pouco importa, dava no mesmo. Era preciso, a todo custo, impedir que Albertine, no Trocadero, pudesse reencontrar essa conhecida, ou travar relações com essa desconhecida. Disse que não sabia se ela a conhecia ou não; no entanto, é possível que o tivesse sabido em Balbec, através da própria Albertine. Pois o esquecimento apagava tanto em mim quanto em Albertine uma boa parte das coisas que ela me havia afirmado. Porque a memória, em vez de um exemplar em dobro, sempre presente a nossos olhos, dos diversos fatos da nossa vida, é antes um Nada de onde, por instantes, uma similitude atual nos permite extrair, ressuscitadas, lembranças mortas; mas existem ainda mil pequenos fatos que não caíram nessa virtual idade da memória e que permanecerão para sempre inverificáveis para nós. A tudo o que ignoramos relacionar-se à vida real da pessoa a quem amamos não prestamos atenção, esquecemos logo o que ela nos disse a propósito de um determinado fato ou de uma certa pessoa que não conhecemos, e o aspecto dela ao nos dizer tais coisas. Assim, quando a seguir o nosso ciúme é excitado por essas mesmas pessoas, para saber se ele não se engana, se é precisamente a elas que se deve relacionar uma certa pressa que a nossa amante tem de sair, certo descontentamento de ter sido privada de fazê-lo porque voltamos cedo demais, o nosso ciúme, examinando o passado para obter indicações, nada encontra nele; sempre retrospectivo, é como um historiador que tivesse de escrever uma história para a qual não dispusesse de documento algum; sempre atrasado, ele se precipita como um touro furioso para onde não se encontra a criatura brilhante e altiva que o irrita com suas picadas e cuja magnificência e astúcia a multidão cruel admira. O ciúme se debate no vazio, indeciso, como o somos nesses sonhos em que sofremos por não encontrar em sua casa vazia uma pessoa que conhecemos muito bem na vida, mas que aqui talvez seja uma outra e apenas tenha assumido as feições de outra personagem; indeciso, como o somos mais ainda quando, após o despertar, buscamos identificar tal ou qual detalhe do nosso sonho. Que jeito seria o da nossa amiga ao nos dizer isso? Teria um aspecto feliz, não estaria mesmo assobiando, coisa que ela só faz quando lhe ocorre um pensamento amoroso e nossa presença a importuna ou irrita? Não nos terá dito uma coisa que se acha em contradição com o que afirma agora, que conhece ou não conhece tal pessoa? Não o sabemos, não saberemos jamais, empenhamo-nos em procurar os destroços inconsistentes de um sonho, e durante esse tempo a nossa vida com a amante continua, nossa vida distraída diante do que ignoramos ser importante para nós, atenta ao que talvez o não seja, atormentada de pesadelos com criaturas que não têm relações reais conosco, nossa vida cheia de esquecimentos, de lacunas, de ansiedades vãs, nossa vida semelhante a um sonho.
     Dei-me conta de que a garota da leiteria ainda estava ali. Disse-lhe que decididamente era muito longe, que não precisava dela. E logo ela achou também que ia ser muito incômodo:

- Vai haver um bom match daqui a pouco, gostaria de não perdê-lo. -  

     Senti que ela já devia gostar de esportes e que dentro de alguns anos diria: viver sua vida. Disse lhe que decididamente não precisava dela e lhe dei cinco francos. Imediatamente, como se não esperasse por isso, e considerando que se ganhara cinco francos para não fazer nada, poderia ganhar muito mais pela comissão, começou a achar que seu match não tinha importância.

- Bem que eu poderia dar o seu recado. Sempre se consegue dar um jeito. - 

     Mas eu a impeli até a porta, precisava estar sozinho; tinha a todo custo de impedir que Albertine encontrasse as amigas de Léa no Trocadero.
     Precisava, precisava consegui-lo; para dizer a verdade, ainda não sabia como; e, durante aqueles primeiros instantes, abria as mãos, olhava-as, fazia estalar as juntas dos dedos, ou porque o espírito que não pode achar o que procura, tomado de preguiça, concorda em fazer uma parada durante um momento, quando as coisas mais indiferentes lhe aparecem com nitidez, como essas pontas de capim que do vagão vemos tremer nos taludes ao sopro do vento, quando o trem para em campo raso; imobilidade que nem sempre é mais fecunda que a do animal capturado, que, paralisado de medo, ou fascinado, olha sem se mexer-, ou porque eu mantivesse o corpo inteiramente preparado com minha inteligência dentro e, nela, os meios de ação sobre tal ou qual pessoa - como sendo apenas uma arma de onde partiria o golpe que haveria de separar Albertine de Léa e de suas duas amigas. Decerto, na manhã em que Françoise viera me dizer que Albertine iria ao Trocadero, eu havia pensado: "Albertine pode muito bem fazer o que quiser" e acreditara que até a noite, naquele tempo radioso, os seus atos não teriam importância perceptível para mim. Mas não fora apenas o sol da manhã, como pensara, que me fizera tão despreocupado; era porque, tendo obrigado Albertine a renunciar aos projetos que ela podia talvez preparar ou até mesmo realizar na casa dos Verdurin, e limitando-a a ir a uma vesperal que eu próprio escolhera e em função da qual ela não pudera combinar coisa alguma, sabia que o que ela faria forçosamente seria inocente. Da mesma forma, se Albertine dissera instantes depois:

- Se eu me matar, pouco me importa-, fora por estar convencida de que não se mataria. À minha frente, à frente de Albertine, houvera aquela manhã (bem mais que a iluminação do dia) aquele meio que não vemos, mas através de cujo intermédio translúcido e mutável nós víamos, eu as suas ações, e ela a importância de sua própria vida, isto é, aquelas crenças que não percebemos mas que, como o ar que nos rodeia, não são assimiláveis a um puro vácuo; compondo ao nosso redor uma atmosfera variável, por vezes excelente, muita vez irrespirável, elas mereceriam ser destacadas e assinaladas com tanto cuidado como a temperatura, a pressão barométrica e a estação, pois os nossos dias têm sua originalidade física e moral. A crença, não notada por mim naquela manhã e na qual todavia estivera alegremente envolto até o momento em que abrira o Fígaro, de que Albertine só faria coisas inofensivas, essa crença acabava de desaparecer.

     Eu já não vivia num dia lindo, mas num dia criado no seio deste pela inquietude de que Albertine reatasse com Léa e mais facilmente ainda com as duas moças, caso estas fossem, como me parecia provável, aplaudir a atriz no Trocadero, onde não lhes seria difícil, num entreato, reencontrar Albertine. Eu não pensava mais na Srta. Vinteuil, o nome de Léa me fizera rever, para sentir ciúmes, a imagem de Albertine no cassino perto das duas moças. Pois eu só possuía na memória séries de Albertine separadas umas das outras, incompletas, perfis, instantâneos; desse modo, o meu ciúme se restringia a uma expressão descontínua, a um tempo fixa e fugidia, e às criaturas que a tinham feito aparecer na fisionomia de Albertine. Lembrava-me desta quando, em Balbec, era excessivamente olhada pelas duas moças ou por mulheres desse tipo; lembrava-me do sofrimento que senti ao ver percorrido por olhos ativos como os de um pintor que quer fazer um croqui, este rosto inteiramente coberto por eles e que, devido, é claro, à minha presença, sofria esse contato sem dar a impressão de percebê-lo, com uma passividade talvez clandestinamente voluptuosa.
     E, antes que ela se recobrasse e me falasse, havia um segundo durante o qual Albertine não se movia, sorrindo no vazio, com o mesmo ar de natureza fingido e de prazer dissimulado que teria se lhe fossem tirar o retrato; ou até para escolher diante da objetiva uma pose mais picante - aquela mesma que assumira em Doncieres quando passeávamos com Saint-Loup: rindo e passando a língua nos lábios, fingia que estava irritando um cão. Decerto, nesses momentos não era de modo algum a mesma que se interessava pelas garotas que passavam. Ao contrário, neste último caso o seu olhar estreito e aveludado se fixava, colocava-se na passante, tão aderente, tão corrosivo, que parecia que, ao retirar-se, levaria consigo a pele. Mas nesse momento aquele olhar, que pelo menos lhe dava um quê de seriedade, fazendo-a até parecer doente, era-me suave em comparação com o seu olhar inerte e feliz junto das duas moças, e eu teria preferido a sombria expressão do desejo que ela talvez sentia às vezes, à expressão risonha causada pelo desejo que ela inspirava. Por mais que tentasse disfarçar a consciência que tinha disso, esta a banhava e envolvia, vaporosa, voluptuosa, fazia surgir todo corado o seu rosto. Mas tudo o que Albertine deixava em suspenso nesses instantes dentro de si mesma, e que irradiava à sua volta e me fazia sofrer tanto, quem sabe se na minha ausência ela continuaria a manter em silêncio, se aos avanços das duas moças, agora que eu já não estava ali, ela não corresponderia com audácia? É claro que tais lembranças me causavam grande mágoa. Eram como uma confissão total dos gostos de Albertine, uma confissão geral de sua infidelidade, contra o que não poderiam prevalecer suas juras particulares, nas quais eu gostaria de crer, os resultados negativos de minhas incompletas indagações, as garantias de Andrée, talvez forjadas em conivência com Albertine. Esta podia negar suas traições particulares; com palavras que lhe escapavam, mais fortes que as declarações contrárias, ou por simples olhares, ela confessara o que desejava ocultar, muito mais do que fatos particulares: aquilo que preferia matar-se a dar a conhecer, o seu vício. Pois nenhuma criatura deseja entregar a sua alma. Apesar da mágoa que tais lembranças me causavam, poderia eu negar que era o programa da vesperal do Trocadero que despertara a minha necessidade de Albertine? Ela era dessas mulheres em quem as culpas poderiam, se preciso fosse, substituir os encantos e, tanto quanto as culpas, a bondade que lhes sucede e nos devolve aquela doçura que com elas, como um enfermo que nunca se sente bem dois dias seguidos, sempre somos obrigados a reconquistar. Aliás, mais até do que as culpas do tempo em que as amamos, existem as culpas de antes que as conhecêssemos, e a primeira de todas: a sua natureza. De fato, o que torna dolorosos tais amores é que preexiste a eles uma espécie de pecado original da mulher, um pecado que faz com que a amemos, de modo que, quando o esquecemos, temos menos necessidade dela e, para recomeçar a amar, é necessário recomeçar a sofrer. Neste momento, que ela não se encontrasse com as duas moças e saber se ela conhecia ou não conhecia Léa era o que mais me preocupava, embora a gente não devesse interessar-se por fatos particulares a não ser devido à seu significado geral, e apesar da puerilidade que existe, tão grande como a da viagem ou do desejo de conhecer mulheres, em fragmentar a curiosidade sobre aquilo que, da torrente invisível das realidades cruéis que nos ficarão sempre desconhecidas, casualmente se cristalizou em nosso espírito. Além disso, mesmo que chegássemos a destruir tal cristalização, ela seria logo substituída por outra. Ontem, eu temia que Albertine fosse à casa dos Verdurin. Hoje só estava preocupado com Léa. O ciúme, que traz uma venda nos olhos, não é só impotente para descobrir alguma coisa nas trevas que o cercam; é também um dos suplícios em que a tarefa é recomeçar sem descanso, como a das Danaides, como a de Íxion. Mesmo se as duas moças lá não estivessem, qual a impressão que poderia causar sobre ela a atriz Léa, embelezada pela caracterização, glorificada pelo sucesso, quantas fantasias deixaria ela para Albertine, quais os desejos que, mesmo refreados em minha casa, lhe dariam o desgosto de uma vida em que não poderia satisfazê-los? Aliás, quem sabe se ela não conhecia Léa e não iria vê-la em seu camarim, e até que Léa não a conhecesse: quem me asseguraria que, tendo-a de qualquer modo avistado em Balbec, não a reconheceria e não lhe faria um sinal desde o palco, o que autorizaria Albertine a mandar abrir a porta dos bastidores? Um perigo parece muito evitável quando é conjurado. Este não o era ainda, eu receava que não fosse possível evita-lo, e por isso ele me parecia tanto mais terrível. E no entanto esse amor por Albertine, que eu sentia quase desvanecer-se quando tentava realiza-lo, parecia de algum modo provado pela violência da minha dor nesse momento. Eu não me preocupava com outra coisa e só pensava nas maneiras de impedir Albertine de ficar no Trocadero, teria oferecido qualquer quantia a Léa para que lá não comparecesse. Se se demonstra a preferência de alguém pela ação que pratica mais do que pelas ideias que defende, então eu estava amando Albertine.
     Mas essa retomada do sofrimento não dava maior consistência à imagem de Albertine dentro de mim. Provocava os meus males como uma divindade que permanece invisível.
     Fazendo mil conjecturas, eu procurava remediar meu sofrimento sem por isso realizar o meu amor.
     Primeiro, era necessário ter certeza de que Léa iria de fato ao Trocadero. Depois de ter mandado embora a garota da leiteria, dando-lhe cinco francos, telefonei para Bloch, também ligado a Léa, para tomar informações. Não sabia de nada e pareceu espantado que aquilo pudesse interessar-me. Pensei que era preciso apressar-me, que Françoise já estava pronta e eu não; e, enquanto me levantava, mandei-a tomar um automóvel;18 ela devia ir ao Trocadero, comprar uma entrada, procurar Albertine por todo o salão e lhe entregar um bilhete meu. Nesse bilhete eu dizia que estava transtornado por uma carta recebida há pouco da mesma senhora por quem ela sabia que me sentira tão infeliz certa noite em Balbec. Lembrava-lhe que no dia seguinte ela me censurara por não ter mandado chamá-la. Assim, dizia eu, permitia-me pedir que sacrificasse a sua vesperal e viesse buscar-me para tomarmos juntos um pouco de ar, a fim de tentar que eu melhorasse. Mas, como eu levaria muito tempo para me vestir e me aprontar, ela me daria grande prazer aproveitando a presença de Françoise para ir comprar nos Trois Quartiers (sendo menor, esta loja me inquietava menos que o Bon Marché) o lenço de tule branca de que necessitava.
     Meu bilhete provavelmente não era inútil. Para falar a verdade, eu nada sabia do que havia feito Albertine desde que a conhecia, nem mesmo antes. Mas em sua conversação (Albertine poderia dizer, se lhe tivesse falado nisso, que eu compreendera mal) havia certas contradições, certos retoques que me pareciam tão decisivos como um flagrante delito, porém menos utilizáveis contra Albertine que, muitas vezes, surpreendida em fraude como uma criança, de cada vez, graças a súbitas retificações estratégicas, tornara baldados meus cruéis ataques e restabelecera a situação. Cruéis para mim. Ela empregava, não por refinamento de estilo, mas para reparar suas imprudências, esses saltos bruscos de sintaxe um tanto semelhantes ao que os gramáticos denominam anacoluto ou seja lá o que for. Deixando escapar, ao falar de mulheres, estas palavras: 

- Lembro-me que ultimamente, eu -, bruscamente, depois de uma "pausa de semicolcheia", "eu" se transformava em "ela", era uma coisa que ela tinha avistado num passeio inocente, e não realizada. Não era ela o sujeito da ação. Gostaria eu de me lembrar exatamente do começo da frase para concluí-la por mim mesmo, já que ela se interrompera, qual teria sido o final. Mas, como havia esperado esse final, mal me recordava do princípio, pois talvez o meu ar interessado a tivesse feito desviar-se, e eu ficava ansiando pelo seu pensamento verdadeiro, pela sua recordação verídica. Infelizmente, com os começos de uma mentira de nossa amante ocorre o mesmo que com os começos do nosso próprio amor, ou com os começos de uma vocação. Eles se formam, conglomeram-se e passam despercebidos de nossa própria atenção. Quando queremos nos lembrar de que modo começamos a amar uma mulher, já estamos amando; dos devaneios de antes, não dizíamos: é o prelúdio de um amor, estejamos atentos; e eles avançavam de surpresa, mal notados por nós. Da mesma forma, a não ser em casos relativamente escassos, foi quase por comodidade da narrativa que muitas vezes opus aqui um dito mentiroso de Albertine com (sobre o mesmo assunto) a sua afirmação primitiva. Essa afirmação primitiva, muitas vezes, não lendo no futuro e não adivinhando qual afirmação contraditória lhe corresponderia mais tarde, deslizara despercebida, com certeza escutada por meus ouvidos, mas sem que eu a isolasse da continuidade das palavras de Albertine. Posteriormente, gostaria de me lembrar; era em vão; minha memória não fora prevenida a tempo; havia julgado inútil guardar uma cópia.

     Recomendei a Françoise que, quando tivesse feito Albertine sair do salão, avisasse-me por telefone e a trouxesse de volta, contente ou não.

- Não faltava mais nada que ela não ficasse contente de vir para a companhia do senhor. 
- Mas não sei se ela gosta tanto assim de estar comigo.
- Seria preciso que ela fosse bem ingrata - replicou Françoise, em quem Albertine renovava, depois de tantos anos, o mesmo suplício da inveja que outrora lhe causara Eulalie junto de minha tia. Ignorando que a situação de Albertine junto a mim não fora procurada por ela mas por mim desejada (o que por amor-próprio e para enraivecer Françoise eu punha tanto empenho em lhe ocultar), ela admirava e execrava a sua habilidade e chamava-a, quando falava dela aos demais criados, de "comediante", de "impostora", que fazia de mim o que queria. Não ousava ainda entrar em guerra aberta contra Albertine, fazia-lhe boa cara, e valorizava-me os serviços que prestava em suas relações comigo, pensando ser inútil dizer-me qualquer coisa e que não conseguiria nada, mas aguardando uma ocasião; e, se alguma vez descobrisse uma fissura na situação de Albertine, prometia a si mesma alargá-la e separar-nos completamente.
- Muito ingrata? Mas não, Françoise, eu é que me considero ingrato, você não sabe como ela é boa para mim. (Era-me tão doce parecer ser amado!) Vá depressa. 
- Vou chispando. 
 
     A influência de sua filha começava a alterar um pouco o vocabulário de Françoise. Assim todas as línguas perdem a sua pureza por anexar novos termos. Aliás, eu era indiretamente responsável por essa decadência do modo de falar de Françoise, que conhecera em sua bela época. A filha de Françoise não teria feito com que degenerasse ao mais baixo calão a linguagem clássica da mãe, se se tivesse contentado em falar o patoá com ela. Nunca se privara disso, e, quando as duas estavam juntas comigo, se tinham coisas secretas a se dizer, em vez de irem fechar-se na cozinha, elas se faziam, bem no meio do meu quarto, uma proteção mais intransponível que a porta mais bem trancada, falando o patoá. Eu apenas supunha que mãe e filha não viviam sempre em boa harmonia, a julgar pela frequência com que se repetia o único vocábulo que eu podia distinguir: m'esasperate (a menos que o objeto dessa exasperação fosse eu). Infelizmente, acabamos por aprender a língua mais desconhecida, desde que a ouçamos falar sempre. Lamentei que fosse o patoá, pois cheguei a conhecê-lo e não teria aprendido menos bem se Françoise tivesse o hábito de se exprimir em persa. Françoise, quando percebeu meu progresso, tratou de falar o mais depressa possível, e a filha também, mas nada adiantou. A mãe ficou desolada quando soube que eu compreendia o patoá, e depois contente ao me ouvir falá-lo. Na verdade, esse contentamento era o da zombaria, pois, embora eu acabasse por pronunciá-lo mais ou menos como ela, Françoise achava entre nossas pronúncias abismos que a encantavam, e punha-se a lastimar não ver mais pessoas da sua terra, nas quais há muitos anos que não pensava, e que, ao que parece, se torceriam de um riso que ela desejaria ouvir, ao me escutarem falar tão mal o patoá. Bastava essa ideia para enchê-la de alegria e de mágoa de não vê-la realizada, e nomeava este ou aquele camponês que chegaria às lágrimas de tanto rir. Em todo caso, nenhuma alegria se misturou à tristeza de que, mesmo o pronunciando mal, eu o compreendesse bem. As chaves tornavam-se inúteis quando aquele a quem desejamos impedir de entrar pode se servir de uma gazua ou de uma chave-mestra. Reduzindo-se o patoá a uma defesa sem valor, Françoise pôs-se a falar com a filha um francês que bem depressa se tornou o das épocas mais baixas.
     Eu já estava pronto. Françoise ainda não havia telefonado; seria preciso sair sem esperar? Mas quem sabe se ela encontraria Albertine? E se esta não se encontrasse nos bastidores? E se até, descoberta por Françoise, não se deixasse levar embora? Meia hora depois, ressoou o toque do telefone e no meu coração bateram tumultuosamente o receio e a esperança. Era um esquadrão volante de sons que, sob as ordens de um funcionário da companhia telefônica, com uma velocidade instantânea, me trazia as palavras do telefonista, não as de Françoise, a quem uma timidez e uma melancolia ancestrais, aplicadas a um objeto desconhecido de seus pais, a impediam de se aproximar de um receptor, mas que, no entanto, não temia visitar doentes contagiosos. Havia encontrado Albertine sozinha no corredor, e esta, tendo ido apenas avisar Andrée que não ficaria, logo se reunira a Françoise. 

- Ela não estava zangada? Ah, perdão. Pergunte a esta senhora se a senhorita não estava zangada. 
- Esta senhora me diz para lhe dizer que não, absolutamente não, muito pelo contrário; em todo caso, se ela não está contente isto não se percebe. Agora elas vão aos Trois Quartiers e estarão de volta às duas horas. -

continua na página 65...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Imediatamente, pegando o jornal)

sábado, 1 de agosto de 2026

Marcel Proust - A Prisioneira (Logo que Albertine saiu)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Logo que Albertine saiu, senti como era cansativa para mim essa presença perpétua, insaciável de vida e movimento, que perturbava o meu sono com seus movimentos e me fazia viver num constante resfriado devido às portas que deixava abertas, forçava-me para achar pretextos que justificassem não acompanhá-la, sem todavia parecer muito enfermo, e por outro lado, para fazê-la acompanhar- a inventar cada dia mais artimanhas que Sherazade. Infelizmente, se por uma artimanha igual a narradora persa adiava a sua morte, eu apressava a minha. Assim, há na vida certas situações, nem todas criadas, como esta, pelo ciúme amoroso e por uma saúde precária que não permite compartilhar da vida de uma criatura ativa e jovem, mas em que, mesmo assim, o problema de continuar a vida em comum ou de retornar à vida separada de antes, coloca-se de uma forma quase médica: à qual das duas espécies de repouso é necessário sacrificar-se (continuando a estafa diária, ou regressando às angústias da ausência): à do cérebro ou à do coração?
     De qualquer modo, sentia-me bem satisfeito que Andrée acompanhasse Albertine ao Trocadero, pois recentes e aliás minúsculos incidentes faziam com que, mesmo tendo é claro igual confiança na honestidade do motorista, sua vigilância ou pelo menos a perspicácia da sua vigilância já não me parecia tão boa como antes. Assim é que, ultimamente, tendo eu mandado Albertine sozinha com ele a Versalhes, Albertine me dissera ter almoçado nos Reservatórios. Como o motorista me falara do restaurante Vatel, no dia em que percebi essa contradição, arrumei um pretexto para descer e falar ao chofer (sempre o mesmo, aquele que vimos em Balbec) enquanto Albertine se vestia.

- Outro dia você me disse que havia almoçado no Vatel; a Srta. Albertine me fala dos Reservatórios. Que significa isso? - 

     O chofer respondeu:

- Ah, eu disse que tinha almoçado no Vatel, mas não posso saber onde a senhorita almoçou. Ao chegar a Versalhes, ela me deixou para tomar um fiacre puxado a cavalo, o que ela prefere quando não é para andar na estrada. 
- Já me enfureci pensando que ela ficara sozinha; enfim, fora apenas para almoçar. Você não poderia - disse eu com ar gentil (pois não queria parecer estar positivamente mandando vigiar Albertine, o que teria sido humilhante para mim, e duplamente, pois aquilo significaria que ela me ocultava as suas ações) - almoçar, não digo com ela, mas no mesmo restaurante? 
- Mas ela me havia pedido que só às seis da tarde estivesse na Praça de Armas. Eu não deveria ir buscá-la à saída do seu almoço.
- Ah - disse eu, procurando dissimular meu abatimento.

     E subi de novo. 
     Assim, Albertine estivera sozinha mais de sete horas, entregue a si mesma. É verdade que eu bem sabia que o fiacre não fora um simples expediente para se desembaraçar da vigilância do chofer. Na cidade, Albertine preferia passear de fiacre, dizia que se via bem, que o ar era mais puro. Apesar disso, ela passara sete horas sobre as quais eu nunca saberia coisa alguma. E não ousava imaginar no modo como ele as empregara. Achei que o motorista fora muito inábil, mas minha confiança nele, daí em diante, foi completa. Pois, se ele estivesse de combinação com Albertine, jamais teria me confessado que a deixara livre das onze da manhã às seis da tarde. Só haveria outra explicação, porém absurda, para a confissão do motorista. É que uma briga entre ele e Albertine lhe tivesse dado o desejo de, fazendo-me uma pequena revelação, mostrar à minha amiga que era homem capaz de falar e que, se depois da primeira advertência, feita de modo benigno, Albertine não andasse direito conforme ele queria, iria denunciá-la abertamente. Mas tal explicação era absurda; era preciso primeiro supor uma desavença inexistente entre ele e Albertine, e depois atribuir uma natureza de vigarista àquele bom chofer, que sempre se mostrara tão afável e tão bom rapaz. Aliás, dois dias depois eu percebi que, mais do que supusera; por um momento em minha loucura suspicaz, ele sabia exercer sobre Albertine uma vigilância aguda e discreta. Pois, tendo podido lhe falar particularmente a respeito do que me contara acerca de Versalhes, dizia-lhe com ar amistoso e natural:

- Aquele passeio a Versalhes, de que me falou anteontem, era perfeito, e você foi perfeito como sempre. Apenas, como uma pequena recomendação, aliás sem importância, tenho tal responsabilidade desde que a Sra. Bontemps pôs a sua sobrinha sob a minha guarda, que sinto muito medo de acidentes; e me censuro tanto por não acompanhá-la que prefiro que seja você, tão seguro, tão maravilhosamente hábil, que leve a Srta. Albertine a toda parte. Assim, não receio nada. -

     O encantador chofer apostólico sorriu com finura, com a mão no volante em forma de cruz de consagração. Depois disse-me estas palavras que (expulsando as inquietudes do meu peito, onde logo foram substituídas pelo júbilo) me deram vontade de lhe saltar ao pescoço: 

- Não tenha medo - disse. - Nada pode lhe acontecer, pois, quando o meu volante não a leva, o meu olhar a segue por toda parte. Em Versalhes, como quem não quer nada, visitei a cidade por assim dizer com ela. Dos Reservatórios ela foi ao Château, do Château aos Trianons, e sempre eu na sua cola sem que parecesse vê-la, e o melhor é que ela não me viu. Oh, se ela me visse, não tinha importância. Era natural que, tendo o dia inteiro à minha frente sem fazer nada, eu também visitasse o Château. Tanto mais que a senhorita certamente já percebeu que tenho alguma leitura e que me interesso por todas as velhas curiosidades (era verdade, eu teria até ficado surpreendido se soubesse que ele era amigo de Morel, de tanto que ultrapassava o violinista em gosto e finura). Mas enfim, ela não me viu. 
- Aliás, deve ter encontrado amigas, pois tem muitas delas em Versalhes. 
- Não, estava sempre sozinha. 
- Devem observá-la então; uma jovem deslumbrante e sozinha! 
- É certo que a olhem, mas ela quase não dá atenção, pois tem os olhos no guia o tempo todo, e depois ergue-os para os quadros. - 
  
     A narrativa do motorista me pareceu tanto mais exata quanto fora, de fato, um cartão-postal representando o Château e um outro representando os Trianons, que Albertine me mandara no dia de seu passeio. A atenção com que o gentil chofer a seguira passo a passo muito me comoveu. Como poderia supor que essa retificação, sob a forma de um vasto complemento às suas palavras da antevéspera, derivasse de que, no decurso desses dois dias, Albertine, alarmada com a ideia de que o chofer me falasse, fizera as pazes com ele? Tal suspeita nem mesmo me ocorreu.
     É certo que o depoimento do motorista, tirando-me todo o medo de que Albertine me enganasse, esfriou-me muito naturalmente em relação à minha amiga, tornando menos interessante o dia que ela passara em Versalhes. Todavia, creio que as explicações do chofer que, inocentando Albertine, fazia-a ainda mais aborrecida a meus olhos, não teriam talvez bastado para me acalmar tão depressa. Duas pequenas espinhas que minha amiga teve na testa durante alguns dias conseguiram, talvez melhor ainda, modificar os sentimentos do meu coração. Por fim, tais sentimentos se desviaram dela, a ponto de eu só me lembrar de sua existência quando a via, devido à confidência singular que me fez a camareira de Gilberte, encontrada por acaso. Fiquei sabendo que, quando eu ia diariamente à casa de Gilberte, ela amava um rapaz a quem via muito mais que a mim. Por um instante eu suspeitara disso, à época, e até mesmo interrogara a respeito esta mesma camareira. Mas, como ela sabia que eu estava apaixonado por Gilberte, havia negado o fato, jurando que a Srta. Swann nunca vira aquele rapaz. Mas agora, sabendo que meu amor estava morto há tanto tempo, que há muito eu deixara sem respostas as cartas de GiIberte (e talvez também porque já não estava a serviço da moça), espontaneamente contou-me por extenso o episódio amoroso que eu não tinha sabido. Isso lhe parecia muito natural. Lembrando-me de seus juramentos de então, julguei que ela não estivesse a par. Absolutamente; era ela mesma que, sob as ordens da Srta. Swann, ia prevenir o rapaz logo que aquela a quem eu amava estava a sós. Que eu amava então... Mas não me perguntei se meu amor de outrora estava tão morto quanto o julgava, pois essa narrativa me foi penosa. Como não creio que o ciúme possa ressuscitar um amor morto, imaginei que minha triste impressão era devida, ao menos em parte, ao meu amor-próprio ferido, pois várias pessoas de quem eu não gostava e que naquela época, e até mesmo um pouco depois isto mais tarde mudou-, afetavam a meu respeito uma atitude de desprezo, sabiam perfeitamente, enquanto eu estava tão apaixonado por Gilberte, que me portava como um iludido. E tal constatação me fez até indagar, retrospectivamente, se no meu amor por Gilberte não houvera uma parcela de amor-próprio, visto que sofria tanto agora por verificar que todas as horas de ternura que me haviam feito tão feliz, eram conhecidas como uma verdadeira traição de minha amiga à minha custa, pelas pessoas de quem eu não gostava. Em todo caso, amor ou amor-próprio, Gilberte estava quase morta em mim, porém não de todo, e esse aborrecimento acabou por impedir que eu me preocupasse demais com Albertine, que ocupava uma faixa tão estreita em meu coração. Não obstante, para voltar a ela (depois de um parêntese tão longo) e a seu passeio a Versalhes, os cartões-postais de Versalhes (pode-se, então, ter assim o coração simultaneamente consumido por dois ciúmes entrecruzados, cada qual se referindo a uma pessoa diferente?) me davam uma impressão um tanto desagradável, cada vez que, arrumando papéis, meus olhos caíam sobre eles. E eu pensava que, se o motorista não fosse um homem correto, a concordância de seu segundo depoimento com os cartões-postais de Albertine não teria significado muita coisa, pois o que é que nos mandam de Versalhes senão o Château e os Trianons, a menos que o cartão seja escolhido por um sujeito requintado, amoroso de uma determinada estátua, ou por algum idiota elegendo como vista a estação de bondes a cavalo ou a gare dos Chantiers?
     E ainda erro dizendo um idiota, pois esses cartões-postais nem sempre foram comprados por um deles ao acaso, pelo interesse de vir de Versalhes. Durante dois anos, os homens inteligentes e os artistas acharam Siena, Veneza, Granada uma chatice, e diziam de qualquer ônibus e de todos os vagões: 

- Isto é que é belo. -

     Pois esse gosto passou, como os outros. Nem mesmo sei se não se voltou ao "sacrilégio de destruir as coisas nobres do passado". Em todo caso, um vagão de primeira classe deixou de ser considerado a priori como mais belo que São Marcos de Veneza. Entretanto, dizia-se:

- Ali é que está a vida, a volta para trás é uma coisa artificial -, mas sem tirar disso uma conclusão clara. Para estar mais seguro, e embora tendo toda a confiança no chofer e para que Albertine não pudesse livrar-se dele sem que ele ousasse recusar por medo de passar por espião, não a deixei mais sair sem o reforço de Andrée, ao passo que por algum tempo o chofer me bastara.

     Eu até a deixara então (o que não teria ousado fazer desde aí) ausentar-se durante três dias, sozinha com o chofer, e ir até as vizinhanças de Balbec, de tanta vontade que ela havia mostrado de rodar pela estrada em simples chassis a toda velocidade. Três dias em que eu ficara bem tranquilo, embora a chuva de cartões-postais que ela me enviara só me houvesse chegado às mãos, devido ao detestável funcionamento do correio bretão (bom no verão, mas muito desorganizado no inverno), oito dias depois do regresso de Albertine e do chofer, tão corajosos que na própria manhã do regresso retomaram, como se nada tivesse havido, o passeio cotidiano. Mas desde o incidente de Versalhes eu tinha mudado. Estava entusiasmado que Albertine fosse hoje ao Trocadero, àquela vesperal "extraordinária", mas, sobretudo, tranquilo por sabê-la na companhia de Andrée.
     Abandonando esses pensamentos, agora que Albertine saíra, fui colocar-me por um momento à janela. Primeiro houve um silêncio, em que o apito do vendedor de tecidos e a buzina do bonde fizeram ressoar o ar em oitavas diferentes, como um afinador de piano cego. Depois, aos poucos, tornaram-se distintos os motivos entrecruzados aos quais se juntavam outros novos. Havia também em outro apito, chamamento de um vendedor de quem nunca soube o que vendia, apito que era exatamente igual ao de um bonde, e como não fosse levado pela velocidade poder-se-ia dizer um só bonde, não dotado de movimento, ou que estivesse com uma pane, imobilizado, gemendo a curtos intervalos como um animal agonizante.
     E parecia-me que, se jamais devesse deixar esse bairro aristocrático a menos que me mudasse para outro inteiramente popular-, as ruas e as alamedas do centro (onde a frutaria, a peixaria, etc., estabilizada em grandes casas de gêneros alimentícios, tornavam inúteis os gritos dos vendedores, que aliás não teriam conseguido fazer-me ouvir) me dariam a impressão de serem bem tristes, bem inabitáveis, despojadas, filtradas de todas aquelas ladainhas dos pequenos ofícios e das comedorias ambulantes, privados da orquestra que vinha me encantar desde a manhã. Na calçada, uma mulher pouco elegante (ou obediente a uma moda feia) passava, clara demais num paletó saco de pelo de cabra; mas não, não era uma mulher, era um motorista que, enfiado no seu casaco de pele, voltava a pé para a garagem. Saindo dos grandes hotéis, os grooms alados, de tons cambiantes, curvados sobre o guidom das bicicletas, corriam velozmente para as gares, a fim de alcançar os viajantes do trem da manhã.
     O ressoo de um violino era causado às vezes pela passagem de um automóvel, às vezes por eu não ter posto água suficiente no meu saco elétrico. Em meio à sinfonia destoava uma ária fora de moda: substituindo a vendedora de bombons que de costume acompanhava sua melodia com uma matraca, o vendedor de brinquedos, em cuja flauta de cana estava preso um boneco, que ele fazia mover em todos os sentidos, ia levando outros bonecos de engonço e, sem se preocupar com a declamação ritual de Gregório o Grande, com a declamação reformada de Palestrina e com a declamação lírica dos modernos, entoava a plenos pulmões, partidário atrasado da melodia pura:

Vamos, papais, vamos mamães/ Satisfaçam seus filhinhos: Eu mesmo os faço, eu mesmo os vendo/ E eu mesmo recolho o dinheiro. Tra-lá-lá-lá, trá-lá-lá-lé/ Trá-lá-lá-lá-lá-lá-lá Vamos, crianças!

     Italianinhos de gorro na cabeça não tentavam resistir àquela aria vivaz, e, sem dizer nada, ofereciam suas pequenas estatuetas. Enquanto que um pequeno pífaro obrigava o vendedor de brinquedos a afastar-se e a cantar de modo mais confuso, embora presto: "Vamos papais, vamos mamães." Seria o pequeno pífaro um daqueles dragões que eu ouvia de manhã em Doncieres? Não, pois o que se seguia eram estas palavras: 

- Aqui está o consertador de faianças e de porcelana. Conserto vidros, mármores, cristais, ossos, marfins e objetos de antiguidades. Aqui está o consertador.

     Num açougue, onde à esquerda havia uma auréola de sol e à direita um boi inteiro pendurado, um açougueiro muito alto e magro, de cabelos louros, com o pescoço saindo de um colarinho azul-celeste, separava, com rapidez vertiginosa e uma religiosa consciência, de um lado os filés mais escolhidos e de outro a pior alcatra, colocava-os em deslumbrantes balanças superadas por uma cruz, de onde pendiam belas correntes e (embora a seguir só se ocupasse em arrumar no mostrador os rins, turnedôs e entrecostos) dava na realidade muito mais impressão de um belo anjo que no Dia do Juízo Final irá preparar para Deus, conforme suas qualidades, a separação dos Bons e dos Maus, e a pesagem das almas. E novamente o pífaro agudo e esguio subia nos ares, anunciador não mais das destruições que Françoise temia, cada vez que desfilava um regimento de cavalaria, mas de "reparações" prometidas por um "antiquário" ingênuo ou zombeteiro, e que, de qualquer modo bastante eclético, longe de se especializar, tinha por objeto de sua arte as mais diversas matérias. As pequenas entregadoras de pão se apressavam a empilhar em seus cestos os pãezinhos destinados ao almoço, e, a seus ganchos, as leiteiras rapidamente penduravam as garrafas de leite. A nostálgica visão que eu tinha dessas meninas, podia considerá-la exata? Não seria uma outra caso eu pudesse conservar imóvel, junto a mim, por alguns instantes, uma dessas que, das alturas da minha janela, eu só enxergava na loja ou de fugida? Para avaliar a perda que me causava a reclusão, isto é, a riqueza que me ofertava o dia, seria preciso interceptar, no longo desenvolvimento da frisa animada, alguma garota que levasse leite ou roupa lavada, fazê-la passar por um momento, como uma silhueta de cenário móvel, entre os batentes, pelo vão da minha porta, e retê-la sob meus olhos, não sem obter a seu respeito algumas informações que me permitissem reencontrá-la um dia, semelhantes à ficha sinalética que os ornitólogos ou os ictiólogos pregam, antes de devolver-lhes a liberdade, no ventre dos pássaros ou dos peixes, cujas migrações desejam poder identificar.
     Assim, disse a Françoise que, para um recado que eu queria enviar, mandasse-me ela uma dessas meninas que vinham frequentemente levar e trazer a roupa, o pão ou as garrafas de leite, e que ela muitas vezes mandava à rua em pequenas comissões. Nisso eu me parecia a Elstir, que, obrigado a ficar trancado em seu ateliê, em certos dias de primavera, quando, sabendo que os bosques estavam cheios de violetas, sentia um desejo violento de vê-las, mandava a porteira lhe comprar um buquê; então, comovido, alucinado, não era a mesa sobre a qual depusera o pequeno modelo vegetal, mas todo o tapete de vegetação rasteira, onde vira outrora, aos milhares, hastes serpentinas se dobrando sob seu bico azul, que Elstir pensava ter sob os olhos como uma zona imaginária, encerrada em seu ateliê pelo límpido aroma da flor evocadora.
     Num domingo não era de esperar que viesse uma lavadeira. Quanto à padeirinha, por um acaso infeliz ela havia tocado a campainha num momento em que Françoise estava ausente, deixara os pães no cesto, no patamar da escada, e escapulira. A vendedora de frutas só viria bem mais tarde. Uma vez eu tinha entrado na leiteria para encomendar um queijo e, no meio das empregadinhas, havia reparado numa moça, verdadeira extravagância loura, de porte alto embora pueril, e que, no meio das outras vendedoras, parecia sonhar, numa atitude bem altiva. Eu só a vira de longe e passando tão rápido que não poderia dizer como era, a não ser que devia ter crescido depressa demais e sua cabeleira dava muito menos idéia das particularidades capilares que de uma estilização escultural dos meandros isolados de nevados paralelos. Fora tudo o que eu distinguira, bem como um nariz muito desenhado (coisa rara numa criança) num rosto magro, e que lembrava o bico dos filhotes de abutres. Além disso, o grupo das companheiras a seu redor não fora a única coisa a me impedir de observá-la bem, mas igualmente a incerteza dos sentimentos que eu poderia lhe inspirar à primeira vista e a seguir, fossem de altivez indomável, ou de ironia, ou de um desdém que mais tarde exprimisse às amigas. Tais suposições alternativas que eu fizera em um segundo a seu respeito tinham espessado em torno dela a atmosfera perturbadora em que ela se ocultava, como uma deusa na nuvem que o raio faz tremer. Pois a incerteza moral é uma causa maior de dificuldades para uma exata percepção visual do que o seria um defeito material do olho. Naquela jovem magra demais e que também chamava demais a atenção, o excesso do que um outro talvez qualificasse de encantos era justamente o que me desagradava, mas, ainda assim, tivera como resultado impedir-me de perceber alguma coisa e, pela mais forte razão, de não me lembrar nada das outras empregadinhas, que o nariz arqueado desta, o seu olhar, algo tão pouco agradável, pensativo, pessoal, dando a impressão de julgar, tinham mergulhado na noite à maneira de um relâmpago louro que entenebrecesse a paisagem circundante. E assim, da minha visita para encomendar um queijo na leiteira, eu só me lembrara (se é que se pode dizer "lembrar-se" a propósito de um rosto, tão mal observado que adaptamos dez vezes ao nada do rosto um nariz diferente), eu só me lembrara da moça que me havia desagradado. Isso foi o bastante para fazer começar um amor. No entanto, eu teria esquecido a extravagância loura e jamais desejaria revê-la, se Françoise não me houvesse dito que, embora muito nova, essa garota era espertíssima e ia abandonar sua patroa porque, demasiado coquete, fizera dívidas no bairro. Diz-se que a beleza é uma promessa de felicidade. Inversamente, a possibilidade do prazer pode indicar um princípio de beleza.
     Pus-me a ler a carta de minha mãe. Através das citações da Sra. de Sévigné ("Se meus pensamentos não são inteiramente negros em Combray, são pelo menos de um cinzento-escuro; penso em ti a todo instante; desejo a tua presença; tua saúde; teus assuntos, tua ausência; que pensas que tudo isso pode fazer no luscofusco?") eu sentia que ela estava aborrecida por ver que a temporada de Albertine em nossa casa se prolongava, e se afirmavam, embora ainda não declaradas à noiva, as minhas intenções de casamento.
     Ela não me dizia mais diretamente por temer que eu largasse suas cartas em qualquer lugar. E ainda me censurava, por mais veladas que elas fossem, por não avisá-la imediatamente do recebimento de cada uma: "Sabes muito bem que a Sra. de Sévigné dizia: 'Quando se está distante, já não se zomba das cartas que principiam por: recebi a sua."' Sem falar do que mais a inquietava, ela se dizia zangada com minhas grandes despesas: "Em que se vai todo o teu dinheiro? Já me atormenta bastante que tu, como Charles de Sévigné, não saibas o que queres e que sejas 'dois ou três homens ao mesmo tempo', mas pelo menos trata de não ser como ele nos gastos e que eu não possa dizer de ti: 'Ele achou um meio de gastar sem parecer, de perder sem jogar e de pagar sem ficar quites."'
     Eu acabava de ler a carta de mamãe quando Françoise voltou para me dizer que ali estava justamente a pequena leiteira, um tanto ousada demais, da qual me havia falado. 

- Ela poderá muito bem levar a carta do senhor e dar algum recado desde que não seja para muito longe. O senhor vai ver, ela parece um Chapeuzinho Vermelho, - Françoise foi buscá-la e ouvi que a conduzia, dizendo: 
- Ora vamos, estás com medo porque há um corredor, sua fingida, pensava que fosses menos acanhada. Será que vou precisar segurar a tua mão? -

     E Françoise, como boa e honesta empregada que acha dever em respeitar o patrão como ela própria o respeita, revestia-se daquela majestade que enobrece as alcoviteiras nesses quadros dos velhos mestres, onde ao lado delas se dilui quase à insignificância o casal de amantes.
     Elstir, quando as olhava, não tinha de se preocupar com o que faziam as violetas. A entrada da pequena leiteira logo me tirou a calma de contemplador; só pensei em tornar verossímil a fábula da carta que ela haveria de levar e me pus a escrever com rapidez, sem ousar encará-la senão às furtadelas, para não parecer tê-Ia feito entrar só para aquilo. Para mim, ela estava ornada com o encanto do desconhecido, que eu não poderia ver acrescentado a uma bonita moça nessas casas em que elas nos esperam. Não estava nem nua nem disfarçada, mas era uma legítima empregadinha de leiteria, dessas que imaginamos tão bonitas quando não temos tempo de nos aproximar delas; era um pouco do que constitui o eterno desejo, a eterna tristeza da vida, cuja dupla corrente por fim é desviada e trazida para junto de nós. Dupla, pois trata-se do desconhecido, de uma criatura que adivinhamos dever ser divina, por causa da sua estatura, das suas proporções, seu olhar indiferente, sua tranqüila altivez; por outro lado, queremos que essa mulher seja bem especializada em sua profissão, permitindo-nos a evasão para esse mundo que um costume particular nos faz romanticamente julgar diverso. De resto, se procuramos enquadrar numa fórmula a lei das nossas curiosidades amorosas, seria preciso buscá-la no afastamento máximo entre uma mulher avistada e uma mulher que se aborda e acaricia. Se as mulheres daquilo que antigamente se chamava casas de tolerância, se as próprias meretrizes (desde que as saibamos meretrizes) nos atraem tão pouco, não é que sejam menos bonitas que as outras, é que elas estão inteiramente a nosso dispor; é que o que se busca exatamente atingir elas já no-lo ofertam; é que não são conquistas. O afastamento aí é mínimo. Uma prostituta já nos sorri na rua como o fará junto a nós. Somos escultores. Queremos obter de uma mulher uma estátua inteiramente diversa da que ela nos apresentou. Vimos uma jovem indiferente, mal-educada, à beira-mar; vimos uma caixeira ativa e séria, no seu balcão, que nos responderá com secura, ainda que seja apenas para não se tornar objeto das zombarias das companheiras, uma vendedora de frutas que mal nos responde. Pois bem, não sossegamos enquanto não pudermos experimentar se a jovem altiva de beira-mar, se a caixeira que pouco se importa com o que dizem dela, se a distraída vendedora de frutas não são suscetíveis, depois de manobras sagazes de nossa parte, de concordarem dobrar sua atitude retilínea, de rodear-nos o pescoço com esses braços que trazem frutas, de inclinar sobre nossa boca, num sorriso que consente, os olhos até então glaciais ou distraídos; beleza dos olhos severos nas horas de trabalho, em que a operária receava tanto a maledicência das companheiras, olhos que se furtavam aos nossos olhares obsessivos e que agora, que estamos a sós, baixam as pupilas ao peso ensolarado do riso quando falamos de fazer amor).
     Entre a caixeira, a lavadeira atenta a passar roupa, a vendedora de frutas, a moçada leiteria - e esta mesma garota que vai se tornar nossa amante -, atinge-se o máximo de afastamento, levado a seus limites extremos, e variado por esses gestos habituais da profissão, que fazem dos braços, enquanto dura o trabalho, algo tão diferente quanto possível, como arabesco, desses elos suaves que todas as noites já enlaçam nosso pescoço ao passo que a boca se apresta para o beijo. Assim, passamos toda a nossa vida em inquietas manobras, incessantemente renovadas, junto às jovens sérias e cujo mister parece afastá-las de nós. Uma vez em nossos braços, elas já não são o que eram, está suprimida a distância que sonhávamos franquear. Porém recomeçamos com outras mulheres, com tais empreendimentos gastamos todo o tempo de que dispomos, todo o dinheiro, todas as forças, explodimos de raiva contra o cocheiro demasiado lento que talvez nos faça perder o primeiro encontro, temos febre. Esse primeiro encontro, sabemos todavia que acarretará o desvanecimento de uma ilusão. Não importa; enquanto durar a ilusão, queremos ver se podemos mudá-la em realidade, e então pensamos na lavadeira em cuja frieza reparamos. A curiosidade amorosa é como a que em nós excitam os nomes de países; sempre decepcionada, renasce e permanece sempre insaciável.
     Ai de mim! Uma vez junto comigo, a loura leiteira de mechas estriadas, destituída de tanta imaginação, de tantos desejos despertados em mim, achou-se reduzida a si própria. A nuvem fremente de minhas suposições já não a envolvia de vertigem. Ela assumia um ar todo envergonhado de só ter um nariz (em lugar dos dez, dos vinte, de que me lembrava sucessivamente, sem poder fixar a lembrança), mais redondo do que o imaginara, que lhe dava um ar de estupidez e, de qualquer modo, perdera a faculdade de se multiplicar. Esse voo capturado, inerte, aniquilado, incapaz de acrescentar coisa alguma à sua pobre evidência, já não dispunha da minha imaginação para colaborar com ele. Caído no real imóvel, tentei reagir; as faces, não percebidas na loja, pareceram-me tão lindas que fiquei intimidado e, para recobrar a naturalidade, disse à garota: 

- Poderia me fazer o favor de me alcançar o Fígaro que está aí; preciso ver o nome de um lugar aonde quero mandá-la.-
     
continua na página 59...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Logo que Albertine saiu)

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Marcel Proust - A Prisioneira (Mas é claro que não lhe desejava)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Mas é claro que não lhe desejava nenhum mal. Mas que bom seria se, com seus cavalos, ela tivesse a boa ideia de partir não sei para onde, onde se sentisse feliz, e de nunca mais voltar para a minha casa! Como tudo se simplificaria se ela fosse viver feliz algures, e nem mesmo me importava saber onde!

- Oh, sei muito bem que você não sobreviveria quarenta e oito horas, acabaria se matando!

     Assim, trocávamos palavras mentirosas. Mas uma verdade mais profunda do que essa que proferiríamos se fôssemos sinceros pode às vezes ser expressa e prenunciada por outro meio que o da sinceridade.

- Esses barulhos todos na rua não o incomodam? - perguntou ela-; pois eu os adoro. Mas você que tem o sono tão leve?-

     Ao contrário, eu o tinha às vezes bem profundo (como já disse, mas como o episódio que se segue me obriga a recordá-lo) e sobretudo quando só adormecia pela manhã. Como tal sono foi em média quatro vezes mais repousante, parece ter sido quatro vezes mais longo àquele que dormiu, quando de fato foi quatro vezes mais curto. Magnífico erro de uma multiplicação por dezesseis que confere tanta beleza ao despertar e na vida introduz uma verdadeira inovação, semelhante àquelas grandes mudanças de ritmo que, na música, fazem com que uma colcheia, no andante, tenha a mesma duração que uma mínima num prestíssimo, e que são desconhecidas no estado de vigília. A vida aí é quase sempre a mesma, de onde as decepções da viagem. No entanto, bem parece que o sonho é feito às vezes da matéria mais grosseira da vida, mas tal matéria aí é tratada, amassada de tal modo, com um alongamento devido a que nenhum dos limites horários do estado de vigília a impede de desprender-se a tão enormes alturas, que ninguém mais a reconhece. Nas manhãs em que esta boa sorte me ocorria, em que a esponja do sono apagara do meu cérebro os sinais das ocupações diárias que nele são traçadas como num quadro-negro, eu precisava fazer reviver a minha memória; à força de vontade, pode-se reaver o que a amnésia do sono ou de um ataque fez olvidar e que renasce aos poucos, à medida que os olhos se abrem ou que a paralisia desaparece. Eu vivera tantas horas em alguns minutos que, desejando falar a Françoise, a quem chamara, numa linguagem conforme a realidade e de acordo com a hora, era obrigado a empregar todo o meu poder interno de compreensão para não dizer: "Ora, Françoise, já são cinco horas da tarde e não vejo você desde ontem à tarde." E para repelir os meus sonhos, em contradição com eles, mentindo para mim mesmo, eu dizia atrevidamente, e reduzindo-me com todas as minhas forças ao silêncio, palavras opostas:

- Françoise, já são dez horas! - 

     Eu nem dizia dez horas da manhã, mas simplesmente dez horas, para que essas dez horas, tão incríveis, dessem a impressão de ser pronunciadas no tom mais natural. Todavia, dizer essas palavras em vez daquelas que continuava a pensar, mal desperto, o dormidor que eu era ainda, exigia o mesmo esforço de equilíbrio que a alguém que, saltando de um trem em movimento e correndo por um instante ao longo da linha, consegue entretanto não cair. Corre por um instante porque o meio que abandona é um meio animado de grande velocidade, e muito diverso do solo inerte ao qual seus pés têm alguma dificuldade de se adaptar. Pelo fato de que o mundo do sono não é o mundo da vigília, daí não se segue que o mundo da vigília seja menos verdadeiro, pelo contrário. No mundo do sono as nossas percepções são de tal forma sobrecarregadas, cada qual engrossada por outra, superposta, que a reduplica e inutilmente a deixa cega, que nem sequer sabemos distinguir o que se passa no aturdimento do despertar; Françoise é quem viera ou fora eu que, cansado de chamá-la, tinha ido ao seu encontro? O silêncio naquele instante era o único meio de nada revelar, como no momento em que somos presos por um juiz instruído de circunstâncias que nos dizem respeito, mas das quais não temos conhecimento. Viera Françoise ou fora eu quem a chamara? Talvez Françoise é que dormia e eu a tinha despertado. Ainda mais, não estaria Françoise encerrada no meu peito, e a distinção das pessoas e sua interação existindo apenas nessa parda escuridão em que a realidade é tão pouco translúcida como no corpo de um porco-espinho, e onde a percepção quase nula talvez possa dar a ideia da de certos animais? Além disso, mesmo na límpida loucura que antecede esses sonos mais pesados, flutuam-se luminosamente alguns fragmentos de sabedoria, se os nomes de Taine e de George Eliot ali não são ignorados, nem por isso resta menos, para o mundo da vigília, aquela superioridade de ser possível continuar a cada manhã, o que não sucede a cada noite com o sonho. Mas talvez haja outros mundos mais reais que o da vigília. Aliás, temos visto que mesmo este é transformado a cada revolução nas artes, e muito mais, ao mesmo tempo, pelo grau de aptidão ou de cultura que diferencia um artista de um tolo ignorante.
     E muitas vezes uma hora de sono a mais é um ataque de paralisia após o qual é preciso reencontrar o uso dos membros, reaprender a falar. A vontade não o conseguiria.
     Dormiu-se demais, não se é mais. O despertar é apenas sentido mecanicamente e sem consciência, como o pode ser num tubo o fechamento de uma torneira. Sucede-se uma vida mais inanimada que a da medusa, na qual bem que se poderia imaginar que se está sendo retirado do fundo do mar ou voltando do banho, caso fosse possível pensar alguma coisa. Mas então, do alto dos céus, a deusa Mnemotecnia se inclina e nos confere, sob a forma "hábito de pedir o café com leite", a esperança da ressurreição. 

[Mnemotecnia: arte e técnica de desenvolver a memória. Aqui o termo é empregado em vez do nome da deusa da memória entre os gregos, Mnemósine. (N. do T)]

     E mesmo o dom súbito da memória nem sempre é tão simples. Temos muitas vezes junto a nós, nesses primeiros minutos em que nos deixamos deslizar para fora do sono, uma gama de realidades diversas onde julgamos poder escolher como num jogo de cartas. É manhã de sexta-feira e voltamos do passeio, ou então é a hora do chá à beira-mar.
     A ideia do sono e de que estamos deitados de camisola é muitas vezes a última que se nos apresenta. A ressurreição não chega de imediato, pensamos ter tocado a campainha e não o fizemos, agitamos palavras loucas no cérebro. Só o movimento é que nos devolve o raciocínio e, quando efetivamente tocamos a campainha, podemos dizer devagar mas com nitidez:

- Já são dez horas. Françoise, traga-me o café com leite.

     Ó milagre! Françoise não pudera imaginar o oceano de irrealidade que ainda me banhava todo e através do qual eu tivera a energia de fazer passar minha estranha pergunta. De fato, ela me respondeu:

- São dez e dez - o que me dava uma aparência razoável e me permitia não deixar perceber as conversas esquisitas que me haviam acalentado interminavelmente, nos dias em que não fora uma montanha do Nada que me cancelara a vida. A força de vontade eu me reintegrara no real. Desfrutava ainda dos destroços do sono, ou seja, da única invenção, do único renovo que existe no modo de contar, não comportando todas as narrativas em estado de vigília, ainda que embelezadas pela literatura, essas misteriosas diferenças de onde deriva a beleza. É fácil falar da que o ópio originou. Mas, para um homem habituado a só dormir sob o efeito de drogas, uma hora inesperada de sono natural desvendará a imensidão matinal de uma paisagem tão misteriosa e de maior frescura. Fazendo variar a hora, o local onde se adormece, provocando o sono de modo artificial, ou, pelo contrário, retornando por um dia ao sono natural o mais estranho de todos para qualquer pessoa que tenha o hábito de dormir tomando soporíferos-, chega-se a obter variedades de sono mil vezes mais numerosas do que as variedades de cravos e de rosas que obteríamos se fôssemos jardineiros. Estes obtêm flores que são deliciosos sonhos e outras também que se parecem a pesadelos. Quando eu adormecia de certo modo, despertava tiritando, julgando estar com sarampo ou, coisa bem mais dolorosa, que minha avó (em quem já nunca pensava) sofria porque eu zombara dela no dia em que, em Balbec, acreditando que ia morrer, ela quisera que eu tivesse uma fotografia sua. E depressa, apesar de acordado, queria explicar-lhe que ela não me havia compreendido. Porém já me reaquecia. O diagnóstico de sarampo estava afastado e minha avó se distanciava de mim a tal ponto que não mais fazia doer meu coração.
     Por vezes, abatia-se uma súbita escuridão sobre esses diferentes sonos. Eu sentia medo ao prolongar o meu passeio numa avenida completamente às escuras, onde ouvia passarem os vagabundos. De repente, erguia-se uma discussão entre um policial e uma dessas mulheres que muitas vezes exerciam a profissão de cocheiro e que, de longe, tomamos por um rapaz. Na sua boleia cercada de trevas eu não a enxergava, mas ela me falava e na sua voz eu lia as perfeições do seu rosto e a juventude do seu corpo. Caminhava na sua direção, dentro do negror, para subir no seu cupê antes que ela fosse embora. Estava longe. Felizmente, a discussão com o guarda se prolongava.
     Alcançava o carro, ainda parado. Este pedaço da avenida era iluminado por lampiões. A pessoa na boleia tornava-se visível. Era mesmo uma mulher, porém velha, alta e corpulenta, com cabelos brancos que lhe fugiam por debaixo do boné, e uma lepra vermelha no rosto. Afastava-me pensando: "É isso o que acontece com a mocidade das mulheres? Aquelas que encontramos, se de repente desejamos revê-las, tornam-se velhas? A jovem que desejamos será como um emprego de teatro, em que, pela decadência das criadoras de um papel, somos obrigados a confiá-lo a novas estrelas? Mas então já não é a mesma."
     Depois uma tristeza me invadia. Assim, temos em nosso sono numerosas Piedades, como as Pietà do Renascimento, mas não como elas executadas no mármore, mas pelo contrário, inconsistentes. Todavia, elas têm a sua utilidade, que é a de nos lembrar um certo ponto de vista mais enternecido e mais humano das coisas, que somos por demais tentados a esquecer no bom senso gelado da vigília, por vezes cheio de hostilidade. Assim me foi lembrada a promessa, que eu me fizera em Balbec, de sempre ser compassivo para com Françoise. E, ao menos durante toda aquela manhã, eu saberia me esforçar para não irritar-me com as rixas de Françoise e do mordomo, ser carinhoso com Françoise, a quem os outros tratavam com tão pouca bondade.
     Somente naquela manhã; e precisaria tentar estabelecer para mim um código mais estável; pois, assim como os povos não são governados durante muito tempo por uma política de puro sentimento, os homens não o são pela recordação de seus sonhos. Este já principiava a evolar-se. Buscando lembrá-lo para o descrever, fazia-o fugir ainda mais depressa. Minhas pálpebras já não estavam seladas com tanta força sobre meus olhos. Se tentava reconstituir meu sonho, elas se abririam totalmente. A todo instante é preciso escolher entre a saúde e a lucidez, de um lado, e os prazeres espirituais, de outro. Sempre tive a covardia de escolher a primeira. Aliás, o perigoso poder ao qual eu renunciava era-o ainda mais do que imaginamos. As Piedades e os sonhos não se dissipam sozinhos. Variando assim as condições em que adormecemos, não são apenas os sonhos que se dissipam, mas durante muitos dias, anos às vezes, a faculdade não só de sonhar mas de adormecer. O sono é divino, mas pouco estável; o mais leve choque deixa-o volátil. Amigo dos hábitos, estes o retêm cada noite, mais fixos do que ele, em seu lugar consagrado, preservam-no de todo choque. Mas, se o mudarmos de lugar, se não o mantivermos submisso, ele se desfaz como um vapor. Assemelha-se à juventude e aos amores, não o encontraremos mais.
     Nestes sonos diversos, ainda como na música, era o aumento ou a diminuição do intervalo que criava a beleza. Eu desfrutava dela, mas, em compensação, tinha perdido naquele sono, conquanto breve, uma boa parte dos pregões em que se nos torna sensível a vida circulante dos ofícios e dos alimentos de Paris. Assim, de hábito (sem prever, infelizmente, o drama que tais despertares tardios e minhas leis draconianas e persas de Assuero raciniano deviam em breve me acarretar), eu me esforçava por acordar cedo a fim de não perder coisa alguma daqueles pregões.
     Além da satisfação de conhecer o gosto de Albertine por eles e de sair de casa sem me erguer da cama, ouvia neles como o que o símbolo da atmosfera exterior, da perigosa vida turbulenta em cujo seio não a deixava circular sem minha tutela, num prolongamento exterior do sequestro, e de onde a retirava à hora que quisesse a fim de fazê-la voltar para junto de mim.
     Portanto, foi com a maior sinceridade do mundo que pude responder a Albertine:

- Pelo contrário, eles me agradam porque sei que você gosta deles. 
'Olha as ostras fresquinhas!' 
- Oh, as ostras! Tenho tanta vontade de comê-las! -

     Felizmente Albertine, meio inconstância, meio docilidade, esquecia depressa o que desejara e, antes que eu tivesse tempo de dizer que ela encontraria melhores ostras na casa Prunier, ela queria sucessivamente tudo o que ouvia ser apregoado pela vendedora de peixes: "Olha os camarões, os bons camarões, olha a arraia viva, vivinha!" - "Pescadas para fritar, para fritar!" - "Está chegando a cavala, cavala nova, cavala fresquinha!"-"Chegou a cavala, senhoras, é boa a cavala" - "Olha os mexilhões, bons e fresquinhos, os mexilhões!" - Contra a minha vontade, o pregão: "Está chegando a cavala" me fazia estremecer. Mas, como tais palavras não podiam aplicar-se ao nosso motorista," eu só pensei no peixe que detestava e minha inquietação logo se dissipou. 

- Ah, os mexilhões - disse Albertine -, gostaria tanto de comer os mexilhões. 
- Minha querida, isso era bom em Balbec, aqui não presta; peço que se lembre do que lhe disse Cottard a respeito dos mexilhões. -

     Porém a minha observação era tanto mais desastrada, pois a vendedora seguinte anunciava algo que Cottard proibia ainda mais: Alface romana, a boa alface! Não se vende, dá-se!
     Todavia Albertine consentiu-me o sacrifício da alface romana, contanto que lhe prometesse mandar comprar dali a uns dias à vendedora que apregoa: "Olha o belo aspargo de Argenteuil, olha o belo aspargo!" Uma voz misteriosa, e da qual seria de esperar as frases mais estranhas, insinuava: "Tonéis, tonéis!" Éramos obrigados a sentir a decepção de que se tratava apenas de tonéis, pois essa palavra era quase inteiramente abafada pelo pregão: "Vidrá, vidraceiro, vidraças quebradas, aqui está o vidrá, vidraceiro!", divisão gregoriana que, entretanto, lembrou-me menos a liturgia do que o fizera o grito do vendedor de roupas velhas, que reproduzia, sem o saber, uma dessas bruscas interrupções de sonoridades, no meio de uma prece, tão frequentes no ritual da Igreja: Praeceptis salutaribus moniti et divina institutione fomarti audemus dicere - ["Do latim: "Instruídos em seus preceitos salvadores e formados pelo seu ensinamento divino, ousamos dizer..." Fórmula ritual que na missa precede o Paternoster ('Padre-nosso') (N. do T)] - diz o padre, concluindo vivamente no dicere. Sem irreverência, como o piedoso povo da Idade Média, na própria igreja, representava as farsas e as soties, é nesse dicere que faz pensar o vendedor de roupas velhas, quando, depois de arrastar a voz por todas as palavras, diz a última sílaba com uma precipitação digna do acento regulado pelo grande papa do século VII: [" Papa Gregório I Magno (590-604). Deu ao ritual da missa a forma que se mantém até hoje. (N. do T)] : "Trapos, ferro-velho pra vender!" (tudo isto salmodiado lentamente, bem como as duas sílabas seguintes, ao passo que a última acaba mais vivamente que dicere), "peles de coê-lhos." - "Olha a laranja fresquinha, a Valência, a boa laranja de Valência!", os próprios alhos-porros modestos: "Olha os bonitos alhos-porros", as cebolas: "Oito tostões a minha cebola!", ressoavam para mim como um eco das vagas onde, livre, Albertine poderia perder-se, assumindo desse modo a doçura de um suave mari magno." "Olha as cenouras! só dois vinténs o molho!" 

- Oh! - exclamou Albertine-, couves, cenouras, laranjas. Só coisas que tenho vontade de comer. Mande Françoise comprá-las. Ela fará cenouras com creme. E além do mais, será muito bom comer tudo isso junto. Serão todos os ruídos que ouvimos transformados numa boa refeição. Oh, peço-lhe, diga a Françoise para preparar de preferência uma arraia frita na manteiga queimada. É tão gostoso! 
- Meu benzinho, está combinado. Não demore mais, senão vai querer tudo o que essas mulheres estão vendendo. 
- Está feito, vou indo, mas de agora em diante só quero para os nossos jantares as coisas que tivermos ouvido apregoar. É bem divertido. E dizer que precisamos ainda esperar dois meses para ouvir: "Ervilhas macias, ervilhas, olha a ervilha!". Como fica bem dizer "ervilhas macias"! Sabe que gosto delas finas, bem fininhas, escorrendo molho de vinagre, nem se diria que as estamos comendo, macias como o orvalho. Ai de mim! É o caso dos requeijõezinhos, estão mais longe ainda: "Olha o requeijão fresquinho, o requeijão!", e as uvas brancas de Fontainebleau: "Tenho belas uvas brancas." - E eu pensava com pavor em todo aquele tempo que teria de ficar com ela até à época das uvas brancas. - Escute, estava dizendo que só queria as coisas que tivermos ouvido apregoar, mas é claro que faço algumas exceções. De modo que não será impossível que você passe no Rebattet para encomendar sorvete para nós dois. Você vai dizer que ainda não é tempo, mas tenho tanta vontade! -

     Fui agitado pelo projeto sobre Rebattet, tornado mais certo e suspeito para mim devido a estas palavras: "Não será impossível." Era no dia em que os Verdurin recebiam e, desde que Swann lhes dissera que era a melhor casa, era no Rebattet que eles encomendavam sorvetes e bolinhos. 

- Não faço qualquer objeção a um sorvete, minha querida Albertine, mas deixe-o por minha conta, não sei mesmo se o encomendarei no Poiré-Blanche, no Rebattet, no Ritz, enfim, vou ver. 
- Então vai sair? - perguntou Albertine com ar desconfiado. Sempre dizia que ficaria encantada se eu saísse mais, mas se uma palavra minha podia deixar supor que eu não ficaria em casa, seu ar inquieto fazia pensar que a satisfação que ela teria em me ver sair com frequência talvez não fosse sincera. 
- Talvez saia, talvez não, você sabe perfeitamente que nunca faço projetos antecipados. Em todo caso, os sorvetes não são coisa que se apregoe, que se venda pelas ruas; por que você os deseja então? - E aí ela me respondeu com estas palavras que me provaram o quanto, de fato, a inteligência e o gosto latente se haviam bruscamente desenvolvido nela desde Balbec, com estas palavras do tipo daquelas que ela pretendia serem devidas unicamente à minha influência, à constante coabitação comigo, palavras que no entanto eu jamais teria dito, como se me tivesse sido feita alguma proibição, por um desconhecido, de empregar na conversa formas literárias. Talvez o futuro não devesse ser o mesmo para Albertine e para mim. Tive quase o pressentimento disso, ao vê-la apressar-se a empregar, falando, imagens tão escritas e que me pareciam reservadas para outro uso mais sagrado e que eu ainda ignorava. Ela me disse (e apesar de tudo fiquei profundamente enternecido, pois pensei: "Com certeza não falaria desse modo, sofreu profundamente a minha influência, portanto ela não pode me amar, é obra minha"): 
- O que eu amo nessas comidas apregoadas é uma coisa ouvida, como uma rapsódia, muda de natureza às refeições, e se dirige ao meu paladar. Quanto aos sorvetes (pois espero que você os encomende naquelas formas fora de moda que têm todas as configurações possíveis de arquitetura), todas as vezes que os tomo, templos, igrejas, obeliscos, rochedos, é como uma geografia pitoresca que olho primeiro e, a seguir, converto seus monumentos de framboesa ou de baunilha em frescor na minha garganta. -

     Eu achava que aquilo era um tanto bem enunciado demais, porém ela sentiu que eu achava que estava bem dito e continuou, parando por um momento quando obtinha uma comparação feliz, para rir com seu belo riso que me parecia tão cruel por ser tão voluptuoso: 

- Meu Deus, no hotel Ritz receio muito que você encontre colunas Vendôme de sorvetes, sorvete de chocolate ou de framboesa, e então será preciso vários para que se pareçam à colunas votivas ou pilares erguidos numa alameda à glória do Frescor. Fazem também obeliscos de framboesa que se levantarão de sítio em sítio no deserto ardente de minha sede e cujo granito róseo irei derreter no fundo da garganta e que eles irão desalterar melhor do que os oásis (e aqui estalou o riso profundo, fosse pela satisfação de falar bem, fosse por zombaria consigo mesma por expressar-se em imagens tão continuadas, fosse, ai de mim, pela volúpia física de sentir em si própria algo de tão bom, tão viçoso, que lhe causava o equivalente de um orgasmo). Esses picos de sorvete do Ritz lembram às vezes o monte Rose, e até, se o sorvete é de limão, não desgosto que não tenha forma monumental, que seja irregular, abrupto, como uma montanha de Elstir. Então, não é necessário que seja muito branco, mas um tanto amarelado, com aquele aspecto de neve suja e embaçada das montanhas de Elstir. O sorvete pode não ser grande, ser meio sorvete apenas, se quiser; mesmo assim, esses sorvetes de limão são montanhas reduzidas a uma escala bem pequena, mas a imaginação restabelece as proporções como no caso daquelas arvorezinhas japonesas anãs que se percebe muito bem serem cedros, carvalhos, mancenilhas, de modo que, pondo algumas delas ao longo de um pequeno sulco no meu quarto, eu teria uma imensa floresta descendo para um rio e onde as criancinhas poderiam perder-se. Da mesma forma, junto ao meu sorvete amarelado de limão, vejo perfeitamente postilhões, viajantes, seges de posta, sobre os quais a minha língua se encarrega de fazer desabar glaciais avalanches que os engolirão (a cruel volúpia com que ela falou isto excitou o meu ciúme); da mesma forma - acrescentou ela - encarrego-me de destruir com meus lábios, coluna por coluna, essas igrejas venezianas de um pórfiro que é morango, e de fazer cair sobre os fiéis o que eu tiver poupado. Sim, todos esses monumentos hão de passar de sua praça de pedra para o meu peito, onde já palpita o seu frescor que se derrete. Mas, olhe, mesmo sorvetes, nada é tão excitante nem dá sede como os anúncios de fontes termais. Em Montjouvain, na casa da Srta. Vinteuil, não existia um bom sorveteiro nas redondezas, mas nós fazíamos no jardim a nossa excursão pela França, bebendo a cada dia uma água mineral gasosa e diferente, como a água de Vichy, que, ao ser servida, levanta logo das profundezas do copo uma nuvem branca, que se abranda e se dissipa se não bebemos depressa. -

     Mas ouvir falar de Montjouvain era penoso demais para mim, de modo que a interrompia. 

- Estou sendo aborrecida, adeus querido. 

     Que mudança desde Balbec, onde duvido que o próprio Elstir pudesse ter adivinhado essas riquezas de poesia em Albertine. De uma poesia menos estranha, menos pessoal que a de Céleste Albaret, por exemplo, que ainda na véspera viera visitar-me e, encontrando-me deitado, exclamara: 

- Ó majestade do céu deposta numa cama! 
- Por que do céu, Céleste?
- Oh, porque o senhor não se parece com ninguém, está enganado se julga ter algo desses que viajam sobre essa nossa terra vil. 
- Em todo caso, por que "deposto"?
- Porque o senhor nada tem de um homem deitado, o senhor não está na cama, não se move, os anjos é que parecem ter descido para depô-lo aí. 

     Albertine jamais teria tido esse achado, mas o amor, mesmo quando parece a ponto de acabar, é parcial. Eu preferia a "geografia pitoresca" dos sorvetes, cuja graça excessivamente fácil me parecia um motivo para amar Albertine e uma prova de que eu tinha poder sobre ela, que ela me amava.


continua na página 54...
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