segunda-feira, 29 de junho de 2026

Augusto dos Anjos - Agonia de um filósofo

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


Agonia de um filósofo

Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto 
Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo... 
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo 
Com a eólica fúria do harmatã inquieto! 

Assisto agora à morte de um inseto!...
Ah! todos os fenômenos do solo 
Parecem realizar de polo a polo 
O ideal do Anaximandro de Mileto!

No hierático areópago heterogêneo 
Das ideias, percorro como um gênio 
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!... 

Rasgo dos mundos o velário espesso; 
E em tudo igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!


O Morcego

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.  
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede, 
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.  

“Vou mandar levantar outra parede...” 
 Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho 
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho, 
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego 
A tocá-lo. Minh’alma se concentra. 
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego! 
Por mais que a gente faça, à noite ele entra 
Imperceptivelmente em nosso quarto!

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Leia também:
Monologo de uma sombra / Agonia de um filósofo /   
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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.

Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

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