quinta-feira, 16 de julho de 2026

Augusto dos Anjos - Soneto

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


Soneto
Ao meu primeiro filho nascido 
 morto com 7 mezes incompletos. 
 2 Fevereiro 1911, 

Aggregado infeliz de sangue e cal, 
Fructo rubro de carne agonisante, 
Filho da grande força fecundante 
De minha bronzea trama neuronial,

Que poder embryológico fatal 
Destruiu, com a synergia de um gigante, 
Em tua morphogénese de infante 
A minha morphogénese ancestral?!  

Porção de minha plásmica substancia, 
Em que logar irás passar a infância, 
Tragicamente anonymo, a feder?! 

Ah! Possas tu dormir, feto esquecido, 
Pantheisticamente dissolvido 
Na noumenalidade do NÃO SER!


Versos a um Ção 

Que força poude, adstricta a embryões informes, 
Tua garganta estúpida arrancar 
Do segredo da céllula ovular 
Para latir nas solidões enormes?! 

Esta obnoxia inconsciencia, em que tu dormes, 
Sufficientissima é, para provar 
A incógnita alma, avoenga e elementar 
Dos teus antepassados vermiformes.

Cão ! —Alma de inferior rhapsôdo errante! 
Resigna-a, ampara-a, arrima-a, affaga-a, acóde-a 
A escala dos latidos ancestraes. 

E irá assim, pelos séculos, adiante, 
Latindo a exquisitissima prosódia 
Da angustia hereditária dos seus pães!  

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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

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