sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Augusto dos Anjos - As Scismas do Destino II

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


As Scismas do Destino

 II

Foi no horror dessa noute tão funerea 
Que eu descobri, maior talvez que Vinci, 
Com a força visualistica do lynce, 
A falta de unidade na matéria! 

Os esqueletos desarticulados, 
Livres do acre fedor das carnes mortas, 
Rodopiavam, com as brancas tibias tortas, 
N'uma dança de números quebrados!

Todas as divindades malfazejas, 
Siva e Ahriman, os duendes, o Yn e os trasgos, 
Imitando o barulho dos engasgos, 
Davam pancadas no adro das igrejas.  

Nessa hora de monólogos sublimes, 
A companhia dos ladrões da noite, 
Buscando uma taverna que os açoite, 
Vae pela escuridão pensando crimes.

Perpetravam-se os actos mais funestos, 
E o luar, da côr de um doente de ictericia, 
Illuminava, a rir, sem pudicicia, 
A camisa vermelha dos incestos. 

Ninguém, de certo, estava ali, a espiar-me, 
Mas um lampeão, lembrava ante o meu rosto, 
Um suggestionador olho, ali posto 
De propósito, para hypnotisar-me ! 

Em tudo, então, meus olhos distinguiram 
Da miniatura singular de uma aspa, 
A' anatomia minima da caspa, 
Embryões de mundos que não progrediram! 

Pois quem não vê ahi, em qualquer rua, 
Com a fina nitidez de um claro jorro, 
Na paciência budhista do cachorro 
A alma embryonaria que não continua?! 

Ser cachorro! Ganir incomprehendidos 
Verbos! Querer dizer-nos que não finge, 
E a palavra embrulhar-se no larynge, 
Escapando-se apenas em latidos!

Despir a putrescivel fôrma tosca, 
Na atra dissolução que tudo inverte, 
Deixar cahir sobre a barriga inerte 
O appetite necróphago da mosca!

A alma dos animaes! Pégo-a, distingo-a, 
Acho-a nesse interior duello secreto 
Entre a anciã de um vocábulo completo 
E uma expressão que não chegou á lingua!   

Surprehendo-a em quatrilliões de corpos vivos, 
Nos anti-peristálticos abalos 
Que produzem nos bois e nos cavallos 
A contracção dos gritos instinctivos! 

Tempo viria, em que, daquelle horrendo 
Cháos de corpos orgânicos disformes. 
Rebentariam cérebros enormes,
Como bolhas febris de água, fervendo! 

Nessa épocha que os sábios não ensinam, 
A pedra dura, os montes argillosos 
Creariam feixes de cordões nervosos 
E o neuroplasmados que raciocinam!

Almas pygméas ! Deus subjuga-as, cinge-as 
A' imperfeição ! Mas vem o Tempo, e vence-O, 
 E o meu sonho crescia no silencio, 
Maior que a epopéas carolingias!

Era a revolta trágica dos typos 
Ontogénicos mais elementares, 
Desde os foraminiferos dos mares 
A' grey lilliputiana dos polypos. 

Todos os personagens da tragédia, 
Cansados de viver na paz de Budha, 
Pareciam pedir com a bocca muda 
A ganglionaria céllula intermédia.

A planta que a canicula ignea torra, 
E as coisas inorgânicas mais nulIas 
Apregoavam encéphalos. medullas 
Na alegria guerreira da desforra! 

Os protistas e o obscuro acervo rijo 
Dos espongiarios e dos infusorios 
Recebiam com os seus órgãos sensorios 
O triumpho emocional do regozijo! 

E apezar de já ser assim tão tarde, 
Aquella humanidade parasita, 
Como um bicho inferior, berrava, afflicta, 
No meu temperamento de covarde! 

Mas, reflectindo, a sós, sobre o meu caso, 
Vi que, igual a um amneota subterrâneo, 
Jazia atravessada no meu cráneo 
A intercessão fatídica do atrazo! 

A hypothese genial do microzyma 
Me estrangulava o pensamento guapo, 
E eu me encolhia todo como um sapo 
Que tem um pezo incómmodo por cima! 

Nas agonias do delirium-tremens, 
Os bebedos alvares que me olhavam, 
Com os copos cheios esterilisavam 
A substancia prolífica dos semens! 

Enterravam-as mãos dentro das guélas, 
E sacudidos de um tremor indómito 
Expelliam, na dor forte do vomito, 
Um conjuncto de gosmas amarellas.  

Iam depois dormir nos lupanares 
Onde, na gloria da concupiscencia, 
Depositavam quasi sem consciência  
As derradeiras forças musculares. 

Fabricavam dest'arte os blastodermas, 
Em cujo repugnante receptáculo 
Minha perscrutação via o espectaculo 
De uma progénie idiota de palermas.

Prostituição ou outro qualquer nome, 
Por tua causa, embora o homem te ácceite, 
E' que as mulheres ruins ficam sem leite 
E os meninos sem pae morrem de fome! 

Porque ha de haver aqui tantos enterros?! 
Lá no «Engenho» também, a morte é ingrata. 
Ha o malvado carbúnculo que mata 
A sociedade infante dos bezerros! 

Quantas moças que o túmulo reclama!
E após a podridão de tantas moças, 
Os porcos espojando-se nas poças 
Da virgindade reduzida á lama! 

Morte, ponto final da ultima scéna, 
Fôrma diffusa da matéria imbelle, 
Minha philosophia te repelle, 
Meu raciocínio enorme te condemna!

Deante de ti, nas cathedraes mais ricas, 
Rolam sem efficacia os amuletos
Oh! Senhora dos nossos esqueletos 
E das caveiras diárias que fabricas!  

E eu desejava ter, numa anciã rara, 
Ao pensar nas pessoas que perdera, 
A inconsciencia das máscaras de cera 
Que a gente prega, com um cordão, na cara!  

Era um sonho ladrão de submergir-me 
Na vida universal, e, em tudo immérso, 
Fazer da parte abstracta do Universo, 
Minha morada equilibrada e firme! 

Nisto, peor que o remorso do assassino, 
Reboou, tal qual, num fundo de caverna, 
Numa impressionadora voz interna, 
O echo particular do meu Destino: 

Continua na página 35...
_________________________

Leia também:
  O Deus-Verme / As Scismas do Destino I /  As Scismas do Destino II /  
__________________________

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

Nenhum comentário:

Postar um comentário