sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Poesias Lyricas (Meu segredo)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Poesias Lyricas

MEU SEGREDO 
 Á SENHORA D. *** 

I

Eu tenho dentro d'alma o meu segredo 
 Guardado como a pérola do mar, 
 Occulto ao mundo como a flor silvestre 
 Escondida no valle a vicejar.

Eu guardo-o no meu peito... E' meu thesouro, 
 Meu único thesouro desta vida, 
 — Sonho de phantasia — flor ephemera, 
 Uma nuvem, talvez, no céo perdida... 

Mas que importa ? E' uma crença de minh'alma 
 — Gotta do orvalho d'alva da existência, 
 Ultima flor, que vive aos raios mornos 
 Do sol de amor na quadra da innocencia. 

Só,, quando a terra dorme solitária 
 E ergue-se á meia noite, branca, a lua, 
 E a brisa geme cantos de tristeza 
 Na rama do pinheiro que fluctúa;  

E quando o orvalho pende do arvoredo, 
 Que se debruça p'ra beijar o rio, 
 E as estrellas no céo scintillam languidas 
 — Pérolas soltas de um collar sem fio;

Então eu vou sentar-me sobre a relva, 
 Eu vou sonhar meus sonhos ao relento, 
 E só conto o segredo de minh'alma 
 Das horas mortas ao tristonho vento.

II

Eu sei como este mundo ri de escarneo, 
 Deste aéreo sonhar da phantasia. 
 Eu sei... P'ra cada crença de noss'alma, 
 Elle tem uma phrase de ironia... 
 Ah! deixai-me guardar o meu segredo! 
 Deste riso cruel eu tenho medo... 

Meu segredo? E' o canto de poesia 
 Que suspirou saudoso o gondoleiro, 
 Que vae morrer gemente sobre as praias; 
 — Da despedida pranto derradeiro, 
 Mais aéreo que as vozes da sereia, 
 Alta noite sentada sobre a areia. 

Meu segredo? E' o soluço d'alma triste 
 Que conta sua dor á brisa errante; 
 E' o pulsar tresloucado de meu peito 
 A repetir um nome delirante; 
 Indeciso anhelar de edeneo gozo, 
 Castello que eu creei vertiginoso.  

Creei-o numa noite não dormida, 
 Após vel-a entre todas — a rainha; 
 Creei-o nestas horas de delírio, 
 Em que sentira em fogo a fronte minha 
 E o sangue galopava-me nas veias, 
 E o cérebro doia-me de idéas... 

E quem na vida não amara um dia? 
 E nunca despertara ao som de um beijo? 
 Quem nunca na vigília empallecera, 
 Ao seguir com o pensar louco desejo? 
 Quem não sonhara ao collo voluptuoso 
 Da sultana louça morrer de gozo ?

Uma noite tentei fechar as palpebras, 
 Debalde revolvi-me sobre o leito... 
 A alma adejava em phantasias d'ouro, 
 Arfava ardente o coração no peito. 
 A imagem que eu seguia? E' meu segredo! 
 Seu nome? Não o digo... tenho medo. 

Ai! dóe muito calar dentro em noss'alma 
 Este anhelar fremente de desejos! 
 Ai! dóe muito calar o roseo sonho 
 Que sonhamos: — dormir entre mil beijos 
 Num seio que de amor todo estremece, 
 Quando o olhar de volupias esmorece... 

Dóe muito., mas dóe mais uma ironia, 
 Quando adeja o pensar no firmamento. 
 Dóe muito... mas dóe mais um desengano, 
 Quando se vive só de um sentimento, 
 Quando o peito cifrou sua esperança 
 Em beijar da mulher a negra trança. 

Que loucura! Aos teus languidos olhares, 
 Beber, louco de amor, seiva de vida... 
 Sorver perfume em teus cabellos negros, 
 Sentir a alma de si mesma esquecida... 
 E, de gozo de amar louco, sedento, 
 Viver a eternidade num momento! 

Que ventura! Sorver co'os lábios trêmulos 
 Em teus lábios — de amor o nome santo... 
 Que ventura! Fitar-te os negros olhos 
 Desmaiados de amor e de quebranto... 
 E, reclinada a fronte no teu seio, 
 Sentir languido arfar em doce enleio... 

Mas que louco sonhar... O' minha amante, 
 Que nunca nos meus braços desmaiaste, 
 Que nem sequer de amor uma palavra 
 Dos meus lábios em fogo inda escutaste, 
 Perdoa este sonhar vertiginoso! 
 Foi um sonho do peito deliroso! 

E, se um dia, entre as scismas de tu'alma, 
 Minha imagem passar um só momento, 
 Fita meus olhos, vê como elles falam 
 Do amor que eu te votei no esquecimento: 
 Recorda-te do moço que em segredo 
 Fez-te a fada gentil de um sonho ledo... 

Recorda-te do pobre que em silencio 
 De ti fez o seu anjo de poesia, 
 Que tresnoita scismando em tuas graças, 
 Que por ti, só por ti, é que vivia, 
 Que tremia aó roçar de teu vestido, 
 E que por ti de amor era perdido...

Sagra ao menos uma hora em tua vida 
 Ao pobre que sagrou-te a vida inteira, 
 Que em teus olhos, febril e delirante, 
 Bebeu de amor a inspiração primeira, 
 Mas que de um desengano teve medo, 
 E guardou dentro d'alma o seu segredo! 

Recife, Junho de 1863. 

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     Cf. com a primeira publicação em livro, na "5* 
 (VI) Edição das Espumas Fluctuantes, de Seraphim 
 José Alves, Rio de Janeiro (1881), "appendice": I. 
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continua página 64...
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Posias Lyricas
Meu segredo /  
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921

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