EU
Á MEMORIA DE MEU PAE
Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos
Budhismo Moderno
Tome, Dr., esta tesoura, e. córte
Minha singularissima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia rôa
Todo o meu coração, depois da morte?!
Ah ! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A cryptógama cápsula se esbrôa
Ao contacto de bronca dextra forte!
Dissolva-se, portanto, minha vida
Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma céllula cahida
Na aberração de um óvulo infecundo;
Mas o aggregado abstracto das saudades
Mas o aggregado abstracto das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do ultimo verso que eu fizer no mundo!
Sonho de um Monista
Eu e o esqueleto esquálido de Eschylo
Sonho de um Monista
Eu e o esqueleto esquálido de Eschylo
Viajávamos, com uma anciã sybarita,
Por toda a pro-dynamica infinita,
Na inconsciencia de um zoóphito tranquillo.
A verdade espantosa do Prothylo
A verdade espantosa do Prothylo
Me aterrava, mas dentro da alma afnicta
Via Deus—essa mónada exquisita—
Coordenando e animando tudo aquillo!
E eu bemdizia, com o esqueleto ao lado,
E eu bemdizia, com o esqueleto ao lado,
Na gutturalidade do meu brado,
Alheio ao velho cálculo dos dias,
Como um pagão no altar de Proserpina,
Como um pagão no altar de Proserpina,
A energia intra-cósmica divina
Que é o pai e é a mãe das outras energias!
Solitario
Como um fantasma que se refugia
Solitario
Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por traz dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me á tua porta!
Fazia frio e o frio que fazia
Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta.
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!
Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu sahi, como quem tudo repelle,
— Velho caixão a carregar destroços —
Levando apenas na tumbal carcassa
O pergaminho singular da pelle
E o chocalho fatídico dos ossos!
Continua na página 45...
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Leia também:
Monologo de uma sombra / Agonia de um filósofo / Psicologia de um vencido / O Lázaro da Pátria / Soneto /
O Deus-Verme / As Scismas do Destino I / As Scismas do Destino II / As Scismas do Destino III / As Scismas do Destino IV /
Budhismo Moderno /
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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.
Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações.
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira
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