sábado, 18 de julho de 2026

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro (a)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


O MAIOR POETA BRASILEIRO

     Cincoenta annos volvidos depois da sua morte, como ainda em vida, continua Castro Alves com a sua causa ganhada perante a opinião publica: desta vez, porem, essa opinião é já a Posteridade. 
     No seu tempo, a sua formosa mocidade, aureolada pelo gênio, e a turba vibratil das academias, do Recife a S. Paulo, passando pela Bahia e pelo Rio de Janeiro, a quem de preferencia se dirigia, faziam-no, pelas idéas e sentimentos que elle exprimia nos seus poemas arrebatadores, o guia ou o chefe dessa geração, adornada, entretanto, dos mais fulgurantes e depois consagrados nomes de nossa historia politica e social, nesse meio século transcorrido.  
     Quando elle apparecia, nos saráus literários ou na platéa dos theatros, bello e forte como um jovem heroe, irreprehensivelmente vestido de negro, o que lhe resaltava por contraste a pallidez romântica, saudavam-no applausos calorosos, e, das mulheres, talvez commovidos; depois, o silencio profundo de uma espectativa ansiosa antecedia os accentos mágicos de sua voz harmoniosa e retumbante, "encanto" de um órgão irresistível, "um desses que transfiguram o orador e o poeta"¹, com que recitava algumas das suas mais candentes estrophes, preferidas e reclamadas pela multidão. Depõe um contemporâneo: "O grande Castro Alves ! como diziam todos, na academia, e fora delia", — "toda gente que o ouvia tinha arrepios de assombro e enxergava na esbelta e sympathica pessoa do jovem acadêmico mais um semi-deus do que um poeta, menos um poeta que um vidente"; "o auditório sorria ou chorava, permanecia mudo pela cotnmoção fortíssima ou prorompia em bravos enthusiasticos"². Vinha abaixo o theatro, na phrase consagradora desses successos, sob o clamor das ovações.

[1] "...e fazem pensar no glorioso arauto de Agammemnon, immortalizado por Homero, Thaltybios, semelhante aos deuses pela voz". RUY BARBOSA — Elogio de Castro Alves, Bahia, 1881, p. 6.
[2] CARLOS FERREIRA — Feituras e Feições, Campinas, 1905,

     Mas não só entre os rapazes predispostos das academias, ou na assembléa confinada dos espectaculos, também na praça publica, no tumulto do Povo, ou no concilio dos mais conspicuos e acatados desse tempo, tinha o nosso Poeta admiração e respeito. Recebido José Bonifácio em S. Paulo, no delírio das acclamações, diz "O Ypiranga", de 2 de Agosto de 1868, Castro Alves "soube, num rapto sublime, manifestar a commoção de quantos acompanham o representante dos foros populares". Dias depois, num grande banquete político, em que falaram José Bonifácio, Joaquim Nabuco, Salvador de Mendonça, Martim Cabral, Ruy Barbosa, Américo Brasiliense, Barros Pimentel, que saudavam as idéas e os homens de maior vulto do país, levanta-se Américo de Campos para brindar a Castro Alves, "como representante do pensamento democrático das províncias do Norte". Tinha elle então apenas os seus 21 annos...
     Nessa idade, nenhum dos nossos grandes homens, de pensamento ou de acção, teve tamanhas consagrações do reconhecimento publico. Rarissimos teriam alguma vez na vida gloriosa: Ruy Barbosa e Joaquim Nabuco esperariam mais de dez annos; Rodrigues Alves e Affonso Penna — e cito apenas dentre os seus collegas — chegariam, com a política, ás alturas do poder, após quarenta annos. Elles e outros, se tivessem passado, como Castro Alves, aos vinte e quatro annos, nem a memória dos nomes lhes teria ficado: e durante esse pouco tem po, o outro grangeou a fama, duradoira, de maior poeta do Brasil...
     Já o era no seu tempo, como o é ainda agora, não pelo consenso de algum critico parcial, ou pelos concursos literários — tão parecidos com as outras eleições políticas, falseada a sinceridade pelos corrilhos, excluindo pela inveja, ou adoptando por interesse, — mas pela admiração anonyma, e espontânea, dos leitores, que essa é a fama e a posteridade dos grandes escriptores. Os sábios distinguem e julgam, só o Povo ratifica a justiça ou o gosto dessas sentenças. Ainda não faltou a Castro Alves tal confirmação.

*

     Não foram, porém, os motivos de consagração os mesmos, hontem e hoje: mas o gênio do nosso Poeta bastou, na sua abundância e na sua riqueza, para satisfazer o espirito diverso dos tempos.
     Tivera, além dos mares, a voz possante de Victor Hugo, echos espaçados em José Bonifácio, em Pedro Luís e outros menores; nenhum, antes ou de pois de Castro Alves se pôde alçar ao diapazão daquelles cantos, que constituem a grande poesia heróica contemporânea.
     Castro Alves que se inspirou nessa fôrma épica teve, porém, uma humanidade mais intima e mais ampla, dedicando-a ao serviço da liberdade, com o que, superior ao seu grande mestre, batalhou pela emancipação de uma raça e aspirou á republica para os seus concidadãos. Havia no seu tempo a guerra, no Paraguay, ou entre França e Prússia, mas o assumpto bárbaro não o tocou, senão na com movida piedade ás victimas, lembrando "Quem dá aos pobres empresta a Deus", em favor dos orphãos brasileiros, ou, pelos franceses, "No Meeting do Comitê du Pain".
     Depois da cessação do trafico de africanos, sonharia certamente o Brasil com a abolição da es cravatura, na mente generosa de algum político sem influencia ou de escriptor sem repercussão, mas também sem deixar vinco sequer na opinião publica. Não apparecera ainda o grande abolicionista que foi D. Pedro II,—a quem o Visconde de Jequitinhonha e Silveira da Motta dariam suggestões e projectos, que foram base de leis ulteriores, — que receberia, pelo mesmo tempo, em 66, o appello de Guizot, Montalembert, Broglie, Henri Martin, La boulaye, Pressensé... da Junta Franoesa de Emancipação e á qual faria responder officialmente que a liberdade dos escravos era uma decisão tomada, que apenas pedia tempo para se realizar — e já nas falas do throno de 67 e 68 se referia ao elemento servil, para em seguida, tentando com Pimenta Bueno, ou conseguindo com Rio Branco, em 71, dar-lhe o primeiro grande golpe mortal, com a lei do ventre livre¹: não havia entretanto apparecido.

[1] "A lei dos nascituros foi a expressão da generosidade da Coroa, o seu grande rasgo de philantrophia". RUY BARBOSA — Discurso na Bahia, 1874. Embora irônicas as expressões, porque achava apoucada a dádiva, não é menos incisiva a attribuição delia.

     Aliás, apesar delle, o estado de espirito da quasi totalidade dos brasileiros seria, — francamente, aquelle de Silveira Martins quando disse, mais tarde: "amo mais ao meu país, que ao negro", querendo affirmar que o trabalho escravo era indispensável á prosperidade dó Brasil, ou para alguns raros, — hypocritamente, o de Martinho de Campos, que se enternecia com os seus "negrinhos", mas era "escravocrata da gemma", porque a abolição seria o extermínio dos escravos, "uma hecatombe de innocentes victimas..." Todos estavam com estes e entre estes.
     Pois bem, desde 63, principalmente em 65, quando compôs quasi completamente o poema d'Os Escravos", nos annos seguintes em que lhe accrescentou novas poesias, e seria representado o Gonzaga, neste tempo, em que as recitou por todas as tribunas cultas ou populares, no Recife, na Bahia, no Rio e em S. Paulo, os centros dirigentes do país, foi Castro Alves o apóstolo, incansável e persuasivo, da liberdade dos escravos. Não convenceria á geração endurecida pelo interesse, dos que governavam e constituíam então o Brasil representativo, mas os seus versos, que commoviam o coração e impressionavam a intelligencia, ouvidos, applaudidos, decorados e repetidos por moços que iam ser donas e varões, e que iriam ainda commover e impressionar a crianças, rapazes e donzellas, prepararam a geração que, vinte annos mais tarde, faria a Abolição. Joaquim Serra, Ferreira de Menezes, Patrocínio... na imprensa, Antônio Bento, João Clapp, José Mariano... nas ruas, Dantas, Nabuco, Ruy Barbosa... no parlamento, a Princesa Redemptora e o Minis tério Libertador... no governo, foram sequazes e collaboradores de Castro Alves, cujos versos heróicos e commovidos, das "Vozes d África", do "Navio Negreiro", d'"0 Século", do "Adeus, meu canto", da "A Cachoeira de Paulo Affonso", mudaram a alma nacional nesses vinte annos, dando lhes a sympathia para serem ouvidos, persuadirem e levarem o País até a victoria da liberdade, em 1888. Ferreira Vianna, um dos libertadores, dez annos depois da sua morte, dizia delle: "a lyra emmudeceu, mas os sons por ella vibrados ainda rebôam cheios de vigor, em nossos ouvidos."¹.

[1] FERREIRA VIANNA — Castro Alves — "Homenagem da Faculdade de S. Paulo", 20 de Julho de 1881.

     Por isso, pelos accentos possantes dessa voz, pelas idéas humanitárias e políticas que ella exprimia, a geração de seu tempo só viu nelle o poeta social. Nabuco, em 73¹, ainda sem as razões, bem humanas..., de attribuir á Câmara de 1879² (da qual foi figura primacial na campanha abolicionista) — o fiat creador da Abolição, dizia delle: "Castro Alves foi uma inspiração elevada e uma intelligencia nobre; seu maior titulo é o de ter posto seu talento ao serviço da causa da emancipação, da liberdade e da pátria. As suas mais felizes idéas, seus versos mais melodiosos foram-lhe inspirados pela sorte dos captivos". "A idéa abolicionista foi a alma de seu melhor poema..." "Esse é o titulo serio á gratidão do país... Nunca o poeta subiu tanto como nesses dias, em que... se apoderou resolutamente de uma grande idéa e se deixou dominar por um forte sentimento. E' esse o mérito que antes de qualquer outro eu queria attribuir ao poeta..." Um de hoje, Amadeu Amaral, pôde repetir: "Elle foi o querido da mocidade e do povo, o mais amado, o mais fascinador, o mais comprehendido dos nossos poetas". Porque "não foi apenas um poeta... foi um apóstolo, um propagandista,. um luctador, sciente e consciente dos frutos bons e dos frutos amargos de sua semeadura"³.

[1] JOAQUIM NABUCO — Castro Alves, I "A Reforma", Rio, ao de Abril de 1873.
[2] JOAQUIM NABUCO — Minha formação — ed. *Carnier — Rio, Paris,' 1900, p 230.
[3] AMADEU AMARAL — Letras floridas — Rio, 1920, P- M5.

     A razão dessa investidura sagrada, que o gênio de Castro Alves recebera de sua terra e de seu povo, nesse momento histórico, dera-a, desde 68, José de Alencar: "Palpita em sua obra o poderoso sentimento da nacionalidade, essa alma da pátria que faz os grandes poetas, como os grandes cidadãos "¹. Muito mais tarde, José Veríssimo diria a mesma coisa: "A sua influencia foi enorme..." "as cousas sociaes e humanas as viu e entendeu e as cantou como poeta", "poeta nacional, se não mais, nacionalista, poeta social, humano e humanitário...².

[1] JOSÉ DE ALENCAR — Um poeta, "Correio Mercantil", de 22 Fevereiro, 1868.
[2] JOSÉ VERÍSSIMO — Historia da Literatura Brasileira, ed. Alves, Rio, 1916, p. 337.

     Por isso, mereceu o nome que lhe deram, por consagração, de "Poeta dos Escravos". E' que, disse Ruy Barbosa, em 1881: "Castro Alves escreveu o poema da nossa grande questão social e da profunda aspiração nacional que a tem de resolver"¹.

[1] RUY BARBOSA — Elogio a Castro Alves, cit. p. 46.

     Aspiração nacional que previu, no movimento irresistível das ruas, da imprensa, das câmaras, do governo, que a haviam de realizar um dia, tão longe entretanto delle... "A sua grandeza está nisto, diz Euclydes da Cunha: elle os viu antes e melhor do que seus contemporâneos", chegando entretanto a tempo para o prever, como vidente: "apparecimento... certo, opportuno, como o de todo grande homem..."¹. Aspiração nacional que ajudou ou começou a realizar, podemos hoje insistir, e é ainda por isso que o nome delle "ha de ligar-se indelevelmente a uma das phases mais decisivas da historia nacional"².

[1] EUCLYDES DA CUNHA — Castro Alves e seu tempo — 1907, p. 9-10.
[2] RUY BARBO.A — Op. cit p. 46.

continua página 13...
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O Maior Poeta Brasileiro(a) / 
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921

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