Reproducção fiel da edição original de 1870
PRIMEIRO VOLUME
ESPUMAS FLUCTUANTES
EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica.
com uma inlroducção bibliographica e annotações
de
AFRANIO PEIXOTO
ESPUMAS FLUCTUANTES
reproducção fiel da edição original de 1870
HYMNOS DO EQUADOR
publicações posthumas e poesias inéditas
OS ESCRAVOS
texto integral, parte inédita, com
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS
drama em 4 actos, segundo a edição original
VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA
conforme autographos e manuscriptos authenticos
O MAIOR POETA BRASILEIRO
Cincoenta annos volvidos depois da sua morte,
como ainda em vida, continua Castro Alves com a
sua causa ganhada perante a opinião publica: desta
vez, porem, essa opinião é já a Posteridade.
No seu tempo, a sua formosa mocidade, aureolada pelo gênio, e a turba vibratil das academias,
do Recife a S. Paulo, passando pela Bahia e pelo
Rio de Janeiro, a quem de preferencia se dirigia,
faziam-no, pelas idéas e sentimentos que elle exprimia nos seus poemas arrebatadores, o guia ou o
chefe dessa geração, adornada, entretanto, dos mais
fulgurantes e depois consagrados nomes de nossa
historia politica e social, nesse meio século transcorrido.
Quando elle apparecia, nos saráus literários ou
na platéa dos theatros, bello e forte como um jovem heroe, irreprehensivelmente vestido de negro,
o que lhe resaltava por contraste a pallidez romântica, saudavam-no applausos calorosos, e, das mulheres, talvez commovidos; depois, o silencio profundo de uma espectativa ansiosa antecedia os
accentos mágicos de sua voz harmoniosa e retumbante, "encanto" de um órgão irresistível, "um
desses que transfiguram o orador e o poeta"¹,
com que recitava algumas das suas mais candentes
estrophes, preferidas e reclamadas pela multidão.
Depõe um contemporâneo: "O grande Castro Alves ! como diziam todos, na academia, e fora delia",
— "toda gente que o ouvia tinha arrepios de assombro e enxergava na esbelta e sympathica pessoa do
jovem acadêmico mais um semi-deus do que um
poeta, menos um poeta que um vidente"; "o auditório sorria ou chorava, permanecia mudo pela
cotnmoção fortíssima ou prorompia em bravos enthusiasticos"². Vinha abaixo o theatro, na phrase
consagradora desses successos, sob o clamor das
ovações.
[1] "...e fazem pensar no glorioso arauto de Agammemnon,
immortalizado por Homero, Thaltybios, semelhante aos deuses
pela voz". RUY BARBOSA — Elogio de Castro Alves, Bahia, 1881, p. 6.
[2] CARLOS FERREIRA — Feituras e Feições, Campinas, 1905,
Mas não só entre os rapazes predispostos das academias, ou na assembléa confinada dos espectaculos, também na praça publica, no tumulto do
Povo, ou no concilio dos mais conspicuos e acatados desse tempo, tinha o nosso Poeta admiração
e respeito. Recebido José Bonifácio em S. Paulo,
no delírio das acclamações, diz "O Ypiranga", de
2 de Agosto de 1868, Castro Alves "soube, num
rapto sublime, manifestar a commoção de quantos
acompanham o representante dos foros populares".
Dias depois, num grande banquete político, em que
falaram José Bonifácio, Joaquim Nabuco, Salvador
de Mendonça, Martim Cabral, Ruy Barbosa, Américo Brasiliense, Barros Pimentel, que saudavam as idéas e os homens de maior vulto do país, levanta-se Américo de Campos para brindar a Castro
Alves, "como representante do pensamento democrático das províncias do Norte". Tinha elle então
apenas os seus 21 annos...
Nessa idade, nenhum dos nossos grandes homens, de pensamento ou de acção, teve tamanhas
consagrações do reconhecimento publico. Rarissimos teriam alguma vez na vida gloriosa: Ruy Barbosa e Joaquim Nabuco esperariam mais de dez
annos; Rodrigues Alves e Affonso Penna — e cito
apenas dentre os seus collegas — chegariam, com a
política, ás alturas do poder, após quarenta annos.
Elles e outros, se tivessem passado, como Castro
Alves, aos vinte e quatro annos, nem a memória dos
nomes lhes teria ficado: e durante esse pouco tem
po, o outro grangeou a fama, duradoira, de maior
poeta do Brasil...
Já o era no seu tempo, como o é ainda agora,
não pelo consenso de algum critico parcial, ou pelos
concursos literários — tão parecidos com as outras
eleições políticas, falseada a sinceridade pelos corrilhos, excluindo pela inveja, ou adoptando por interesse, — mas pela admiração anonyma, e espontânea, dos leitores, que essa é a fama e a posteridade dos grandes escriptores. Os sábios distinguem e julgam, só o Povo ratifica a justiça ou o
gosto dessas sentenças. Ainda não faltou a Castro
Alves tal confirmação.
*
Não foram, porém, os motivos de consagração
os mesmos, hontem e hoje: mas o gênio do nosso
Poeta bastou, na sua abundância e na sua riqueza,
para satisfazer o espirito diverso dos tempos.
Tivera, além dos mares, a voz possante de Victor
Hugo, echos espaçados em José Bonifácio, em Pedro Luís e outros menores; nenhum, antes ou de
pois de Castro Alves se pôde alçar ao diapazão daquelles cantos, que constituem a grande poesia heróica contemporânea.
Castro Alves que se inspirou nessa fôrma épica teve, porém, uma humanidade mais intima e mais ampla, dedicando-a ao serviço da liberdade, com o que, superior ao seu grande mestre, batalhou pela emancipação de uma raça e aspirou á republica para os seus concidadãos. Havia no seu tempo a guerra, no Paraguay, ou entre França e Prússia, mas o assumpto bárbaro não o tocou, senão na com movida piedade ás victimas, lembrando "Quem dá aos pobres empresta a Deus", em favor dos orphãos brasileiros, ou, pelos franceses, "No Meeting do Comitê du Pain".
Castro Alves que se inspirou nessa fôrma épica teve, porém, uma humanidade mais intima e mais ampla, dedicando-a ao serviço da liberdade, com o que, superior ao seu grande mestre, batalhou pela emancipação de uma raça e aspirou á republica para os seus concidadãos. Havia no seu tempo a guerra, no Paraguay, ou entre França e Prússia, mas o assumpto bárbaro não o tocou, senão na com movida piedade ás victimas, lembrando "Quem dá aos pobres empresta a Deus", em favor dos orphãos brasileiros, ou, pelos franceses, "No Meeting do Comitê du Pain".
Depois da cessação do trafico de africanos, sonharia certamente o Brasil com a abolição da es
cravatura, na mente generosa de algum político sem
influencia ou de escriptor sem repercussão, mas
também sem deixar vinco sequer na opinião publica. Não apparecera ainda o grande abolicionista
que foi D. Pedro II,—a quem o Visconde de Jequitinhonha e Silveira da Motta dariam suggestões e
projectos, que foram base de leis ulteriores, — que
receberia, pelo mesmo tempo, em 66, o appello de
Guizot, Montalembert, Broglie, Henri Martin, La
boulaye, Pressensé... da Junta Franoesa de Emancipação e á qual faria responder officialmente que
a liberdade dos escravos era uma decisão tomada,
que apenas pedia tempo para se realizar — e já nas
falas do throno de 67 e 68 se referia ao elemento
servil, para em seguida, tentando com Pimenta Bueno, ou conseguindo com Rio Branco, em 71, dar-lhe o primeiro grande golpe mortal, com a lei do ventre
livre¹: não havia entretanto apparecido.
[1] "A lei dos nascituros foi a expressão da generosidade da Coroa, o seu grande rasgo de philantrophia". RUY BARBOSA — Discurso na Bahia, 1874. Embora irônicas as expressões, porque achava apoucada a dádiva, não é menos incisiva a attribuição delia.
[1] "A lei dos nascituros foi a expressão da generosidade da Coroa, o seu grande rasgo de philantrophia". RUY BARBOSA — Discurso na Bahia, 1874. Embora irônicas as expressões, porque achava apoucada a dádiva, não é menos incisiva a attribuição delia.
Aliás, apesar delle, o estado de espirito da quasi
totalidade dos brasileiros seria, — francamente,
aquelle de Silveira Martins quando disse, mais
tarde: "amo mais ao meu país, que ao negro", querendo affirmar que o trabalho escravo era indispensável á prosperidade dó Brasil, ou para alguns
raros, — hypocritamente, o de Martinho de Campos,
que se enternecia com os seus "negrinhos", mas era
"escravocrata da gemma", porque a abolição seria
o extermínio dos escravos, "uma hecatombe de innocentes victimas..." Todos estavam com estes e
entre estes.
Pois bem, desde 63, principalmente em 65, quando compôs quasi completamente o poema d'Os Escravos", nos annos seguintes em que lhe accrescentou
novas poesias, e seria representado o Gonzaga, neste
tempo, em que as recitou por todas as tribunas cultas ou populares, no Recife, na Bahia, no Rio e em
S. Paulo, os centros dirigentes do país, foi Castro
Alves o apóstolo, incansável e persuasivo, da liberdade dos escravos. Não convenceria á geração endurecida pelo interesse, dos que governavam e constituíam então o Brasil representativo, mas os seus
versos, que commoviam o coração e impressionavam a intelligencia, ouvidos, applaudidos, decorados
e repetidos por moços que iam ser donas e varões, e
que iriam ainda commover e impressionar a crianças, rapazes e donzellas, prepararam a geração
que, vinte annos mais tarde, faria a Abolição. Joaquim Serra, Ferreira de Menezes, Patrocínio... na imprensa, Antônio Bento, João Clapp, José Mariano... nas ruas, Dantas, Nabuco, Ruy Barbosa...
no parlamento, a Princesa Redemptora e o Minis
tério Libertador... no governo, foram sequazes e
collaboradores de Castro Alves, cujos versos heróicos e commovidos, das "Vozes d África", do
"Navio Negreiro", d'"0 Século", do "Adeus, meu
canto", da "A Cachoeira de Paulo Affonso", mudaram a alma nacional nesses vinte annos, dando
lhes a sympathia para serem ouvidos, persuadirem
e levarem o País até a victoria da liberdade, em
1888. Ferreira Vianna, um dos libertadores, dez annos depois da sua morte, dizia delle: "a lyra emmudeceu, mas os sons por ella vibrados ainda rebôam
cheios de vigor, em nossos ouvidos."¹.
[1] FERREIRA VIANNA — Castro Alves — "Homenagem da Faculdade de S. Paulo", 20 de Julho de 1881.
Por isso, pelos accentos possantes dessa voz, pelas idéas humanitárias e políticas que ella exprimia,
a geração de seu tempo só viu nelle o poeta social.
Nabuco, em 73¹, ainda sem as razões, bem humanas..., de attribuir á Câmara de 1879² (da
qual foi figura primacial na campanha abolicionista) — o fiat creador da Abolição, dizia delle:
"Castro Alves foi uma inspiração elevada e uma intelligencia nobre; seu maior titulo é o de ter posto
seu talento ao serviço da causa da emancipação, da
liberdade e da pátria. As suas mais felizes idéas,
seus versos mais melodiosos foram-lhe inspirados
pela sorte dos captivos". "A idéa abolicionista foi
a alma de seu melhor poema..." "Esse é o titulo
serio á gratidão do país... Nunca o poeta subiu tanto como nesses dias, em que... se apoderou resolutamente de uma grande idéa e se deixou dominar por um forte sentimento. E' esse o mérito
que antes de qualquer outro eu queria attribuir ao
poeta..." Um de hoje, Amadeu Amaral, pôde repetir: "Elle foi o querido da mocidade e do povo,
o mais amado, o mais fascinador, o mais comprehendido dos nossos poetas". Porque "não foi apenas
um poeta... foi um apóstolo, um propagandista,.
um luctador, sciente e consciente dos frutos bons e
dos frutos amargos de sua semeadura"³.
[1] JOAQUIM NABUCO — Castro Alves, I "A Reforma", Rio,
ao de Abril de 1873.
[2] JOAQUIM NABUCO — Minha formação — ed. *Carnier — Rio,
Paris,' 1900, p 230.
[3] AMADEU AMARAL — Letras floridas — Rio, 1920, P- M5.
A razão dessa investidura sagrada, que o gênio
de Castro Alves recebera de sua terra e de seu povo,
nesse momento histórico, dera-a, desde 68, José de
Alencar: "Palpita em sua obra o poderoso sentimento da nacionalidade, essa alma da pátria que
faz os grandes poetas, como os grandes cidadãos "¹.
Muito mais tarde, José Veríssimo diria a mesma
coisa: "A sua influencia foi enorme..." "as cousas
sociaes e humanas as viu e entendeu e as cantou
como poeta", "poeta nacional, se não mais, nacionalista, poeta social, humano e humanitário...².
[1] JOSÉ DE ALENCAR — Um poeta, "Correio Mercantil", de 22
Fevereiro, 1868.
[2] JOSÉ VERÍSSIMO — Historia da Literatura Brasileira, ed.
Alves, Rio, 1916, p. 337.
Por isso, mereceu o nome que lhe deram, por
consagração, de "Poeta dos Escravos". E' que,
disse Ruy Barbosa, em 1881: "Castro Alves escreveu o poema da nossa grande questão social e da
profunda aspiração nacional que a tem de resolver"¹.
[1] RUY BARBOSA — Elogio a Castro Alves, cit. p. 46.
Aspiração nacional que previu, no movimento irresistível das ruas, da imprensa, das câmaras, do governo, que a haviam de realizar um dia, tão longe entretanto delle... "A sua grandeza está nisto,
diz Euclydes da Cunha: elle os viu antes e melhor do
que seus contemporâneos", chegando entretanto a
tempo para o prever, como vidente: "apparecimento... certo, opportuno, como o de todo grande
homem..."¹. Aspiração nacional que ajudou ou
começou a realizar, podemos hoje insistir, e é ainda
por isso que o nome delle "ha de ligar-se indelevelmente a uma das phases mais decisivas da historia
nacional"².
[1] EUCLYDES DA CUNHA — Castro Alves e seu tempo —
1907, p. 9-10.
[2] RUY BARBO.A — Op. cit p. 46.
continua página 13...
_________________
O Maior Poeta Brasileiro(a) /
_________________
Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia.
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo,
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP)
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
_______________LIVRARIA FRANCISCO ALVES
RIO DE JANEIRO
S. PAULO - BELLO HORIZONTE
1921
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