quarta-feira, 8 de julho de 2026

Augusto dos Anjos - O Lázaro da Pátria

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


O Lázaro da Pátria

Filho podre de antigos Goytacazes, 
Em qualquer parte onde a cabeça ponha, 
Deixa circunferências de peçonha, 
Marcas oriundas de úlceras e anthrazes.  

Todos os cynocéphalos vorazes 
Cheiram seu corpo. A' noite, quando sonha, 
Sente no thorax a pressão medonha 
Do bruto embate férreo das tenazes. 

Mostra aos montes e aos rígidos rochedos 
 hedionda elephantiasis dos dedos. 
Há um cansaço no Cosmos. Anoitece. 

Riem as meretrizes no Casino, 
E o Lázaro caminha em seu destino 
Para um fim que elle mesmo desconhece !  


Idealização da Humanidade futura

Rugia nos meus centros cerebraes 
A multidão dos séculos futuros 
— Homens que a herança de Ímpetos impuros 
Tornara ethnicamente irracionaes! —

Não sei que livro, em lettras garrafaes, 
Meus olhos liam! No húmus dos monturos, 
Realisavam-se os partos mais obscuros, 
Dentre as genealogias animaes! 

Como quem esmigálha protozoarios 
Metti todos os dedos mercenários 
Na consciência daquella multidão. 

E, em vez de achar a luz que os Céus inflama, 
Somente achei moléculas de lama 
E a mosca alegre da putrefacção!  

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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

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