sábado, 4 de julho de 2026

Augusto dos Anjos - Psicologia de um vencido

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco 
Monstro de escuridão e rutilância, , 
Sofro, desde a epigênese da infância, 
A influência má dos signos do zodíaco.  

Produndissimamente hipocondríaco,   
Este ambiente me causa repugnância... 
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia 
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme -- este operário das ruínas 
Que o sangue podre das carnificinas 
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-lo 
E há de deixar-me apenas os cabelos 
Na frialdade inorgânica da terra! 


A ideia

De onde ela vem?! De que matéria bruta 
Vem essa luz que sobre as nebulosas 
Cai de incógnitas criptas misteriosas 
Como as estalactites duma gruta?! 

Vem da psicogenética e alta luta 
Do feixe de moléculas nervosas, 
Que, em desintegrações maravilhosas, 
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe
Chega em seguida às cordas da laringe
Tísica, tênue, mínima, raquítica... 

Quebra a força centrípeta que a amarra, 
Mas, de repente, e quase morta, esbarra 
No molambo da língua paralítica! 


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Leia também:
Monologo de uma sombra / Agonia de um filósofo / Psicologia de um vencido / 
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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.

Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

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