segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Augusto dos Anjos - As Scismas do Destino III

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


As Scismas do Destino

 III

«Homem! por mais que a Idéa desintegres, 
Nessas perquisições que não têm pausa, 
Jamais, magro homem, saberás a causa 
De todos os phenómenos alegres!

Em vão, com a bronca enxada árdega, sondas
A estéril terra, e a hyalina lâmpada ôca, 
Trazes, por perscrutar (oh! sciencia louca!) 
O conteúdo das lagrimas hediondas.

Negro e sem fim é esse em que te mergulhas 
Lugar do Cosmos, onde a dôr infrene 
E' feita como é feito o kerosene 
Nos recôncavos húmidos das hulhas! 

Porque, para que a Dor perscrutes, fora 
Mister que, não como és, em synthese, antes 
Fosses, a reflectir teus semelhantes, 
A própria humanidade soffredôra! 

A universal complexidade é que Ella 
Comprehende. E si, por vezes, se divide, 
Mesmo ainda assim, seu te do não reside 
No quociente isolado da parcella!  

Ah ! Como o ar immortal a Dôr não finda ! 
Das papillas nervosas que ha nos tactos 
Veio e vai desde os tempos mais transactos 
Para outros tempos que hão de vir ainda ! 

Como o machucamento das insomnias 
Te estraga, quando toda a estuada Idéa 
Dás ao soffrego estudo da nymphéa 
E de outras plantas dicotyledoneas!

A diaphana água alvissima e a hórrida áscua 
Que da ignea flamma bruta, estriada, espirra; 
A formação molecular da myrrha, 
O cordeiro symbolico da Paschoa;

As rebelladas cóleras que rugem 
No homem civilisado, e a elle se prendem 
Como ás pulseiras que os mascates vendem 
A adherencia teimosa da ferrugem; 

O orbe feraz que bastos tojos acres 
Produz; a rebellião que, na batalha, 
Deixa os homens deitados, sem mortalha, 
Na sangueira concreta dos massacres; 

Os sanguinolentissimos chicotes 
Da hemorrhagia; as nodoas mais espessas, 
O achatamento ignóbil das cabeças, 
Que ainda degrada os povos hottentótes; 

O Amor e a Fome. a fera ultriz que o fojo 
Entra, á espera que a mansa victima o entre, 
—Tudo que gera no materno ventre 
A causa physiologica do nojo;

As pálpebras inchadas na vigilia, 
As aves moças que perderam a aza, 
O fogão apagado de uma casa, 
Onde morreu o chefe da familia; 

O trem particular que um corpo arrasta 
Sinistramente pela via-férrea, 
A crystallisação da massa térrea, 
O tecido da roupa que se gasta; 

A água arbitrária que hiúlcos caules grossos 
Carrega e come; as negras fôrmas feias 
Dos arachnideos e das centopeias, 
O fogo-fatuo que illumina os ossos;  

As projecções flammivomas que offuscam, 
Como uma pincelada rembrandtesca, 
A sensação que uma coalhada fresca 
Transmitte ás mãos nervosas dos que a buscam;

0 antagonismo de Typhon e Osiris, 
O homem grande opprimiudo o homem pequeno, 
A lua falsa de um paraseleuo, 
A mentira meteórica do arco-iris;

Os terremotos que, abalando os solos. 
Lembram paióes de pólvora explodindo, 
A rotação dos fluidos produzindo 
A depressão gsológica dos pólos; 

O instincto de procrear, a anciã legitima 
Da alma, affrontando ovante aziagos riscos, 
O juramento dos guerreiros priscos 
Mettendo as mãos nas glândulas da victima; 

As differenciações que o psychoplásma 
Humano soffre na mania mystica, 
A pezada oppressão característica 
Dos 10 minutos de um accesso de asthma; 

E, (comquanto contra isto ódios regougues) 
A utilidade fúnebre da corda 
Que arrasta a rêz, depois que a rêz engorda, 
A' morte desgraçada dos açougues. 

Tudo isto que o terráqueo abysmo encerra 
Fôrma a complicação desse barulho 
Travado entre o dragão do humano orgulho 
E as forças inorgânicas da terra! 

Por descobrir tudo isto, embalde cansas! 
Ignoto é o germen dessa força activa 
Que engendra, em cada céllula passiva, 
A heterogeneidade das mudanças! 

Poeta, feto malsão, creado com os suecos 
De um leite máu, carnívoro asqueroso, 
Gerado no atavismo monstruoso 
Da alma desordenada dos malucos;  

Ultima das creatúras inferiores 
Governada por átomos mesquinhos, 
Teu pé mata a uberdade dos caminhos 
E esterilisa os ventres geradores!

O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, 
Análogo é ao que, negro e a seu turno, 
Traz o ávido phyllóstomo nocturno 
Ao sangue dos mammiferos vorazes! 

Ah ! Por mais que, com o espirito, trabalhes 
A perfeição dos seres existentes, 
Has de mostrar a carie dos teus dentes 
Na anatomia horrenda dos detalhes!  

O Espaço-esta abstracção spencereana 
Que abrange as relações de co-existencia 
E' só ! Não tem nenhuma dependência 
Com as vertebras mortaes da espécie humana! 

As radiantes ellipses que as estrellas 
Traçam, e ao espectador falsas se antolham 
São verdades de luz que os homens olham 
Sem poder, no entretanto, comprehendel-as. 

Em vão, com a mão corrupta, outro ether pedes 
Que essa mão, de esqueléticas phalanges, 
Dentro dessa água que com a vista abranges, 
Também prova o principio de Archimedes! 

A fadiga feroz que te esbordôa 
Ha de deixar-te essa medonha marca, 
Que, nos corpos inchados de anasárca, 
Deixam os dedos de qualquer pessoa!  

Nem terás no trabalho que tiveste 
A misericordiosa toalha amiga, 
Que affaga os homens doentes de bexiga 
E enxuga, á noite, as pústulas da peste!

Quando chegar depois a hora tranquilla, 
Tu serás arrastado, na carreira, 
Como um cepo inconsciente de madeira 
Na evolução orgânica da argilia! 

Um dia comparado com um millenio 
Seja, pois, o teu ultimo Evangelho. 
E' a evolução do novo para o velho 
E do homogêneo para o heterogêneo! 

Adeus ! Fica-te ahi, com o abdômen largo 
A apodrecer!. E's poeira, e embalde vibras! 
O corvo que comer as tuas fibras 
Ha de achar nellas um sabor amargo!» 

Continua na página 40...
_________________________

Leia também:
  O Deus-Verme / As Scismas do Destino I /  As Scismas do Destino II / As Scismas do Destino III /  
__________________________

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

Augusto dos Anjos: O Gênio da Matéria e a Metafísica do Espanto




Nenhum comentário:

Postar um comentário