sexta-feira, 3 de julho de 2015

Contos de Calvino: A Ovelha Negra (03)

Ítalo Calvino



A Ovelha Negra



Havia um país onde todos eram ladrões.

À noite, cada habitante saía, com a gazua e a lanterna, e ia arrombar a casa de um vizinho. Voltava de madrugada, carregado, e encontrava a sua casa roubada.

E assim todos viviam em paz e sem prejuízo, pois um roubava o outro, e este, um terceiro, e assim por diante, até que se chegava ao último, que roubava o primeiro. O comércio naquele país só era praticado como trapaça, tanto por quem vendia como por quem comprava. O governo era uma associação de delinquentes vivendo à custa dos súditos, e os súditos por sua vez só se preocupavam em fraudar o governo. Assim a vida prosseguia sem tropeços, e não havia ricos nem pobres.

Ora, não se sabe como, ocorre que no país apareceu um homem honesto. À noite, em vez de sair com o saco e a lanterna, ficava em casa fumando e lendo romances.

Vinham os ladrões, viam a luz acessa e não subiam.

Essa situação durou algum tempo: depois foi preciso fazê-lo compreender que, se quisesse viver sem fazer nada, não era essa uma boa razão para não deixar os outros fazerem. Cada noite que ele passava em casa era uma família que não comia no dia seguinte.

Diante desses argumentos, o homem honesto não tinha o que objetar. Também começou a sair de noite para voltar de madrugada, mas não ia roubar. Era honesto, não havia nada a fazer. Andava até a ponte e ficava vendo a água embaixo. Voltava para casa, e a encontrava roubada.

Em menos de uma semana o homem honesto ficou sem um tostão, sem o que comer, com a casa vazia. Mas até aí tudo bem, porque era culpa sua; o problema era que seu comportamento criava uma grande confusão. Ele deixava que lhe roubassem tudo e, ao mesmo tempo, não roubava ninguém; assim, sempre havia alguém que, voltando para casa de madrugada, achava a casa intacta: a casa que o homem honesto deveria ter roubado. O fato é que, pouco depois, os que não eram roubados acabaram ficando mais ricos que os outros e passaram a não querer mais roubar. E, além disso, os que vinham para roubar a casa do homem honesto sempre a encontravam vazia; assim, iam ficando pobres.

Enquanto isso, os que tinham se tornado ricos pegaram o costume, eles também, de ir de noite até a ponte, para ver a água que passava embaixo. Isso aumentou a confusão, pois muitos outros ficaram ricos e muitos outros ficaram pobres.

Ora, os ricos perceberam que, indo de noite até a ponte, mais tarde ficariam pobres. E pensaram: “Paguemos aos pobres para irem roubar para nós”. Fizeram-se os contratos, estabeleceram-se os salários, as percentagens: naturalmente, continuavam a ser ladrões e procuravam enganar-se uns aos outros. Mas, como acontece, os ricos tornavam-se cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.

Havia ricos tão ricos que não precisavam mais roubar e que mandavam roubar para continuarem a ser ricos. Mas, se paravam de roubar, ficavam pobres porque os pobres os roubavam. Então pagaram aos mais pobres dos pobres para defenderem as suas coisas contra os outros pobres, e assim instituíram a polícia e construíram as prisões.

Dessa forma, já poucos anos depois do episódio do homem honesto, não se falava mais de roubar ou de ser roubado, mas só de ricos ou de pobres; e, no entanto, todos continuavam a ser pobres.

Honesto só tinha havido aquele sujeito, e morrera logo, de fome.




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Leia também:
Contos de Calvino: Consciência (02)




Italo Calvino (1923 – 85) nasceu em Santiago de Las Vegas, Cuba, e foi para a Itália logo após o nascimento. Participou da resistência ao fascismo durante a guerra e foi membro do Partido Comunista até 1956. Publicou sua primeira obra, A trilha dos ninhos da aranha, em 1947.



Calvino, Italo, 1923-1985.

Um general na biblioteca / Italo Calvino ; tradução Rosa Freire d’Aguiar – São Paulo: compainha das Letras, 2001.

Título original: Prima che tu dica “pronto”.

Vidala Para Mi Sombra

Mariana Carrizo



Vidala Para Mi Sombra



Vidala para mi sombra


A veces sigo mi sombra*
a veces viene detrás,
pobrecita si me muero
con quién va a andar.

Achatadita y callada,
dónde podrás encontrar
una sombra compañera
que siga igual.**

No es que se vuelque mi vino,
lo derramo de intención,
mi sombra bebe y la vida
es de los dos.

Sombrita cuidame mucho
lo que tenga que dejar,
cuando me moje hasta adentro
la oscuridad.

Composição: Julio Santos Espinosa




Argentino Luna
Deja que silben los vientos






Atahualpa Yupanqui






Julio Espinosa cantando su "Vidala para mi sombra"








quinta-feira, 2 de julho de 2015

histórias de avoinha: o tempo é um rio seco

mulheres descalças


o tempo é um rio seco
Ensaio 55B – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar




num passava o susto do siô conde tá com as vista embruiada. atada. vendada. num gostô da brincadêra da cabra-cega. bode-cego. num queria sê cabra, muito menó era sua vontade de sê cega. pra fazê isso com desassombro era preciso deixá nascê mais uma reputação nele. e fez o qui foi preciso. fingiu sê o qui num era nem queria sê, Um camaleão se movimenta lentamente, usa a língua grudenta e pegajosa para num ser comido, foi o sussurro do siô padinhu nos ouvido dos óio tapado. o bode num ia sê comida, mais um bode-cego... sorriu com as vista tapada, num via e num era visto. queria tê visto a cô qui tava usando

Alguém dos Cavalheiros da Irmandade Freguesia da Harmonia se opõe a candidatura do sinhô Conde Afonso da Hora como membro da nossa grande e sagrada família? Fale, agora!

o anunciante da boa nova se calô. silêncio, ali dentro. nem suspiro nem respiro. lá fora, na villa, os dois preto da beirada do rio já tava recoído nos conforto da senzala; o capitão-do-mato já manobrava o barco pra lugá desconhecido; as moça da Maria Cobra continuava os atendimento da casa, elas nunca parava, sempre aparecia alguma urgência ou emergência qui as menina precisava dá conta de curá; siá Casta e Milagres tomava banho; Rita tava de visita escondida no seu piquinino mundo colorido. a vida prosseguia sem hesitá, o siô conde tava sozinho. era meió sê assim, ele gostava de tá desajudado da siá Casta, as coisa andava sem tropeço e num precisava dá explicação

tem veiz, mifioneto, qui as coisa qui ocê fez fica esquecida. é quando os aproveitadô das desmemória aparece, diz o qui é bão sabê, o qui num é bão lembrá. eles inventa a verdade. todo aproveitadô tem patrão qui escóie o qui é mais bão num mexê nas história das memória e deixá as lenda crescê nas desmemória. eles inventa as memória de vida, os enredo, os melindre, as mentira. o aproveitadô tem as obrigação de criá os fantasma qui vai atormentá as vida quinda num nasceu. os fantasma num vem do passado pra atazaná os descuidado com as história. as assombração tá dentro de cadum dos vivo. durumindo. nascê e vivê é uma luta, virá assombração num é espantoso, façanhudo é durá mais qui morrê, Então, cavalheiros? Falem agora ou calem-se para sempre!

ninguém disse nada, tudo em silêncio. num teve aceno nem mexida desatenta, as vista qui sempre pisca num tremeu. ninguém se mostrô. era lucrativo fazê cara de num sei, num vi, num tô nem aí, ficá contemplativo. sabe cumé, assobiando sem assobiá. os miolo acautelado, a respiração relaxada quando nada respirava. ele foi aceito em silêncio com as mentira qui carregava, os engano qui esparramava; a vida é assim, mais pode num sê, num tem como sabê a dô na carne inté sê atingido

o maió dos trêis arrumadô daquela assentada do siô conde, o batismo de sê cavalêro da freguesia, levantô a mão pedindo mais silêncio, pareceu bobice pedí, mais num era coisa à toa, Vosmecê é o sinhô Conde Afonso da Hora, possuidor das terras baixas, no Caminho Novo, denominadas Fazenda Humaitá?

tudo muito solene e conveniente, o funcionário puruguntadô tava abrindo caminho pru silêncio continuá quieto. só de oiá dava pra sabê qui ele gostava de sê esse puruguntadô, o celebrante da Irmandade. ele carregava o alívio do silêncio enquanto falava, assim num tinha precisão dosotro falá. a acomodação de aceitá em mudez num é pouco caso, pode inté sê, mais tumbém pode sê aceitação de soldado qui apenas cumpre o qui é mandado fazê; ou caso de fé ou de medo, ou tudo junto. tem veiz qui é esperteza. o aborrecido mesquinho sem coragem de se mostrá trabaia a desacomodação sem deixá aparecê a língua e as garra. entranha o seu veneno calado, sem baruio, espáia discreto o pensamento de tudo qui num disse, num enfrenta de frente, Sim, esse sou eu! respondeu o siô conde

aqueles qui num gosta de dizê o qui pensa quando tá em lugá avesso das própria vontade faz gosto em deixá um qui otro sê a voz e o pensamento de tudo, prefere usá as palavra qui pensa na intimidade do fuxico. quem tá sempre medindo os perigo e os lucro de soltá as preocupação prefere dá as condolência, prendê as ideia e a imaginação, acorrentá as memória e os propósito. é gente qui num corre risco, num concorda nem gosta, num vai fazê, mais num diz. num tem purugunta nem tem resposta. fica quieto. apenas mais um em silêncio qui parece dócil, esperando o julgamento do siô conde. cuidado, esses quando é acuado como um animal sem saída desveste a pele amável do cordêro de deus e destrava a língua contra os pecados do mundo. a chave qui usa pra destrancá é a virtude. o cordêro vira fera, grita enfurecido, mais avisa qui é boa pessoa, caso ninguém tenha notado, tá sendo forçado sê mau, logo ele, um contratado padrão da Freguesia da Harmonia. um gestô de maldade

depois do anúncio da presença do disputadô da vaga de bode e a confirmação do comparecimento pelo cabrito, o bode jovem, o siô padre acompanhô o quase bode, ainda com os óio tapado, inté a mesa. eles parecia tá no caminho dum altá pra sacrifício de bode. tudo pronto, esperando a oferenda em sacrifício de sofrimento. tem veiz qui num tem urgência tê a visão da decoração toda, otras veiz, essa ausência de vê o quadro todo faz borbuiá os miolo da atenção, dispara o medo, acelera a respiração, assusta mais duqui é feito pra assustá. espanta os argumento do entendimento, os cuidado com o juízo e a justiça. o assustado fica tão mais bicho qui esquece de sê gente, credita, ou fingí qui credita é a mesma coisa assustadora, ele espreita, caça e mata pra escapá de morrê. o silêncio do bicho assustado é covarde, num é um silêncio inteligente, ele só qué sobrevivê, e, entre nascê e morrê, parece tá em luta pra num tê castigo. talvez, num tenha castigo nenhum. nada. nem céu nem inferno tem

o medo num é um bão aconseiadô nessas história de céu e inferno. nem ocê precisa sê o cordêro dos pecado do mundo nem a valentia e a intolerância com os fraco do mundo faz ocê sê mais forte. cautela com esse medo assustado ou arrogante, ele faz ocê pensá o qui num é: menó ou maió qui os otro; ninguém é meió qui ninguém, mais pode ficá pió, é só creditá qui é meió

A partir de hoje, e sempre, com a graça de Deus, para os irmãos pastores de bodes, vosmecê será um bode, o siô bode conde fungô, num pareceu sentí conforto em sabê qui era um bode, sê um bode dá pra aceitá, mais sabê nas palavra dos otro qui se é um bode num é bão escutá, Vosmecê é mais um homem honesto onde todos são honestos, insuspeitos, novo silêncio, nem o rabo dos óio mexia, o siô bode conde fungô de novo, lhe pareceu sentí chêro de bode. desceu a cabeça pro lado qui pareceu sê o certo, o lugá da respiração do siô padre. esperô inté qui o bafo do beato adorativo lhe colocô intenção de oiá, perguntô com a voz mais silenciosa qui conseguiu inventá de fazê, disfarçada de cemitério, Sinhô Padre, O que foi, meu filho, Que mal lhe pergunte, Pois diga o que lhe incomoda, Por que passei a ser um bode?

o siô padre aproximô o fôlego da caxumba do siô conde bode, tinha os modo mais secreto qui os motivo do momento permitia, um confessionário destravado do segredo. público. gostava do sussurro conspiratório das confissão. mais nem sempre podia escoiê a hora e o lugá da conversa. o confessionário é um lugá provocativo e curioso, provoca existí um confessô qui acumula as memória mais ruim dos bode arrependido. é bão tê um confessô qui escuta, conversa, aconsêia, faz justiçamento com reza e abre as porta da morte eterna sem castigo; se as lei dos hôme fracassa nas vistoria e nos vigiamento, as lei do confessionário promete sê desalmada, quente como o fogo, malvada com os arrependimento fingido. num perdoa lamentação inventada, o remorso num pode sê postiço


a diferença das duas lei é qui as lei dos hôme só pode prová qui funciona nos preto e nos coitado qui num é ninguém, elas num pode chegá perto das fidalguia; as lei do siô padre promete num dá privilégio de riqueza, intromissão ou proteção, se fez e num se arrependeu com ajuda prática e mobiliária, vai pagá com castigo depois da morte da vida. mais inté chegá o dia do julgamento e da condenação vai podê usá o qui mentiu pra tê, fez sofrê pra conquistá, matô pra desfrutá. num entenda errado sua avoinha, muriquinho piquinino, as pessoa humana precisa tê um jeito pra mudá, recuá das coisa ruim. e se ocê, mifioneto, puruguntá se tem uma receita, num sei dizê, só sei da vida qui tive, o feitio de vivê qui vivi. sua avoinha fez as coisa boa qui pode fazê, as coisa ruim escoí num fazê todas, é simples, num tem mistério, Cuidado, sinhô Conde, vosmecê parece vacilante, definhando nas próprias intenções de arrependimento. Um bode não trai os outros bodes, guarda os segredos que lhe foram confiados com a própria vida, Não tenho vocação para bode expiatório, sinhô Padre.

o lado bão da bondade é num precisá mostrá nem escondê. num é preciso confessá as coisa boa feita, elas tem anúncio sem disfarce. a vida mostra. o carinho dos espritu vivo amorna as coisa boa e dura mais qui morrê, O sinhô Padre é um bode expiatório, o conde fez a purugunta e esperô a respiração do padinhu acalmá, Nunca me vi assim, O sinhô Padre guarda com a própria vida os serviços do confessionário? As confidências? As declarações de culpa?

passá mais tempo ajoeiado na casinha santa preparada pras delação da própria vida qui vivendo a vida, num é um bão consêio, mais se fô só assim qui o maldoso se segura, é bão nem tirá os joêio da escadaria, É isso, sinhô Conde, mais ou menos... eu e vosmecê como mais dois guardiões dos pecados do mundo.

Feito o juramento de servir aos interesses da Irmandade Freguesia da Harmonia podemos retirar a venda dos olhos, foi o do meio qui alterô o clamô das palavra dita, encheu as medida do salão com uns grito de amedrontá assombração, Retirem a venda do bode!

o siô bode conde teve vontade dele mesmo tirá o pano qui tapava as própria vista, mais esperô. tem veiz qui esperá é ganhá tempo, parece bobice proibí as própria vista de oiá, esclarecê com os óio qui tem, mais o bão bode aprende qui num perde nada se sabe esperá o libertadô qui gosta de libertá, mesmo qui tudo continue proibido. ele só precisa sabê escôie o lado qui tá o libertadô da vida com menô tormento. aceitá um lugá qui num pode sê tudo colorido. continuava no jogo de podê do confessionário, apostava nas lei da fortuna, brincava de amigo como a peste brinca com a morte, O que seria de nós, sinhô Padre, se não existissem os negros, puruguntava um bode qui sabia empunhá a fartura poderosa das riqueza no uso da chibata, sem nenhum fio de dó ou arrependimento. sabia vendê carne de gente preta como comprava bicho ou pedaço de terra ou as carne das moça da Maria Cobra, se tinha preço ele comprava e vendia, Não tenho tempo para perder com meiguices, sinhô Padre, num sabe de dizê, num sabê de oiá nem nunca vai sabê, o tempo é um rio qui sem as memória das água fica descuidado e caduca. esquece de entendê as cicatriz qui ficô, as pedra no leito seco, as árvore caída nas margem esfarelando, as rachadura, inté qui num é mais seco nem rio, é otra vida qui vive e num sabe qui já foi rio, e depois, rio seco. as lembrança do tempo vira pó de tão desvestido qui o rio do tempo fica

as mão do siô padre soltô a venda, abriu-se a iluminura. o conde abriu e fechô as vista. abriu, novamente. e de novo, inté qui acostumô com a Freguesia da Harmonia. as lamparina acessa. recuô um passo quando viu os três hôme encapuzado. eles apontava na sua direção três espada afiada nos dois lado. deu otro passo atrás, o siô padre lhe segurô o braço, Calma, sinhô Conde, as espadas apontadas para si significam sua proteção em caso de perigo. É só pedir nossa ajuda.

todas as espadas presentes foram convocadas numa cercadura de roda, o siô bode foi colocado no meio. ele era a mira da proteção. num era a ameaça. podia sentí qui a encenação toda tinha dois sentido

Somos a vida! E a morte!

o mais quieto e menó dos três encapuzado degolô o bode. e verteu o sangue numa bacia. depois colocô o líquido tinto e morno num cálice. foi passando de mão em mão, inté tudo sê bebido pelos bode

Meus irmãos, não existe iniciação sem morte! Vida longa ao novo irmão! Viva! Vida longa!

num tem rio qui num seca, tudo passa. as cicatriz do rio seco vira nada, flutua ausente e desconhecida acima das água qui se transformô em céu, descansa pousada no saco da criação antes do início dos tempos com Olorum



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Histórias de avoinha: Yao ê auê Onilé é dona de tudo ie aô, a Mãe Terra, Aiyê
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terça-feira, 30 de junho de 2015

Contos de Calvino: Consciência (02)

Ítalo Calvino



Consciência


Veio uma guerra e um tal de Luigi perguntou se podia ir, como voluntário.

Todos lhe fizeram um monte de cumprimentos. Luigi foi ao lugar onde davam os fuzis, pegou um e disse: - Agora vou matar um tal de Alberto.

Perguntaram-lhe quem era esse Alberto.

- Um inimigo – respondeu -, um inimigo que eu tenho.

Os outros o fizeram compreender que devia matar inimigos de um determinado tipo, e não os que ele queria matar.

- Eu, hein? – disse Luigi. – Estão achando que eu sou ignorante? Esse tal de Alberto é exatamente desse tipo e desse tal país. Quando eu soube que vocês estavam em guerra contra eles, pensei: também vou, assim posso matar o Alberto. Por isso é que eu vim, eu o conheço: é um patife e, em troca de uns poucos tostões, me fez fazer um papelão na frente de uma mulher. São histórias antigas. Se não acreditam, conto tudo em detalhes.

Eles disseram que sim, que estava tudo bem.

- Então – disse Luigi – me expliquem onde está o Alberto, assim eu vou lá e luto contra ele.

Eles disseram que não sabiam.

- Não faz mal - disse Luigi -, eu vou dar um jeito. Mais cedo ou mais tarde vou encontrá-lo.

Os outros lhe disseram que era impossível, que ele devia fazer a guerra onde o pusessem, matar quem aparecesse, e que de Alberto ou não Alberto eles não sabiam de nada.

- Estão vendo – Luigi insistia -, eu realmente preciso contar para vocês. Porque esse aí é um verdadeiro patife e vocês fazem bem de guerrear contra ele.

Mas os outros não queriam nem saber.

Luigi não conseguia entender: - Desculpem, mas, para vocês, se mato um inimigo ou se mato um outro é a mesma coisa. Mas, para mim, matar alguém que talvez não tenha nada a ver com Alberto não me agrada.

Os outros perderam a paciência. Alguém lhe explicou as muitas razões para se fazer uma guerra e como fazê-la, e que ninguém podia ir atrás de quem bem entendesse.

Luigi deu de ombros. – Se é assim – disse -, eu não fico.

- Fica e vai! – eles gritaram.

- Avante-marchar, um-dois, um-dois! – E o mandaram ir para a guerra.

Luigi não estava contente. Matava inimigos, assim, para ver se por acaso matava também Alberto ou algum parente dele. Davam-lhe uma medalha por cada inimigo que matava, mas ele não estava contente. – Se eu não matar Alberto – pensava -, terei matado muita gente à toa. – E sentia remorso.

Enquanto isso, recebia uma medalha atrás da outra, de todos os metais.

Luigi pensava: - Mate hoje, mate amanhã, os inimigos diminuirão e também chegará a vez daquele patife.

Mas os inimigos se renderam antes que Luigi tivesse encontrado Alberto. Sentiu remorso de ter matado tanta gente à toa, e, quando chegou a paz, ele pôs todas as medalhas num saco e vagou pela terra dos inimigos para oferecê-las aos filhos e às mulheres dos mortos.

Acontece que, vagando, encontrou Alberto.

- Muito bem – disse -, antes tarde do que nunca. – E o matou.

Foi então que o prenderam, processaram-no por homicídio e o enforcaram. Durante o processo ele não se cansava de repetir que tinha feito aquilo para ficar em paz com a sua consciência, mas ninguém quis ouvi-lo.



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Leia também:

Contos de Calvino:
A Ovelha Negra (03)




Italo Calvino (1923 – 85) nasceu em Santiago de Las Vegas, Cuba, e foi para a Itália logo após o nascimento. Participou da resistência ao fascismo durante a guerra e foi membro do Partido Comunista até 1956. Publicou sua primeira obra, A trilha dos ninhos da aranha, em 1947.



Calvino, Italo, 1923-1985.

Um general na biblioteca / Italo Calvino ; tradução Rosa Freire d’Aguiar – São Paulo: compainha das Letras, 2001.


Título original: Prima che tu dica “pronto”.

Federico García Lorca (España)

Los Poetas del Amor (26)



Preciosa y el Aire


A Dámaso Alonso

Su luna de pergamino
Preciosa tocando viene
por un anfibio sendero
de cristales y laureles.
El silencio sin estrellas,
huyendo del sonsonete,
cae donde el mar bate y canta
su noche llena de peces.
En los picos de la sierra
los carabineros duermen
guardando las blancas torres
donde viven los ingleses.
Y los gitanos del agua
levantan por distraerse
glorietas de caracolas
y ramas de pino verde.

Su luna de pergamino
Preciosa tocando viene.
Al verla se ha levantado
el viento que nunca duerme.
San Cristobalón desnudo,
lleno de lenguas celestes,
mira a la niña tocando
una dulce gaita ausente.
-Niña, deja que levante
tu vestido para verte.
Abre en mis dedos antiguos
la rosa azul de tu vientre.

Preciosa tira el panadero
y corre sin detenerse.
El viento-hombrón la persigue
con una espada caliente.

Frunce su rumor el mar.
Los olivos palidecen.
Cantan las flautas de umbría
y el liso gong de nieve.

¡Preciosa, corre, Preciosa,
que te coge el viento verde!
¡Preciosa, corre, Preciosa!
¡Miralo por dónde viene!
Sátiro de estrellas bajas
con sus lenguas relucientes.

Preciosa, llena de miedo,
entra en la casa que tiene,
mas arriba de los pinos,
el consul de los ingleses.

Asustados por los gritos
tres carabineros vienen,
sus negras capas ceñidas
y los gorros en las sienes.

El inglés da a la gitana
un vaso de tibia leche,
y una copa de ginebra
que Preciosa no se bebe.

Y mientras cuenta, llorando,
su aventura a aquella gente,
en las tejas de pizarra
el viento furioso muerde.





Pablo Neruda (Chile)



El Miedo


Qué pasó? Qué pasó? Còmo pasó?
Cómo pudo pasar? Pero lo cierto
es que pasó y lo claro es que pasó,
se fue, se fue el dolor a no volver:
cayó el error en su terrible embudo,
de allí nació su juventud de acero.
Y la esperanza levantó sus dedos. 
Ay sombría bandera que cubrió 
la hoz victoriosa, el peso del martillo 
con una sola pavorosa efigie!

Yo la vi en mármol, en hierro platean,
en la tosca madera del Ural 
y sus bigotes eran dos raíces, 
y la vi en plata, en nácar, en cartón, 
en corcho, en piedra, en cinc, en 
alabastro, 
en azúcar, en piedra, en sal, en jade, 
en carbón, en cemento, en seda, en 
barro,
en plástico, en arcilla, en hueso, en 
oro
de un metro, de diez metros, de cien 
metros,
de dos milímetros en un grano de 
arroz, 
de mil kilómetros en tela colorada. 
Siempre aquellas estatuas estucadas 
de bigotudo dios con botas puestas 
y aquellos pantalones impecables 
que planchó el servilismo realista. 
Yo vi a la entrada del hotel, en medio 
de la mesa, en la tienda, en la 
estaciòn, 
en los aeropuertos constelados, 
aquella efigie fría de un distante:
de un ser que, entre uno y otro 
movimiento,
se quedó inmòvil, muerto en la 
victoria.
Y aquel muerto regía la crueldad 
desde su propia estatua innumerable 
aquel inmòvil gobernò la vida.








José Martí (Cuba)



Versos Sencillos


Yo soy un hombre sincero
De donde crece la palma.
Y antes de morirme quiero
Echar mis versos del alma.
Yo vengo de todas partes,
Y hacia todas partes voy:
Arte soy entre las artes,
En los montes, monte soy.
Yo sé los nombres extraños
De las yerbas y las flores,
Y de mortales engaños,
Y de sublimes dolores.
Yo he visto en la noche oscura
Llover sobre mi cabeza
Los rayos de lumbre pura
De la divina belleza.
Alas nacer vi en los hombros
De las mujeres hermosas:
Y salir de los escombros
Volando las mariposas.
He visto vivir a un hombre
Con el puñal al costado,
Sin decir jamás el nombre
De aquella que lo ha matado.
Rápida, como un reflejo,
Dos veces vi el alma, dos:
Cuando murió el pobre viejo,
Cuando ella me dijo adiós.
Temblé una vez –en la reja,
A la entrada de la viña.—
Cuando la bárbara abeja
Picó en la frente a mi niña.
Gocé una vez, de tal suerte
Que gocé cual nunca: --cuando
La sentencia de mi muerte
Leyó el alcalde llorando.

Oigo un suspiro, a través
De las tierras y la mar,
Y no es un suspiro, --es
Que mi hijo va a despertar.
Si dicen que del joyero
Tome la joya mejor
Tomo a un amigo sincero
Y pongo a un lado el amor.
Yo he visto al águila herida
Volar al azul sereno,
Y morir en su guarida
La víbora del veneno.
Yo sé bien que cuando el mundo
Cede, lívido, al descanso,
Sobre el silencio profundo
Murmura el arroyo manso.
Yo he puesto la mano osada
De horror y júbilo yerta,
Sobre la estrella apagada
Que cayó frente a mi puerta.
Oculto en mi pecho bravo
La pena que me lo hiere:
El hijo de un pueblo esclavo
Vive por él, calla, y muere.
Todo es hermoso y constante,
Todo es música y razón,
Y todo, como el diamante,
Antes que luz es carbón.
Yo sé que el necio se entierra
Con gran lujo y con gran llanto,--
Y que no hay fruta en la tierra
Como la del camposanto.
Callo, y entiendo, y me quito
La pompa del rimador:
Cuelgo de un árbol marchito
Mi muceta de doctor.


V

Si ves un monte de espumas,
Es mi verso lo que ves:
Mi verso es un monte, y es
Un abanico de plumas.
Mi verso es como un puñal
Que por el puño echa flor:
Mi verso es un surtidor
Que da un agua de coral.
Mi verso es de un verde claro
Y de un carmín encendido:
Mi verso es un ciervo herido
Que busca en el monte amparo.
Mi verso al valiente agrada:
Mi verso, breve y sincero,
Es del vigor del acero
Con que se funde la espada.


X

El alma trémula y sola
Padece al anochecer:
Hay baile; vamos a ver
La bailarina española.
Han hecho bien en quitar
El banderón de la acera;
Porque si está la bandera,
No sé, yo no puedo entrar.
Ya llega la bailarina:
Soberbia y pálida llega:
¿Cómo dicen que es gallega?
Pues dicen mal: es divina.
Lleva un sombrero torero
Y una capa carmesí:
¡Lo mismo que un alelí!
Que se pusiese un sombrero!
Se ve, de paso, la ceja,
Ceja de mora traidora:
Y la mirada, de mora:
Y como nieve la oreja.
Preludian, bajan la luz,
Y sale en bata y mantón,
La virgen de la Asunción
Bailando un baile andaluz.
Alza, retando, la frente;
Crúzase al hombre la manta:
En arco el brazo levanta:
Mueve despacio el pie ardiente.
Repica con los tacones
El tablado zalamera,
Como si la tabla fuera
Tablado de corazones.
Y va el convite creciendo
En las llamas de los ojos,
Y el manto de flecos rojos
Se va en el aire meciendo.
Súbito, de un salto arranca:
Húrtase, se quiebra, gira:
Abre en dos la cachemira,
Ofrece la bata blanca.
El cuerpo cede y ondea;
La boca abierta provoca;
Es un rosa la boca:
Lentamente taconea.
Recoge, de un débil giro,
El manto de flecos rojos:
Se va, cerrando los ojos,
Se va, como en un suspiro...
Baila muy bien la española;
Es blanco y rojo el mantón:
¡Vuelve, fosca a su rincón,
El alma trémula y sola!


XI

Yo tengo un paje muy fiel
Que me cuida y que me gruñe,
Y al salir, me limpia y bruñe
Mi corona de laurel.
Yo tengo un paje ejemplar
Que no come, que no duerme,
Y que se acurruca a verme
Trabajar, y sollozar.
Salgo, y el vil se desliza
Y en mi bolsillo aparece;
Vuelvo, y el terco me ofrece
Una taza de ceniza.
Si duermo, al rayar el día
Se sienta junto a mi cama:
Si escribo, sangre derrama
Mi paje en la escribanía.
Mi paje, hombre de respeto,
Al andar castañetea:
Hiela mi paje, y chispea:
Mi paje es un esqueleto.


XVIII

Es rubia: el cabello suelto
Da más luz al ojo moro:
Voy, desde entonces, envuelto
En un torbellino de oro.
La abeja estival que zumba
Más ágil por la flor nueva,
No dice, como antes, "tumba":
"Eva" dice: todo es "Eva".
Bajo, en lo oscuro, al temido
Raudal de la catarata:
¡Y brilla el iris, tendido
Sobre las hojas de plata!
Miro, ceñudo, la agreste
Pompa del monte irritado;
¡Y en el alma azul celeste
Brota un jacinto rosado!
Voy, por el bosque, a paseo
A la laguna vecina:
Y entre las ramas la veo,
Y por el agua camina.
La serpiente del jardín
Silva, escupe, y se resbala
Por su agujero: el clarín
Me tiende, trinando, el ala.
¡Arpa soy, salterio soy
Donde vibra el Universo:
Vengo del sol, y al sol voy:
Soy el amor: soy el verso!


XII

Estoy en el baile extraño
De polaina y casaquín
Que dan, del año hacia el fin,
Los cazadores del año.
Una duquesa violeta
Va con un frac colorado:
Marca un vizconde pintado
El tiempo en la pandereta.
Y pasan las chupas rojas;
Pasan los tules de fuego,
Como delante de un ciego
Pasan volando las hojas.


XLV

Sueño con claustros de mármol
Donde en silencio divino
Los héroes, de pie, reposan:
¡De noche, a la luz del alma,
Hablo con ellos: de noche!
Están en fila: paseo
Entre las filas: las manos
De piedra les beso: abren
Los ojos de piedra: mueven
Los labios de piedra: tiemblan
Las barbas de piedra: empuñan
La espada de piedra: lloran:
¡Vibra la espada en la vaina!:
Mudo, les beso la mano.
Hablo con ellos, de noche!
Están en fila: paseo
Entre las filas: lloroso
Me abrazo a un mármol: "Oh mármol,
Dicen que beben tus hijos
Su propia sangre en las copas
Venenosas de sus dueños!
Que hablan la lengua podrida
De sus rufianes! que comen
Juntos el pan del oprobio,
En la mesa ensangrentada!!
Que pierden en lengua inútil
El último fuego!: ¡dicen,
Oh mármol, mármol dormido,
Que ya se ha muerto tu raza!"
Échame en tierra de un bote
El héroe que abrazo: me ase
Del cuello: barre la tierra
Con mi cabeza: levanta
El brazo, ¡el brazo le luce
Lo mismo que un sol!: resuena
La piedra: buscan el cinto
Las manos blancas: del soclo
Saltan los hombres de mármol!


XLVI

Vierte, corazón, tu pena
Donde no se llegue a ver,
Por soberbia, y por no ser
Motivo de pena ajena.
Yo te quiero, verso amigo,
Porque cuando siento el pecho
Ya muy cargado y deshecho,
Parto la carga contigo.
Tú me sufres, tú aposentas
En tu regazo amoroso,
Todo mi ardor doloroso,
Todas mis ansias y afrentas.

Tú, porque yo pueda en calma
Amar y hacer bien, consientes
En enturbiar tus corrientes
En cuanto me agobia el alma.
Tú, porque yo cruce fiero
La tierra, y sin odio, y puro,
Te arrastras, pálido y duro,
Mi amoroso compañero.
Mi vida así se encamina
Al cielo limpia y serena,
Y tú me cargas mi pena
Con tu paciencia divina.
Y porque mi cruel costumbre
De echarme en ti te desvía
De tu dichosa armonía
Y natural mansedumbre;
Porque mis penas arrojo
Sobre tu seno, y lo azotan,
Y tu corriente alborotan,
Y acá lívido, allá rojo,
Blanco allá como la muerte,
Ora arremetes y ruges,
Ora con el peso crujes
De un dolor más que tú fuerte.
¿Habré, como me aconseja
Un corazón mal nacido,
De dejar en el olvido
A aquel que nunca deja?
¡Verso, nos hablan de un Dios
A donde van los difuntos:
Verso, o nos condenan juntos,
O nos salvamos los dos!