Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Sexta Parte
IV
Ao saírem de Rasseneur, Etienne e Catherine caminharam em
silêncio. O degelo começava, um degelo frio e lento, que sujava a neve sem
derretê-la. No céu lívido notava-se a lua cheia por detrás de grandes nuvens,
farrapos negros que uma ventania altíssima varria furiosamente. Na terra
não soprava nenhuma aragem, só se ouvia o gotejar dos telhados, de onde
caíam bolas brancas, numa queda suave.
Etienne, embaraçado com a presença daquela mulher que lhe
presenteavam, não sabia o que dizer, de tão sem jeito. A ideia de levá-la
consigo e escondê-la em Réquillart parecia-lhe absurda. Preferia conduzi-la
ao conjunto habitacional, para a casa dos pais, mas ela recusava, cheia de
pavor: não, não, tudo menos voltar para a família depois de a ter deixado de
maneira tão ignóbil. E nenhum dos dois conseguia dizer palavra,
caminhavam ao acaso pelos caminhos que se transformavam em lodaçais.
Primeiro tinham descido em direção à Voreux, depois dobraram à direita,
passando entre o aterro e o canal.
— Mas tens que dormir em algum lugar — disse ele afinal. — Se
eu tivesse ao menos um quarto, levava-te comigo...
Calou-se, cheio de timidez. Seu passado vinha-lhe à memória, seus
enormes desejos de outrora, as delicadezas e as vergonhas que os tinham
impedido de se juntarem. Acaso a quereria ainda, para se sentir tão confuso,
com o coração pulsando cada vez mais forte de desejo renascido? A
lembrança das bofetadas que ela lhe dera na Gaston-Marie agora o excitava,
em vez de enchê-lo de rancor. E estava surpreendido; a ideia de levá-la para
Réquillart já lhe parecia completamente natural e de fácil execução.
— Vamos, decide-te, onde queres que te leve? Tu me detestas tanto
que não queres vir comigo...
Ela seguia-o lentamente, atrapalhada com os escorregões penosos
dos tamancos nos sulcos do caminho. Sem erguer a cabeça, murmurou:
— Já sou bastante desgraçada, pelo amor de Deus, não me faças
sofrer mais! De que adianta dizer isso, agora que já tenho um homem e tu
tens uma mulher?
Referia-se à filha de Mouque. Julgava que viviam juntos, pois esse
era o boato que corria havia uns quinze dias. E quando ele negou, jurando,
ela balançou a cabeça e lembrou a noite em que os vira beijando-se na boca.
— Não é uma pena todas essas besteiras? — continuou ele a meia
voz e parando. — Nós nos teríamos entendido tão bem...
A moça respondeu com estremecimento:
— Vamos, não te lamentes, não estás perdendo grande coisa. Se
soubesses o traste inútil que sou, magra como um esqueleto, tão mal
acabada que nunca serei uma mulher, juro-te!
E continuou a falar livremente, acusando-se como de uma falta,
daquele longo atraso de sua puberdade.
Isso, apesar de já ter tido um homem, diminuía-a, relegava-se às
fileiras das meninas. Quando se pode ter um filho, ainda há desculpa.
— Minha pobre criança! — murmurou Etienne, cheio de grande
piedade.
Encontravam-se ao pé do aterro, escondidos à sombra do monte
enorme. Uma nuvem de chumbo passava justamente pela lua, não podiam
ver um ao outro, e seus hálitos se misturavam, seus lábios se buscavam,
para o beijo cujo desejo os atormentara durante meses. Mas a lua
reapareceu de repente, e viram por cima deles, no alto das rochas brancas de
luz, a sentinela perfilada, que guardava a mina. E, sem que se tivessem
beijado, separou-os o pudor, esse pudor antigo onde havia cólera, uma vaga
repugnância e muito de amizade. Recomeçaram a vagarosa caminhada, com
lama até os tornozelos.
— Então está decidido: tu não queres... — disse Etienne.
— Não — respondeu ela. — Primeiro o Chaval, agora tu depois um
outro... Não, tenho nojo disso. Ademais, não sinto prazer algum, para que
fazer, então?
Calaram-se, andaram mais cem passos, sem trocar palavra.
— Mas ao menos sabes para onde é que vais? Não posso deixar-te
ao deus-dará com uma noite dessa.
Ela respondeu com naturalidade:
— Volto para casa, para Chaval, é com ele que tenho de ficar.
— Mas ele te prometeu uma surra!
O silêncio recomeçou. Ela dera de ombros, resignada. Sim, ele a
espancaria, e, quando estivesse cansado de bater, pararia; preferia isso a
andar rolando pelas sarjetas, como uma meretriz. E depois, já estava
acostumada a apanhar; dizia mesmo, para se consolar, que, em dez
mulheres, oito não viviam melhor que ela. Se um dia Chaval quisesse casar,
tudo estaria resolvido.
Etienne e Catherine dirigiram-se inconscientemente para Montsou,
e, à medida que se aproximavam, seus silêncios ficavam mais longos. Era
como se não estivessem mais caminhando juntos. O rapaz não encontrava
nada para dizer que pudesse convencê-la, apesar da grande tristeza que
sentia de vê-la voltando para Chaval. Seu coração estava despedaçado, nada
tinha a oferecer senão uma existência de miséria e fuga, uma noite sem
amanhã, se a bala de algum soldado lhe varasse a cabeça. Talvez mesmo
fosse mais sensato não procurar novos sofrimentos. E assim reconduziu-a à
casa do amante, de cabeça baixa, e não fez um gesto de protesto quando, já
na estrada real, ela parou à esquina do depósito da companhia, a vinte
metros do Piquette, dizendo:
— Volta daqui. Se ele te vê, vai querer brigar de novo. Davam onze
horas na igreja, o botequim estava fechado, mas a luz passava pelas frestas
da porta.
— Adeus — murmurou a moça.
Estendeu-lhe a mão, que ele prendeu entre as suas; com esforço,
lenta e penosamente, ela retirou-a, para deixá-lo. Sem olhar para trás, entrou
pela porta pequena, com sua chave. Mas o rapaz permaneceu onde estava,
espiando a casa, ansioso por saber o que se passava lá dentro. Apurou o
ouvido, tremia com receio de ouvir os gritos de uma mulher sendo
espancada. A casa conservava-se escura e silenciosa, apenas via luz numa
janela do primeiro andar; e, como essa janela se abrisse e ele reconhecesse a
figura franzina que se debruçava sobre a estrada, avançou.
Catherine, então, disse em voz muito baixa:
— Ele não voltou ainda, vou deitar-me. Vai embora, pelo amor de
Deus!
Etienne partiu. O degelo aumentava, era como se a chuva rolasse
dos telhados, um suor de umidade escorria das paredes, dos tapumes, de
todas a» massas confusas daquela zona industrial, perdida na noite.
Primeiro dirigiu-se para Réquillart, doente de tristeza e cansaço, querendo
apenas desaparecer, ser tragado pela terra, mas, em seguida, começou a
atormentá-lo a ideia da Voreux, dos operários belgas que iam começar a
trabalhar ali, e vieram-lhe à memória os companheiros exasperados contra
os soldados, resolvidos a não tolerar estrangeiros na sua mina. Dirigiu-se
novamente para lá, costeando o canal, atolando-se nas poças de neve
derretida.
Quando se viu novamente perto do aterro, a lua surgiu, muito clara.
Levantou os olhos, olhou o céu, onde havia uma cavalgada de nuvens
impelidas pela ventania que soprava no alto. Agora, porém, elas estavam
esbranquiçadas, esfiapadas, mais leves, de uma transparência baça de água
turva sobre a face da lua, e correndo tão rápidas que o astro, velado por
momentos, incessantemente reaparecia na sua limpidez.
Com os olhos cheios daquela claridade pura, Etienne baixou a
cabeça, detendo a vista num espetáculo que se desenrolava no cimo do
aterro. A sentinela, entorpecida pelo frio, não mais conseguindo ficar
parada, agora dava guarda andando vinte e cinco passos voltada para o lado
de Marchiennes, fazia meia-volta e caminhava outro tanto, de frente para
Montsou. Via-se o brilho prateado da baioneta pairando acima da silhueta
escura do soldado, recortada nitidamente contra a palidez do céu. Mas o que
interessava ao rapaz era uma sombra móvel, um bicho de rastos e à espreita,
em quem logo reconheceu Jeanlin pelo dorso de fuinha, longo e
desengonçado, emboscado por trás da cabana onde o velho Boa-Morte se
abrigava nas noites de temporal. A sentinela não podia vê-lo, com certeza o
pequeno bandido preparava alguma das suas, pois andava furioso com os
soldados, perguntando quando se veriam livres daqueles assassinos, que ali
estavam com seus fuzis para matar a gente.
Etienne hesitou, não sabendo se devia chamá-lo, para evitar que
fizesse alguma bobagem. Num dos momentos em que a lua se escondeu,
viu-o preparando-se para saltar, só não o tendo feito porque o astro voltou a
brilhar. Invariavelmente a sentinela avançava até a cabana, dava meia-volta
e repetia o trajeto já feito. Repentinamente, aproveitando as sombras de
uma nuvem, Jeanlin saltou nas costas do soldado com um pulo enorme de
gato do mato e agarrou-se a ele com suas garras, cravando-lhe o canivete na
garganta. Como o colarinho duro resistisse, empunhou a arma com ambas
as mãos e abateu-a com todo o peso do corpo. Já estava acostumado a
sangrar as galinhas que encontrava ciscando por perto das fazendas. Fez um
trabalho tão rápido, que só se ouviu na noite um grito sufocado e o ruído
cavo do fuzil caindo. A lua, muito branca, brilhava outra vez.
Paralisado de espanto, Etienne continuava a olhar. Uma exclamação
fora estrangulada no fundo do seu peito. No alto, o aterro estava deserto, já
não se distinguia sombra alguma sob a fuga descontrolada das nuvens.
Subiu correndo para encontrar Jeanlin de gatinhas diante do cadáver que
caíra de costas e braços abertos. Na neve, ao luar, as calças vermelhas e o
capote cinzento destacavam-se duramente. Não correra uma única gota de
sangue, a faca ainda estava enterrada até o cabo na garganta.
Com um soco furioso e irrefletido ele prostrou o menino ao lado do
corpo.
— Por que fizeste isso? — gaguejou, desesperado.
Jeanlin soergueu-se, rastejou sobre as mãos, com o arqueamento
felino do seu dorso magro; e as suas grandes orelhas, seus olhos verdes,
suas maxilas salientes fremiam e faiscavam na excitação do crime.
— Fala, demônio! Por que fizeste isso?
— Sei lá, tive vontade.
E insistiu naquela resposta. Havia três dias que tinha vontade de
fazer aquilo. Só pensava nisso, chegava a andar com dor de cabeça de tanto
pensar. Para que preocupar-se por causa desses soldados imundos que
vinham incomodar os mineiros em suas próprias casas? Dos discursos
violentos na floresta, dos gritos de devastação e morte ecoados nas minas,
cinco ou seis palavras tinham ficado na sua memória, e ele agora as repetia,
brincando de revolução. Outras explicações não sabia dar, ninguém o tinha
empurrado, imaginara tudo sozinho, da mesma maneira que planejava
roubar cebolas nas plantações.
Etienne, abismado com aquele brotar surdo do crime no fundo de
um cérebro de criança, escorraçou-o de novo com um pontapé, como a uma
besta inconsciente. Temia que a guarnição da Voreux tivesse ouvido o grito
abafado da sentinela e olhava para a mina a cada vez que a lua surgia. Mas
nada se mexia, e ele debruçou-se sobre o cadáver, tocou as mãos que
esfriavam, auscultou o coração arado sob o capote. Da faca só se via o cabo
de osso, onde a divisa galante, a simples palavra "Amor", estava gravada
em letras negras. Seus olhos correram da garganta para o rosto e ele
reconheceu o soldadinho, era Jules, o recruta, com quem conversara num
amanhecer. Sentiu uma enorme piedade diante daquele rosto de louro, cheio
de sardas. Os olhos azuis, arregalados, contemplavam o céu com o mesmo
olhar fixo com que o vira esquadrinhando o horizonte em busca da terra
natal. Onde seria a região de Plogoff que lhe aparecia sob um sol
resplandecente? Ah! longe, muito longe. Com aquela noite de temporal o
mar bramia a distância. Esse vento que soprava tão alto tinha talvez passado
pela charneca. Duas mulheres estavam paradas — a mãe, a irmã — de
cabelos ao vento, olhando também, como se pudessem ver o que a esta hora
estava fazendo o seu menino para além das léguas e léguas que os
separavam. De agora em diante elas continuariam a esperá-lo. Que coisa
detestável era isso, os pobres-diabos matarem-se entre si, pelos ricos!
continua na página 357...
____________________
Terceira Parte - (I.a) No dia seguinte / Quarta Parte - (I.a) / Quinta Parte - (I.a) / Quinta Parte - (I.b) /
Quinta Parte - (II.a) / Quinta Parte - (II.b) / Quinta Parte - (III) / Quinta Parte - (IV.a) / Quinta Parte - (IV.b) /
Quinta Parte - (V.a) / Quinta Parte - (V.b) / Quinta Parte - (VI.a) / Quinta Parte - (VI.b) / Sexta Parte - (I.a) /
Sexta Parte - (I.b) / Sexta Parte - (II.a) / Sexta Parte - (II.b) / Sexta Parte - (III.a) / Sexta Parte - (III.b) / Sexta Parte - (IV.a) /
____________________
O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário