domingo, 16 de agosto de 2026

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (IV.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

IV


     Ao saírem de Rasseneur, Etienne e Catherine caminharam em silêncio. O degelo começava, um degelo frio e lento, que sujava a neve sem derretê-la. No céu lívido notava-se a lua cheia por detrás de grandes nuvens, farrapos negros que uma ventania altíssima varria furiosamente. Na terra não soprava nenhuma aragem, só se ouvia o gotejar dos telhados, de onde caíam bolas brancas, numa queda suave.
     Etienne, embaraçado com a presença daquela mulher que lhe presenteavam, não sabia o que dizer, de tão sem jeito. A ideia de levá-la consigo e escondê-la em Réquillart parecia-lhe absurda. Preferia conduzi-la ao conjunto habitacional, para a casa dos pais, mas ela recusava, cheia de pavor: não, não, tudo menos voltar para a família depois de a ter deixado de maneira tão ignóbil. E nenhum dos dois conseguia dizer palavra, caminhavam ao acaso pelos caminhos que se transformavam em lodaçais. Primeiro tinham descido em direção à Voreux, depois dobraram à direita, passando entre o aterro e o canal. 

— Mas tens que dormir em algum lugar — disse ele afinal. — Se eu tivesse ao menos um quarto, levava-te comigo...

     Calou-se, cheio de timidez. Seu passado vinha-lhe à memória, seus enormes desejos de outrora, as delicadezas e as vergonhas que os tinham impedido de se juntarem. Acaso a quereria ainda, para se sentir tão confuso, com o coração pulsando cada vez mais forte de desejo renascido? A lembrança das bofetadas que ela lhe dera na Gaston-Marie agora o excitava, em vez de enchê-lo de rancor. E estava surpreendido; a ideia de levá-la para Réquillart já lhe parecia completamente natural e de fácil execução. 

— Vamos, decide-te, onde queres que te leve? Tu me detestas tanto que não queres vir comigo...

     Ela seguia-o lentamente, atrapalhada com os escorregões penosos dos tamancos nos sulcos do caminho. Sem erguer a cabeça, murmurou: 

— Já sou bastante desgraçada, pelo amor de Deus, não me faças sofrer mais! De que adianta dizer isso, agora que já tenho um homem e tu tens uma mulher?

     Referia-se à filha de Mouque. Julgava que viviam juntos, pois esse era o boato que corria havia uns quinze dias. E quando ele negou, jurando, ela balançou a cabeça e lembrou a noite em que os vira beijando-se na boca. 

— Não é uma pena todas essas besteiras? — continuou ele a meia voz e parando. — Nós nos teríamos entendido tão bem...

     A moça respondeu com estremecimento: 

— Vamos, não te lamentes, não estás perdendo grande coisa. Se soubesses o traste inútil que sou, magra como um esqueleto, tão mal acabada que nunca serei uma mulher, juro-te!

     E continuou a falar livremente, acusando-se como de uma falta, daquele longo atraso de sua puberdade.
     Isso, apesar de já ter tido um homem, diminuía-a, relegava-se às fileiras das meninas. Quando se pode ter um filho, ainda há desculpa. 

— Minha pobre criança! — murmurou Etienne, cheio de grande piedade.

     Encontravam-se ao pé do aterro, escondidos à sombra do monte enorme. Uma nuvem de chumbo passava justamente pela lua, não podiam ver um ao outro, e seus hálitos se misturavam, seus lábios se buscavam, para o beijo cujo desejo os atormentara durante meses. Mas a lua reapareceu de repente, e viram por cima deles, no alto das rochas brancas de luz, a sentinela perfilada, que guardava a mina. E, sem que se tivessem beijado, separou-os o pudor, esse pudor antigo onde havia cólera, uma vaga repugnância e muito de amizade. Recomeçaram a vagarosa caminhada, com lama até os tornozelos. 

— Então está decidido: tu não queres... — disse Etienne. 
— Não — respondeu ela. — Primeiro o Chaval, agora tu depois um outro... Não, tenho nojo disso. Ademais, não sinto prazer algum, para que fazer, então?

     Calaram-se, andaram mais cem passos, sem trocar palavra. 

— Mas ao menos sabes para onde é que vais? Não posso deixar-te ao deus-dará com uma noite dessa.

     Ela respondeu com naturalidade: 

— Volto para casa, para Chaval, é com ele que tenho de ficar. 
— Mas ele te prometeu uma surra!

     O silêncio recomeçou. Ela dera de ombros, resignada. Sim, ele a espancaria, e, quando estivesse cansado de bater, pararia; preferia isso a andar rolando pelas sarjetas, como uma meretriz. E depois, já estava acostumada a apanhar; dizia mesmo, para se consolar, que, em dez mulheres, oito não viviam melhor que ela. Se um dia Chaval quisesse casar, tudo estaria resolvido.
     Etienne e Catherine dirigiram-se inconscientemente para Montsou, e, à medida que se aproximavam, seus silêncios ficavam mais longos. Era como se não estivessem mais caminhando juntos. O rapaz não encontrava nada para dizer que pudesse convencê-la, apesar da grande tristeza que sentia de vê-la voltando para Chaval. Seu coração estava despedaçado, nada tinha a oferecer senão uma existência de miséria e fuga, uma noite sem amanhã, se a bala de algum soldado lhe varasse a cabeça. Talvez mesmo fosse mais sensato não procurar novos sofrimentos. E assim reconduziu-a à casa do amante, de cabeça baixa, e não fez um gesto de protesto quando, já na estrada real, ela parou à esquina do depósito da companhia, a vinte metros do Piquette, dizendo: 

— Volta daqui. Se ele te vê, vai querer brigar de novo. Davam onze horas na igreja, o botequim estava fechado, mas a luz passava pelas frestas da porta. 
— Adeus — murmurou a moça.

     Estendeu-lhe a mão, que ele prendeu entre as suas; com esforço, lenta e penosamente, ela retirou-a, para deixá-lo. Sem olhar para trás, entrou pela porta pequena, com sua chave. Mas o rapaz permaneceu onde estava, espiando a casa, ansioso por saber o que se passava lá dentro. Apurou o ouvido, tremia com receio de ouvir os gritos de uma mulher sendo espancada. A casa conservava-se escura e silenciosa, apenas via luz numa janela do primeiro andar; e, como essa janela se abrisse e ele reconhecesse a figura franzina que se debruçava sobre a estrada, avançou.
     Catherine, então, disse em voz muito baixa: 

— Ele não voltou ainda, vou deitar-me. Vai embora, pelo amor de Deus!

     Etienne partiu. O degelo aumentava, era como se a chuva rolasse dos telhados, um suor de umidade escorria das paredes, dos tapumes, de todas a» massas confusas daquela zona industrial, perdida na noite. Primeiro dirigiu-se para Réquillart, doente de tristeza e cansaço, querendo apenas desaparecer, ser tragado pela terra, mas, em seguida, começou a atormentá-lo a ideia da Voreux, dos operários belgas que iam começar a trabalhar ali, e vieram-lhe à memória os companheiros exasperados contra os soldados, resolvidos a não tolerar estrangeiros na sua mina. Dirigiu-se novamente para lá, costeando o canal, atolando-se nas poças de neve derretida.
     Quando se viu novamente perto do aterro, a lua surgiu, muito clara. Levantou os olhos, olhou o céu, onde havia uma cavalgada de nuvens impelidas pela ventania que soprava no alto. Agora, porém, elas estavam esbranquiçadas, esfiapadas, mais leves, de uma transparência baça de água turva sobre a face da lua, e correndo tão rápidas que o astro, velado por momentos, incessantemente reaparecia na sua limpidez.
     Com os olhos cheios daquela claridade pura, Etienne baixou a cabeça, detendo a vista num espetáculo que se desenrolava no cimo do aterro. A sentinela, entorpecida pelo frio, não mais conseguindo ficar parada, agora dava guarda andando vinte e cinco passos voltada para o lado de Marchiennes, fazia meia-volta e caminhava outro tanto, de frente para Montsou. Via-se o brilho prateado da baioneta pairando acima da silhueta escura do soldado, recortada nitidamente contra a palidez do céu. Mas o que interessava ao rapaz era uma sombra móvel, um bicho de rastos e à espreita, em quem logo reconheceu Jeanlin pelo dorso de fuinha, longo e desengonçado, emboscado por trás da cabana onde o velho Boa-Morte se abrigava nas noites de temporal. A sentinela não podia vê-lo, com certeza o pequeno bandido preparava alguma das suas, pois andava furioso com os soldados, perguntando quando se veriam livres daqueles assassinos, que ali estavam com seus fuzis para matar a gente.
     Etienne hesitou, não sabendo se devia chamá-lo, para evitar que fizesse alguma bobagem. Num dos momentos em que a lua se escondeu, viu-o preparando-se para saltar, só não o tendo feito porque o astro voltou a brilhar. Invariavelmente a sentinela avançava até a cabana, dava meia-volta e repetia o trajeto já feito. Repentinamente, aproveitando as sombras de uma nuvem, Jeanlin saltou nas costas do soldado com um pulo enorme de gato do mato e agarrou-se a ele com suas garras, cravando-lhe o canivete na garganta. Como o colarinho duro resistisse, empunhou a arma com ambas as mãos e abateu-a com todo o peso do corpo. Já estava acostumado a sangrar as galinhas que encontrava ciscando por perto das fazendas. Fez um trabalho tão rápido, que só se ouviu na noite um grito sufocado e o ruído cavo do fuzil caindo. A lua, muito branca, brilhava outra vez.
     Paralisado de espanto, Etienne continuava a olhar. Uma exclamação fora estrangulada no fundo do seu peito. No alto, o aterro estava deserto, já não se distinguia sombra alguma sob a fuga descontrolada das nuvens. Subiu correndo para encontrar Jeanlin de gatinhas diante do cadáver que caíra de costas e braços abertos. Na neve, ao luar, as calças vermelhas e o capote cinzento destacavam-se duramente. Não correra uma única gota de sangue, a faca ainda estava enterrada até o cabo na garganta.
     Com um soco furioso e irrefletido ele prostrou o menino ao lado do corpo. 

— Por que fizeste isso? — gaguejou, desesperado.

     Jeanlin soergueu-se, rastejou sobre as mãos, com o arqueamento felino do seu dorso magro; e as suas grandes orelhas, seus olhos verdes, suas maxilas salientes fremiam e faiscavam na excitação do crime. 

— Fala, demônio! Por que fizeste isso? 
— Sei lá, tive vontade.

     E insistiu naquela resposta. Havia três dias que tinha vontade de fazer aquilo. Só pensava nisso, chegava a andar com dor de cabeça de tanto pensar. Para que preocupar-se por causa desses soldados imundos que vinham incomodar os mineiros em suas próprias casas? Dos discursos violentos na floresta, dos gritos de devastação e morte ecoados nas minas, cinco ou seis palavras tinham ficado na sua memória, e ele agora as repetia, brincando de revolução. Outras explicações não sabia dar, ninguém o tinha empurrado, imaginara tudo sozinho, da mesma maneira que planejava roubar cebolas nas plantações.
     Etienne, abismado com aquele brotar surdo do crime no fundo de um cérebro de criança, escorraçou-o de novo com um pontapé, como a uma besta inconsciente. Temia que a guarnição da Voreux tivesse ouvido o grito abafado da sentinela e olhava para a mina a cada vez que a lua surgia. Mas nada se mexia, e ele debruçou-se sobre o cadáver, tocou as mãos que esfriavam, auscultou o coração arado sob o capote. Da faca só se via o cabo de osso, onde a divisa galante, a simples palavra "Amor", estava gravada em letras negras. Seus olhos correram da garganta para o rosto e ele reconheceu o soldadinho, era Jules, o recruta, com quem conversara num amanhecer. Sentiu uma enorme piedade diante daquele rosto de louro, cheio de sardas. Os olhos azuis, arregalados, contemplavam o céu com o mesmo olhar fixo com que o vira esquadrinhando o horizonte em busca da terra natal. Onde seria a região de Plogoff que lhe aparecia sob um sol resplandecente? Ah! longe, muito longe. Com aquela noite de temporal o mar bramia a distância. Esse vento que soprava tão alto tinha talvez passado pela charneca. Duas mulheres estavam paradas — a mãe, a irmã — de cabelos ao vento, olhando também, como se pudessem ver o que a esta hora estava fazendo o seu menino para além das léguas e léguas que os separavam. De agora em diante elas continuariam a esperá-lo. Que coisa detestável era isso, os pobres-diabos matarem-se entre si, pelos ricos!

continua na página 357...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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