terça-feira, 11 de agosto de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 3 (VII. Uma controvérsia)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO III
OS SENSUAIS
VII
UMA CONTROVÉRSIA
  
     Ora, a burra de Balaão pôs-se a falar de repente e a respeito de um tema estranho. De manhã, achando se Gregório na venda do comerciante Lukiánov, ouviu-o contar o seguinte: um soldado russo foi feito prisioneiro, numa região afastada, por asiáticos que o intimaram, sob ameaça de tortura e morte, a abjurar o cristianismo e a converter-se ao Islão. Tendo recusado trair sua fé, sofreu o martírio, deixou-se esfolar, morreu glorificando o Cristo. Esse fim heroico era relatado no jornal recebido naquela mesma manhã. Gregório falou disso à mesa. 
     Fiódor Pávlovitch sempre gostara, à sobremesa, de brincar e tagarelar, mesmo com Gregório. 'Estava desta vez de humor jovial, sentindo um relaxamento agradável. 
     Depois de ter escutado a notícia, bebericando seu conhaque, insinuou que deveriam ter canonizado aquele soldado e transferido sua pele para um mosteiro. "O povo cobri-la-ia de dinheiro." Gregório fechou a cara, vendo que Fiódor Pávlovitch, longe de se emendar, continuava a zombar das coisas santas.
     Naquele momento, Smierdiákov, que se mantinha perto da porta, sorriu. Já antes era muitas vezes admitido na sala de jantar, ao fim da refeição. Desde a chegada de Ivã Fiódorovitch, ali comparecia quase diariamente.

— Pois bem? O quê? — perguntou Fiódor Pávlovitch, compreendendo que aquele sorriso visava a Gregório.
— Penso naquele bravo soldado — disse, de repente, Smierdiákov, em voz alta. — Seu heroísmo é sublime, mas na minha opinião não teria havido, em semelhante caso, nenhum pecado em renegar o nome do Cristo e o batismo, para assim salvar sua vida e consagrá-la às boas obras, que resgatariam um momento de fraqueza.
— Como, nenhum pecado? Mentes; isto te valerá ir para o inferno, onde te assarão como a um carneiro — replicou Fiódor Pavlovitch.

     Foi então que chegou Aliócha, para grande satisfação de Fiódor Pavlovitch, como se viu.

— Trata-se de teu tema favorito — continuou ele, com um riso de escárnio, fazendo Aliócha sentar-se.
— Tolices tudo isso, não haverá nenhuma punição, não deve haver, em toda justiça — afirmou Smierdiákov.
— Como em toda justiça? — exclamou Fiódor Pavlovitch, redo- brando de alegria e empurrando Aliócha com os joelhos.  
— Um desavergonhado, eis o que ele é! — deixou escapar Gregório, fitando Smierdiákov com cólera. 
— Quanto a isso de desavergonhado, refreie-se, Gregório Vassílievitch! — replicou Smierdiákov, conservando seu sangue-frio. — Pense antes que, caído em poder dos que torturam os cristãos, e intimado por eles a maldizer o nome de Deus e renegar meu batismo, minha própria razão me autoriza a isso plenamente, porque não pode haver aí nenhum pecado. 
— Já o disseste, não divagues, mas prova-o! — gritou Fiódor Pavlovitch. 
— Queima-panelas! — murmurou Gregório com desprezo.
— Queima-panelas, espere um pouco, e sem palavrões, julgue você mesmo, Gregório Vassílievitch. Porque, logo que dissesse a meus carrascos: "Não, não sou cristão e maldigo o verdadeiro Deus", tornar-me-ia anátema aos olhos da justiça divina, seria separado da santa Igreja, como um pagão, de sorte que, no instante mesmo, não de proferir essas palavras, mas de pensar em proferi-las, estou excomungado, não é verdade, sim ou não, Gregório Vassílievitch? — Smierdiákov dirigia-se com satisfação visível a Gregório, embora respondendo somente às perguntas de Fiódor Pavlovitch; dava-se perfeitamente conta disso, mas fingia crer que era Gregório quem lhe fazia tais perguntas. 
— Ivã! — exclamou Fiódor Pavlovitch. — Chega perto de meu ouvido. Toda essa peroração dele é para ti, quer receber teus elogios. Dá- lhe esse prazer.

     Ivã ouviu com grande seriedade a observação de seu pai.

— Espera um minuto, Smierdiákov — continuou Fiódor Pavlovitch. — Ivã, aproxima-te de novo.

     Ivã inclinou-se, sempre com o mesmo ar sério.

— Amo-te tanto quanto a Aliócha. Não vás crer que não te amo. Um pouco de conhaque?

— De boa vontade. "Tu pareces já ter passado da conta", disse Ivã a si mesmo, fitando o pai. Observava Smierdiákov com extrema curiosidade.
— Já és agora maldito e anátema — explodiu Gregório — e como ousas, depois disso, desavergonhado, discutir se...
— Nada de injúrias, Gregório, acalma te! — interrompeu-o Fiódor Pavlovitch.
— Tenha paciência, Gregório Vassílievitch, ainda que seja um momentinho, e continue a escutar, porque ainda não acabei. No momento em que renego a Deus, nesse instante mesmo, tornei-me uma espécie de pagão, meu batismo apagou-se e não conta para nada, não é bem isto?
— Apressa-te em concluir, meu caro — estimulou-o Fiódor Pávlovitch, bebericando, deleitado.
— Ora, se não sou mais cristão, não menti então aos meus carrascos, quando perguntaram: "És cristão ou não?", porque já estava "descristianizado" pelo próprio Deus, em consequência apenas de minha intenção e antes de ter aberto a boca. Ora, se estou decaído, como e com que direito me pedirão contas no outro mundo, na qualidade de cristão, por ter abjurado o Cristo, quando, pela simples premeditação, já teria sido desbatizado? Se não sou mais cristão, não posso mais abjurar o Cristo, porque isto já estaria feito. Quem pois, mesmo no céu, pedirá contas a um tártaro pagão por não ter nascido cristão e quem quererá puni-lo? Não diz o provérbio que não se deverá esfolar duas vezes o mesmo touro? Se o Todo-Poderoso exige contas a um tártaro, por ocasião de sua morte, suponho que o punirá levemente (não podendo absolvê-lo totalmente), estimando não ser culpa dele o ter nascido pagão, de pais que o eram. Será que o Senhor pode pegar à força um tártaro e dizer dele que era cristão? Seria o mesmo que dizer então que o Todo-Poderoso profere uma verdadeira mentira. Ora, pode ele mentir, ele que reina sobre a terra e nos céus, ainda mesmo por uma só de suas palavras? Gregório ficou estupefato e examinou o orador, de olhos escanca- rados. Embora não compreendendo bem do que se tratava, apanhara uma parte daquele galimatias e assemelhava-se a um homem que dera com a cabeça de encontro a um muro.

     Fiódor Pávlovitch acabou de beber seu copinho e explodiu numa risada aguda. 

— Aliócha, Aliócha, que homem! Ah! o casuísta! Deve ter frequentado os jesuítas, em algum lugar, Ivã, Tresandas a jesuíta, quem pois te instruiu? Mas tu mentes desavergonhadamente, casuísta, tu divagas. Não te desoles, Gregório, vamos reduzi-lo a pó. Responde a isto, burra: tens razão perante teus carrascos, seja, mas abjuraste a fé em teu coração e dizes tu mesmo que foste logo atingido de anátema. Ora, como tal, não te passarão a mão pelos cabelos no inferno. Que pensas disso, meu bom padre jesuíta? 
— É fora de dúvida que abjurei em meu coração, no entanto não há nisso nenhum pecado especialmente, quando muito um pecado dos mais veniais.
— Como? Dos mais veniais?
— Mentes, maldito! — murmurou Gregório. 
— Julgue você mesmo, Gregório Vassílievíich — continuou comedidamente Smierdiákov, consciente de sua vitória, mas fazendo-se de generoso para com um adversário abatido —, julgue você mesmo; está dito na Escritura que se tiverdes fé, ainda que seja do tamanho de um grão de mostarda, disserdes a uma montanha que se precipite no mar, ela irá, sem nenhuma demora, assim que derdes a primeira ordem. Pois bem, Gregório Vassilievitch, se não sou crente e se você o é, a ponto de me invectivar sem cessar, tente você mesmo dizer a essa montanha que vá, não para o mar (porque está ele muito longe daqui), mas mesmo para aquele riacho infecto que corre por trás de nosso jardim, e verá logo que ela não se moverá e que não haverá mudança alguma, por mais que você grite. Ora, isto significa que você não crê da maneira que convém, Gregório Vassílievitch, e que, em compensação, você invectiva os outros. Suponhamos ainda que ninguém, em nossa época, não somente você, mas ninguém decididamente, desde as pessoas mais altamente colocadas até o derradeiro mujique, possa empurrar as montanhas para o mar, a não ser um homem no mundo inteiro, dois quando muito, ainda assim talvez aqueles que tratam de sua salvação, ocultamente, no deserto do Egito e que não podem ser encontrados. Se assim é, se todos os outros são incréus, será possível que estes, isto é, a população do mundo inteiro, com exceção dos dois anacoretas, sejam amaldiçoados pelo Senhor, e que não perdoe ele a nenhum, dada a sua misericórdia bem conhecida? De modo que espero que minhas dúvidas me serão perdoadas, quando derramar lágrimas de arrependimento.
— Espera! — guinchou Fiódor Pávlovitch, no cumulo do entusiasmo. — De modo que supões que há dois homens capazes de mover montanhas? Ivã, nota esse detalhe, nota bem. O homem russo inteiro está aí!
— O senhor notou com bastante justeza que é esse um sinal da fé popular — disse Ivã Fiódorovitch, com um sorriso de aprovação.
— Estás de acordo? É então verdade, já que estás de acordo. É exato, Aliócha? Assemelha-se isso perfeitamente à fé russa?
— Não, Smierdiákov não tem de todo a fé russa — declarou Aliócha, num tom sério e firme. 
— Não falo de sua fé, mas desse detalhe, desses dois anacoretas, nada mais do que esse detalhe: não é bem russo?
— Sim, esse detalhe é perfeitamente russo — aprovou Aliócha, sorrindo.
— Essa frase merece 1 ducado, burra, e eu te enviarei hoje mesmo, mas quanto ao resto tu mentes, tu divagas; fica sabendo, imbecil, que neste mundo todos nós não cremos somente por frivolidade, mas porque falta tempo; os negócios nos absorvem, os dias só têm 24 horas, não temos tempo não só de nos arrependermos, mas de dormir à vontade. Mas tu, tu abjuraste diante dos carrascos, quando não tinhas de pensar senão em tua fé e que era preciso justamente testemunhá-la! Isto constitui um pecado, meu caro, penso eu!  
— Decerto, constitui um, mas um pecado venial, julgue você mesmo, Gregório Vassílievitch. Porque se tivesse eu então crido na verdade, como importa crer nela, teria sido verdadeiramente um pecado não sofrer o martírio e converter-me à maldita religião de Maomé. Mas não teria sofrido o martírio, porque me bastaria dizer àquela montanha: marcha e esmaga o carrasco, para que ela se pusesse logo em movimento e o esmagasse como a uma barata, e ter-me-ia retirado como se de nada se tratasse, glorificando e louvando a Deus. Mas, se naquele momento já o tivesse tentado e gritado à montanha: esmaga os carrascos, sem que ela me obedecesse, como então, diga-me, não teria eu duvidado naquela hora terrível de pavor mortal? Fora isto, já sei que não obterei inteiramente o reino dos céus (porque se a montanha não se moveu à minha voz é que minha fé não goza de muito crédito lá em cima e que a recompensa que me espera no outro mundo não é bastante elevada); por que, pois, ainda por cima, deixar-me-ia esfolar sem nenhum proveito? Porque, mesmo esfolado até a metade das costas, minhas palavras ou meus gritos não deslocariam aquela montanha. Num tal minuto, não somente a dúvida pode invadir-nos, mas o medo pode tirar-nos a razão e impedir-nos de decidir. Por consequência, sou tão culpado assim, se salvo pelo menos a pele, não vendo em parte alguma um proveito ou uma recompensa? Assim, confiante na misericórdia divina, espero ser inteiramente perdoado... 

continua na página 190...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

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