A dama do cachorrinho e outras histórias
Anton Tchekhov
A dama do cachorrinho
IV
Ana Sierguéievna passou a viajar a Moscou, para vê-lo. Cada dois, três meses, saía de S., dizendo ao marido que ia consultar um professor de Medicina sobre sua doença de senhora, e o marido acreditava e não acreditava ao mesmo tempo. Em Moscou, hospedava-se no "Bazar Eslavo" e, logo após sua chegada, mandava um recado a Gurov, por um homem de chapéu vermelho. Gurov ia vê-la e ninguém em Moscou sabia disso.
Certa manhã de inverno, ele estava indo assim a seu
encontro (o criado que lhe fora levar o recado na véspera,
ao anoitecer, não o encontrara). A filha caminhava ao lado,
pois ele quisera levá-la ao colégio, que ficava a caminho.
Caía uma neve graúda, molhada.
- Temos três graus acima de zero e, no entanto, cai
neve - dizia Gurov à filha. - Mas este calor existe somente
na superfície da terra, nas camadas superiores da atmosfera
há uma temperatura bem inferior.
- Papai, e por que não há trovões no inverno?
- Papai, e por que não há trovões no inverno?
Explicou-lhe isso também. Enquanto falava, pensava em
que estava indo para uma entrevista de amor e que nem viva
alma sabia disso e, provavelmente, jamais o saberia. Tinha duas vidas: uma, aparente, que viam e conheciam todos os
que o queriam, repassada de verdade e de mentiras convencionais, completamente semelhante às vidas de seus conhecidos
e amigos, e outra que decorria em segredo. E por um estranho,
talvez casual, acúmulo de circunstâncias, tudo o que era para
ele importante, interessante, indispensável, aquilo em que ele
era sincero e não enganava a si mesmo, o que constituía o
cerne de sua vida, ocorria às ocultas dos demais, enquanto tudo
o que formava a sua mentira, a membrana exterior, em que se escondia, para ocultar a verdade, como, por exemplo, seu
trabalho no banco, as discussões no clube, a "raça inferior",
a ida com a mulher aos espetáculos comemorativos, tudo isso
era aparente. E julgava os outros por si mesmo, não acreditava no que via, e sempre supunha que em cada homem decorre, sob o manto do mistério, como sob o manto da noite,
a sua vida autêntica e mais interessante. Cada existência
individual baseia-se no mistério e talvez seja, em parte, esta
a razão por que o homem culto se afana tão nervosamente
para ver respeitado o mistério individual.
Tendo acompanhado a filha ao colégio, Gurov dirigiu-se
ao "Bazar Eslavo". Tirou a peliça, subiu a escada e bateu
mansamente na porta. Ana Sierguéievna, que estava com o
vestido cinzento da predileção de Gurov, esperava-o desde a
tarde anterior, estava cansada da viagem e da espera. Pálida,
olhou-o sem sorrir e, mal ele entrou no quarto, ela se atirou
a seu peito. O beijo que se deram foi prolongado, como se
não se tivessem visto uns dois anos.
- Bem, como vai a tua vida lá?- perguntou ele.
Que há de novo?
- Espere, vou dizer daqui :a pouco... Não posso.
Ela não podia falar, devido às lágrimas. Virou a cabeça
e apertou o lenço contra os olhos.
"Bem, que chore um pouco; enquanto isso, vou ficar
sentado aí", pensou ele e sentou-se numa poltrona.
Depois, tocou a campainha e mandou trazer chá. Enquanto o tomava, ela continuava de pé, a cabeça voltada para
a janela... Chorava de emoção, da consciência angustiosa
de que a vida deles dispusera-se de modo tão triste; viam-se
apenas em segredo, escondiam-se das pessoas, como ladrões!
Não estava destruída a vida de ambos?
- Ora, basta!- disse Gurov.
Era evidente, para ele, que aquele amor não acabaria
logo. Ana Sierguéievna afeiçoava-se a ele com intensidade
crescente, adorava-o e seria inconcebível dizer-lhe que tudo
aquilo deveria ter fim, um dia; aliás, ela nem acreditaria nisso.
Aproximou-se dela, segurou-lhe os ombros, para acarinhá-la e gracejar um pouco e, naquele momento, viu-se no espelho.
A cabeça dele já estava começando a ficar grisalha.
Pareceu-lhe estranho que, nos últimos anos, tivesse envelhecido
tanto e ficado mais feio. Os ombros, em que haviam pousado
as mãos dele, eram cálidos e estremeciam. Compadeceu-se
daquela vida, que era ainda tão tépida e bonita, mas que,
provavelmente, estava próxima de empalidecer e fanar-se,
como a vida dele. Por que ela o amava assim? Ele sempre
parecera às mulheres uma pessoa diferente daquela que era
na realidade e elas amavam nele não a sua própria pessoa,
mas um homem criado pela imaginação e que elas procuravam
sequiosamente na vida; depois, percebido o engano, continuavam, todavia, a amá-lo. E nenhuma delas fora feliz com
ele. O tempo passava, Gurov travava relações, unia-se a
mulheres, separava-se delas, mas nenhuma vez amara, aquilo
podia ser tudo, menos amor.
E somente agora, quando sua cabeça já estava grisalha, ele amava devidamente, verdadeiramente, pela primeira vez
na vida.
Ana Sierguéievna e ele amavam-se como gente próxima
e querida, como marido e mulher, como dois ternos amigos.
Parecia-lhes que o próprio fado destinara-os um ao outro e
era incompreensível por que ele estava casado e ela também.
Lembravam dois pássaros de arribação, macho e fêmea, caçados e obrigados a viver em gaiolas separadas. Perdoaram um
ao outro tudo aquilo de que se envergonhavam em seu passado, perdoavam-se tudo no presente e sentiam que aquele
amor os transformara.
Anteriormente, nos momentos de tristeza, ele procurara
consolar-se com toda espécie de reflexões, mas agora afastava-as, sentia uma profunda compaixão, queria ser sincero, carinhoso...
- Basta, minha boa, menina. - dizia ele - Chorou e
chega... Vamos agora conversar, ver se nos ocorre alguma
ideia.
- Corno? Como?- perguntava ela, pondo as mãos à
cabeça. - Como?
Tinham a impressão de que mais um pouco encontrariam a solução e, então, começaria uma vida nova e bela; todavia, em seguida, tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava.
Tinham a impressão de que mais um pouco encontrariam a solução e, então, começaria uma vida nova e bela; todavia, em seguida, tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava.
(1899)
______________________Leia também:
A morte do funcionário / O enxoval / Aniúta / A dama do cachorrinho (I) / A dama do cachorrinho (II) /
A dama do cachorrinho (III) / A dama do cachorrinho (IV) / O bilhete premiado / .
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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) / LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".
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