A ORDEM
Espera de ordens
O soldado em serviço apenas cumpre ordens. É possível que
tenha vontade de fazer isto ou aquilo, mas como é soldado
isso não conta. Ele não pode encontrar-se diante de encruzilhadas; e mesmo que se encontrasse não seria ele quem iria
decidir qual dos caminhos tomar. Sua vida ativa está restringida por todos os lados. Ele faz o que todos os demais soldados fazem com ele; e faz o que lhe é ordenado. A eliminação de todas as demais ações, que os demais homens executam, livremente (ou assim pensam), o deixa ávido das ações que
tem de executar.
A sentinela, que permanece imóvel durante horas em seu
posto, é o melhor exemplo da constituição psíquica do soldado. Ela não pode se afastar, não pode adormecer, não pode se movimentar, a não ser que lhe tenham sido prescritos certos
movimentos, fixados nos menores detalhes. Seu serviço propriamente dito é a resistência a qualquer tentação de abandonar seu posto, seja qual for a forma sob a qual esta tentação
possa aparecer. Esse negativismo do soldado, como poderia
ser definido, é sua espinha dorsal. Todos os motivos habituais
de ação, como os desejos, o temor, a inquietude, que constituem a essência da vida do homem, são reprimidos dentro
dele. E ele os combate melhor quando nem sequer chega a
confessá-los.
Todo ato que ele então realmente executa deve estar sancionado por uma ordem. Como é muito difícil para um homem
não fazer coisa alguma, acumula-se dentro dele uma grande
expectativa pelo que lhe é permitido empreender. O desejo de
ação se represa e cresce até atingir proporções desmedidas.
Mas, como antes da ação existe uma ordem, a expectativa se
volta para esta: o bom soldado está sempre em estado de
consciente espera de ordens. Esta espera é ampliada de todas
as formas possíveis pela educação; ela se manifesta claramente
nas posturas e nas fórmulas militares. O momento vital na
existência do soldado é o da posição de atenção diante de seu
superior. Num estado de tensão e de receptividade máximas,
ele se coloca diante do superior e a fórmula que pronuncia
— "Às suas ordens!" — expressa com grande precisão do
que se trata.
A educação do soldado começa no momento em que lhe
são proibidas muito mais coisas do que aos demais homens.
Para as menores transgressões existem castigos severos. A esfera do proibido, com a qual já está familiarizado desde criança,
se amplia até atingir o gigantesco para o soldado. Muros e
mais muros são construídos em torno dele; muros que são iluminados para ele, e que dão a impressão de crescer diante dele.
Sua altura e severidade se igualam à sua claridade. Constantemente fala-se a respeito desses muros; o soldado não pode
alegar desconhecê-los. Começa então a se movimentar como se
eles estivessem sempre ao seu redor. O aspecto anguloso do
soldado é como um eco, em seu corpo, da dureza e da lisura
desses muros; ele adquire algo de uma figura estereométrica. É um prisioneiro que se adaptou aos seus muros; um prisioneiro que está satisfeito; que se defende tão pouco contra a
situação em que se encontra quanto os muros que o moldam.
Enquanto outros prisioneiros vivem apenas de uma única ideia
(como conseguir saltar ou perfurar seus muros), o soldado os
aceita como uma nova natureza, como um ambiente natural
ao qual se adapta, no qual ele mesmo acaba se transformando.
Somente quem incorporou dentro de si, desta maneira
intensa, a medida plena das proibições, quem através dos afazeres de todos os dias — e isto dia após dia — demonstrou
que sabe se esquivar da maneira mais precisa de todas as coisas
que são proibidas é que passa realmente a ser soldado. Para
ele, a ordem tem um valor superior. É como a saída de uma
fortaleza, dentro da qual se tenha permanecido durante tempo
demasiado. A ordem o atinge como um raio que o lança contra
os muros do que é proibido; como um raio que mata apenas
esporadicamente. Neste enorme deserto monótono das coisas
proibidas que se estende por todos os lados em torno dele, a
ordem acontece como uma redenção: a figura estereométrica se
anima e se coloca em movimento ao ouvir a voz de comando.
Faz parte da formação do soldado que ele aprenda a receber ordens de duas maneiras; sozinho ou na companhia de
outros. Os exercícios o habituaram a movimentos que são executados juntamente com os demais; todos devem realizá-los de
maneira absolutamente idêntica. Trata-se de uma espécie de
precisão que se aprende melhor pela imitação dos demais do
que sozinho. Desta forma o indivíduo torna-se igual aos outros;
estabelece-se uma igualdade que eventualmente pode ser utilizada para transformar a divisão do exército em massa. Normalmente, porém, deseja-se exatamente o contrário: igualar o
mais possível os soldados, sem que eles se transformem em
massa.
Quando estão juntos como unidade, eles reagem a todas
as ordens dadas em conjunto. No entanto, deve continuar existindo a possibilidade de separá-los: um, dois, três homens,
metade deles, quantos o comandante desejar. O fato de eles
marcharem juntos deve ser exterior; a divisibilidade da divisão
constitui sua utilidade. A ordem deve sempre poder atingir o
número que se quiser: um, vinte ou a divisão inteira. Sua eficiência não pode depender da quantidade dos que são atingidos.
É a mesma ordem, pouco importando que seja apenas um quem
a recebe ou todos. Esta natureza invariável da ordem é da
maior importância: ela a subtrai de todas as influências da
massa.
A pessoa que deve dar ordens num exército deve poder manter-se livre de toda e qualquer massa — fora dele, dentro
ele. Ela aprendeu isso tendo sido educada para esperar ordens.
continua na página 176...
____________________
Leia também:
Massa e Poder - A Ordem: Espera de ordens
____________________
ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994.
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
_______________________
Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht
"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."
__________________
e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
__________________
e perguntas sem resposta te incomodam?
Nenhum comentário:
Postar um comentário